Edição 87

Professor Construir

Música na Literatura Infantil

Maria Imaculada dos Santos Ramos

Este artigo tem por objetivo analisar a presença da música na literatura infantil, observando como esta ocorre e qual a sua importância, trazendo exemplos em obras. O estudo realizado demonstra que a música atrai os leitores, tornando os livros mais interessantes.

Foram analisados quatro livros da literatura infantil: A Festa no Céu, de Angela Lago; Amigos do Peito, de Cláudio Thebas; Barulho Demais, de Max Velthuijs; e A Volta ao Mundo, de Mary França e Eliardo França. Foi observado de que forma ocorreu a abordagem da música nessas obras, além de ter sido destacada sua importância em cada uma delas.

A música é um recurso, ou seja, um facilitador no jogo da sedução do livro com o leitor, visto que a literatura infantil tem um grande desafio: como despertar na criança o gosto pela leitura? Como mergulhar nesse mundo de imaginação e do lúdico? São os adultos que escrevem para as crianças, logo necessitam buscar o que de infantil ainda existe em si e o que, enquanto criança, lhe chamava atenção nos livros, para que essas obras sejam prazerosas.

A música é primordial no aprendizado da criança; através dela a aprendizagem ocorre de maneira significativa e lúdica. Em razão de a música estar constantemente presente na literatura — representada por canções, instrumentos musicais, poemas, parlendas, fábulas ou como a temática do livro —, essas duas artes estão interligadas e fazem parte de um todo: o livro infantil. Entretanto, muitas vezes a musicalidade nas obras passa despercebida, visto que nem sempre ela está explícita.

A musicalidade nos livros infantis

Na literatura infantil, a música é uma temática recorrente. Sua presença se torna auxiliadora no jogo da sedução entre o livro e o leitor, além de possibilitar uma leitura mais prazerosa. No entanto, muitas vezes não reconhecemos sua presença nos livros infantis, mas ela pode ser desenvolvida em diferentes tipos de história.

A temática musical muitas vezes é evidente, no entanto alguns aspectos podem passar despercebidos como em poemas, parlendas, fábulas, quadrinhas, trava-línguas, provérbios, adivinhas e as próprias histórias infantis, que facilmente são relacionáveis à música de modo divertido e interessante para as crianças na escola (PONSO, 2011, p. 98).

Ponso (2011) ressalta a importância da musicalidade na literatura infantil, assim como a diversidade de gêneros em que ela pode ser desenvolvida, visto que seu objetivo é tornar o livro mais atrativo aos pequenos leitores. E existe uma grande diversidade de obras que, de diferentes maneiras, trabalham essa musicalidade, explorando essa temática também implicitamente, esteja esta desenvolvida nos personagens ou como um componente constituinte da história, ou seja, com a presença de elementos que a evidenciarão, como os instrumentos musicais, e/ou contida veladamente na palavra festa, por exemplo.

“Nos livros infantis, alguns autores utilizam a temática musical em suas histórias, nas quais os personagens são cantores, músicos ou instrumentos musicais” (PONSO, 2011, p. 98). Portanto, é grande o número de obras que trazem a musicalidade, de modo implícito ou explícito — ou seja, a música pode estar nos livros infantis e não ser notada pelo leitor. Dessa maneira, em diversos livros, essa temática é trabalhada, desenvolvendo, em cada enredo, a música, para que o leitor se sinta atraído, despertando nele o prazer pela leitura.
A Festa no Céu, de Angela Lago, conta a história de um sapo que queria ir a uma festa no céu, mas, como não tinha asas, isso era impossível. No entanto, ele entrou escondido na viola do urubu. Lá em cima, todos se questionaram como isso teria acontecido: o sapo na festa. No final da festa, ele voltou a se esconder na viola, sendo descoberto e arremessado pelo urubu, caindo no chão e ficando todo achatado.

