Edição 105

Nós e a escola: Agonias e Alegrias

Nós e a escola: agonias e alegrias

Nildo Lage

Alocada num protótipo concluído, a Educação resistiu às inovações. Foi encalçada por tendências. Bateu o pé e declarou: NÃO! Os avanços dilataram horizontes, irromperam os limites da sala de aula, salientaram conteúdos fascinantes… Com o olhar voltado para a base, titubeou, rejeitou. Os avanços não descontinuaram o ritmo… A Educação conservou-se assentada na já adaptada cancha… O inevitável sobreveio. Um vendaval incitado pelo fenômeno tecnológico abrolhado da Internet das Coisas a arremessou pelas veredas de um novo tempo.

O cronômetro prognosticou, em contagem regressiva, que o tempo ostentou o comando, e este deu partida à temporada de reconstrução. Reconstrução da estrutura docente para restaurar valores e, assim, dominar competências para resgatar denodos imergidos no submundo social e familiar.

O que fazer? Reagir! Não podemos persistir com falácias, tampouco acompanhar tendências ultrapassadas. Resistir é admitir o fracasso, desabar sobre o próprio fundamento, pois o senhor tempo é implacável: ou escoltamos os seus passos para usufruirmos do novo ou nos conservaremos imersos no tempo passado.

A palavra de ordem é resgatar valores para que a cidadania ressurja como elo que promova a inter-relação entre nós e a escola… Do contrário, agonias e alegrias investirão na mesma cadência refletindo uma Educação que não se afasta do lugar comum.

É preciso restringir o afastamento entre concepções e fatos para que a Educação se encontre, apresente um norte, partindo da construção do conhecimento docente, pois não basta BNCC para ludibriar, recursos didáticos que não atendem, ferramentas digitais e computadores desligados no laboratório de informática.

Formação é a pedra angular. Formação edifica, exclusivamente, a estrutura para assentar saberes. Saberes que gerenciam a identidade educadora no processo de ensinar e aprender. No novo tempo, quem não dominar conteúdos para doutrinar mentes cauterizadas por aplicativos, redes sociais, jogos eletrônicos… fracassará… É se aliar às novas ferramentas tecnológicas ou não desenvolverá habilidades e competências.

Laboratório de informática é ferro-velho para uma geração hiperconectada, os chamados nativos digitais. A geração ‘‘clico e exploro o mundo’’ não permite retrocesso. Para muitos, lousa digital não atende, querem mais. Seus radares esquadrinham mundos distantes, navegando por plataformas on-line configuradas para receber conteúdos revolucionários.

Para os que ambicionam embarcar com seus alunos nessa onda, há uma lista de ferramentas sedutoras… como mecanismos de realidade aumentada, plataformas de estudo on-line, games, aplicativos, laboratórios de robótica… Plataforma de streaming… Se o sistema não proporcionar sustentáculo, dificilmente a prática docente resultará numa aprendizagem satisfatória.

A neurodidática alerta: se a escola não tirar o pé do chão para embarcar numa nave que conduza os educandos por outros mundos, o que resta de físico ruirá, pois os seus alunos necessitam do novo. E não experimente prendê-los, pois se evadirão à caça desse novo que desperta sentimentos, amor em aprender; para que o cérebro, que constitui emoção para processar a aprendizagem, tenha um motivo para estudar.

Estudar decreta jovialidade, anseio, prazer… Instruir para a liberdade estabelece liberdade. Assim, desate as amarras, deixe o aluno à vontade, inclusive para nomear o assunto das aulas, e não economize recursos visuais para integrar a turma ao mundo tecnológico. Para atingir o alvo, tudo é válido: áudio, vídeo, imagens e, para os mais talentosos, até gamificação. Nessa viagem, smartphones e tablets se convertem em naves espaciais poderosas. O alerta do educador deve estar no máximo, e este deve desfechar cada vez que as navegações se afastarem da rota de conteúdos aplicados.

Aos que aspiram pegar essa onda, microteaching é um caminho para explorar universos numa excursão fascinante.

O que o impede, educador? Coloque o chip, reinicie o sistema, aparte-se do analógico, entre na onda, navegue… Deixe-se levar pela revolução digital. O digital facilita a sua vida, promove conexão discente-docente e processa as evoluções do mundo na sala de aula por meio de ferramentas tecnológicas que fascinam… Nesse novo processo só há espaço para uma ferramenta tradicional: a família.

