Edição 108

Matéria Âncora

O professor encanta pelo seu encanto: o sabor e as delícias da docência

Rosangela Nieto de Albuquerque

A escola é o primeiro passo da criança para o desenvolvimento das relações primárias. Lá, ela sozinha, sem os pais, começa a desenvolver a sua autonomia, a consciência sobre as escolhas, a capacidade de discernimento e as relações sociais. Na escola, a criança constrói elos afetivos que vão além da aprendizagem. E o professor é peça-chave no seu desenvolvimento e na sua formação crítica e social.

O professor é um referencial importantíssimo na vida da criança e do adolescente, é visto como um líder que conduz ao desenvolvimento da sua autoestima e autorrealização. Segundo Maturana e Varella (1992), existe uma relação simbiótica entre professor e aluno, na qual as “células” se nutrem e se alimentam de ideias, criatividade, confiança, respeito e carinho.

Esse alimento está permeado pela doçura do professor, que está comprometido com a valorização da vida e do viver, com a ética e os valores pessoais e profissionais e com a cidadania. Certamente, nessa dinâmica dialógica, ensinante e aprendente tecem laços fraternos com sabores variados de amor.

Professor tem o privilégio de transformar vidas e é um verdadeiro multiplicador de sonhos. O exercício laboral docente marca, de forma positiva, a vida dos aprendentes, e a escolha de ser professor vai nutrir com doçura e encantamento a vida dos estudantes.

O encanto do exercício da profissão docente nos remete a uma reflexão sobre a subjetividade do sujeito-professor e sobre os grandes desafios e entraves vivenciados no processo educativo. Em um cenário educacional complexo e muitas vezes desolador para os professores, talvez seja mais fácil falar dos desencantos e das dificuldades do que das delícias da profissão.

Ser professor é como fazer um doce de brigadeiro; é experimentar os sabores e as delícias do fazer educativo. Então, coloque, numa panela, leite condensado, chocolate e muitas pitadas de amor, hum! É inexplicável a arte do fazer, e indescritível o sabor da doçura do professor. Que criança não gosta de um brigadeiro? A identidade do professor permeia ações de cidadania, a vida em coletividade e a busca do bem-estar social.

Atualmente, os estudos apontam a evasão na escolha da profissão docente devido aos grandes desafios enfrentados no sistema de ensino no Brasil, especialmente nos últimos trinta anos. A escolha profissional docente tem diminuído ao longo dos anos: o jovem (em torno dos 18 anos), no momento da sua escolha profissional, reflete sobre a prática docente, seus encantos e desencantos, e repensa os fatores extra e intraescolares. Segundo Bühler (apud BOHOSLAVSKY, 1977, p. 44), “A vinculação dos indivíduos às ocupações passa, evolutivamente, por cinco etapas”. Na primeira delas, que se estende até por volta dos 14 ou 15 anos, “[...] predominam, sucessivamente, as fantasias, os interesses, as capacidades”. De acordo com o autor, nessa fase o estudante ainda não consegue dimensionar o propósito da profissão.18

No que se refere à escolha profissional, é importante levar em consideração o contexto econômico, social, histórico e cultural da sociedade, que, certamente, incide na vida dos sujeitos e se relaciona com o mundo do trabalho. Para Bohoslavsky (1977, p. 53), “A escolha sempre se relaciona com os outros (reais ou imaginados). O futuro nunca é pensado abstratamente, nunca se pensa numa carreira despersonificada”.

A escolha profissional é também construída pela personalização familiar. Era comum ter filhos que seguem a profissão dos pais. Na atualidade, devido às transformações biopsicossociais, o panorama das profissões também está se modificando; profissões novas emergem e outras estão desaparecendo. As opções de escolha profissional se ampliaram, e verifica-se que a docência tem sido desprestigiada, talvez pela pouca valorização social, pelas condições de trabalho, pela falta de incentivo da sociedade, pelos baixos salários ou, até mesmo, por influência da família. Observa-se que a falta de incentivo quanto à profissão docente é reforçada diariamente pela mídia, que enfatiza a baixa qualidade do ensino, a violência nas escolas e a desvalorização de um modo geral.

Desse modo, é importante refletir sobre a característica vocacional desse sujeito que escolhe a profissão docente. Ele traz em seu eu uma vocação humanista, apresenta em sua constituição valores e princípios éticos, pois, estará construindo sujeitos cidadãos, transformando vidas e a sociedade como um todo. Certamente, estarão forjando a esperança de dias melhores, que tudo pode mudar, transformando família e sociedade. Ser professor não é somente o fazer laboral, é experimentar as delícias e o sabor da construção de um sujeito cidadão e de uma sociedade mais justa.

Nesse contexto, está a delícia do papel decisivo do professor, que pode resgatar sonhos, ensinar cidadania, incluir e integrar, ensinar honradez, estimular a coragem e a determinação, oportunizar sonhos… Podemos dizer que talvez seja o sabor de um “doce surpresa de uva” quando se diz para uma criança ou jovem: “Você pode mais”, “Você é capaz”, “Eu acredito em você” ou quando o professor aproveita uma situação de conflito ou de preconceito na aula para falar sobre respeito. Hum! Neste momento é que se experimenta o sabor da construção, da transformação… É nessas horas que se forma um cidadão melhor.

Ao professor, é cobrado bem mais do que estar numa sala de aula, exigem-se, além do preparo técnico e teórico, boa didática, estudos constantes (formação continuada) e títulos acadêmicos, uma postura austera e um perfil de encantamento, pois ele é uma referência para os aprendentes.

