Edição 94

Profissionalismo

O psicopedagogo e o ensino de Ciências

Mendonça Filho JR

crianca_professor_sa_optNo ensino de Ciências, analisar e refletir são de suma importância, pois se está trabalhando com seres humanos, que sentem, desejam, aprendem e possuem histórias de vida e bagagem cultural e socioeconômica diferente umas das outras. Refletir é colocar o pensamento diante de si mesmo, tal qual uma pessoa diante do seu espelho. O ato de reflexão leva aos detalhes do próprio pensamento, aos porquês que permitem reconhecê-los como seu efetivamente e, finalmente, dizer se combina com o seu pensar ou se é simplesmente repetidor de discursos e teorias sobre as quais não se tem domínio e certeza.

Não ser repetidor de teorias, e sim construtor do seu próprio conhecimento e mediador na construção de um novo conhecimento por parte dos alunos é o que faz com que os educadores estejam preparados para a prática pedagógica. Nessas mudanças constantes pelas quais o mundo vem passando, a escola e os alunos não ficaram para trás. Para Libâneo (1998, p. 7), a escola é:

[...]aquela que assegura a todos a formação cultural e científica para a vida pessoal, profissional e cidadã, possibilitando uma relação autônoma, crítica e construtiva com a cultura em suas várias manifestações: a cultura promovida pela ciência, pela técnica, pela estética, pela ética, bem como pela cultura paralela (meios de comunicação) e pela cultura cotidiana.

Logo, a escola necessita estar conectada com as ciências e a tecnologia, o que é fundamental no ensino de Ciências. Mas sabe-se que não é isso que acontece em muitas escolas. Algumas ainda são repetidoras de ideologias, não respeitam a individualidade e o ritmo dos alunos, ainda não perceberam que as turmas não são homogêneas e que os educadores não são os donos do saber, e sim mediadores da aprendizagem, da construção de conhecimento. De acordo com Freire (1996, p. 23):

… nas condições de verdadeira aprendizagem, os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. Só assim podemos falar realmente de saber ensinado, em que o objeto ensinado é aprendido na sua razão de ser, é aprendido pelos educandos.
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Assim, a forma de trabalho do educador influencia na aprendizagem. Este deve oportunizar aulas significativas, interessantes, incorporando as tecnologias existentes como ferramentas e instrumentos para favorecer o ensino-aprendizagem. Utilizar-se das novidades e informações trazidas pelos alunos para modificar e contribuir com o tema e os conteúdos proporciona aulas mais dinâmicas e interligadas com a realidade, despertando o interesse em aprender e coletar novidades para o cotidiano escolar. Propostas elaboradas dessa forma só favorecem as práticas dos educadores. Dessa forma, o professor estará colaborando para que seus alunos possam solucionar problemas do presente e do futuro. Sabe-se que nem sempre é dessa forma que acontece o ensino nas instituições escolares, que se tornam para muitos alunos um local em que seus medos, angústias, problemas e dificuldades de aprendizagem se manifestam. Surge, nesse cenário, a psicopedagogia, que tem:

[...]por objetivo compreender, estudar e pesquisar a aprendizagem nos aspectos relacionados com o desenvolvimento e/ou problemas de aprendizagem. A aprendizagem é entendida aqui como decorrente de uma construção, de um processo que implica em questionamentos, hipóteses, reformulações, enfim, implica um dinamismo. A psicopedagogia tem como meta compreender a complexidade dos múltiplos fatores envolvidos nesse processo (Rubinstein apud Sisto, 1996, p. 127).

Portanto, a psicopedagogia vem colaborar com todos aqueles que têm dificuldades de aprendizagem, que reprovam, que não conseguem acompanhar os seus colegas e que muitas vezes são “deixados” para trás no processo de aprendizagem. A insatisfação e a inquietação dos profissionais que trabalham com as dificuldades de aprendizagem fizeram com que surgisse a psicopedagogia, permitindo que diversas áreas do conhecimento, como Psicologia Cognitiva, Psicanálise, Sociologia, Linguística, Antropologia, Filosofia, entre outras, viessem a colaborar com esses alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem. Rubinstein, apud Sisto (1996, p.128), coloca que:

O psicopedagogo é como um detetive que busca pistas, procurando selecioná-las, pois algumas podem ser falsas, outras irrelevantes, mas a sua meta fundamentalmente é investigar todo o processo de aprendizagem, levando em consideração a totalidade dos fatores nele envolvidos, para, valendo-se dessa investigação, entender a construção da dificuldade de aprendizagem.