Quem almejar ostentar a vaga na escola do novo tempo tem que se revestir do novo, ajustar a ótica para maximizar a janela do conhecimento. Contemporaneidade é top, alicia o educando para buscar novos horizontes, pois a Educação só se converterá em instrumento de transformação com o educador conectado, disposto a contextualizar a realidade com conteúdo sedutor. Conteúdo que fortaleça as bases do indivíduo e o projete para alcançar ambições pessoais, alocando-o numa plataforma que harmonize aventuras arrebatadoras com a aprendizagem e, assim, proporcione um ensinar e um aprender prazerosos.

Não importa a dimensão dos avanços tecnológicos, professor é e sempre será a ferramenta fundamental para mediar o conhecimento. Por mais que a tecnologia arremeta e preencha os 100% da vida do humano com dispositivos que sobrepujam o próprio humano, maturidade e imaturidade permanecerão no universo da sala de aula como elos que devem se conectar para proporcionar o crescimento. Todavia, curvar-se às ferramentas tecnológicas, manuseá-las como ferramentas pedagógicas, além de auxiliá-lo na elaboração de aulas encantadoras, é a garantia de permanência na sala de aula.

“A palavra de ordem é resgatar valores para que a cidadania ressurja como elo que promova a inter-relação entre nós e a escola.”

O tempo bateu o martelo: a partir de agora, não teremos tendências educacionais, todavia roteiros delineados pelos que buscam, na Educação, o caminho da vitória… As funções da escola devem tão somente facilitar o processo, para que o educador tenha condições de trilhar as pegadas do cliente e impetrar propósitos.

É imprescindível que se promovam situações com ferramentas que transitam sob o domínio discente para que originem vínculos com a aprendizagem, pois instrumentos da modernidade aterrissaram em massa para fundir Educação e escola… A convergência mais eficaz é nos envolvermos para manuseá-los como ferramentas pedagógicas, ou o futuro, que já é realidade no cotidiano do aluno, será ceifado.

Se não fortalecermos os alicerces da escola, os tremores do tempo contemporâneo estremecerão a comunidade escolar; vícios e vicissitudes transitarão no mesmo sentido… Por quê? A propriedade da essência da Educação é o bálsamo disseminado da particularidade docente… Se o educador permanecer suprimido, absorvido por um sistema partidário, não teremos ações que transformem comportamentos no espaço escolar.

Sem reconstrução, o sonho desfalecerá… Num ambiente reinado pela agressividade discente, pela opressão do sistema e, ao primeiro passo após o portão, pela violência urbana, estamos Nós e a Escola: Agonias e Alegrias.Sem reconstrução, o sonho desfalecerá… Num ambiente reinado pela agressividade discente, pela opressão do sistema e, ao primeiro passo após o portão, pela violência urbana, estamos Nós e a Escola: Agonias e Alegrias.

Cortella esboça uma educação com elementos que fortalecem o humano. O desafio é adicionar esses subsídios para que tais sistemas de ideias gerem a energia para iluminar o planeta Educação que afronta nuvens sombrias por não se desprender de ranços e picuinhas políticas.

O mundo se converteu num transformer para ostentar as mutações que advêm em velocidade iônica. O humano evoluciona na mesma grandeza… A Educação hipocondríaca se comprime sob o telhado ameaçando desabar em salas de aulas sombrias e, o pior, permite-se ser massacrada por um sistema gerido por déspotas que confinam educadores num ambiente hostil, convertendo a prática docente num contrassenso. Ser educador sem o mínimo de suporte e aporte, tampouco valorização profissional, é verdadeiramente assentar o existir entre agonias e alegrias.

É constrangedor, Cortella. O educador é o profissional das profissões. Seu trabalho é o procedimento que harmoniza a construção do conhecimento que transforma vidas… Ele destina anos, décadas, esquivando-se de golpes, removendo pedras e semeando conhecimento, impelido pela expectativa de edificar um mundo melhor e debelar barreiras erigidas pela própria Educação.

