Edição 53

Notícias

O conhecimento das coisas e o conhecimento da vida

Sérgio A. Sardi

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Quando nossos pais assistiam a filmes ou liam livros de ficção científica, não podiam imaginar que o futuro chegaria assim, tão rápido. Robôs vasculham a superfície de outros planetas, a comunicação instantânea entre continentes tornou-se uma trivialidade, e novas descobertas científico-tecnológicas são feitas a cada dia, em uma velocidade antes inconcebível.

Há muito tempo, progredimos no conhecimento de como manipular e transformar a vida e a natureza para servir aos desígnios humanos. A tecnologia nos transformou em uma espécie de semideuses dentro do planeta Terra. Não há como prever limites. As fronteiras do conhecimento parecem ir além da imaginação.

Conhecimento e futuro

Ah! Mas eis que alguém poderia se perguntar: para que serve ou para que deveria servir o conhecimento? Pois não deveríamos pensar também na sua finalidade? E nos perguntar
sobre qual conhecimento poderia ser capaz de gerar um futuro melhor para as próximas gerações? Talvez não baste saber como fazer, como transmutar o mundo através da
tecnologia. Há de se pensar, por exemplo, até que ponto o desenvolvimento da ciência e da tecnologia são suficientes para construir a felicidade, a paz, a justiça nas relações entre os humanos e a sustentabilidade das relações entre o homem e a natureza. Talvez, para os seres humanos, não baste viver comodamente. É preciso que a vida tenha sentido.

O que diríamos, por exemplo, se tivéssemos de escolher entre investir na exploração interplanetária ou frear a desertificação e o aquecimento global? E entre construir nanochips, nanorrobôs e supercomputadores ou reduzir a fome, o subdesenvolvimento e a violência? Há decisões a tomar. E, para isso, talvez seja preciso outro tipo de conhecimento para o qual as verdades da lógica e da ciência não bastam. Talvez seja preciso até mesmo duvidar da suposta neutralidade da ciência e da tecnologia e questionar o modo como tendemos a crer que o conhecimento científico-tecnológico
consiste em uma verdade final.

Caberia a nós, assim, a tarefa de construir uma nova ficção de futuro, pois a imagem que dele fazemos consiste em um modo fundamental de pensarmos a nossa condição humana. Também quantas vezes orientamos a nossa vida, no presente, em função da imagem que fazemos do futuro? A decisão sobre nossas ações exige vislumbrar a seta do tempo. Mas quais seriam as outras possibilidades de futuro que ainda não pensamos
para a humanidade? Nesse futuro a ser reinventado, talvez seja o caso de construirmos não apenas as coisas das quais se serve a humanidade, mas o próprio sentido de nossa
“humanidade”, em suas múltiplas potencialidades.

A tecnologia não é a última fronteira, e todas as máquinas e os artifícios criados pelo ser humano não são suficientes para esgotar o sentido da sua evolução. Deve haver algo mais a ser descoberto ou redescoberto acerca do sentido da vida na imagem que criamos do tempo futuro e que ajuda a pensar como viveremos a condição humana neste tempo presente.

Sugestões de atividades

• Espalhar na sala diversas figuras e imagens que representem vários contextos de nossa sociedade. Conversar, em pequenos grupos, sobre essas realidades diversas, destacando pontos positivos e negativos.
• Utilizar diversas formas de apresentação (cartazes, teatro, paródia). Cada grupo pode representar diferentes características de nossa sociedade: consumismo, participação,
escola, família, violência, trabalho, mídia, tecnologia, etc.
• Observar e debater as produções dos grupos.
• A partir das formas que estavam representando a realidade, construir algo novo, de forma coletiva; um símbolo que represente o que sonhamos para nossa sociedade.

Sérgio A. Sardi é doutor em Filosofia, professor no Departamento de Filosofia da PUCRS.
E-mail: sergiosardi@uol.com.br.

 

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