Edição 61

A fala do mestre...

O que deixaremos para as gerações futuras?

Nildo Lage

Eu, o homem, filho do Criador, portador de uma identidade única diante do Pai, livre de coação e qualquer induzimento, deixo o presente testamento para os meus herdeiros: as próximas gerações. E, por ser dependente do Ser Maior, temo a Sua justiça, pois estou colocando em xeque a minha própria existência por pensar que posso consumir e destruir irresponsavelmente.

Em segundo plano, desejo a felicidade das gerações futuras. E muito me preocupa o estado dos bens que deixarei, pois, desde o início dos tempos, tudo que fiz foi corroer dia a dia o que recebi.

Primeiro: Recebi um paraíso que estou transformando num inferno e, por temer não deixar absolutamente nada para as gerações futuras, declaro neste testamento todos os frutos dos seis dias de trabalho do Criador, que me foram dados como herança — patrimônio edificado cuidadosamente para que tudo que eu necessitasse para ter uma vida tranquila, abundante de valores, vitórias e felicidade, estivesse ao meu alcance.

Decepcionei o Pai desde a primeira geração, pois permiti que se erguesse uma barreira que me separa d’Ele: a autossuficiência. E, por ter tanta liberdade, transformei-me em predador, que, de geração em geração, foi multiplicando, evoluindo e destruindo… Destruindo e reduzindo o espaço da vida… Colocando em xeque o meu futuro…

Fui tão estúpido que não percebi que tinha tudo para viver bem e eternamente, mas cedi às tentações do mundo e hoje tenho um amanhã incerto. Escolhi trilhar caminhos opostos, e hoje me resta muito pouco… Muito pouco mesmo… Por isso, corra para receber a sua herança. Se não, bocas vorazes abocanharão o que ainda resta.

Segundo: Deixo aos meus descendentes todo o patrimônio que recebi. Esse tesouro abrange a área que compõe o Jardim do Éden, concebido exclusivamente para que eu e as minhas gerações pudéssemos viver perpetuamente em harmonia com o Pai; esse Pai que, mesmo consciente de que eu me corromperia, não poupou amor, bênçãos, nem abriu mão do cuidado e está sempre atento para me dar o livramento.

Na era em que a ciência se antecede ao tempo para prever catástrofes, recauchuta a vida para resgatar encantos, refaz o destino para apagar marcas, a tecnologia reescreve a história na tentativa de chegar a um final feliz, precipito o futuro, mas não consigo mudar o meu presente e faço pairar no ar uma pergunta que muito me inquieta: O que deixaremos para as gerações futuras?

Poucos se aventuram a responder. Alguns chegam a dar ideias, mas não se identificam com receio de ser mais uma vítima: “Fala-se tanto da necessidade de deixarmos um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores para o nosso planeta”.

Muitos encaram essa trajetória como se estivessem em temporadas de festas e se divertem brincando com a própria casa, sem refletir sobre o que os aguarda no soar das trombetas. E, mesmo diante de tantas tragédias, não se comovem e usam esse patrimônio como um brinquedinho de fontes renováveis. Fazem tudo que sentem vontade e ainda encontram alguém para brincar: “Cansei deste planeta, quero voltar para casa” (Anita Haze). Quando se enfastiam de brincar, há sempre um artista para dedilhar uma canção:

Vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos e, pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto e passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas, passado, presente, participo sendo o mistério do planeta (Novos Baianos).

E não deixam nada que possa servir de referência aos que virão atrás deles.

É nesse instante que o sentimento de culpa decreta a sentença e os condena, e eles se arrependem ao apreciar depoimentos que são provas cabais do crime:

Planeta Terra, se estiver me ouvindo, quero pedir desculpas por todos nós, um dia eu juro que voltarei e vou fazer tudo diferente, ao invés de inimigos, criarei amigos, ao invés de discórdias, criarei irmandades, e ao invés de espalhar lixo, espalharei a vida (Gabriel Fontinelle).

São exatamente essas atitudes insensatas que estão nos levando ao fim. Não sei o que fazer e espero que outros façam. Só que esses outros têm menos preocupação e apreciam a destruição achando graça:

O planeta Terra existe há, no mínimo, 5 bilhões de anos, e há gente que ainda espera que o “mundo” acabe. Não é falta de fé, eu acredito em Deus também, mas acho engraçado as nossas esperanças serem sempre depositadas em destruições em massa (Paulo Lutzoff).