Falar de agonias e alegrias na escola estabelece sangue frio para retroceder o olhar e reviver momentos de brutalidade, em que o humano — educador — é um instrumento perecível… Muitos são ceifados do mercado ainda no prazo de validade… Procrastinação? Desprendimento? Não! Foi suplantado pela Educação! Fim da linha!

É angustiante! Todavia, temos que prosseguir por onde Educação e vida bradam por socorro — a sala de aula — e tolerar os bramidos que partem de todas as direções: o que fazer? Nós e a escola estamos submersos num turbilhão de dificuldades, fincados num cruzamento onde a escola não sabe em que direção seguir, e o sistema, com o radar desgovernado entre BNCC e seus absurdos, rui sobre as próprias estruturas, salientando que não dispõe de ferramentas para se auto-orientar.

Sem orientação, desacoplam-se os elos, e, por sermos uma plataforma que aloca agir e pensar, para esboçar direções de uma prática coerente, muitos se perdem, desistem de propósitos. Assim, nós e a escola, cada vez mais, distanciamo-nos da sociedade, pois os anéis não se atrelam, as peças não se encaixam, porque nós que fazemos Educação — educadores — não somos valorizados, não somos reconhecidos pelos outros nós, responsáveis pela formação e inserção de valores — família —, e aqueles “nós” — que elegemos — voltam os olhares para interesses de grupos. Assim, os nossos brados não são ouvidos, pois não falamos a língua “daquele” nós impiedoso — o sistema.

Ante tamanho descaso, é possível os responsáveis retirarem a venda dos olhos e visualizarem nós e a escola entre agonias e alegrias?

Claro que sim! A sociedade aprecia o barco navegando num mar agitado, regido por ventos tempestuosos, oriundos de um sistema cujo radar perdeu o rumo e cuja bússola do descaso o conduz por rotas entrecortadas por ações impensadas e tendências suplantadas.

A consequência é o ponto em que estamos: em penúltima posição no ranking global, perdendo para vizinhos como o Chile, a Argentina e a Colômbia. O índice é o reflexo que dilata para apresentar outro indicador constrangedor: o IDH. O Brasil estagnou no 79º lugar e, mesmo se conservando na categoria de Alto Desenvolvimento Humano, perdeu para a Bósnia e Herzegovina e até para a Venezuela, imersa numa crise humanitária.

Se ambicionarmos mais, o próprio sistema nos conduz ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) para nos revelar que mais da metade das 180 mil escolas brasileiras não têm biblioteca, tampouco sala de leitura… Façamos as contas… São tão somente 55% das nossas escolas, pouco mais de 98 mil unidades de ensino, que não têm nada… Nem baú para consultar o velho… Ações piratas o receptaram no meio do caminho.

Se nos compararmos às potências educacionais — Finlândia, China, Coreia do Sul, Singapura —, é vergonhoso! Não formamos! Tão somente alfabetizamos… Assim, é realmente conservar-se entre agonias e alegrias. Agonias de um ambiente tenso, ameaçador… Cuja alegria é chegar em casa vivos.

A NOVA ROTA PARA A PONTA DO ICEBERG

Para ultrajar, os ventos ganharam força, e o comandante — educador — terá que redirecionar, em caráter de emergência, para enveredar por rotas impostas — BNCC. Redesenhar caminhos em meio à tempestade e impedir que a embarcação se despedace contra uma argileira.

Sem autonomia para ouvir a própria voz, como ficamos nós e a escola? Arquivados no mesmo contêiner de agonias e alegrias? Temos que engolir a BNCC como prato de entrada para ostentar a festa do sistema que acredita assentar a pedra fundamental de uma tendência inovadora? O que é a BNCC? Esse enfileirado de letras que foi impelido num efeito dominó pelas dependências da escola com uma notinha anexa: BNCC… Base Nacional Comum Curricular… Dê os seus pulos, gestor… Ah! Como os seus professores não fazem nada… Só arrazoam sobre greve, precatórios e aumento salarial… Ordene que descasquem mais essa batata… Do contrário, não daremos sopa!

É tudo assim: “— AGORA!”, no eco do grito!

Desperta para a vida, sistema! Os princípios, para atender aos anseios da geração alfa, terão que ser além de uma BNCC que não traduz nada, não pronuncia nada, não transforma nada… Porque, do mesmo nada do qual despontou, está esvaecendo ainda em processo embrionário.

