Edição 106

A fala do mestre...

O náufrago e o navegador

Lécio Cordeiro

Nos últimos artigos desta seção, tocamos sempre em um ponto fundamental para as questões que envolvem a educação contemporânea brasileira: a necessidade premente de nós, professores, usarmos a tecnologia a nosso favor. Partindo do pressuposto de que a educação é o foco, esse uso nos impõe algumas reflexões importantes, que passam necessariamente pelo nosso papel enquanto educadores, imersos em um oceano de informações. A pergunta é: como navegar e como ensinar a navegar?

Doze anos atrás, eu estava preparando aula quando me deparei com um artigo de opinião muito interessante publicado em O Globo e assinado pelo jornalista Pedro Pinciroli. Tomei o título do texto emprestado para este artigo: O náufrago e o navegador. No texto, o autor enfatizava a importância de utilizar jornais (naquele tempo impressos) na sala de aula.
O ponto principal era que o uso do jornal como recurso pedagógico levaria os alunos a se enriquecerem com informações úteis, relevantes para o seu dia a dia. Naquela época, a Internet já se delineava como uma importante ferramenta para pesquisa. Segundo o autor do artigo, caberia à escola ensinar os alunos a navegar no oceano das informações (seja nos jornais, seja na Web). Diante da imensidão desse oceano, o principal objetivo deveria ser localizar as informações relevantes, separá-las das demais e utilizá-las de forma produtiva. Aquele que no futuro (hoje!) soubesse fazer esse percurso seria o navegador; e quem ficasse parado na inércia do comodismo, o náufrago.

Na mesma época em que eu preparava aquela aula, Steve Jobs lançou o primeiro smartphone, que começou a ser vendido precisamente em 29 de junho de 2007. Sua intenção era reunir, em um só produto, telefone, iPod e um comunicador com a Internet. Aquela época foi marcada, também, pelas primeiras redes sociais. O finado Orkut, por exemplo, foi lançado em 24 de janeiro de 2004. Dez dias depois, Mark Zuckerberg e dois amigos lançaram o decrépito Facebook. Nós não sabíamos, mas tínhamos aí a combinação de dois ingredientes explosivos que influenciariam de forma indelével a maneira de pensar, de agir, de sentir das gerações futuras.

O smartphone trouxe para a palma da mão as redes sociais e todas as ilusões que elas desencadeiam. Hoje, temos a ilusão de que conversamos, de que temos centenas de amigos, de que estamos pensando criticamente, de que os outros são felizes, etc. E muitas vezes não percebemos a toxidade dessas ilusões. Segundo pesquisas no campo da psicologia comportamental, 14 minutos de timeline são suficientes para começar a deprimir o usuário. A média mundial de tempo de acesso às redes sociais é de 9 horas por dia! O Brasil é o campeão. Ou seja, muitos náufragos estão por aqui, à deriva na Web, por aproximadamente 9 horas por dia, bisbilhotando, invejando e se deprimindo.

Conheço professores que alegam necessitar enormemente de recursos tecnológicos para ministrar suas aulas. Assim, se não os tiverem, não podem trabalhar. Outros até têm acesso a recursos incríveis, como uma lousa digital, mas o máximo que conseguem extrair deles é uma aula expositiva tradicional. Meus amigos, o oceano de informações em que devemos navegar nos oferece inúmeros recursos (vídeos, aulas, cursos online, livros, artigos, teses), mas é fundamental saber aproveitá-los com objetividade. Todo navegador parte de algum lugar e precisa definir, claramente, onde quer chegar, senão fica à deriva. No artigo passado, tocamos neste ponto: as deficiências dos alunos são sempre o nosso ponto de partida. O ponto de chegada somos nós que determinamos. Na nossa área, esse pensamento soa como um axioma matemático — é tão evidente que nenhum raciocínio e nenhuma demonstração podem torná-lo mais claro. Mas o que fazer quando o náufrago é o próprio professor?

Minha personalidade idealista me leva a acreditar que, diante das dificuldades, sempre há alguma boia (ou algo parecido) à nossa disposição. O problema é que, muitas vezes, imersos na adversidade, não conseguimos vê-la. Ou pior: ela está do nosso lado, mas falta vontade de segurá-la. Costumo dizer que o uso da tecnologia não vai, necessariamente, transformar a aula. Tampouco vai resolver nossos problemas. Mas, se ficarmos parados no tempo, acabaremos como náufragos. Diferentemente de doze anos atrás, hoje contamos com uma infinidade de possibilidades educativas condensadas em um smartphone ou no computador. O professor pode buscar sua própria formação continuada a partir do YouTube ou do Google Acadêmico. O próprio MEC disponibiliza um leque enorme de cursos e conteúdos para capacitação docente. Por uma quantia irrisória por mês, o professor pode se associar a plataformas virtuais que oferecem milhares de atividades e questões inéditas. Não é mais necessário passar horas elaborando provas! É possível visitar o Louvre! Podemos usar o Street View para explorar pontos de referência no mundo, descobrir belezas naturais e entrar em locais como museus, estádios e até pequenas empresas. Os colegas de Geografia, por exemplo, podem levar os alunos para passear em Bangladesh ou Montreal e discutir conceitos associados às dinâmicas populacionais, economia, cultura. Mais um: acessando localingual.com, os professores de Língua Estrangeira podem levar os alunos a conhecer dialetos e sotaques de cada região do Planeta. Se quiserem, eles podem até contribuir voluntariamente para o mapeamento feito pelo site! Esses são apenas alguns exemplos de “boias” que temos à nossa disposição. Ser náufrago ou navegador é, portanto, escolha de cada um.

Lembro-me de uma parábola que ilustra bem essa situação. É a história de um cão que diariamente se deita sobre um prego. Passa os dias gemendo, em um sofrimento angustiante e contínuo, mas sempre se deita no mesmo lugar, apesar do prego. A pergunta é: “Por que ele não se deita em outro lugar?”. A resposta é simples, mas contundente: “Está doendo para fazê-lo gemer, mas não o suficiente para fazê-lo procurar um lugar melhor para ficar”.

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental. E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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