Edição 68

Em discussão

O fenômeno bullying e o desenvolvimento cognitivo no processo de ensino-aprendizagem na visão do professor

Reginaldo Cardoso da Silva

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Os praticantes do bullying não têm sensibilidade no relacionamento com as vítimas e sempre procuram humilhar e agir de modo agressivo. Sendo assim, a pessoa que sofre com o fenômeno passa a ter um baixo rendimento escolar e sentir medo de tudo que a cerca.

Geralmente, a maior incidência do bullying é na adolescência. Os agressores sempre procuram rir de coisas sem humor, não valorizando o seu próximo. Essa desvalorização leva a criança a agir com rebeldia e a descarregar toda sua ira em quem ela achar conveniente.

Introdução

Na atualidade, vive-se em uma sociedade competitiva, em que todos querem se destacar naquilo que fazem, não dando importância a valores humanos como o respeito, a amizade, o companheirismo, a solidariedade e a empatia pelos outros. Tudo isso que foi citado parece não ter nenhum valor, pois não é praticado por todos que vivem na sociedade dita civilizada. A violência acontece de forma verbal ou física, e essa agressividade chega até a escola, que é um local de aprendizado e de se construir conhecimento. E, por ser uma cena constante na rua, em casa também ganha corpo. Na escola, as vítimas, pessoas indefesas, sofrem agressões diariamente de autores de uma prática imoral.

É comum se ver algum tipo de agressão a crianças no ambiente da escola, e, geralmente, essa agressão parte dos colegas de turma, com o objetivo de intimidar, constranger e colocar medo, como uma forma de terror na vida dessa vítima. Essa prática é bem antiga, muitas crianças já passaram e passam por isso.

Para entender como acontece esse conjunto de comportamentos agressivos, pode-se notar que estão envolvidos alguns personagens: a vítima, que sofre as agressões diariamente na escola; o autor, o que agride os que são considerados fracos por ele; e a testemunha, que presencia as agressões, mas, por medo, não denuncia.

O fenômeno bullying tem levado as crianças e os adolescentes a afastarem-se da escola apresentando as mais diversas desculpas. Além disso, o medo leva-os a mudar constantemente de escola. Os pais, por vezes, não têm a sensibilidade para perceber o que está acontecendo e o porquê da mudança de comportamento sem explicação. A criança vítima pode, no futuro, se tornar uma pessoa violenta, como uma forma de compensar o que ela sofreu na época de infância e adolescência.

Fenômeno, no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, é “Tudo quanto é percebido pelos sentidos ou pela consciência, fato de natureza moral ou social [...] é o que é raro e surpreendente, algo anormal ou extraordinário” (2010, p. 317).

É necessário conceituar a palavra bullying, por ser este o objeto de estudo.

Para Silva (2010, p. 21), bullying é comportamento agressivo no âmbito da escola.

Já para Melo (2010, p. 19), é desejo deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sob tensão.

Gabriel Chalita (2008, p. 14) diz que bullying é a negação da amizade.

Teixeira (2010, p. 19) conceitua dizendo que é comportamento agressivo entre estudantes.

Moreira (2010, p. 31) diz que é assédio moral.

Objetivos

Diante do que foi dito, este artigo tem como objetivo geral identificar um provável retrocesso no processo de ensino-aprendizagem devido à influência do fenômeno bullying. Mas existe um atenuante nesse dado: as escolas públicas seguem os pré-requisitos do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e, portanto, combatem esse mal terrível que assola a sociedade atual. Por outro lado, a escola particular não tem a mesma preocupação em relação ao bullying, talvez por medo da evasão de alunos. Com isso, as crianças ficam sofrendo sozinhas sem ter o auxílio da comunidade escolar, que poderia estar envolvida na solução desse problema. Conforme Jordão (2011, p. 81), “[...] muitas escolas particulares ainda acreditam que admitir a existência do bullying é fazer marketing negativo”.

