Edição 81

Professor Construir

Neurociência e formação de professores: diálogos para uma educação melhor

José René Câmara Júnior

Introdução

As pesquisas em Neurociência contribuem para (re)pensarmos as formas de trabalhar a aprendizagem significativa nas escolas, a fim de potencializar descobertas e avanços da área ligados aos processos de aprendizagem. A Neurociência é o estudo de como o cérebro trabalha com as memórias e os mecanismos biológicos, com o propósito de entender como se constituem as ligações sinápticas no favorecimento ao acesso às informações e de que maneira os conhecimentos são armazenados e apreendidos pelos estudantes.

Quando falamos em processos de aprendizagem, estamos citando os processos neurais, pois são redes que estabelecem conexões e que realizam as sinapses (CONSENZA, 2011). As pesquisas em Neurociência chegam para explicar como é a relação do cérebro e o aprender, que há poucos anos era quase desconhecida da Educação. O trabalho em conjunto da Neurociência e da Educação ajuda a conhecer o hipocampo na consolidação das memórias, com o fluxo do sistema das emoções, possibilitando descobrir os mistérios que envolvem a região neural, da cognição, linguagem e escrita.

Pesquisadores como Cosenza (2011), Kandel (2002), Bransford (2007), Relvas (2005) elucidam que a aprendizagem ocorre quando dois ou mais sistemas funcionam de forma relacionada. Assim, conseguimos entender o quanto é valoroso aliar a música, os jogos e os movimentos com atividades escolares e ter a possibilidade de trabalhar simultaneamente mais de um sistema — auditivo, visual, entre outros.

Dessa forma, o uso de estratégias dinâmicas provoca alterações cerebrais que, em muitos casos, desenvolve um processo de aprendizagem mais qualitativo, corroborando para o uso de competências necessárias para a formação do aluno.

Na medida em que os pesquisadores estão dedicando mais tempo ao trabalho com os professores, testando e aprimorando as teorias em salas de aula (BRANSFORD, 2007), a Neurociência atesta pensar a Educação de forma multilateral e mais equitativa ao explorar as funcionalidades de cada inteligência que há na sala de aula.

O professor, quando ciente da construção dos processos cognitivos, proporciona as melhores estratégias, e, certamente, o trabalho por competências fica mais eficaz, sobretudo quando se exige muito dos estudantes para o mercado de trabalho.

Neurociência e os aspectos evolutivos do cérebro

A Neurociência compreende uma união de diversas áreas do conhecimento que pesquisam o sistema nervoso (SN), tanto os médicos neurocientistas quanto os psicólogos e, ainda de forma embrionária, os professores estudam como as células neurais funcionam a partir de atividades que os alunos desempenham. Os neurônios e suas funções têm características pertinentes ao comportamento humano que podem esclarecer como o cognitivo se comporta, a partir das relações neurossinápticas. Os avanços das pesquisas em Neurociência explicam muitos aspectos do funcionamento do SN e permitem entender como as atividades dessas células se conectam entre si e, a reboque, favorece uma compreensão maior do conhecimento.

Apontamos que nos Estados Unidos, a Sociedade Internacional da Mente, Cérebro e Educação (Imbes, do inglês, International Mind, Brain and Education Society) criou uma revista científica especializada nesse assunto. Outra iniciativa foi o encontro promovido pela Sociedade de Neurociências (SfN, do inglês, Society for Neuroscience) denominado Neuroscience Research in Education, que aconteceu em junho de 2009, na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Nesse evento as discussões promovidas entre educadores, neurocientistas e a sociedade interessada centralizaram-se em promover questionamentos sobre o universo biológico e as centenas de milhões de pequenas células nervosas que formam o cérebro e o sistema nervoso (RELVA, 2005). Estas comunicam-se entre si através de pulsos eletroquímicos para produzir atividades mentais e físicas, sem as quais não seria possível expressarmos toda a nossa riqueza interna nem perceber o mundo externo, como som, cheiro, sabor (RELVA, 2005).

criancas_escola_Deposi_fmtEssas elucidações nos levam a entender que as ações e as sensações são respostas emotivas e motoras do pensamento, isto é, informações sobre o estado interno do organismo, que não podem ser entendidas sem o fascinante conhecimento do cérebro e de suas múltiplas conexões. Para isso, precisa-se percorrer algumas formas de comunicação que processam informações específicas ao ser humano.
Quanto maiores são as buscas a respeito da Neurociência, mais perspectivas de mudanças poderão ocorrer na sala de aula, porque conhecer o cérebro é um desafio para reduzir a complexidade dos problemas que o ensino desvinculado das atividades do cérebro podem causar.

