Edição 85

A fala do mestre...

NÃO

Nildo Lage

2cartoon_ReC02696TNL_2_optComo é complexo para pais aplicarem esse advérbio, especialmente por não dominarem habilidades para driblar os pequenos, especialistas em transformar durões em permissivos. O déficit é o fiasco. Emudecem palavras corretivas, refream gestos e, assim, atos e atitudes são contidos, permitindo que as crianças decidam o que querem fazer, comer, quando dormir. Essa liberdade é a manifestação da covardia de quem deveria impor regras e limites. Assim, geram terríveis dores de cabeça nos pais, que creem suplantar a ausência de atenção, carinho, cuidados, afeto com sim!, sim!, sim!. E, de tal modo, asfixiam o não!. Exclusivamente, o não que educa, impõe limites, estabelece regras, encargos, proporciona amadurecimento, molda a personalidade.

Em meio ao dilúvio de mutações, a família se rendeu para acomodar a geração desprovida de valores, cujos olhares estão fixos em telas touch screen percorrendo outros mundos e distanciando pai, mãe e filhos, que se veem periodicamente pelos corredores ou na sala de jantar… contudo, não se envolvem; se esbarram, se tocam, todavia, não se percebem… Se suportam em nome de uma consanguinidade.

Sem apego, os progenitores excepcionalmente terceirizam o cuidado com os filhos: creche se converte em lar; escolas, em abrigos para acolher os “órfãos” que perderam os pais na batalha pela vida… E a família? Progredindo… Unificando direitos… Delineando novos modelos para satisfazerem anseios.

Sim! A rota para o desvio

Ter pais que sempre dizem sim é tudo de bom — sobretudo na primeira fase da infância, cujo capricho é graça; e indisciplina, motivo de risos. Contudo, os efeitos se manifestam no alvorecer da vida escolar, quando a socialização é indispensável para a construção do conhecimento.

Entretanto, a azáfama de conquistar divisas e ostentar status impele pais a assinarem um contrato de comodato com babás, creches e escolas cujas cláusulas desobrigam a família das responsabilidades na formação dos filhos:

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No laboratório e na sala de aula, todas as armas igualitárias se engatilham: as perrarias ganham asas; a violência doméstica iça voo; o abandono social atinge o teto máximo; os instintos rompem os limites e os direitos do outro, prenunciando a era da terceirização na formação do indivíduo; e a causa-efeito assenta o marco que principia a desumanização dos nossos pequenos. As sequelas ganham consistência na pré-adolescência, quando os pais são convocados pela direção, intimados pelo conselho tutelar e até pela polícia para repararem as marcas dos acometimentos a colegas, professores e funcionários da escola.

O caos é de uma dimensão que choca. Na escola X, o aluno Y, de 10 anos, fazia o que vinha na telha: insultava professores e atacava alunos, e, como os pais nunca tinham tempo de irem à escola, Y tornou-se o terror para os alunos, funcionários e professores. Certo dia, um aluno (W) ganhou um tablet do pai e se negou a emprestá-lo (o efeito do não surtiu o efeito de uma bofetada). No dia seguinte, para dar vazão à fúria, Y determinou que Z desse uma surra em W. Como a segunda resposta foi negativa, a cólera se condensou, e Y convocou o seu “bonde” para ir à forra contra Z.

Como Z tinha um relacionamento estreito com o pai, revelou as ameaças assim que chegou em casa; este, não perdendo tempo, acionou a direção da escola, que ligou imediatamente para os pais de Y, que sequer retornaram a ligação.

O aluno foi suspenso e só poderia retornar na presença dos pais, que não compareceram.

No dia seguinte, Y mostrou as garras, provando a Z que suas intimidações não eram meras ameaças, e distribuiu os membros do bonde na porta da escola. Não teve jeito: a direção ligou para a polícia, que recolheu os menores e levou um susto: um deles portava uma arma.

likeOs impactos do não!

Cada vez mais a família se ausenta, e os filhos dos relacionamentos-relâmpago enveredam por caminhos que se bifurcam em violência. Dessa forma, os filhos do desequilíbrio ultrapassam o portão da escola crendo que podem tudo. Ao som do primeiro não, destilam os resíduos do abandono e explodem, disseminando, em colegas, professores e funcionários, insolências, agressões, desrespeito… Esses cidadãos são exalados pelo mecanismo gerador da deformação da personalidade-mosaico de várias autorias: uma peça da babá, outra dos avós, uma pontinha de tios e cunhados. Outra parcela dos games, da televisão…

O professor? Torna-se o para-choque que recebe os projéteis da geração superprotegida. Sem acordo, o vínculo, principalmente de afeto, é cada vez mais curto entre pais e filhos. Esse distanciamento é o reflexo dos relacionamentos-relâmpago, nos quais pais se separam, casam de novo, voltam a se separar, casam. Muitas vezes, não dá nem tempo para os filhos se adaptarem à madrasta ou ao padrasto e aos novos irmãos. Assim, transitam entre avós, creches ou parentes. Muitos mal aprendem a falar e já são enviados à escola. Chegam ainda com fraldas, e, como o contato maior é com o professor, este passa a ser a referência entre sim e não, afeto e desafeto.