Em meio ao motim, desponta uma minoria com pensamentos diferentes, mas que não fazem a diferença: “O planeta Terra não vai se acabar, mas está sujeito às transformações das leis naturais que governam o Universo” (Ademar Marques Marinho).

Admito a minha ruína… Sou um péssimo administrador. Erro cada vez que volto a atenção para os objetivos pessoais e esqueço-me do semelhante — que é pessoa como eu, que sonha, luta, sofre, ambiciona ser feliz e, apesar de trilhar caminhos diferentes e ter sonhos diferentes, necessita do oxigênio das matas que devasto, da água dos rios que contamino, de um mundo justo para educar os filhos sem fome, violência e desamores.

Esses alertas chegam a incomodar a ponto de me obrigarem a reconhecer que não cuido do futuro do planeta como deveria e, o pior, destruo valores, assolo princípios e deixo de fazer o mais importante, que é semear o amor, para que os meus entes herdem um mundo de paz. Afinal, sou mortal e necessito de um planeta preservado para que as gerações futuras possam viver e não ter que pagar um preço tão alto para existirem.

Nesse ecossistema, as ações dos herdeiros serão fundamentais para a ostentação da vida: valores, princípios, tradições que fortalecem a base da família devem ser edificados para fortalecer uma sociedade de cidadãos coerentes, para que não aconteça o que precavido o antropologista, escritor científico, ecologista e poeta estadunidense mais temia: “Não temo nossa extinção. O que realmente temo e receio é que o ser humano arruíne o planeta antes da sua partida” (Loren Eiseley).

Mesmo diante de tantos dramas que abalam nações, destroem vidas, não se desperta para a realidade de que a saída tem nome: sustentabilidade. Essa opção, se posta em prática, pode amenizar o clima, reduzir os tremores e suavizar os fenômenos naturais que vêm abalando o planeta nas últimas décadas.

Mas não consigo produzir sem matar, crescer sem agredir, mesmo consciente de que essas ações predatórias estão colocando em xeque o meu futuro e o das próximas gerações, por não discernir que o espaço entre o passado e o futuro é uma distância tão curta, que o presente já me inquieta, salientando resultados dramáticos se não houver mudança de hábitos.

E olha que um dos nossos disse outro dia:

O maior desafio, tanto no nosso século quanto nos próximos, é salvar o planeta da destruição. Isso vai exigir uma mudança nos próprios fundamentos da civilização moderna — o relacionamento dos seres humanos com a natureza (Mikhail Gorbachev).

Mesmo assim, o sonho é interrompido a cada amanhecer, despertado pelo toque estridente do desenvolvimento… A mola mestra que impulsiona o mundo — esse tal capitalismo — prenuncia que a humanidade não pode parar, pois o planeta tem metas econômicas, políticas e sociais a serem atingidas.

Em meio a crises, tragédias e colapsos, muitos chegam a dar a receita como Oito jeitos de mudar o mundo: acabar com a fome e a miséria; garantir Educação Básica de qualidade para todos; promover a igualdade entre os sexos e a valorização da mulher; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde da gestante; combater a Aids, a malária e outras doenças; garantir qualidade de vida através do respeito ao meio ambiente. Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento…

Esses ingredientes formam um prato atraente ante a ótica dos chefs governantes que têm uma técnica de preparo instantâneo. Alguns desses pratos chegam a ir ao forno da Câmara e do Senado, mas jamais chegam à minha mesa… Mas não posso reclamar: voto errado, negociando os meus direitos de cidadão por uma cesta básica, um saco de cimento, e sufoco o meu grito de “basta” com um copo de cerveja no boteco da esquina, permitindo que outros falem e ajam por mim, usufruam dos meus direitos, ou melhor: faço tudo errado.

O descaso é tamanho que chego a gastar bilhões à procura de vestígios de vida e água em outros planetas, mas contenho gestos simples, como tratamento do esgoto e canalização do lixo para evitar a poluição dos lençóis freáticos; diminuição dos desmatamentos para refrear o ameaçador aquecimento global; e impedimento, com muito menos, da contaminação de rios e mares para preservar um mineral indispensável à minha vida: a água.