O professor munido do entendimento do que é Neurociência deve propiciar uma qualidade ainda melhor nas metodologias de ensino, pois ele tem o papel de mediar a construção do conhecimento. Entender as dimensões evolutivas do cérebro e do sistema nervoso permite apreender a estrutura dedicada à aprendizagem e à educação. Uma das variadas tarefas do sistema nervoso é identificar ambientes divergentes e preparar o sujeito para escapar ou encarar a situação de modo mais confortável, mas também deve analisar os terrenos favoráveis para a vivência e ampliar comportamentos que aproximem o sujeito de ambientes estimulantes (ROCHA, 1999). A dor, o prazer e o desejo desenvolvidos em áreas cerebrais acionam reações básicas de defesa e aproximação: “[...] afinal, hoje muitos acreditam que nós somos o nosso cérebro, que o eu e o cérebro são uma única coisa” (ROCHA, 1999, p. 11).

O processo evolutivo garantiu a sobrevivência de indivíduos por meio de uma complexidade do cérebro — analisando o acompanhamento da evolução a partir dos primatas até o surgimento do indivíduo moderno. Com o cérebro, é possível alterar, ligeiramente, o comportamento diante de condições adversas e se readaptar ao meio. Conforme Vygotsky (1998, p. 127), “[...] a criança vê um objeto, mas age de maneira diferente em relação ao que vê. Assim, é alcançada uma condição que começa a agir independentemente daquilo que vê”. Nesse sentido, o cérebro é imaturo no nascimento e tem maior plasticidade, capacidade de adaptação, mais condições favoráveis em relação à vida social, isto é, maior capacidade adaptativa ao meio ambiente. O tardiamento no processo de maturidade leva a uma vinculação ainda maior em relação aos pais. O bebê é absolutamente dependente dos cuidados dos adultos para sobreviver. É como se acontecesse outra gestação fora do útero, enquanto ocorre o crescimento rápido do cérebro e seus desdobramentos, pois “[...] o que torna os cérebros diferentes é o fato de que os detalhes de como os neurônios se interligam vão seguir sua própria história”. (COSENZA, 2011, p. 28). Após o nascimento, com a história de vida de cada sujeito, é que se construirá o cérebro de maneira mais uniforme, desfazendo, reorganizando e readaptando constantemente as interligações sinápticas entre os bilhões de neurônios.

A sobrevivência da espécie humana, ensinada de uma geração para outra, tem sua história vinculada à Educação. Passando por diversas crenças acerca do desenvolvimento do indivíduo, a prática de professores, juntamente com sua formação, foi reconhecendo ora a participação do ambiente ora a participação genética. Com isso, as ideias interacionistas e construtivistas vão dando espaço para a Neurociência atuar na busca da compreensão de como é o cérebro humano tão bem-sucedido na evolução das espécies como estrutura capaz de aprender soluções eficazes de adaptação e sobrevivência; chegam à escola e se associam à cultura no processo adaptativo do ser humano.

Formação de professores e as novas perspectivas para a Educação

A formação de professores vem assumindo, há algumas décadas, uma posição de destaque na área de pesquisas em Educação. Mas essa questão ainda apresenta problemas conceituais e práticos que necessitam ser aprofundados.

No que diz respeito à literatura, o que vem se estudando sobre a formação de professores abarca um número significante e crescente de autores como Canário (1999), Nóvoa (1992, 1995), Pimenta (2007), Christov (2004), Brzezinski e Garrido (2008) e Perrenoud (2003), que apontam para a insuficiência da formação inicial e continuada no desenvolvimento profissional do professor, para a necessidade de se considerar o saber do professor um ponto central para sua formação.

Canário (1999), por exemplo, ressalta que os novos modos de pensar e organizar o trabalho exigem novos tipos de saberes, como: instigar o trabalho coletivo, pensar a organização no seu todo, agir estrategicamente. No campo educacional, a escola é vista como espaço de formação construído pelos seus componentes, lugar em que os profissionais podem decidir sobre seu trabalho e aprender mais sobre sua profissão. O autor destaca a ênfase da formação na organização da gestão compartilhada. Com isso, percebe-se uma possibilidade de superar a fragmentação da formação e o descompromisso com a realidade escolar.