Quando se fala em violência na escola, o que nos vem à mente é uma escola totalmente desorganizada, onde os alunos cometem desrespeito físico e verbal entre si. Esses alunos precisam de disciplina e respeito para poder compreender a sociedade em que vivem e para que a escola possa funcionar da melhor forma possível. Mas, quando se fala em bullying, não é o que se presencia, e sim crianças tristes, com baixa autoestima, sem ânimo para estudar e até para ir à escola. É o que está acontecendo; muitas crianças e adolescentes estão cometendo suicídio por não suportar a pressão sofrida, e os diretores e professores ainda não atentaram para esta triste realidade da sociedade atual.

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Faz-se necessário que seja aberta uma discussão sobre o tema bullying entre todos os atores da sociedade: professor, família, vítima, agressores e testemunhas para que compreendam a gravidade que o fenômeno pode provocar nas vítimas.

De acordo com Jordão (2011, p. 82), “Baseado em palestras informativas e encontros entre pais e professores, os casos de bullying caíram pela metade pelo fato de o discutirmos e mostrarmos que é errado”.

Portanto, existem mecanismos que podem ser trabalhados para minimizar as agressões que as crianças sofrem diariamente devido ao preconceito, como o racismo, por exemplo. Essas pessoas sofrem com vários apelidos pejorativos, fazendo com que se sintam inferiores às demais.

Metodologia

A pesquisa foi realizada em uma escola municipal de Teresina que presta um excelente serviço para a comunidade. Esta pesquisa tem como finalidade analisar o bullying na perspectiva do professor. Os dados foram analisados de forma qualitativa, e o papel dos professores foi de extrema importância nas informações coletadas. A principal ferramenta usada na pesquisa foi o questionário e a observação.

Resultados

O papel do professor é identificar um provável retrocesso no processo de ensino-aprendizagem devido à influência do fenômeno bullying e traçar metas para que o aluno não sofra abusos e não seja violentado. É importante que o professor estreite os laços com os alunos e consiga munir a turma de informações, através de livros, revistas, vídeos e filmes educativos sobre o tema em discussão. Dessa maneira, irá torná-los mais humanos.

Segundo Moreira (2010, p. 27), o professor deve ser: “[...] líder, educador; procurar resolver as mazelas primeiramente. A psicoterapia foi criada para isso, não é coisa de louco e é também acessível aos professores”.

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O educador com frequência vai se destacar na solução de problemas dentro do espaço da sala de aula, pois ele é, e sempre vai ser, uma referência para seus alunos. Com essa prática de soluções, estará aplicando essas ações no combate à violência na escola. A esse respeito, fala Medeiros (2010, p. 4):

As vítimas geralmente são pouco sociáveis e inseguras, não reagem às agressões, se acham incapazes de se adequar ao grupo, têm baixa autoestima e sua insegurança impede a solicitação de ajuda. São passivas e quietas e começam a apresentar baixo desempenho escolar.

É conveniente que venhamos formar uma nova mentalidade nas crianças, ressaltando diariamente os pontos negativos do bullying, dizendo que ele não leva a nada, a função dele é causar sofrimento às pessoas inocentes que só querem viver em paz dentro do espaço da escola. Já para Chalita (2008, p. 191),

É preciso um professor que se comunique adequadamente com os alunos. A comunicação é o elemento humanizador que aproxima as pessoas, cria identificação e cumplicidade, clarifica as semelhanças e esclarece as diferenças. Por meio do diálogo, as pessoas aprendem sobre as outras. Aprendem a compreender e a serem compreendidas, a confiar e a se tornarem confiáveis.

Em nenhum momento o educador deve ficar indiferente à situação da violência; deve usar sempre a comunicação para tornar as crianças mais humanas e mostrar que nunca devem se resolver as coisas à força, mas com o diálogo, compreendendo as diferenças entre as pessoas.