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A autora desenvolve a temática musical de modo explícito — visto que, na capa, já é possível percebermos essa abordagem, com a utilização de instrumentos musicais (como a viola, o pandeiro, entre outros) — e também implicitamente, ao mencionar a festa, que, culturalmente, remete à presença da música. Portanto, nessa história é trabalhada direta e indiretamente a musicalidade, tornando, assim, o livro mais atrativo e interessante às crianças, que, desde a capa, são convidadas e provocadas, pelos instrumentos, a realizarem a leitura.

“Os livros infantis cumprem sua função como literatura, um trabalho voltado para a imaginação e a fantasia que transforma e enriquece o leitor” (PONSO, 2011 p. 98). As obras infantis despertam na criança o gosto pela leitura, levando-as ao mundo da imaginação, além de desenvolver suas habilidades cognitivas, estimulando a construção de indivíduos críticos. A música é um recurso que encanta esse leitor e possibilita o seu gosto pela leitura, descobrindo a magia e a fantasia existentes nos livros, a exemplo de Amigos do Peito.

Todo dia eu volto da escola com a Ana Lúcia da esquina. Da esquina não é sobrenome, é o endereço da menina. O irmão dela é mais velho e mesmo assim é meu amigo. Sempre depois do almoço, ele joga bola comigo (THEBAS, 1996).

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Cláudio Thebas traz, em Amigos do Peito, um pequeno poema musicalizado. Nesse trecho, é possível observamos o ritmo, visto que os versos foram construídos com rimas, abordando a temática musical implicitamente, pois a musicalidade presente nesse poema não está em destaque e, por isso, nem sempre é percebida. No entanto, todo o poema é envolvido por ela, de maneira simples e leve, tornando a leitura divertida e consequentemente prazerosa. O autor, em cada verso, envolve o poema com a musicalidade, através das rimas que dão ritmo a essa leitura. Além disso, nesse livro o autor desperta na criança o gosto pela leitura de poemas, pois muitas vezes esse leitor não está tão acostumado aos versos. Por se apresentar de forma dinâmica, provoca-o a ler outros poemas, pois a criança reconhece quão prazerosa é essa leitura.
Os poemas são envolvidos por ritmos, que tornam a leitura musicalizada, diferentemente da obra em prosa, em que o leitor nem sempre necessita de uma entonação especial, ou seja, respeitar as rimas e a construção dos versos. Assim, nos poemas, a música está implícita, sendo despercebida, muitas vezes, pelo leitor; porém, sem ela, a leitura deles será como a prosa, e, portanto, perde-se o sentido da obra.

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Na obra de Max Velthuijs Barulho Demais, o autor conta a história de dois vizinhos, o jacaré e o elefante. O jacaré estava aprendendo a tocar violino e treinava o dia inteiro. O elefante já não suportava tanto barulho e pediu que o vizinho parasse. Como não teve solução, ele resolveu ser músico também e comprou uma trombeta. Porém, o jacaré se incomodou com o barulho, e, depois de uma disputa musical, eles decidiram tocar juntos e fizeram muito sucesso.

O autor desenvolve o enredo com a temática musical, tendo em vista que, durante toda a construção da história, o amor à música é evidente. Além disso, na capa já existe a presença de instrumentos musicais (o violino e a trombeta). Portanto, no livro de Max Velthuijs, a musicalidade está explícita e ela é a base para a história, a temática principal.

Assim como nesta, a música em algumas obras é a temática principal, visto que todo o enredo é desenvolvido com base nela. Esses livros falam sobre música e abordam sua importância e/ou sua capacidade de unir, transformar, além de trazer o amor a essa arte, provocando os leitores a se apaixonarem por ela, permitindo se envolverem. Consequentemente o livro ganha um novo olhar da criança.

Em A Volta ao Mundo, de Mary França e Eliardo França, a música está implícita. Essa é a história dos Pingos, em que Pingo de Sol e Pingo de Ouro pescavam, Pingo de Flor assava salsicha, Pingo de Céu cantava e Pingo de Mar pensava. Eles resolveram ir ao outro lado do mundo, no entanto, ao chegarem do outro lado do lago, já era noite, então decidiram voltar para casa, percebendo que deveriam ter saído mais cedo.