Fora da sala de aula, são entregues a babás, que têm autonomia para fazer o que querem ou entendem que seja melhor e, como não têm autoridade sobre os pequenos para impor limites, deixam que fiquem à vontade diante da televisão, do computador, do tablet… No dia seguinte, o fardo é depositado nos ombros do professor, que, mesmo dando o melhor de si, sinaliza o conteúdo, mas o aluno não está nem aí, pois não tem responsabilidade nenhuma.

Sem lenço e sem documento, a escola torna-se assistencialista, e a mola mestra — o professor —, sem o mínimo de respeito e reconhecimento, passa a bola para o Estado, que se preocupa, muitas vezes, apenas em manter a escola em funcionamento, convertendo-a num mecanismo conteudista, que não estende a sua gama de conhecimentos.

A disseminação de valores com exemplos e atitudes cadenciados por nãos na trajetória de formação da personalidade é a diferença para sinalizar o perfil da criança na fase adulta, uma vez que a base da construção de valores estabelece cuidados, regras e tempo. Cuidados para não provocarem anomalias, regras para disciplinar e tempo para observar. Todavia, alguns observam, sinalizam, e, no instante de falar não!, dizem sim, alimentando feras, que, ao serem lançadas na sociedade, transformar-se-ão em predadores. E, assim, cada vez mais, a família transfere para a escola a responsabilidade de educar, passar valores, impor limites; e os alunos, sem saber o que fazer, ser e agir, perdem-se pelos corredores e pelas salas superlotadas.

Sem tempo nem mecanismos que auxiliem no processo de formação e sem estrutura para assumir papéis na educação dos filhos — pois ser mãe não significa mais ser apenas do lar, por ser preciso correr para reforçar o orçamento doméstico —, a família simplesmente lava as mãos, passa a bola para a escola. Esta a repassa para o professor, que fica na defensiva para se proteger das investidas da família: “Se vira! Eu sei que você pode! Se a educação resolve os problemas do mundo, conserte o meu filho! Se incidir em problemas, a responsabilidade é sua… Fiz a minha parte!”. Alvejado por todos os lados, sem suporte, aporte, lenço e documento, tenta abrir uma válvula de escape, depara-se com a resistência, a agressividade e a ousadia do aluno ante as ações corretivas que deveriam ser dos pais: “Não vou! Não faço! Não sento! Você não é meu pai!”.

dislikePara esses “criadores”, o período em que as “crias” estão na escola é o melhor momento, pois ficam livres de pirraças, gritos, barulhos… violência… Todavia, basta um tom austero do educador para ajustar condutas que o barraco se arma na porta da sala de aula, pois assumem o posto de pais perfeitos e desfecham em todas as direções, por estarem armados até os dentes para bombardearem aquele a quem deveriam oferecer suporte.

O fim dessa trama, todos conhecemos: o conselho tutelar interfere, o professor recua, a família recoloca a máscara, afasta-se, e os donos do pedaço reapresentam as garras. Sem envolvimento, a construção dos saberes básicos não acontece, e, cada vez mais, o vácuo aberto pela ausência da família na educação escolar se amplia, permitindo que perguntas históricas transitem da sala de aula à direção: “Mesmo com o corre-corre do cotidiano, não sobra tempo para acompanhar nem as tarefas extraclasse dos filhos? Dar uma olhadela no caderno para saber se é ou não período de exames? Se tem algum trabalho para ser entregue no dia seguinte? Tomar conhecimento dos conteúdos aplicados?”.

Ao ser cobrada, a família esbraveja e dispara em todas as direções: o gestor é um incompetente, o professor não vale nada, e a escola é casa de mãe-joana… E, assim, repassa automaticamente a responsabilidade; e o mais surpreendente: mesmo não assumindo o seu papel, pais sempre se “espinham” quando o filho é submetido a situações de correção.

Sem domínio, o professor se entrega, e prevalece o desinteresse do aluno que chega sem o mínimo de estrutura, pois, no seu íntimo, estão cravadas as marcas da ausência e da violência e, em sua cabeça, transitam cenas de brigas entre os pais. Tais lembranças agigantam-se a ponto de ecos de palavras hostis e gestos de agressividade se tornarem barreiras que dificultam a aprendizagem e o relacionamento interpessoal.

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Efeito-consequência

Como os relacionamentos estão cada vez mais abreviados ou, simplesmente, relaciona-se e tem-se filhos, na personalidade em formação dos filhos do divórcio se inicia uma cadência de contradições e bloqueios instigados pelos conflitos emocionais e psicológicos e, fatalmente, as dúvidas imperam, principalmente, sobre o conceito de pais e família. De onde surgi? Por que existo? Onde estão os meus pais? Porque só tenho pai, mãe ou nenhum dos dois, e meus colegas têm?

Sem norte definido, sentimentos e valores se contrafazem, e as consequências dessas ações abrolham como sementes rebentando em terra fértil, pois há uma gama de alternativas: descaso, violência doméstica, abuso sexual… e, para os infelizes, abandono, execução cujo corpo é camuflado em freezer ou atirado por janelas.