Muito se discute sobre a temática da formação do professor, tanto no Brasil quanto em outros países. Desde os anos 1980, o movimento vem ocorrendo em todo o mundo, período em que se começou a discutir sobre a identidade do professor e a práxis pedagógica (NÓVOA, 1994). Esses estudos têm contribuído para fazer eclodir o nível de insatisfação dos professores, portanto, é fundamental ter um olhar cuidadoso sobre a questão docente e, claro, após reflexões e estudos, tentar modificar esse panorama.

Para Rubem Alves, há uma distinção entre professor e educador: “Professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda uma vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança” (apud FERACINE 1998, p. 50).

As pesquisas sobre o percurso profissional do professor apresentam resultados bem menos satisfatórios do que imaginamos; eles mostram um percentual considerável sobre as dificuldades e entraves para se exercer a docência. Considerando que vivenciamos um período de transformações biopsicossociais e que toda transição requer ajustes e adaptações, é mister que haja mudança também no perfil do docente.

Jung (2011b) enfatiza a questão da vocação do professor. O autor remete ao modelo educacional que responde ao sistema, como um modelo de convenção, como se o professor estivesse designado a, com um destino, uma vocação (que, às vezes, é entendida como missão). Atualmente, ao professor solicita respostas a si mesmo, às famílias e ao mercado.

Observa-se, então, o que Jung chama de “autorregulação do organismo vivo”. Apesar das exigências, o professor tem mostrado superação no desempenho de sua função, transitando de uma postura apenas técnica para uma proposta valorativa e transformadora do desenvolvimento humano.

A escola é parte de uma engrenagem bem mais complexa. Quando não é transformadora, ela acaba reproduzindo as desigualdades, acentuando os abismos e a exclusão.

O professor é o profissional capaz de promover mais justiça social. Ele não desiste do futuro, pois está sempre formando novas gerações. Essa virtude não pode se esvaecer, não podemos deixar sucumbir o fazer do professor, como disse Rui Barbosa: “De tanto ver injustiças, a pessoa chega a desanimar da virtude” (apud ESTEVE, 1992). No encanto, na doçura da profissão docente, reside a esperança de que, no instante despretensioso do hoje, começam as mudanças para o amanhã. Acredito que a educação pode mudar pessoas, mudar relações sociais e tornar o mundo mais justo.

Considerações Finais

A história da humanidade e os processos civilizatórios humanos foram sendo tecidos através da estrutura dialógica entre a dualidade da escuridão e da luz, e essa dinâmica coloca em movimento o ser humano e a história.

Chegamos ao século XXI com muitas transformações, com grandes conquistas e desenvolvimento humano, mas também com muitas frustrações, dores e desencantos. Atualmente, a fragilização das instituições, a fragmentação do estado de bem-estar social e o colapso da educação nos remetem a novas configurações da família, das relações sociais e do sujeito.

O reflexo do exercício da docência certamente emerge de fatores pessoais e estruturais e nos faz lembrar dos estudos junguianos quanto ao projeto de designação, isto é, ele remete a um procedimento de educação permanente da personalidade, portanto, um processo envolvente do coração. A personalidade do professor irá contribuir para uma formação com a práxis pedagógica encantadora.

Esse momento histórico e social reverbera principalmente na vida e na profissão docente. Este que educa com emoção e afeto e que busca dar sentido não somente a sua vida, mas à vida do aprendente — constrói com sabor as delícias da esperança, da possibilidade de realizar sonhos e um mundo melhor.

Para o professor, é um desafio desenvolver nos alunos as dimensões fundamentais do indivíduo e do cidadão nos contextos escolar, familiar e social. A figura do professor, o ser-em-si do professor, é fundamental para a construção de sonhos e esperanças de uma educação de qualidade, de inclusão e de justiça social.

A educação, em sentido amplo, forma e transforma os indivíduos, é encantadora, transforma sonhos em realidade — transforma sonhos em vida.

 

Rosangela Nieto de Albuquerque é ph.D. em Educação (Untref), pós-doutoranda em Psicologia (Universidad John F. Kennedy), Doutora em Psicologia Social (Universidad John F. Kennedy), Mestre em Ciências da Linguagem, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, licenciada em Letras (Português/Espanhol), consultora ad hoc do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), professora dos cursos de graduação e pós-graduação, coordenadora do curso de Pedagogia, autora e organizadora de dez livros.

Referências (Bibliografia utilizada e consultada)

ARENDT, Hannah. A condição humana. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999.

BAUMAN, Sygmunt. A ética é possível num mundo de consumidores? Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

BOHOSLAVSKY, R. Orientação vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

BOURDIEU, P. A ilusão biográfica. In: AMADO, J.; FERREIRA, M. M. (Coord.). Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1996. p. 183-191.

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FERACINE, L. O professor como agente de mudança social. São Paulo: Martins Fontes,1990.

ESTEVE, J. M. O mal-estar docente. Lisboa: Escher/Fim de Século, 1992.

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JUNG, Carl Gustav. Aspectos do drama contemporâneo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2011a.

______. O eu e o inconsciente. 23. ed. Petrópolis: Vozes, 2011b.

______. Presente e futuro. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2011c.

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______. Psicologia do inconsciente. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2011e.

______. O desenvolvimento da personalidade. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

MATURANA R., Humberto; VARELA, Francisco J. Autopoiesi e cognizione: la realizzazione del vivente. 3. ed. Venezia: Marsilio, 1992. 205 p.

NÓVOA, A.; FINGER, M. (Orgs.). O método (auto) biográfico e a formação. Lisboa: Ministério da Saúde, 1988.

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