Edição 81

Matérias Especiais

O Problema da Escola… Como educar para resolver problemas, e não para dar respostas?

Rosangela Nieto de Albuquerque

 

professora_aluno_Depos_fmtO desafio do processo educativo é sem dúvida desenvolver capacidades e estimular o aluno a aprender a aprender, portanto aprender a pensar. Certamente, isso não é nada novo, há anos discute-se educação com uma proposta pedagógica de oportunizar ao aluno o desenvolvimento das habilidades e competências através de aprendizagem significativa e, assim, permitir-lhe construir o seu próprio conhecimento. Uma escola reflexiva irá formar o futuro cidadão, e o ponto de partida é articular o conhecimento prévio ao novo. Nesse contexto, é fundamental que a escola não se coloque apenas na postura de ensinante ou apenas de aprendente, mas de escola pensante. Para se atingir o status de escola pensante, há que se quebrar paradigmas de escola ensinante, com respostas prontas para os alunos. Esse é o problema da escola tradicional…

Uma escola pensante oportunizará a formação de cidadãos autônomos, criativos, inovadores, ativos. As pesquisas mostram a posição do Brasil no ranking mundial no tocante à capacidade de nossos alunos de resolver problemas. Certamente, o resultado catastrófico nos faz repensar a práxis pedagógica atual. Esse é um grande problema que a escola vivencia, uma prática engessada, com respostas prontas e com características de difícil mudança, afinal os professores foram educados assim, numa escola ensinante. Faz-se necessária uma transformação, busca-se um cidadão crítico e criativo, com melhor qualidade de vida, e, para isso, não se podem apresentar conhecimentos cristalizados e fora do contexto social e histórico. É preciso fazer com que os alunos se tornem pessoas capazes de enfrentar situações diferentes dentro de contextos diversificados, que se proporcione aprender novos conhecimentos e desenvolver habilidades. Só assim estarão mais bem preparados para adaptar-se às mudanças culturais, tecnológicas e profissionais.

Nossa função principal como professores é gerar questionamentos, dúvidas, criar necessidade, e não apresentar respostas

Resolver problemas… Exigência para os futuros cidadãos

A sociedade pós-moderna exige um cidadão capaz de estar à frente, de filtrar informações, com postura de liderança, inovação, com criatividade, capacidade de tomar decisões, perspicácia, preparado para enfrentar novos desafios e manter-se permanentemente em processo de formação. No entanto, para formar esse sujeito construtor de sua própria história, é necessário que a escola, na figura do docente, proporcione aos alunos uma atitude ativa, autônoma, provocando e desequilibrando as redes neurais, constituindo a instabilidade cognitiva, desenvolvendo o aprender a aprender, o aprender a pensar. Certamente, isso é um desafio didático, pois a escola tem que rever seu planejamento, buscar formas criativas, desafiadoras, estimuladoras de se trabalharem as estruturas conceituais que oportunizem ao aluno aprender a resolver problemas e utilizar a resolução desses problemas no dia a dia. E, nessa dinâmica de buscar as próprias respostas, o aluno constrói seu próprio conhecimento.

Educar as crianças para que se assumam como sujeitos de sua própria história e saibam resolver problemas cotidianos

O que estamos construindo nas escolas para que o aluno assuma a sua cidadania se tornando sujeito da própria história? Nas salas de aula, se reservam espaços de participação no processo de construção do conhecimento? Paulo Freire enfatizava que

“[...] uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos, em suas relações uns com os outros e todos com o educador ou a educadora, ensinam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos” (FREIRE, 1997, p.18).

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Para Freire, a escola deve educar para a cidadania; assim, ela deve viabilizar, na formação de adultos por exemplo, conteúdos e metodologias que os tornem capazes de enfrentar a vida, competir no mercado de trabalho, serem criativos, inovadores, e capazes de resolver problemas. Portanto, a Escola Cidadã é uma escola coerente com a liberdade.

Para se atingir esse objetivo, é necessário quebrar paradigmas, sair do modelo ensino-aprendizagem passivo, no qual ensinar é falar e aprender é ouvir; sair da posição de transmissão do conhecimento. O ensino baseado na solução de problemas pressupõe promover nos alunos o domínio de procedimentos, portanto de uso dos conhecimentos disponíveis para dar respostas a situações variáveis e diferentes (ECHEVERRÍA & POZO, 1998, p. 09).

Quando se ensina através da resolução de problemas, oportuniza-se ao aluno desenvolver sua capacidade de aprender a aprender, habituando-o a buscar por si próprio respostas às questões que o inquietam — sejam situações da vida cotidiana sejam questões escolares — ao invés de esperar uma resposta já pronta dada pelo professor ou pelo livro-texto.

Entretanto, ensinar para resolver problemas não é criar nos alunos habilidades e estratégias eficazes para determinadas situações, mas “[...] desenvolver no aluno o hábito e a atitude de enfrentar a aprendizagem como um problema para o qual deve ser encontrada uma resposta” (ECHEVERRÍA & POZO, 1998, p. 1 4).

Portanto, não se deve apenas ensinar a resolver problemas, mas incentivar o aluno a também propor situações-problema, partindo da realidade que o cerca. Deve-se estimular o hábito da problematização, a busca de respostas a seus próprios questionamentos e indagações, oportunizando-lhe situações como forma de aprender.