Terceiro: Mudanças de atitudes… Um ato necessário…
Por viverem num país carente, principalmente de um Plano Nacional de Educação que preencha as necessidades de uma clientela que não perde tempo para refletir sobre atos e atitudes, provocando choques de comportamento e conflitos de valores e ideias entre a Geração Z — os considerados “filhos da tecnologia” — e a Geração Y — a admirável da história humana —, desequilibrando as estruturas familiares e intensificando a carência de integridade social, o que beneficia a inexistência de justiça, os meus herdeiros — em caráter de emergência — terão como compromisso imediato reconstruir o que destruí.

Esses conflitos explicam um dos grandes problemas enfrentados na escola: o relacionamento professor-
-aluno, pois a língua da modernidade, na maioria das vezes, não é entendida pela pós-modernidade, e esse “bilinguismo” dificulta a comunicação no espaço educacional, fazendo com que Educação e comunicação sigam por caminhos distintos.

Suprir essas necessidades sem agredir está sendo uma missão quase impossível, pois é preciso gerar mecanismos para aliviar as tensões que fazem as classes A e B consumirem desordenadamente. Esse apetite compulsivo transforma-se num instrumento que asfixia a razão, impedindo-me de vislumbrar a necessidade de consumir menos como garantia de viver melhor, só que não admito que o meu presente está inteiramente agregado ao futuro do mundo. A família, que no passado era a base do homem, a âncora da sociedade, simplesmente se transformou num aglomerado de pessoas que às vezes chega a se amar, mas não se respeita, não se entende e abre mão do papel de integrador da paz. A violência doméstica vem transformando minha espécie em monstros que agridem e matam.

Foi a partir desse ponto que se iniciou a minha falência: perdi parte do patrimônio ao consentir o esfacelamento de valores familiares, princípios religiosos e regras sociais, quando lancei no vazio a oportunidade de construir um mundo melhor.

Essa crise me levou a perder as ações mais importantes da minha herança, e sem direito de pedir concordata: a liberdade, que perdeu o seu valor no mercado social, pois a vilã evolução humana roubou direitos, obrigações, e me vi impelido a submeter-me a uma vida de escravo numa sociedade sórdida e desbriada.

Nessa prisão sem grades, sem princípios e leis definidas, submeto-me às regras impostas para me encaixar nos padrões sociais. E essa sujeição levou outra parcela da minha herança: a verdade, que ressalta os maiores valores do homem, o seu caráter.

Já à beira da falência, surpreendi-me com a capacidade de ruir as estruturas da própria existência… E o pior: sem nenhuma preocupação com a vida. Se o meu maior bem — a existência — não me preocupa, certamente essa breve passagem será uma trajetória de corrosão. Por isso, consumirei o máximo que puder, pois tenho absoluta certeza de que os que me sucederão farão o mesmo. Dessa forma, estou fazendo a minha parte, transformando meu patrimônio numa cadeia alimentar. A fome é tão colossal que consigo extinguir várias espécies nas minhas refeições diárias e ameaçar outras tantas e, na sobremesa, devorar deveres, obrigações e valores…

Como previu Oscar Wilde, “Hoje em dia, sabe-se o preço de tudo e o valor de nada”, por nunca se preocupar em saber o valor de uma vida — que muitas vezes retorna ao pó sem conhecer o viver plenamente —, de um sonho asfixiado pelas injustiças, do dinheiro que é desviado por baixo da mesa ou escoado para os paraísos fiscais, recheando as cuecas da corrupção e que poderia ter tido outro destino e salvar vidas.

No entanto, a culpa não é só minha. E, apesar de ter “parido Mateus”, “tô nem aí” para esses manés que defendem as causas globais com a vã esperança de edificar um mundo melhor para as novas gerações… Sou de uma linhagem que acredita que, nessa passagem, mesmo sendo uma trajetória de tragédias e extinções, as minhas atitudes não mudarão o pensamento da maioria.

Mas, no fundo, asfixio os meus temores e tenho consciência de que, se esse modelo econômico não for reformulado para gerar meios de explorar as fontes renováveis, as gerações vindouras terão que reciclar os próprios resíduos para ostentarem a existência. Se não se resgatar a juventude de hoje para formar adultos melhores, seus filhos darão o golpe de misericórdia naqueles que tentaram e fracassaram.