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A musicalidade se faz presente em muitos livros infantis, sendo trabalhada de diversas maneiras, estando implícita, através do ritmo, ou explícita, com o uso de instrumentos musicais, com canções como temática principal e até mesmo quando é apenas mais um elemento na história. Portanto, a música na literatura infantil desempenha a função de auxiliar na conquista do leitor.

Considerações Finais

O uso da música na literatura infantil tem um papel importante, visto que ela auxilia na conquista da criança para a leitura. No entanto, sua importância não se restringe somente a isso, pois ela é mais que um elemento que compõe a história de modo implícito ou explícito, ela é capaz de encantar, seduzir o leitor. Sua presença nos livros não é ignorada pelo leitor infantil, mesmo quando não está em destaque. Ele consegue perceber o papel desempenhado pela música na obra e a capacidade de tornar a história mais interessante e, consequentemente, a leitura prazerosa.

“A música tem importante papel na nossa sociedade. Através dela é possível vivenciar diversas sensações [...]. A música é imprescindível para aprender, sentir, ouvir, criar laços e sensibilidade” (FERRAZ, PEREIRA, SANTOS, 2011, p. 1). Sendo assim, nas obras infantis, a musicalidade é desenvolvida de diversas maneiras e trabalhada em diferentes contextos da história, seja com o objetivo de ensinar, como quando destaca a capacidade de união da música na obra de Max Velthuijs Barulho Demais; seja quando quer possibilitar uma leitura com ritmo, como nos poemas e na obra de Cláudio Thebas Amigos do Peito; ou até quando não está destacada sua presença, evidenciando-se por meio do uso de instrumentos musicais, como no livro de Mary França e Eliardo França A Volta ao Mundo. Portanto, a música pode ser abordada de maneiras diversas, mas sua presença é importante em cada obra por torná-la atrativa à criança.

Afinal,

A nossa vida já é um compasso, pois toda atividade humana se desenvolve dentro de um ritmo. Nosso coração pulsa alternando batidas e pausas; nossa respiração, nossos movimentos são ritmados. Como o ritmo está presente na vida de qualquer pessoa, sua presença nos textos pode atrair os leitores, especialmente os infantis (GOLDSTEIN, 2002, p.7).

E, assim como na vida, o ritmo está presente também na literatura infantil. Ele torna o texto envolvente e permite uma leitura dinâmica, diferentemente da prosa. Esse recurso utilizado pelos autores desperta nos pequenos leitores o descobrimento de uma nova possibilidade de leitura. O ritmo nas obras infantis é capaz de conquistar a criança e transformá-la em um leitor assíduo.

Este artigo permitiu perceber a importância da música na literatura infantil, pois ela é mais que um elemento que compõe a história, é um recurso usado no jogo da sedução entre o livro e o leitor.

Ao realizar a análise das obras, foi possível observar a riqueza com a qual a musicalidade é trabalhada e o quanto, em cada uma delas, sua presença é importante, mesmo naquelas em que não estava explícita, pois está presente em nosso dia a dia, e não poderia ser diferente na literatura, tendo em vista o seu importante papel de envolver o leitor. Portanto, a música na literatura infantil é uma temática recorrente, seja pela presença do ritmo nos poemas, seja como tema para a história, seja com o uso de instrumentos musicais.

Maria Imaculada dos Santos Ramos é graduanda do curso de Letras–Espanhol (6º período) na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru/PE.

 

Referências

LAGO, Angela. A Festa no Céu. São Paulo: Melhoramentos, 1995.

FRANÇA, Mary; FRANÇA, Eliardo. A Volta ao Mundo. São Paulo: Ática, 2004.

FERRAZ, Sintia M. G.; PEREIRA, Sandra M. C.; SANTOS, José J. R. dos. A Música na Educação Infantil. Salvador, 2011.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, Sons, Ritmos. São Paulo: Ática, 2002.

PONSO, Caroline Cao. Poemas, Parlendas, Fábulas, História e Música na Literatura Infantil. Música na Educação Básica, v. 3, n. 3, 2011.

THEBAS, Cláudio. Amigos do Peito. Belo Horizonte: Formato, 1996.

VELTHUIJS, Max. Barulho Demais. Trad. Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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