Edição 26

Matérias Especiais

O desafio da capacitação docente no mundo contemporâneo

Sidnei Rodrigues Batista
Daniele Barrionuevo Kallas Batista

Vivemos uma fase da história da humanidade caracterizada por intensas e constantes mudanças. Certamente, as últimas duas décadas apresentaram mais inovações e transformações nos campos social, político e econômico do que nossos antepassados puderam constatar em séculos de existência.
O conhecimento avança, impulsionado pela pesquisa científica, surgindo, diante de nossos olhos, possibilidades até então consideradas inacessíveis. Podemos citar como exemplos o aparecimento e desenvolvimento de diferentes mídias (várias delas, inclusive, já operando em um mesmo aparelho), como telefones celulares e computadores “de bolso”, revolucionando as comunicações e as descobertas nos campos genético e bioquímico, oportunizando a identificação de enfermidades e a formulação de medicamentos eficientes e seguros.
Simultaneamente ao avanço do saber, os valores e costumes de diferentes culturas enfrentam questionamentos, ocasionando tensões nas relações humanas, como a diminuição da força do patriarcado e a correspondente busca da mulher por espaço nas esferas decisórias da sociedade do mundo ocidental. Tais circunstâncias ressaltam a essencialidade do debate ético nas inúmeras temáticas de interesse coletivo, tanto como exercício da cidadania quanto como construção de relações pautadas por valores efetivamente humanistas.
Esse cenário desafia profissionais das mais variadas áreas de atuação no que se refere à sua capacidade de atualização. As dúvidas que o cotidiano profissional pode apresentar não são insignificantes; ao contrário: expressam incertezas e inquietações. Como manter-se informado? Como operar novos equipamentos? De que modo lidar com os colegas de trabalho, tanto os mais jovens como os mais velhos, de ambos os sexos e de níveis hierárquicos diversos? Temos perguntas demais e poucas respostas.
Os profissionais da área de Educação estão, sem dúvida, inseridos no quadro citado. No entanto, enquanto categoria profissional com especificidades próprias, os professores ainda precisam superar uma perspectiva tradicional de educação que acredita em verdades absolutas, entendendo o docente como um sujeito que deve saber, e não como um sujeito que também está em processo de aprendizagem. Dito em outras palavras, um sujeito que não pode “não saber”.
Se é extremamente desafiador estar preparado para trabalhar em um momento de mudanças, no qual novos conhecimentos e valores são constantemente cobrados como uma obrigação daqueles que desejam um bom emprego, imagine para aqueles profissionais que precisam, aos olhos de muitas pessoas, demonstrar domínio completo das últimas tendências, dos mais recentes resultados de pesquisas, das informações “recém-saídas do forno”; enfim, de tudo aquilo que é novo (além de tudo o que é “antigo”, evidentemente).
Nesse contexto, o processo de formação profissional dos docentes não deve encerrar-se, já que as demandas são imensas e estão constantemente se modificando. Tal fato denota a necessidade de capacitação para lidar não apenas com o avanço do conhecimento em sua área específica de atuação (seu componente curricular), mas também com os desafios advindos do momento atual, dos quais destacamos as novas tecnologias, a dinâmica das relações humanas, a ética e os diversos fatores desencadeadores de estresse no cotidiano.
Sobre as novas tecnologias, a capacitação docente se faz urgente na medida em que os alunos convivem com mídias ultramodernas fora da escola (mesmo muitos alunos da rede pública estão se acostumando à TV a cabo, à informática e ao telefone celular, para ficarmos apenas nesses exemplos mais rotineiros), mas ainda convivem com o quadro-negro no espaço escolar. Certamente, o quadro-negro continua sendo bastante útil, mas o leitor há de convir que essa forma tradicional de mídia deve ser extremamente desestimulante para crianças e jovens que já nasceram inseridos em um contexto comunicacional informatizado.
O conhecimento sobre as novas tecnologias permite que os docentes incorporem o computador (Internet, games e softwares) e a TV às aulas, assumindo seu papel de mediadores da relação entre as mídias e seus alunos e colaborando na formação de telespectadores/navegadores críticos.
Quanto ao dinamismo típico das relações humanas e aos dilemas éticos a elas correlacionados, os desafios gerados no espaço escolar cobram dos docentes a capacidade de construção e manutenção de relacionamentos respeitosos com os alunos, independentemente das condições social, financeira, cultural, religiosa, etc.
No entanto, essa premissa, apesar de ser aceita com facilidade no plano dos discursos, não se concretiza na prática sem esforço, já que os docentes se encontram, muitas vezes, sobrecarregados pelo trabalho em até três turnos, com classes lotadas, limitados recursos, enfrentando dificuldades até há pouco inimagináveis, como a ameaça à integridade física (ou até o risco de vida, em casos mais extremos), em função do quadro de violência que ronda muitas escolas. Ser educador, na amplitude da expressão, traz a gigantesca responsabilidade de saber lidar com as diferenças.
A capacitação docente pode auxiliar nas questões da ética e das relações humanas ao desenvolver competências de relacionamento social, incentivar posturas abertas ao diálogo, facilitar a reflexão sobre temáticas atuais de interesse coletivo e atualizar os caminhos indicados para gerenciar situações difíceis.
Finalmente, diante de tantos fatores estressores — representados pelo desafio de lidar com novas tecnologias, de ser mediador entre estas e os alunos, de superar problemas de relacionamento no âmbito escolar, de conseguir trabalhar convivendo com dificuldades de toda ordem e de estar centrado o suficiente para construir com seus alunos relações éticas —, a capacitação docente torna-se condição essencial na busca de qualidade de vida no exercício profissional. É importante saber gerenciar seu nível de estresse, identificando quais fatores interferem no nosso bem-estar e como agem, para que possamos trabalhar com saúde e equilíbrio.
Acreditamos que apenas um docente permanentemente envolvido com seu processo de desenvolvimento, de capacitação, pode estar preparado para o desafio de ser educador no momento presente de nossa sociedade. Se os desafios são grandes, grandes também devem ser nossos esforços para estarmos devidamente capacitados a enfrentá-los e superá-los.

Daniele Kallas Batista – Mestre em Ciências da Saúde (Unifesp), professora do Instituto Mackenzie, especialista em Reabilitação Cardíaca e Fisiologia do Exercício (InCor – USP); licenciada em Educação Física (USP), terapeuta corporal em formação pelo Centro de Desenvolvimento Reichiano de São Paulo; formada em Stretching Global Actif (Université Internationale Permanente de Therapie Manuelle – UIPTM, França); qualificada para implantação de Programas de Saúde e Qualidade de Vida nas Empresas (American University Washington, D.C.).
E-mail: dani_kallas@uol.com.br.

Sidnei Rodrigues Batista – Mestre em Ciências da Motricidade (Unesp/Rio Claro), professor da Faculdade de Educação Física de Santo André (Fefisa), especialista em Jogos Cooperativos (Centro Universitário Monte Serrat – Unimonte), focalizador em Jogos Cooperativos (Unimonte).
E-mail: sidnei_batista@uol.com.br.

Os autores fazem parte da equipe da Ecos – Educação Corporal e Saúde
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