Educação não é só conteúdo… Educação é ação, e ação preventiva! O que ensinar? O que não ensinar? Como ensinar? Perguntas só têm efeito quando impulsionam novas buscas, instigam a caça ao novo!

Volta o olhar para o sistema, aprecia o cenário de trailers de terror… A Educação agoniza aguardando ações que a resgatem do lamaçal incitado pelo temporal tecnológico… O que temos são ecos… Ecos que se perdem na distância por não termos um norte para retroceder com réplicas que salientem um raio de luz ao fim do túnel para afugentar as assombrações que a perseguem.

O atual governo se depara com o desafio de redirecionar o barco para um mar de águas tranquilas. É questão de tempo sobrevir o aborto da BNCC. A macambúzia será uma finada sem lamento e, o pior, sepultada como vilã, pois o educador que a devotou terá que engolir o choro e correr para aplicar as velhas práticas, que em nada auxiliam, pois a essência da docência que exalta no espaço escolar como convite à aprendizagem se esvaiu. Não temos lições que ensinam, conteúdos que enriquecem, tampouco lições de vida… Alegria, só nas ilustrações… Imperou agonia, dor… Sonhar com uma educação de valores? É possível! A única ação possível: sonhar! Vai que despertamos com o toque de uma nova realidade!

“Assim, a valorização profissional é a primeira medida para que a sala de aula se regozije com os melhores, para ambições e práticas projetarem idealizadores aos pontos almejados.”

Todavia, temos que despertar… Cair na real… Pois não podemos perder tempo com ares de Sherlock Holmes para desvendar… Onde erramos?

Já que questionou… na formação! Infelizmente as nossas universidades não preparam os futuros educadores, tampouco alertam dos percalços de uma sala de aula. Após o concurso, são arremetidos ao anfiteatro sem nenhuma capacitação para domar oncinhas ou estratégias para bater em retirada e escapar de feras que afrontam, ameaçam, desrespeitam… Agridem… Os que não abdicam maduram precocemente. No meio do caminho, adjudicam o jogo e, simplesmente, cumprem os duzentos dias letivos sem contabilizar ausências, aprovados, conservados ou como os contemplados seguem para o próximo ciclo.

Sejamos coerentes… É praxe… Pais não valorizam a escola como entidade que proporciona o crescimento humano. São poucos os que respeitam o professor como profissional que prepara a cria para o futuro, harmoniza o crescimento, amplia os horizontes do próprio filho.

A trombeta toa… Não tem jeito… É Juízo Final… O mundo desaba em todas as suas extremidades: mãos na cabeça, lamentos, pedidos de socorro… Questionamentos: Por que a escola está de pernas para o ar? Uma baderna?

Baixa o olhar, foca no próprio umbigo… Todos sabemos a resposta! Falta o trivial: nutrientes familiares, nutrientes governamentais — porque reconhecimento e valorização do professor é um sonho além-humano. Alunos ausentes, pais onipresentes… É assim! Sempre foi assim! Assim, de forma surpreendente! O impressionante é que é assim desde a época dos colonizadores.

A ficha tem que cair para que o sistema abra os olhos e vislumbre os menores problemas, como a falta discente, que é alarmante… Aluno vem hoje e falta o resto da semana. E os pais? Tô nem aí! O ano transcorre… O educador cruza para lá, alerta a direção; cruza para cá, aciona o apoio pedagógico; grita, pede socorro à família… Regressa, recorre à direção, que repassa a responsabilidade para a família e, quando a situação ultrapassa o extremo, aciona tudo: Conselho Tutelar, Cras, Crea… A própria polícia… E os pais? Comparecem quando os benefícios do Bolsa Família são interrompidos. Aí sim… Chegam armados até os dentes. Quem mexeu no meu benefício? Nada os convence de que são os responsáveis… Reagem como dragões, expelindo fogo em todas as direções: ‘‘Meu filho sai de casa todos os dias… Por que tantas faltas?’’.

Silêncio… Ninguém arrisca-se a perguntar: por onde começar?

Não sou baú! Tenho que falar! Investindo em ferramentas pedagógicas modernas e atraentes, valorização docente, comprometimento do educador, participação da família… Equívoco? Não! Nossa Educação tem que ter competitividade. Somente com os melhores seremos melhores, e os melhores têm preço… Assim, a valorização profissional é a primeira medida para que a sala de aula se regozije com os melhores, para ambições e práticas projetarem idealizadores aos pontos almejados.

