Edição 16

Pintando o 7

O Aleijadinho

Quem foi Mestre Aleijadinho?aleijadinho_02

Ele foi um escultor
de pedra e de madeira,
sofria de uma doença
que entortava seus dedos,

mas na arte tinha a crença,
sabia esculpir belezas:
fazia santos, profetas,
portais e anjos de igrejas.

Sylvia Orthof

Da união de um arquiteto português, Manoel Francisco Lisboa, e de sua escrava africana Izabel, nasceu, na cidade de Vila Rica, por volta de 1730, Antônio Francisco Lisboa — O Aleijadinho.

Considerado filho bastardo, foi alforriado pelo pai no dia em que nasceu. Teve a infância acompanhada de perto pelo seu pai, que cuidou de sua educação. Aprendeu a ler e escrever, gostava de música e artes em geral. Conheceu o latim com seus amigos das irmandades religiosas. Através deles, tinha acesso às bíblias ilustradas e ficava deslumbrado com as gravuras e ilustrações.

Como sempre acompanhava o pai e o tio, Antônio Francisco Lisboa aprendeu observando-os trabalhar, desenhar, projetar e esculpir. Logo se tornou ajudante deles e, aos 13 anos, fez seu primeiro projeto, o desenho de um chafariz para o pátio do palácio do governador.

A sua primeira encomenda remunerada foi a de esculpir quatro anjos para o andor de São Francisco de Borja, padroeiro de Portugal.

Desde os seus primeiros trabalhos, já se podia notar a sensibilidade do escultor, que trazia, de sua origem mulata, a concepção do caráter brasileiro, tão bem expressa nas suas obras.

Esses traços tão delicados e expressivos de suas obras o tornaram o mais admirado arquiteto e escultor de que se tem notícia em todo o Brasil colonial.

Mulato, nariz meio pontudo, orelhas grandes, pescoço curto, de baixa estatura e voz forte. Gostava de festas e de dançar. Apreciador vigoroso de uma boa comida mineira. Assim era esse artista maravilhoso. Sempre com determinação e muita disposição, foi esculpindo o seu nome e o seu estilo barroco por igrejas, chafarizes, fachadas e palácios do Estado das Minas Gerais.

Considerado o marco da arquitetura mineira no século XVIII, pode-se dizer que Aleijadinho dividiu a história do Barroco brasileiro em antes e depois dele. Porém só teve o seu nome reconhecido depois que o jurista Rodrigo José Ferreira Bretãs resgatou parte de sua biografia, com a ajuda da nora do artista, Joana Lopes, no livro Traços Biográficos Relativos ao Finado Antônio Francisco Lisboa, de 1858.

O Barroco é um estilo artístico que surgiu na Itália, no século XVII. Sua influência espalhou-se por toda a Europa. Os artistas barrocos abusavam das linhas curvas. Seus trabalhos representavam cenas dramáticas.

A Igreja Católica utilizou-se bastante da arte barroca com a finalidade de envolver e atrair mais ainda os seus fiéis, tornando-se assim a grande mecenas desse estilo artístico.

No Brasil, o Barroco tomou força somente no século XVIII, nos ciclos da cana-de-açúcar, no Nordeste; e o do ouro, em Minas Gerais.

Vila Rica, atual Ouro Preto, onde nascera o escultor Antônio Francisco Lisboa, tornou-se o centro das atividades comerciais e local de concentração de artistas, poetas, escritores, advogados, aristocratas com ideais revolucionários que acreditavam em uma nação livre.

Assim, nessa época, Minas Gerais passou a ser o “coração” do País. Das minas, brotavam pepitas de ouro; do cérebro imaginativo e das mãos habilidosas de Aleijadinho, brotavam as formas espiraladas e sinuosas da arte barroca; e, na consciência de Joaquim José da Silva Xavier — o Tiradentes —, brotava o ideal de liberdade.

Aos 28 anos, Aleijadinho já era reconhecido e reverenciado em todas as Minas Gerais. Por ser mulato, não podia freqüentar a igreja dos brancos, mas era solicitado por elas para ornamentá-las e construí-las.

Uma de suas obras-primas foi a construção da Igreja de São Francisco de Assis, obra encomendada pela Ordem Franciscana. Toda feita no estilo Rococó (arte voltada para a decoração de objetos e mobiliários, cheia de detalhes, mas leve e graciosa com formas que lembram conchas), do qual aprendera os segredos com o seu amigo José Coelho de Noronha, escultor e entalhador.

Nessa igreja, fez a portada e os altares. Fez esculturas que representam episódios bíblicos com a participação do pintor Manuel da Costa Ataíde, parceiro e maior representante da pintura barroca brasileira.

Em Sabará, Mariana, Congonhas do Campo, São João del Rey e Tiradentes, pode-se encontrar a sua marca nas fachadas.

Em vez do mármore europeu, esculpia em pedra-sabão, macia para trabalhar e polir, além de ser uma matéria-prima própria da região das Minas Gerais e, portanto, mais barata e fácil de obter.