É nessa investigação que o psicopedagogo necessita estar livre de qualquer influência prévia e pré-conceito, estar livre de qualquer sentimento, olhar e principalmente saber selecionar tudo o que ouve e enxerga para poder intervir, colaborar e elaborar planos de trabalho com os envolvidos no processo educativo.

A não aprendizagem na escola é uma das causas do fracasso escolar. A psicopedagogia atua no estudo do processo de aprendizagem, diagnóstico e tratamento de seus obstáculos. O psicopedagogo torna-se responsável por detectar e tratar possíveis empecilhos no processo de aprendizagem em instituições ou clínicas. A psicopedagogia na instituição escolar surgiu:

[...]como uma necessidade de compreender os problemas de aprendizagem, refletindo sobre as questões relacionadas ao desenvolvimento cognitivo, psicomotor e afetivo, implícitas nas situações de aprendizagem (Fagali, 2008, p. 9).

Nessa visão psicopedagógica, o aluno é visto de forma global: o seu cognitivo, o motor (movimento, psicomotrocidade) e o lado afetivo são trabalhados e analisados. Na instituição escolar, o trabalho psicopedagógico possui duas naturezas: a primeira diz respeito a uma psicopedagogia curativa voltada para grupos de alunos que apresentam dificuldades na escola… O seu objetivo é reintegrar e readaptar o aluno à situação de sala de aula, possibilitando o respeito às suas necessidades e ritmos. O segundo tipo de trabalho refere-se à assessoria junto a pedagogos, orientadores e professores. Tem como objetivo trabalhar as questões pertinentes às relações vinculares professor-aluno e redefinir os procedimentos pedagógicos integrando o afetivo e o cognitivo, através da aprendizagem dos conceitos nas diferentes áreas do conhecimento (Fagali, 2008, p. 9-10).

Sabe-se por meio dos estudos de Fernandes (1990) que os desejos tanto do ensinante quanto do aprendente influenciam na aprendizagem. Dessa forma, poder trabalhar com os alunos e os professores e poder perceber os laços que os unem ou os afastam, seus métodos, suas metodologias, o não aprender do aluno e o não conseguir ensinar por parte do professor são objeto de trabalho do psicopedagogo, tanto no trabalho curativo como na assessoria. O psicopedagogo, intervindo na escola, de acordo com Monereo (2000), pode conseguir que a escola potencialize ao máximo a capacidade de ensinar dos professores e a de aprender dos alunos, possibilitando que o envolvimento de todos seja favorável para a aprendizagem. De acordo com Fagali (2008, p. 11), podem-se destacar diferentes formas de intervenção da psicopedagogia:

- Releitura e reelaboração do desenvolvimento das programações curriculares, centrando a atenção na articulação dos aspectos afetivo-cognitivos, conforme o desenvolvimento integrado da criança e do adolescente.

- A análise mais detalhada dos conceitos, desenvolvendo atividades que ampliem as diferentes formas de trabalhar o conteúdo programático. Nesse processo, busca-se uma integração dos interesses, raciocínio e informações, de forma que o aluno atue operativamente nos diferentes níveis de escolaridade. Complementam a esta prática o treinamento e desenvolvimento de projetos junto dos profissionais.

- Criações de materiais, textos e livros para o uso do próprio aluno, desenvolvendo o seu raciocínio, construindo o conhecimento, integrando afeto e cognição no diálogo com as informações.

O psicopedagogo também favorece e auxilia aqueles indivíduos que se sentem impedidos para o saber; auxilia indivíduos com transtornos de aprendizagem; reintegra o sujeito da aprendizagem a uma vida escolar e social tranquila, bem como a uma relação mais afetiva consigo e com o outro; leva o indivíduo ao reconhecimento de suas potencialidades; auxilia o indivíduo no reconhecimento dos limites e a como interagir diante deles; e ajuda a ressignificar conceitos que influenciam o indivíduo no movimento do aprender.