É importante a participação do aluno na diversificação de situações-problema, pois, certamente, o que é resolvido muito rapidamente por alguns pode ser desconhecido para outros. Metodologicamente, o problema poderá ser uma situação diferente daquela já trabalhada em sala de aula, então serão necessárias novas técnicas e estratégias já aprendidas para a sua solução do problema.

E como definir a técnica e estratégia a serem aplicadas? É preciso identificar como uma determinada situação é considerada um problema. Para tal deve-se promover um processo de reflexão, de tomada de decisão quanto ao caminho a ser seguido para sua resolução, no contexto em que atitudes automáticas não trazem a solução imediatamente. Assim, quando a prática proporcionar a solução direta e imediata na solução de um problema, seja ele pessoal ou escolar, deve-se tomar cuidado para não aplicar uma solução rotineira, e a tarefa servirá, simplesmente, para exercitar habilidades já adquiridas (ECHEVERRÍA & POZO, 1998, p. 17).

Certamente, a resolução de problemas proporciona uma grande motivação ao aluno, pois envolve situações novas e diferentes atitudes e conhecimentos.

jovem_mulher_apontando_fmtO papel do professor

O professor, ao adotar a metodologia da resolução de problemas, terá papel de facilitador, incentivador, mediador das ideias apresentadas pelos alunos, levando-os a pensar, de modo que as respostas sejam produtivas e, assim, eles construam seus próprios conhecimentos. Deve-se criar um ambiente de busca, de cooperação, de descoberta e de exploração. O mais importante é o processo, e não o tempo gasto para resolvê-lo ou a resposta final.

É fundamental que, ao ser dado um problema para ser resolvido, permita-se ao aluno a leitura e compreensão do mesmo e que se proporcione a discussão (verbalização) e, assim, incentivem-se novas ideias com novos questionamentos e hipóteses. Após a determinação da solução do problema, devem-se discutir os diferentes caminhos de resolução, incentivando soluções variadas, discutindo as errôneas. É importante que se estimule também a verificação.

Segundo Dante (1988) é fundamental que sejam apresentadas diferentes estratégias para a resolução de problemas, de modo que o aluno possa diversificar a sua ação. É necessário utilizar a tentativa e o erro de modo organizado; procurar padrões ou generalizações; resolver antes um problema mais simples; reduzir a unidade e fazer o caminho inverso.

Certamente, para que o aluno se sinta interessado pela atividade é necessário evitar longas listas de problemas, pois repetições são cansativas e podem ser frustrantes. Assim, apresentar poucos problemas com graduação de dificuldade e aplicação de diferentes estratégias irá manter o aluno motivado. Alto grau de dificuldade poderá causar a sensação de fracasso. A linguagem também é fator importante; ela deve ser simples, evitando a não compreensão do problema, e também permitir o uso de materiais concretos. O professor deve evitar valorizar não somente a resposta, mas todo o processo para determiná-la.

Na técnica de resolução de problemas é importante incentivar as descobertas do aluno, e estabelecer uma diversidade de estratégias utilizadas, permitindo assim a exposição de dificuldades, a análise e verificação da solução. É importante que o professor oportunize a criação de novos problemas e a identificação do erro e, assim, através dele, compreenda melhor o que deve ser feito. Sendo assim, o docente deve propor situações-problema que possibilitem a produção do conhecimento, em que o aluno participará ativamente compartilhando resultados, analisando reflexões e respostas; enfim, oportunizando o aprender a aprender e o aprender a pensar.

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Considerações finais

A formação de cidadãos resolvedores de problemas não é simples, e ao professor cabe despertar no aluno a vontade de buscar seu próprio crescimento e a necessidade de aprender a pensar.

Ser professor nesse contexto é um desafio porque as competências podem ser adquiridas na vida acadêmica, aprendidas em livros, absorvidas até mesmo do cotidiano; porém, as habilidades necessárias para desempenhar a técnica didática de resolver problemas são características que nem todos conseguem desenvolver. É preciso saber problematizar, desequilibrar cognitivamente o aluno para que se provoque a vontade de saber.

A atuação do professor deve objetivar a formação para a liberdade, buscar o desenvolvimento das potencialidades dos alunos para que se tornem indivíduos capazes, cidadãos conscientes e singulares. Para tal, deve estabelecer uma práxis pedagógica reflexiva, como forma de estimular o sentido de uma escola mais ativa, mais moderna, mais aberta, mais igualitária.

Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Pós-Doutora em Educação); Pós-Doutoranda em Psicologia; Doutoranda em Psicologia Social; Mestre em Ciências da Linguagem; Professora Universitária dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação; Coordenadora dos Cursos de Pós-Graduação em Educação; Psicopedagoga Clínica e Institucional; Analista em Gestão Educacional; Pedagoga. Autora de Projetos em Educação; Autora da implantação de uma Clínica – Escola de Psicopedagogia como Projeto Social. Autora de livros: Neuropedagogia e Psicopatologias; Psicoeducação; Neuropsicologia.

Endereço eletrônico: rosangela.nieto@gmail.com.

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