Apesar de ter ciência das minhas falhas, das coisas que deixo de fazer para melhorar e das que faço para piorar, gosto de ver o circo pegar fogo e retiro as pilhas do despertador para não abrir os olhos dos desunidos para a responsabilidade de cuidar do planeta, que não é dever apenas dos órgãos ambientais. Cuidar do planeta é regar a própria vida para que ela não seja mais uma vítima das minhas ações. Desde o início dos tempos, não me contento em consumir apenas para me saciar, tenho que comer o do outro e, para isso, preciso ir além para deixar a marca da minha passagem.

A situação chegou a um estágio preocupante e exige ações conjuntas para reparar as individuais que colocaram a vida à beira de um abismo sem fim… Se a minha geração não originar essa estrutura para fazer funcionar as engrenagens da sustentabilidade, poucos chegarão ao Armagedon.

O fato não é mistério para ninguém, já se tornou corriqueiro. Se não reprimirmos o asfixiamento do sentimento mais nobre do humano — o amor pelo outro, que aproxima as pessoas através dos laços afetivos — e refrearmos a onda de violência que está assolando lares e valores como confiança, reciprocidade, amizade, respeito e lealdade, não sobreviveremos.

E vou logo avisando para não me chamarem de pessimista: não sobrará nada, nem mesmo a esperança. No ritmo em que avanço com a destruição, já me vislumbro no juízo por estar no centro de episódios inusitados, como violência urbana, guerras, tragédias ambientais, secas, enchentes, fome, tsunamis… E assumo com todas as letras: nego o acionamento do dispositivo da razão para despertar a consciência de que o planeta, mesmo com suas inúmeras fontes renováveis, depende de proteção, cuidados, atenção especial, respeito pela vida para não interromper o seu curso de procriação, principalmente na área ambiental, para evitar extinções e não enfrentar um colapso de alimento e água.

Como ainda existe uma fagulha de bondade em mim, vou deixar um conselho aos meus sucessores: se não educarem a nova geração para consumir apenas o suficiente e a máquina humana não for contida a tempo, o próximo asteroide que provocará extinção em massa será aquele que foi criado para viver eternamente no paraíso: o próprio homem. Homem que evoluiu de tal maneira que ultrapassou as barreiras da Terra, os limites do espaço, mas não consegue conter a caminhada que ultrapassa os obstáculos da vida para proteger a própria vida.

Quarto: Mas, cá entre nós, o que vamos herdar desse mundão de meu Deus com tanta destruição? Já não passou da hora de parar?

Bem, se eu prosseguir com o avanço irracional do progresso, ultrapassando valores, sentimentos, pessoas, o que deixarei para as gerações futuras? Com certeza, um planeta povoado por homens mecanizados: sem amor, emoção ou respeito e movidos a energia solar, cuja bateria não acumulará força o suficiente para recolocá-los no ponto de partida e corrigirem os erros… E, sem espaço para contornarem, prosseguirão num mundo de seres de peles ressequidas que carregarão o oxigênio nas costas… Pois não haverá árvores… E terão que reciclar a própria urina, para aprimorar o sistema Saco de Osmose — em experimento pela Nasa — devido à inexistência de água.

Só não dou o primeiro passo por ter ciência de que esse desafio vai além de resgatar áreas degradadas. As ações executadas neste século serão as vigas de sustentação do futuro do planeta, e uma das primeiras medidas a serem tomadas é determinar regras para o relacionamento homem-natureza, para, assim, a vida superar a destruição e voltar a imperar. Mas, como já estou no meio do caminho, passo a bola aos que virão depois de mim.

Estou fora dessa guerra, mesmo sabendo a importância da Educação para transformar conhecimento em valores, formar cidadãos responsáveis e conscientes do seu papel. Papel que deve ser exercido com atitudes que integrem consumo ao meio ambiente, ressaltem valores, trabalhem princípios e fortifiquem o amor.

Por mais que eu tente, reflita, sonhe, não acredito que a humanidade ainda tenha jeito. Já enveredei pelas trilhas do fim, iludindo-me de que avanço para o futuro — e que futuro! Um futuro com crianças sem limites; adolescentes se atirando no abismo das drogas, da prostituição; jovens depressivos; adultos que ambicionam apenas vitórias pessoais no seio de uma sociedade de famílias que se desfalecem por proporcionar a ruína das próprias estruturas… Tudo que eu fizer, de nada adiantará.