Oferecer instrumentos de compreensão da situação de não aprendizagem de cada aluno em particular; levantar dados referentes ao contexto de ensino-aprendizagem da escola; desenvolver ações com toda a comunidade escolar, identificando as principais barreiras à aprendizagem e à busca de como superá-las, são funções
do psicopedagogo.
Logo, a psicopedagogia precisa estar livre de qualquer interferência externa para poder realizar o seu trabalho de forma clara, sem conceitos pré-estabelecidos, poder olhar sem a influência de outros olhares, que muitas vezes querem e desejam esconder algo de si mesmo e dos outros, procurando se isentar de suas responsabilidades. Weis (1999, p. 27) reforça que:

Todo diagnóstico psicopedagógico é, em si, uma investigação, é uma pesquisa do que não vai bem com o sujeito em relação a uma conduta esperada. Será, portanto, o esclarecimento de uma queixa, do próprio sujeito, da família e, na maioria das vezes, da escola. No caso, trata-se do não aprender, do aprender com dificuldade ou lentamente, do não revelar o que aprendeu, do fugir de situações de possíveis aprendizagens.

Dessa forma, fica visível que muitos dos envolvidos no processo educativo preferem ocultar os verdadeiros problemas de aprendizagem que podem ou não estar neles, mas também podem estar nas mais diversas maneiras e formas de ensinar. Portanto, o psicopedagogo institucional atua na instituição escolar juntamente aos discentes, docentes e aos demais atores desse processo, que é tão complexo para alguns e tão fácil para outros, mas que ganha, com a atuação do psicopedagogo, um forte aliado para proporcionar a solução dos problemas e das dificuldades encontradas pelos alunos e tornar, de alguma forma, o ensino de Ciências significativo e prazeroso para eles também.
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O ensino de Ciências chama a atenção das crianças, pois desperta a sua curiosidade e aborda assuntos relacionados ao seu cotidiano, como saúde, corpo humano, animais e plantas. Há um grande interesse e envolvimento dos alunos quando o professor utiliza a experimentação em suas aulas, favorecendo o processo educativo. O que acontece na sociedade nas áreas econômica, política, social, cultural, tecnológica, ética e moral interfere na educação e, consequentemente, na escola. Esta precisa considerar todas as práticas e as relações, tanto diretas quanto indiretas, e os problemas que delas surgem na comunidade escolar e no local em que ela presta serviço e que decorrem dessas interferências.

As escolas existem para agir no mundo, na sociedade e na História; o seu papel se torna decisivo na vida das pessoas. A maior parte da nossa vida é passada dentro das escolas, e ela influencia, interfere, interage dentro dessa organização que chamamos de educação. Para muitas pessoas, essa convivência escolar é prazerosa, mas para muitos é dolorosa, pois encontram dificuldade para aprender. Às vezes não são compreendidos, são rotulados e deixados para trás no processo da aprendizagem, mas o que muitas vezes eles necessitam é de um olhar diferente, alguém que perceba seus problemas, que deixe de lado os pré-conceitos e os rótulos que lhes deram no decorrer da sua vida escolar.

Partindo dessa perspectiva de colaboração, o psicopedagogo institucional trabalha com as dificuldades nas explorações metodológicas no ensino de Ciências, atuando nas condições de aprendizagem que ocorrem externa e internamente. A escola, tendo como suporte a intervenção psicopedagógica, pode oferecer novos ângulos e abordagens de trabalho científico, potencializando as capacidades dos alunos, elaborando estratégias de ensino em conjunto aos professores, oferecendo assim uma proposta interdisciplinar. Portanto, com o trabalho do psicopedagogo torna-se mais real a possibilidade do acolhimento no ensino de Ciências, da descoberta, das práticas, dos métodos, do entender-se e compreender-se como sujeito que pode e que tem direito de aprender, de adequar-se e ser inserido na escola de forma atuante.

Referências

FAGALI, Eloisa Quadros. Psicopedagogia institucional aplicada: aprendizagem escolar dinâmica e construção na sala de aula\Eloisa Quadros Fagali e Zélia Del Rio do Vale. Ilustrações de Francisco Forlenza’ 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

SISTO, Fermino Fernandes; (et al). Atuação psicopedagógica e aprendizagem escolar. Petrópolis: Vozes, 1906.

FRACALANZA, Hilário. O Ensino de Ciências no Primeiro Grau. São Paulo: Atual, 1986.

FREIRE, Paulo. A psicopedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 16. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

LIBÂNEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora? Novas exigências profissionais e profissão docente. São Paulo: Cortes, 1990.

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