Por que o ensino privado cresce? É simples. Se não competir, não sobrevive num mercado de crises. E cresce justamente pela vulnerabilidade e ineficácia do sistema público. A prova é cabal, a Avenues que o diga, pois a norte-americana desembarcou no País garantindo, assegurando que formará líderes globais. O preço da mensalidade? Até 10 mil reais. É escola para titã. Todavia, “Quem tem nome joga a prata no ar”. As escolas dos sonhos colocam o educador nas nuvens sem que seja necessário sonhar… O salário? Senta, respira… Até 20 mil reais.

Vamos sonhar? A Red House International School desperta sonhos por ser “uma escola para a geração que tem o mundo como quintal de sua casa”.

Triiimmmmm! Vamos acordar. Não temos alternativas, o planeta entrou na era das possibilidades. Se a escola não criar possibilidades por meio do raciocínio lógico, não basta robótica: não teremos progresso.

É preciso delinear propostas que atendam às demandas, pelo menos no que diz respeito à violência em sala de aula, pois os maiores transtornos para formar a geração touchscreen, que envereda pelos portões crédula de que pode tudo, são a violência e o desrespeito discente. E tudo favorece o alastramento: desequilíbrio familiar, drogas, despreparo do professor, deficiência de políticas públicas e até mesmo o policiamento.

O caos é berrante: a violência familiar se alastra a ponto de chocar, preenchendo o histórico em que pais e filhos se agridem, se autodestroem… No paraíso sala de aula, o para-choque educador é alvejado em cheio. Sem suporte, os de pavio curto edificam a própria trincheira e contra-atacam, muitas vezes replicando com agressividade, e tais ações convertem o espaço num ambiente prolixo.

Não é preciso lupa. A base do descompasso está cravada na tábua em letras garrafais: DESVALORIZAÇÃO DO ENSINO, DESRESPEITO À PROFISSÃO DE EDUCADOR, RETROCESSOS DO SISTEMA que não elimina o velho, pois o olhar fixo no passado permite que a evolução seja contida… Como instruir um profissional que jaz na era de válvulas e botões e convencê-lo de que deve explorar ferramentas digitais para melhorar as suas práticas?

No aperta aqui, injeta graxa, esputa pó de giz, folheia livro didático, imprime atividade pronta na rede, é possível formar uma geração plugada, conectada nas novidades? Enquanto o educando navega nas ondas blended learning, sala de aula invertida, o educador, imobilizado pelo sistema, fixa o olhar no passado para não tropeçar nas próprias pernas.

Marchar ao encontro do novo é deliberação do senhor tempo, de sobrenome Hoje, que universaliza a Educação no tempo e no espaço, alocando a sala de aula no seu tempo: agora. Agora é o momento de atuar no espaço onde a Educação sobrevém… E é exatamente nesse tempo que o educador tem que comercializar as suas aulas com a garantia de que elas serão desempenhadas com conhecimentos intrínsecos. Conhecimentos que fortaleçam o humano por meio de habilidades e competências que auxiliem no fortalecimento da identidade.

Má gestão? Elementar, meu caro sistema! Há registros de escolas em áreas de riscos obtendo resultados admiráveis e outras — inclusive particulares de alto padrão social — com problemas que beiram caso de polícia. Eis a questão: violência é produto do meio ou deficiência de prevenção? Não percamos o foco… Se há progressos em áreas de risco, como seria o resultado se houvesse investimento, valorização, envolvimento e prevenção?

Se ambicionarmos progressos, nós e a escola, temos que crescer juntos para que a formação humana sobrevenha no seu tempo. Escolarização não cabe mais no espaço da nova escola. Escolas tradicionais, fórmulas tradicionais, professores tradicionais… Corroem as bases da Educação por adotar o velho como metodologia, descartando o novo como ferramenta pedagógica.

O retrocesso beira o absurdo. É chocante o número de professores — mesmo recém-formados —, excepcionalmente do primeiro ciclo, que utilizam livro didático do século anterior como Bíblia. O manuseio é tão intenso que há situações em que a obra está pela metade — as folhas se diluíram de tão grande o manejo.