Para quem está desatualizado, essa inversão de denodos provocou a maior tragédia no planeta família, cujos valores se desgastaram. Tudo que resta são aparências, enganos, traições, trapaças e uma sobrecarga de desenganos que provoca a dispersão de compromissos e responsabilidades. Cada um edifica o próprio universo e ignora o outro, prenunciando, num sussurro vibrante, que a era do amor, do carinho, da reciprocidade está chegando ao fim, e todos tentam ser “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”, desvirtuando as palavras de Jesus Cristo. E é exatamente por pensar em só me dar bem que destruo, ultrapasso o outro para ocupar o seu espaço.

Por isso, declaro livremente que nunca parei para refletir sobre a real felicidade por acreditar que viver sem limites é tudo… Sabe por quê? Porque a felicidade determina requisitos essenciais, como justiça para imperar a verdade; amor para reinar a liberdade; igualdade e paz para se descansar com segurança.

Não me detenha. Preciso prosseguir me desviando desses propósitos e serei mais um mestre que deixará uma legião de seguidores para continuar destruindo o resto, pois aumentarão a opressão entre os povos, a injustiça entre os homens, os desequilíbrios que lançarão todos numa arena de guerras, tragédias, impelindo o mundo em mais uma crise econômica em sua história. Assim, não deixarei para as gerações futuras a herança mais valiosa: a paz. Paz entre as nações, na sociedade, no seio da família, que é templo que emana valores, para que a vida humana seja valorizada, respeitada e se dê um basta na violência, que nas últimas décadas é responsável pelo desfalecimento das estruturas familiares, nas quais pais, filhos, esposas, irmãos se atacam, se defendem, se autodestroem, sem conseguir proteger a vida, resguardar o amor e respeitar o humano.

Mas vou torcer para que surja alguém que dê um “já chega” e trace metas sustentáveis para que a Educação possa formar cidadãos responsáveis e conscientes, edifique as bases da família e fortaleça a fé. Pois não há fenômeno sem uma origem causadora, e, como maior predador, estou deixando a última gota de essência humana, da compreensão, da noção de respeito, do teor dos valores familiares e religiosos como referência.

Esse quase nada é tudo que ainda me resta, é a minha sujeição. Desisto de lutar por um mundo melhor, alimento apenas a esperança, esperança de que um dia as leis sejam cumpridas para que o maior ato entre os homens seja feito: justiça. Esperança de que essa justiça transforme os humanos para termos pessoas melhores, uma sociedade melhor, um mundo melhor. Esperança de que, nesse mundo, eu e você sejamos nós para vivermos harmonicamente, sem destruição e extinção. E de que os ecos do planeta não sejam de explosões e mortes, mas que tragam como melodia “um mundo sem guerras, violências, epidemias, tragédias ambientais, onde impera o amor e reina a paz”.

Só não devo esquecer que não tenho poder para reconstruir a vida. Do pó fui criado e para ele hei de voltar. Afinal, a Terra sempre se reconstruirá até o final dos tempos. Eu é que não posso ter uma oportunidade para recomeçar e reconstruir princípios e valores para acompanhar a evolução de um mundo que avança a passos largos exigindo que a sociedade se organize na mesma velocidade.

E deixo um questionamento: O que deixarei para as gerações futuras? Tento ser otimista. Não consigo. Sou humano e, como humano, fui e sempre serei assim: uma raça sem jeito. Não adianta traçar metas, propósitos, se os que passaram sempre olharam para o próprio umbigo. Não posso ser diferente, muito menos fazer a diferença. O máximo que posso deixar é a fragrância do amor num pequeno frasco, insights de convivência, lampejos de consciência, caixas e mais caixas de sede de poder para abastecer os baús da ambição, uma overdose de falsa ideia de que faço o bem e, desde que assumi o controle absoluto dos meios de comunicação, ofereço um entretenimento vazio e barato. Afinal, trago a cobiça e o descaso no DNA.

Sem mais nada a declarar aos meus herdeiros, desejo, do fundo do meu coração, que tenham sucesso na desafiante missão de descascarem o abacaxi. Porque ainda terão duas saídas: reconstruir o patrimônio, esquecendo quem foi mocinho ou bandido, ou sentar à espera do fim. Por isso, é bom seguir um conselho dos mais prudentes: “O segredo é não correr atrás das borboletas, é cuidar do jardim para que elas venham até você” (Mario Quintana).

cubos