O professor deve interferir nas representações do bullying, deve manter seus alunos informados sobre os malefícios que esse fenômeno pode causar, por que tem se espalhado por todos os lugares, inclusive na escola e na sala de aula, e tornar a direção da escola consciente de tudo que se passa dentro da sua sala, inclusive da violência. Como diz o Aurélio (2010, p. 887), fenomenologia é o “Estudo descritivo de um fenômeno ou de um conjunto de fenômenos em que estes se ordenam, quer por oposição às leis abstratas e fixas que os ordenam, quer por oposição às realidades de que seriam a manifestação”.

Como diz Chalita (2008, p. 21), o que se constata “é que o universo do agredido se agiganta de tal forma que o medo o aprisiona [...]”.

A pressão que vem sobre a vítima é tanta que ela não tem força para sair, pois tudo que vive é medo e angústia nessa imensa avalanche de sofrimento.

O papel do professor é intervir de maneira severa, pois, do contrário, esse conjunto de violência vai expandir-se de maneira grandiosa, levando essa vítima ao óbito.

Para Moreira (2010, 182–187),

O professor precisa estar consciente de que é um líder em tempo integral em sala de aula [...]. O educador, como líder, tem que estar atento e de olhos abertos e ouvidos muito alertas [...] aos tipos de agressões e provocações.

Pois é dever do professor cumprir suas obrigações como docente para o bom desempenho da turma e monitorar os alunos a cada momento, dentro e fora da sala de aula, para que não aconteça agressão e provocação entre eles.

Considerações finais

Portanto, a pesquisa serviu de base para que os professores reflitam que as agressões repetitivas podem trazer muitos malefícios ao ser humano, que podem ser físicos, emocionais e psicológicos.

Este trabalho de pesquisa vem legitimar a fala dos autores e entrevistados, que mostram suas experiências através de vivências constantes em sala. Vem também mostrar que os professores têm grandes oportunidades de reduzir essa violência no espaço da escola.

É comum se verem, nos corredores da escola, alunos pondo apelidos nos colegas, seja por estarem acima do peso, por serem de outra etnia ou por apresentarem alguma deficiência física, passando a imitá-los. É conveniente que se adote alguma medida preventiva para que tais ações não venham a se repetir na escola, visto que podem trazer transtornos tanto emocionais como psicológicos às vítimas. Caso não seja tomada alguma atitude, a tendência é que se agrave a situação do bullying.

O objetivo deste trabalho é contribuir para que os professores e a família tomem alguma atitude em relação a essa violência que acontece na escola, promovendo intervenções duras contra os agressores. A vítima vive sempre aprisionada, e essa prisão não é fácil de ser notada. Por isso, se não observarmos com bastante atenção, não iremos detectar a ação do fenômeno bullying e, quando menos esperamos, acontece o “bullycídio”.

Este trabalho é direcionado a todos os professores que estão exercendo a função, em todos os níveis de ensino, desde o Maternal até o curso de graduação, além do corpo administrativo da escola e a família, que é parte interessada no bem-estar do seu filho.

Referências

CHALITA, Gabriel. Amizade – Uma Atitude que Protege. In Pedagogia da Amizade. São Paulo: Gente, 2008.

CHALITA, Gabriel. Pedagogia da Amizade. São Paulo: Gente, 2008.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

JORDÃO, Cláudia. Como Vencer o Bullying. IstoÉ. São Paulo: Abril, 2011.

MEDEIROS, Flávio. Bullying. Recife: Saber Edições Pedagógicas, 2010.

MELO, Josevaldo. Casos de Bullying no Mundo e no Brasil. In Bullying na Escola. Recife: Edupe, 2010.

MELO, Josevaldo. O Comportamento Bullying. In Bullying na Escola. Recife: Edupe, 2010.

MOREIRA, Dirceu. Transtorno do Assédio Moral Bullying. Rio de Janeiro: Wak, 2010.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. A Juventude nos Tempos Modernos: um Panorama Global. In Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

TEIXEIRA, Gustavo. O que É o Bullying? In Manual Antibullying. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.

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