Assim como pais, irmãos não se inter-relacionam, têm contatos periódicos, às vezes se encaram entre uma trégua e outra. Por desconhecer respeito, o educando se perde no espaço escolar por não se entender com colegas, com o próprio professor; e, sem relação professor-aluno, aluno-aluno, é impossível promover a aprendizagem, pois o veículo facilitador — o diálogo — simplesmente não existe.

A gravidade chegou à dimensão de pandemia. Não é necessário questionar nem mergulhar em pesquisas para esquematizar o gráfico de uma realidade que espanta. Basta se prostrar diante do portão de qualquer escola para certificar a grandeza dos desvios comportamentais de crianças que adotam atitudes de desrespeito e violência.

Essas ações são nada além do resultado de atitudes de pais que empreendem cadências de erros grotescos, como confiar que, com o filho, não acontecerá o que sobreveio com o do vizinho. “Com o meu filho, vai ser diferente!” Afirmação segura, por acreditar que criança tem manual de instrução, que falhas, desvios e traumas serão acertados na escola.

Sem noção do abismo a que impelem os filhos, vão dizendo sim, satisfazendo desejos, restabelecendo limites para proporcionar o melhor aos filhos.
Sem perceberem, alimentam ferinhas, que, posteriormente, vão lhes tirar o sono, a paz… E, em casos cruciais, a própria vida, pois aprendem a dizer sim, e a vida, com seu método infalível de educar, ensina a importância de um não! na porta da sorveteria, no shopping, no supermercado ou na loja de brinquedos.

Se a família permitir esse declínio, nãos por parte do professor serão cada vez mais frequentes, pelo fato de os pais se distanciarem, mesmo conscientes de que são a primeira base, elementares instrumentos de formação e, principalmente, de socialização. Mesmo assim, os pais se abstêm. Sem essa plataforma para disseminar saberes, ética, moralidade, valores e limites, os princípios e o respeito são suprimidos do ambiente escolar para dar espaço aos conflitos, por simplesmente os filhos desconhecerem padrões comportamentais ou a quem obedecer.

Sem direção, grande parte ingressa em grupos, à caça de amparo, e inicia-se a fase de deformação do Eu, do que restou da personalidade-mosaico para se adaptar, pois tudo o que desejam é ser alguém notado, amado, respeitado, ouvido, e, nessa onda, enveredam por caminhos sem volta, como o das drogas, o da prostituição e o da criminalidade.

Só nos conscientizamos de tais fatalidades quando entrevimos nossas crias se enveredarem pelas avenidas do mundo à procura de um sim, por não termos mais condições para atender aos seus caprichos e às suas ambições. Criamos dando tudo o que desejavam, e chegaram à juventude acreditando que podiam tudo.

Muitos, por não suportarem o peso dos nãos, partem para extremos, pois, na trajetória de inserirmos valores e impormos limites, semeamos sins e, por não saberem transitar entre o sim e o não, travamos guerras contra nossas crias e percebemos que os nãos refreados foram tão somente, a dose de consciência, a base para encarar os desafios e nãos da vida. É entre conflitos que certificamos o poder do não como ferramenta para moldar a personalidade e nutriente para fortalecer as bases do humano.

Como pais, somos responsáveis pela formação, e formação demanda tempo, estar ao lado dos filhos para que divisem, em nossos atos e atitudes, exemplos, referência, pois formar um cidadão vai além da obrigação de oferecer comida, roupa, casa, brinquedos… escola… Mais importante do que comida, é oferecer nutrientes à base de valores para fortalecer o Eu. Melhor que roupas, brinquedos e games é vestir com atitudes que transformem comportamentos, pois somos espelho. Se não adotarmos ações coerentes, jamais nossos filhos terão iniciativas coerentes; além de casa, temos que proporcionar um lar, e lar não é um prédio habitado… Lar é um ambiente onde emana amor, carinho, respeito, cumplicidade, atitudes que educam… Lar é composto por pais presentes e filhos realizados. Por mais que a vida nos instigue a acelerar os passos, sabemos que nos resta tempo para uma estacionada e termos aquela conversa, assistirmos a um filme em família, tomarmos um sorvete na sorveteria da praça.

Como pais, não é preciso que ninguém nos diga qual o nosso papel. Conhecemos o roteiro do nascimento à fase adulta… Se cumprirmos obrigações, podemos ser mestres na arte de educar. Basta permitirmos que, em nosso lar, valores, excepcionalmente familiares, sociais, religiosos sejam inseridos… Pois criança é como uma semente em processo de germinação, depende de cuidados, nutrientes e ambiente para crescer saudável… Ela não pediu para ser semeada, portanto somos responsáveis pela sua formação e, se ambicionamos a sua vitória, não podemos cruzar os braços e esperar que o mundo mude para transformar a nossa realidade, somos responsáveis por essa metamorfose, principiando por nós, pela nossa casa, pela nossa família.

Como pais, temos que agir. Agir para promover o resgate dos valores familiares, para que a família possa educar com princípios e limites, e não olhar para o vazio como barata tonta. Questionamos: Que diferença faz dizer sim ou não?

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