Edição 96

Ensino Médio

O funcionamento cognitivo frente às questões modelo Enem antes do Ensino Médio

Daniela Cynthia de Sá Rocha

Introdução

Parece uma corrida contra o tempo e contra os materiais didáticos, pois a proposta de muitas escolas particulares traz como educação de ponta a exposição das questões modelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a alunos do Ensino Fundamental, respeitando ou não o nível de alcance cognitivo de cada faixa etária. Contudo, não significa que tal mecanismo seja uma prática que levará ao sucesso de uma instituição de ensino. O objetivo da exposição do aluno do Ensino Fundamental às questões mencionadas é um mercado competitivo no qual estamos imersos e que exige que o aluno esteja preparado para enfrentar as diversas questões ofertadas pelo Exame Nacional do Ensino Médio, que tem como uma de suas funcionalidades lotar as vagas das tão almejadas universidades públicas do Brasil. Para tanto, a filosofia se dá pela seguinte frase: “Se nosso aluno já está acostumado desde a base a resolver essas questões, quando chegar ao Ensino Médio estará um passo à frente”.

pensamento cognitivoSendo assim, é possível afirmar que muitos professores se sentem na obrigação de levar o que há de mais novo para seu aluno, já que esta é uma profissão que exige atualizações frequentes, ou até mesmo se sentem forçados a proceder nos moldes da instituição onde trabalha. O problema é a remodulação de questões de um exame que é elaborado especificamente para alunos do Ensino Médio (EM) a alunos do Ensino Fundamental (EF). Segundo a teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget, crianças no estágio operatório concreto (11 ou 12 anos em diante) são capazes de manipular mentalmente as representações internas que formaram durante o período pré-operatório (7 ou 8 anos até 11 ou 12 anos), porém só agem assim diante da coisa tangível, ou seja, da “coisa concreta”. Caso contrário, são incapazes de abstrair conceitos “[...] para sistematizar os conceitos já adquiridos” (PIAGET, p. 167, 1985). Mesmo aqueles que ampliam a teoria piagetiana estão de acordo com o aspecto de que determinadas crianças, numa específica fase escolar, possuam um funcionamento cognitivo que exige abordagens pedagógicas diferentes das de adolescentes com 16 ou 17 anos. Diante da problemática lançada acerca da cognição em diferentes fases da vida escolar, as perguntas são:

• Quem avalia o funcionamento cognitivo de tais questões elaboradas por professores, muitas vezes, despreparados para tais elaborações?

• Será que o aluno que ainda não fez o EM será capaz de compreender e absorver os caminhos para a resolução de questões modelo Enem?

As respostas a estes questionamentos não são estanques nem imediatas — muito pelo contrário —, são relativas e reflexivas. É preciso percorrer um processo de investigação para cada caso, cada nível de ensino-aprendizagem, como se cada caminho a percorrer fosse um braço de um rio que desembocará no oceano, já que o destino final de muitos na vida escolar se chama Enem.

Material didático e professor

O elo entre o material didático e o professor é bastante representativo para os alunos na construção de sua identidade em sala de aula, isto é, quando o professor adere ao material selecionado, os alunos tendem a aderir com mais facilidade também, já que ele tem respaldo e formação para passar segurança de que o material é confiável e de boa qualidade.

O diálogo entre o professor e o livro didático acontece depois que este já foi montado e impresso. Obviamente, este não é um problema, pois o professor tem autonomia para propor algo a mais a seus alunos que não consta no livro, basta que ele elabore uma apostila com um assunto peculiar de sua região, por exemplo, ou até mesmo atividades extras quando julgar insuficientes as propostas pelo material adotado. Então, é justamente nesse ponto que entram as questões modelo Enem, ora instituídas pelo professor, ora instituídas pela escola. E como realizá-las com responsabilidade a fim de não prejudicar os alunos no processo de aprendizagem no EF?

O suporte pedagógico dentro da escola

A escola e/ou o professor que propõem questões modelo Enem no EF devem trabalhar em cadeia, pois o trabalho em equipe facilita o processo de inserção dessas questões. Logo, a via de mão dupla deve se fazer presente durante a elaboração: professor de um lado e suporte pedagógico de outro, um alicerçando a postura do outro diante das dificuldades de investigar até que ponto é possível explorar o raciocínio dedutivo-hipotético de cada faixa etária nos itens da questão elaborada.

O aluno é o fundamento básico de uma sala de aula, ele é o protagonista do processo no qual o professor se faz coadjuvante, mediador. Essa postura do profissional da Educação contribui no entendimento de quem é seu aluno e do que ele é capaz de construir no tocante ao conhecimento. Assim, o compromisso do professor em assumir uma postura ética no processo ensino-aprendizagem com seu aluno já é a metade do serviço realizado. Contudo, nem só de boas intenções vive o professor, é preciso atitudes concretas que façam valer a mencionada postura. Neste ponto, o suporte pedagógico se faz necessário a fim de verificar, aferir e até notificar as questões elaboradas pelo professor, com o intuito de melhorar, confirmar, quiçá elogiar o trabalho do docente. Esta é uma das maneiras de alcançar o oceano sem ter que afogar os alunos em questões fora do seu eixo cognitivo, podendo causar fracasso escolar por conta de práticas malsucedidas dos profissionais da Educação.

Ensino Fundamental e Enem

Relacionar uma fase estudantil a um exame a ser realizado no fim de outra fase é possível quando gestores de sala de aula e de instituições de ensino veem a exposição de alunos do EF às questões modelo Enem como um caminho para o sucesso.
Entretanto, é importante lembrar que esses alunos são de um nível anterior ao do EM para não cometer o erro de expô-los a dificuldades extremas e fazê-los se sentirem incapazes e desmotivados nos estudos, aplicando avaliações com questões que possam trazer prejuízo à aprendizagem. Lidar com sentimento humano é uma das missões do professor, pois já não é mais contemporânea aquela história de que o professor é um mero transmissor de conhecimento. Caso este não se coloque como fazendo parte do processo, estará fadado ao fracasso.

Portanto, se o professor e/ou a escola acreditam ser possível melhorar o nível de ensino através dessas questões modelo Enem, é preciso dar ao aluno do EF subsídios para que ele consiga construir sentido no processo, fomentando diálogos em sala de aula, ajudando-o a realizar as inferências de médio e alto níveis que essas questões exigem, projetando situações concretas nas quais os alunos possam se figurar dentro delas, montar teatralizações, buscar o lúdico, trazer a tecnologia a favor do bom desempenho cognitivo através de vídeos, textos veiculados na rede e outros mais.

Enfim, é preciso ter responsabilidade e compromisso, pois, quando a vontade é ensinar, toda a equipe pedagógica aprende mais. Afinal, educar é ação de diferentes caminhos, porém único fim: o conhecimento.

Daniela Cynthia de Sá Rocha é Mestra em Letras pela Universidade Federal de Sergipe. Atua como professora de Língua Portuguesa e de Redação no Colégio Amadeus na cidade de Aracaju – SE. E-mail: danycyn@bol.com.br

Referências

INHELDER, Barbel; PIAGET, Jean.
A psicologia da criança. Rio de Janeiro: Difel, 2003.

PIAGET, Jean. Psicologia e pedagogia.
7ª ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1985.

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