Edição 03

Lendo e aprendendo

O menino e a onça

Há muito, muito tempo, os índios não conheciam o fogo, alimentando-se de polpa de madeira, frutos silvestres e carne, que preparavam sobre pedras aquecidas pelo Sol.

Certo dia, dois meninos Kaiapós caminhavam pela floresta, quando um deles percebeu, sobre um rochedo, um ninho de araras-vermelhas. Pediu ajuda ao companheiro para encostar um tronco na rocha, conseguindo assim alcançar o ninho. Mas, ao subir, esbarrou numa pedra, que caiu e feriu o amigo. Com raiva, o menino atingido tirou dali o tronco, deixando o outro sem meios para descer.

Após algumas horas, apareceu no local uma onça macho. Ao ver a sombra do menino, a onça pôde localizá-lo sobre o rochedo, ao lado do ninho das araras-vermelhas, pássaros que sabiam carregar o fogo. Em troca de ajuda, a onça pediu que o menino lhe jogasse os filhotes. Concordando com a proposta, o índio pôde, finalmente, descer.

Por haver permanecido muito tempo exposto ao calor, o menino ficou muito corado, fazendo a onça crer que se tratava do filho do Sol. Convidou-o para conhecer sua toca, onde a onça fêmea passava o dia assando carne ao fogo e fiando algodão. Apresentou-o a ela, pedindo que o tratasse muito bem, e saiu em seguida para caçar. A fêmea, entretanto, pôs-se a ameaçá-lo, rugindo e lhe mostrando os dentes.

Ao tomar conhecimento disso, a onça macho resolveu ensinar o menino a usar o arco e a flecha para que pudesse se proteger. No dia seguinte, assim que o macho saiu, a fêmea tentou atacar o índio, que, com muita habilidade matou a inimiga à primeira flechada.

Ao voltar, a onça macho soube o que ocorrera , aprovando e elogiando o menino, que facilmente tudo havia aprendido. Pediu-lhe que voltasse à sua aldeia, levando o fuso e uma tocha, e cuidasse para que a tocha não se apagasse.

Regressando aos seus, o indiozinho os ensinou a usar o fogo e depois a fiar o algodão. Em comemoração, fizeram uma grande festa, na qual o biju, a mandioca, a carne e o peixe foram preparados ao fogo, que mantiveram aceso por muito tempo, alimentando-o com lenha seca.

Certo dia, porém, a chuva apagou a chama, deixando todos muito tristes. Então, Begorotire, o homem-chuva, desceu do céu para ensinar-lhes a produzir fogo com dois pedaços de madeira: segurando, com os pés, as extremidades de um deles, que deveria ter um orifício no centro, fariam girar entre as mãos o outro, encaixando no primeiro, até o fogo surgir. Nesse dia, voltou a alegria entre os índios Kaiapós.

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