Com a pedra-sabão, foi possível para o escultor desenvolver a complexidade e a delicadeza dos relevos de suas obras; através dela, ele conseguiu transmitir a descontração, a dor, a austeridade e a maldade do ser humano.

A mais famosa criação de Aleijadinho é o conjunto de esculturas do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, composto dos Passos da Paixão e dos Profetas da entrada da Igreja do Bom Jesus. Um fato intrigante e muito comentado pelo povo, porém ainda não confirmado, é o de que os Profetas de Congonhas seriam, na verdade, retratos dos heróis da Inconfidência Mineira, contemporâneos de Aleijadinho. Verdade ou não, o fato sabido é que o escultor conhecia os principais inconfidentes e pode ter querido perpetuá-los na pedra-sabão. Afinal, ele já não tinha feito coisa parecida para vingar-se do Coronel Romão?

Aliás, vale a pena contar essa história do Coronel, pois foi daí que surgiu o seu apelido.
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Conta a história que o então governador de Minas encomendara a Antônio Francisco Lisboa uma estátua de São Jorge, para um desfile que iria acontecer em Ouro Preto em homenagem ao santo.

O encarregado de fazer a encomenda foi o Coronel Romão, um militar de confiança do governador e, portanto, “metido a besta”. Ao ver o artista, exclamou alto e bom tom:

“— Que homem feio, horroroso!”.

A resposta de Antônio veio quando a encomenda foi entregue, bem na hora do desfile começar. Quando a estátua de São Jorge ganhou as ruas de Ouro Preto, o povo reconheceu no rosto do santo a fisionomia do governador e, no rosto do dragão, estava estampada a cara do Coronel Romão, que, diga-se de passagem, não era visto com bons olhos pelo povo. A gozação foi geral, e o Coronel, “roxo” de raiva, saiu rua a fora, gritando:

“— Canalha, safado, aleijado, aleijado…”. O povo, que gostava do artista, fez um coro só e amavelmente começou a gritar: “— Aleijadinho! Viva Aleijadinho…”.

Daí o apelido perpetuou-se, pois, naquela época, passando um pouco dos 50 anos de idade, já havia sido acometido por uma doença que deformou completamente o escultor mais famoso e expressivo do Barroco brasileiro.

Tornou-se uma figura estranha, andava sempre vestido com uma casaca, um chapéu grande para que ninguém visse o seu rosto. Costumava sair de casa bem cedo e só voltava a noite.

Trabalhava com a ajuda de três escravos, que amarravam em suas mãos, com tiras de couro, os instrumentos que lhes serviam para esculpir as mais belas e expressivas obras barrocas do Brasil e também do mundo. Os seus três escravos, de nomes Maurício, Agostinho e Januário, o acompanharam até seus últimos dias de trabalho, quando, devido à doença, já não conseguia nem mais andar, precisando ser carregado e auxiliado por eles.

No conjunto de esculturas a céu aberto, Aleijadinho, praticamente sem as mãos, deixou para a humanidade uma dramatização teatral que une o céu, o homem e a terra.

Esse grandioso escultor nos deixa como legado maior o exemplo de que, para um homem com determinação, vontade e um grande espírito de luta, não existem obstáculos.

Antônio Francisco Lisboa faleceu pobre, em novembro de 1814, mas fez-se vivo até os nossos dias através de suas obras que, testemunhando o passado, enriquecem o presente e acolhem o futuro.

Ocaso
No anfiteatro de montanhas
Os profetas do Aleijadinho
Monumentalizam a paisagem
As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte do meu país
Onde ninguém mais subiu
Bíblia de pedra-sabão
Banhada no ouro das minas

Oswald de Andrade
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Imagens:
1 – Tríade de querubins na porta da Igreja de São Francisco de Assis. Ouro Preto, MG.
2 -São Jorge. Articulado, madeira pintada, 1779. Museu da Inconfidência, Ouro Preto, MG.
3 – Nossa Senhora das Dores. Madeira policromada, século XVIII, 83 x 48 x 34 cm. Museu de Arte Sacra, São Paulo.

Referências Bibliográficas
Almanaque Brasil de Cultura Popular. São Paulo, nov. 2003. nº 56.
Almanaque Abril. Quem é quem na História do Brasil. São Paulo: Abril Multimídia, 2000.
ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo/Secretaria de Estado da Cultura, 1990. p. 135.
BRAGA, Ângela. Antônio Francisco Lisboa: o Aleijadinho. São Paulo: Moderna, 1999. Coleção Mestres das Artes no Brasil.
COELHO, Ronaldo Simões. Pérola Torta. 4 ed. Belo Horizonte: Ed. Dimensão, 1995.
Nova Enciclopédia Barsa. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. Rio de Janeiro; São Paulo: 1997. vol. 1. p. 206.
ORTHOF, Sylvia. O anjo de Aleijadinho. Rio de Janeiro: Salamandra, 1996.

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