Edição 17

O livro da vez

“O Livro das Casas “

Filosofia e política para gente miúda que pensa graúdo

Dra. Anna Stegh Camati

O Livro das Casas, com texto de Liana Leão e desenhos de Guilherme Zamoner, é um livro-inventário sobre os modos de habitar o mundo, sobre a diversidade de modos de estar sobre a Terra. Trabalha poética e filosoficamente o conceito de casa; ao falar de casas, reflete sobre o lugar da criança e de outros seres que habitam o mundo. O livro parte conceitualmente de uma experiência básica para qualquer criança, mesmo a mais pequenina: a vivência da casa. A partir daí, brinca, com humor, com outras casas possíveis: casas-ninho, casas-iglu, casas-buraco-do-tatu, casas-ovo.

O objetivo é que a criança trabalhe em latitude e também em profundidade o conceito de casa. Casa é primeiramente casa-mãe, casa-útero, casa-semente, lugar onde a vida pode nascer protegida, e depois casa-corpo (nosso próprio corpo, que é nossa morada) até finalmente casa-via-láctea, casa-cosmos, casa-universo.

Ao longo do livro, outros espaços surgem para abrigar outras atividades: a Escola é assim uma forma de casa, e há também a casa-das-artes, casa-biblioteca e o próprio livro, que não deixa de ser um abrigo para a mente. Mas há casas que, além de proteger, podem aprisionar e disso também fala O Livro das Casas: casas-gaiola, por exemplo.

O princípio básico de organização do texto de O Livro das Casas é metafórico; casa é, portanto, não apenas uma casa de paredes, portas e janelas, mas uma grande metáfora para o “ser”, para “o estar no mundo”.

Assim, o texto de Liana Leão é mais filosofia do que propriamente narração: reflete sobre o “estar-no-mundo”, sem se preocupar muito em contar mais uma história. E essa reflexão é política, ainda que seja dirigida para crianças bem pequenas (ou para as crianças pequenas que habitam em todos nós).

O trabalho do artista Guilherme Zamoner complementa e amplia o universo da escritora. Onde Liana não conta uma história, Zamoner sugere, com seus detalhados e lúdicos personagens, possíveis historietas engraçadas. Zamoner compreendeu que o texto da escritora é político e filosófico, que, por detrás da aparente simplicidade do texto, a autora interroga as crianças como cidadãs que participam do jogo da polis. Zamoner acerta na mosca quando escolhe para personagem central de O Livro das Casas um mendigo, por definição, alguém que não tem casa, aparentemente um contra-senso, o que, no entanto, prova que Zamoner, tal qual a escritora, entende de política e de descentralização.

Ainda em outro momento, Zamoner novamente acerta na mosca quando, para ilustrar a pergunta “E casa para os sem-casa, existe?”, abandona sua habitual página cheia e rica em detalhes e opta por uma página quase em branco: calçada vazia, sentam-se o mendigo, dois ratinhos e o sapinho, de costas para o leitor, e espiam o infinito, esperando talvez um amanhã melhor, quando, talvez, cada brasileiro possa ter um teto sobre a cabeça.

Brincando com palavras e imagens, O Livro das Casas consolida e expande o conhecimento da criança sobre o mundo; encanta e provoca a interrogação nos pequenos leitores e cidadãos que são vistos como gente miúda pensante, seres ainda pequenos em tamanho, mas ávidos para alçar vôo e explorar o espaço infinito, capazes de refletir sobre um Brasil real, com problemas reais que afligem a todos que têm os olhos abertos.

O Livro das Casas, por seu texto poético-político e suas belíssimas imagens, é trabalho instigante cujo objetivo é permitir às crianças de todas as idades dar asas à imaginação.

Dra. Anna Stegh Camati – Professora da Universidade Federal do Paraná.
Membro do Centro de Estudos Shakespearianos do Brasil – Cesh.
Para contato com a revista: anniesc@bol.com.br

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