Por esses aspectos entendemos que há lacunas, seja na formação inicial, seja na formação continuada de professores, sobretudo quando um grande número de professores não dispõe de uma formação mais diversificada abrangendo, entre outras áreas, a Neurociência. Ela pode corroborar para uma maior aprendizagem da criança e do adulto. Os docentes, assim como outros profissionais, buscam aplicar suas práticas de ensino, em muitos casos, a partir de suas histórias de vida (TARDIF, 2001; 2010), com as quais o cotidiano escolar também colabora para aprimorar as suas práticas, que, sem dúvida, validam ainda mais os saberes obtidos tanto na formação acadêmica quanto na interação com seus pares e familiares.

Essa percepção encontra respaldo nos estudos desenvolvidos por autores como Perrenoud (2002), Nóvoa (1992, 1995), Tardif (2001; 2010; 2005), que desenvolvem a ideia de que os saberes docentes são ferramentas necessárias para ampliar práticas na sala de aula e desenvolver ambientes de aprendizagem. Haja vista as contribuições da Neurociência, os saberes dos professores, somados a estas, proporcionam um aprender dinâmico e diversificado.

De acordo com a Neurociência, cujo foco de atenção é o entendimento das atividades neurais e dos processos cognitivos, a aprendizagem humana não decorre de um simples amontoamento de dados perceptivos ao nosso cérebro, mas, sim, do processamento e da elaboração das informações oriundas das percepções no cérebro.

Assim, o cérebro é um sistema complexo e dinâmico, uma vez que seus atos complexos funcionais não é, apenas, um depósito imóvel para o armazenamento de informação. Desse modo, a informação deve ser codificada através da sinaptogênese, isto é, a capacidade de formação de novas conexões, sinapses, entre as células cerebrais nessas uniões entre os neurônios, que são possibilitadas pela plasticidade do cérebro, modifica sua química e fisiologia, sobretudo porque exige modificações nas redes neuronais cada vez que as situações vivenciadas no ambiente dificultam ou excitam o surgimento de novas sinapses, “conexões”, mediante a liberação de neurotransmissores (MORA, 2004).

mulher_professora_livr_fmtA Neurociência deve estar envolvida na formação de professores e nos saberes docentes, principalmente quando esses saberes desencadeiam dispositivos formativos constitutivos de experiências, interações, entre outros. Tardif (2010) lembra que o objeto de trabalho do docente é o humano e que isso tem consequências relevantes para a prática profissional dos professores, o que merece maior discussão. Conforme o autor, num dado grupo de alunos existem especificidades individuais, cabendo ao docente atingir cada um dos indivíduos.

Para Moraes e Torre (2004), a Neurociência apresenta conhecimentos que devem ser aplicados pelos docentes. Os autores entendem que a aprendizagem é harmonizada pela plasticidade do cérebro e sofre influência direta do ambiente. Nesse caso, o professor, por meio de sua ação profissional, socializa estímulos que podem vir a contribuir para a secreção de hormônios que provocam o entusiasmo e o desejo de aprender ou o extremo oposto, o desinteresse. Ações práticas não se constituindo apenas em mais um saber disciplinar, mas em um saber pertinente e útil para a prática profissional da docência. Como preconiza Willians apud Moraes e Torre (2004), o cérebro pode manifestar nos educadores um saber intuitivo de que os alunos aprendem de diversas formas, à medida que a informação e a memória sejam entendidas como se formam.

Considerações finais

O grande desafio dos docentes é desenvolver uma aula dinâmica, criativa, reflexiva e que estimule o senso crítico. Para tanto, a Neurociência colabora para pensar a Educação de forma mais multilateral e mais equitativa para estimular as funcionalidades de cada inteligência que há na sala de aula. Quando o professor está ciente do processo biológico constitutivo da aprendizagem, ele pode auxiliar o trabalho na sala de aula desenvolvendo as melhores estratégias e, certamente, fará uso dessas táticas no processo de ensino e aprendizagem.

Na contemporaneidade, surge um novo professor, o qual tem que buscar e ampliar os conhecimentos, tanto os adquiridos quanto os inerentes aos saberes experienciais, que por fim estão atrelados à linguagem, à memória, ao esquecimento, ao humor, ao sono e ao medo. De posse desses novos conhecimentos, é imprescindível não apreender as contribuições da Neurociência para a Educação e, principalmente, para a formação de professores.

Referências

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