Mediar o conhecimento é uma ciência, e, como toda ciência que se relaciona com a vida, devemos nos manter em alerta, em constante processo de evolução, para desenvolver mecanismos que suplantem os riscos. É essencial aprimorar, evoluir para gerar barreiras que retenham os agentes que ameaçam a vida para se cumprir a constituição da ciência de educar.

O que intriga a ponto de confundir é que nós educadores fomos alunos… Reclamamos do tratamento dos gestores, usamos a contragosto as ferramentas antiquadas… agonizamos sob os maus-tratos de professores carrascos; nos alegramos com aqueles camaradas cujas aulas nos relaxavam, faziam com que nós e a escola estreitássemos o relacionamento… Sobrevivemos aos desinteressados e até aos que foram caçados a laço e arremessados na sala de aula sem conhecimento nem para si próprios.

Finalizamos o Ensino Fundamental, concluímos o Médio… Escolhemos ser professores movidos pelo sonho de mudar essa realidade… Acumulamos forças e encaramos uma faculdade… Todavia, pelas ações e reações, não acendemos as próprias percepções sobre espaços de aprendizagem para proporcionar o mínimo — daquilo que ambicionávamos para nós — aos nossos alunos.

É surpreendente: o ranço se tornou essência da nossa Educação. De tão intenso, germina na escola um magnetismo que arremessa o educador ao passado, aloca a viseira e aplica o conservante. A eficácia é tamanha que permite ser arquivado, em plena era digital, com o velho diário, que mais parece um compêndio. Assim, coloca a pilha de diários debaixo do braço e, nas atividades extraclasse, se autoconduz ao quartinho escuro da escola para fazer os lançamentos, pois os da escola, dos turnos seguintes, serão levados para casa.

Com o passar do tempo, o corredor da escola se converte num labirinto. O sinal dispara noticiando o início das aulas, e o educador se conserva na sala dos professores. Quando o gestor grita, fica de pé e leva meia hora transitando entre os labirintos até estacar à porta da sala. Entra e brada: ‘‘Silêncio!’’. Põe a mão na cabeça: ‘‘Esqueci minha bolsa!’’. É mais meia hora para ir e meia para voltar… Novos gritos, a chamada… O sinal volta a toar prenunciando o intervalo.

No frigir dos ovos, não existiu omelete, pois o novo educador se converteu em discípulo daquele pegado a laço e arremessado na sala de aula. Infeliz dos que passarem sob sua regência.

Ainda bem, caro Cortella, que a filosofia inspira, proporciona alegria para suavizar a agonia. Se não fosse assim, quem nos arremessaria ao universo das investigações à procura do novo? Filosofia no Planeta Educação vai além de uma disciplina, é um convite à reflexão, pois germina o pensamento crítico… Sem filosofia nesse espaço, dificilmente o individual será trabalhado, e, quando negamos ao outro o direito de ser EU, arduamente a Educação desempenhará o seu papel de formadora do humano; e sem formação, o planeta declinará cada vez mais, pois o Homem permitirá que sua essência se esvaeça.

Ou reagimos ou o cenário apresentará uma sociedade deficiente de cidadãos com sede de conhecimento, fome de verdade… Ambição de justiça… Afinal, a filosofia incide em meditações que redirecionam o indivíduo por caminhos que ampliam as suas oportunidades de vitórias, molda o eu que adota comportamento nos padrões de uma sociedade ética, que ampara o indivíduo, respeitando tradição, fé, diferenças… o EU do outro.

Da mesma forma que o amor não é somente felicidade… Há momentos de instabilidade, pois transitamos entre prazeres e alegrias, sonhos, decepções e fracassos. Assim é Nós e a Escola: Agonias e Alegrias. O diferencial é que o amor cuida, protege, respeita, valoriza… Perdoa… Mira a felicidade do outro… Todavia, conviver com um parceiro perverso — pois é com perversidade que o sistema se relaciona com o educador — é selar um relacionamento em cujo contrato só há uma cláusula, e esta, ao educador, permite tudo, inclusive existir entre agonias e alegrias, o chamado silêncio que permite.

“Filosofia no Planeta Educação vai além de uma disciplina, é um convite à reflexão.”

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