Edição 16

Matérias Especiais

O direito ao orgulho

Celso Antunes

A imagem será para todo o sempre inesquecível, e a emoção que fez brotar em quem teve o privilégio de assisti-la é maior que o tempo para esquecê-la.

O jovem, portador de limitações físicas que o incapacitavam para atividades comuns, exibia a todos, com entusiasmo e orgulho, o tênis novo que comprara.

Mais que o calçado, exultava pela compra ter sido feita por ele mesmo, com o salário que honestamente ganhara. Sorria ao exibir o produto de sua conquista e, nesse sorriso, se ocultavam a alegria de viver e o orgulho de existir.

Jamais, em toda a vida, percebi entusiasmo tão grande, alegria tão difícil de conter.

Não importava que o objeto fosse simples e, menos ainda, que outros, ao comprá-lo, jamais imaginassem a ousadia de fazer o relato público da aquisição. Mas, para aquele garoto, a emoção era imensa, e o produto expressava a consciência de seu valor, a importância de seu trabalho e, sobretudo, a humana conquista por seu esforço. É evidente que, atrás dessa alegria e dessa emoção, estava a sólida presença de uma instituição que o empregara, de pessoas que jamais confundiam “pessoas diferentes” com “portadores de deficiência” e, sobretudo, da descoberta do que efetivamente podia fazer e dos meios para transformar a força dessa vontade e a habilidade para esse serviço em um salário que, ainda que simbólico, permitia, pela lenta poupança, o orgulho da compra que agora exibia.

Instituições como essas, certamente, vivem muito além da mesquinhez de nosso tempo, frívolo em suas buscas, consumista em suas metas. São organizações voltadas para empregar pessoas com deficiência física e para colocar o produto de seus trabalhos ao acesso do público, que o compra não por piedade, mas pela certeza de que são produtos bons e que podem ser úteis.

A constatação do jovem exibindo seu tênis novo e mostrando que era capaz de tornar-se produtivo e conquistar a dignidade de um salário, como acima se disse, emocionava e fazia pensar.

Pensar sobre o orgulho humano e a acidentalidade dessa emoção; se desmedida, incapacita, invalida, transforma a pessoa em “estrela” e, por assim fazê-la, a amesquinha e a nivela à tolice animal da vaidade fútil; mas, se comedida e justa, faz-nos mais humanos e abre a certeza de uma autêntica e ilimitada auto-estima. Todo ser humano necessita conquistar o direito ao orgulho e usufruí-lo com a certeza de que não vive inutilmente e que, por momentos que o expressam, vale a grandeza de toda uma vida.

Mas, se o orgulho é assim tão importante, tão imprescindível ferramenta de uma imprescindível auto-estima, de que forma promovê-lo? De que maneira permitir que uma aula comum possa levar à criança ou ao adolescente a doce descoberta de sua efetiva competência e da grandeza, ainda que limitada, de sua capacidade?

Creio que não são respostas difíceis.

O elogio sincero, o reconhecimento adulto pelo trabalho bem-feito, o aplauso comedido pelo esforço desprendido, ainda mais que uma nota alta, dispara a emoção do orgulho e com ela a certeza do sentimento de que viver vale a pena.

Qual criança ou adolescente não sente o orgulho de concluir uma tarefa, realizar um trabalho, suplantar este ou aquele desafio? Os professores imprescindíveis, menos que explicadores de saberes, deveriam ser arquitetos de desafios, propositores de problemas, guias serenos no caminho de suas soluções. Ao suplantar um problema cuidadosamente organizado para a exata dimensão de sua dificuldade, o aluno se suplanta, e ainda, mais que o reconhecimento do mestre, percebe crescer em si mesmo a certeza de sua essencialidade e a grandeza de sua auto-estima.

Nada emociona mais que um aluno ou um filho descobrir-se capaz, nada é maior na missão de um mestre ou um pai que proporcionar, com propostas e meios adequados, a perspectiva ou possibilidade desse alcance imenso.

cubos