Edição 71

Matérias Especiais

O que eu aprendo na escola me serve pra quê? Tudo é relativo!

Rosangela Nieto de Albuquerque

bg_laranjaO homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas é também o pior de todos quando afastado da lei e da justiça. Logo, quando destituído de qualidades morais, o homem é o mais impiedoso e selvagem dos animais e o pior em relação ao sexo e à gula. Aristóteles – Política – 1252 b

O que o aluno aprende na escola tem significado? Tudo é relativo… O relativismo é um ponto de vista oposto à ideia absoluta, ao etnocentrismo, que considera apenas um ponto de vista em detrimento dos demais. Em Educação, o relativismo é considerado um termo filosófico que se baseia na relatividade do conhecimento e repudia qualquer verdade ou valor absoluto, isto é, todo ponto de vista é válido. Assim, o que é realmente significativo no ensino? O que os alunos acham relevante na aprendizagem? Certamente, os alunos questionam os conteúdos, o currículo e os conceitos engessados, sem articulações com o contexto da realidade… E pra que serve tudo isso, afinal?

Nosso novo infinito… o mundo para nós tornou-se novamente infinito no sentido de que não podemos negar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações. Nietzsche, na obra A Gaia Ciência

Relativismo educacional

É verdade que as reflexões acerca do que se aprende na escola são efetivamente importantes para o desenvolvimento integral do aluno. Nesse contexto, observa-se o questionamento acerca do relativismo educacional. O que é realmente significativo para o aluno? Certamente, essa é uma reflexão com viés de relativismo educacional.

Os estudiosos e pensadores da Filosofia Moderna enfatizam que o relativismo pauta-se numa verdade objetiva, porém não absoluta. Para Max Weber, nos estudos sobre epistemologia, o relativismo nas ciências da cultura diz que a ciência busca a verdade, e, para os que querem a verdade, por mais dicotômica que seja, ela sempre será verdadeira enquanto não for refutada.

Assim também fundamenta-se o relativismo cognitivo, que não consiste apenas em afirmar a verdade, pois toda crença é relativa a princípios e padrões de um sistema de regras de evidência, que é também relativa. Enfim, não se pode dizer que é paradoxal a questão do relativismo – no sentido de ser mantido por uns, e não por outros –, pois justamente esse é o ponto de aceitar ou não todas as opiniões dos outros como sendo verdadeiras.

Se a interpretação nunca se pode completar, é porque simplesmente não há nada a interpretar… pois, no fundo, tudo já é interpretação. Michel Foucault

É importante enfatizar que o relativismo é uma questão de análise, síntese, ponto de vista e interpretação. Para Nietzsche, o mundo admite uma pluralidade de interpretações, portanto o que o ser tem por essência é uma infinidade de pontos de vista, e emerge num antropocentrismo em que o conhecimento só depende do homem, da possibilidade de hipotetizar, discernir, analisar, e a Educação tem papel fundamental no desenvolvimento do sujeito. É papel da escola, no que tange à práxis pedagógica, transformar esse sujeito.

O que eu aprendo na escola me serve pra quê? Tudo é relativo…!

O maior questionamento dos alunos na escola baseia-se em “Pra que serve o que estou estudando”, “Onde usarei essas informações e aprendizagens?”. Os conteúdos abordados e a importância da sua aplicabilidade para a vida tornam-se relativos, pois o aluno busca relacionar como essa aprendizagem será utilizada na vida adulta, como sujeito e profissional. Articular o significado da aprendizagem às perspectivas do aluno, à realidade em que está inserido ainda é um desafio para a escola. Certamente, a aprendizagem é muito mais significativa à medida que o novo conteúdo é incorporado às estruturas de conhecimento, adquirindo assim um significado relacionado ao seu conhecimento prévio. Quando a aprendizagem não está articulada à realidade e à expectativa de vida do aluno, ela se torna mecânica ou repetitiva, pois se produziu menos essa incorporação e atribuição de significado, assim o novo conteúdo passa a ser armazenado isoladamente ou através de associações arbitrárias na estrutura cognitiva.

O professor, que em sala de aula exerce a função de instruir, de proporcionar ao aluno conhecimentos e competências predefinidas, engessadas, certamente no decorrer de suas atividades diárias, explícita ou implicitamente, enfrentará um problema de justificativa. Por que ensinar tal assunto? O outro em vez daquele? É preciso ensinar algo que tenha sentido, significado, isso quer dizer que é necessário um ensino possível, com reconhecimento e articulações semióticas. Para aqueles que querem aprender, é necessária uma legitimidade, uma validade, um valor próprio naquilo que é ensinado. Ensinar e aprender se efetiva a partir da pressuposição de seu próprio valor. Certamente isso não se refere a uma apologia ao absolutismo e ao dogmatismo. O ensino de qualidade rompe estradas para o espírito crítico, para a imprevisibilidade da busca e da reflexão, para a dúvida metódica, para o relativismo educacional. O argumento relativista não é novo, “O homem é a medida de todas as coisas”, enfatiza Protágoras; quer dizer que não existe um princípio individual e único que possa servir de critério intelectual ou moral.

Sylverarts_95297665_optEm nosso contexto contemporâneo, o argumento relativista pode tomar diversas formas e diversos caminhos, podemos ser relativistas por hipersubjetivismo (afirmando que toda verdade é uma construção ou uma conversão) ou por hiper-objetivismo (afirmando que toda representação e todo julgamento são somente o reflexo mecânico das características materiais e sociais da situação na qual nos encontramos). Considerando o relativismo do ponto de vista educacional, observa-se a questão do currículo, que perpassa pelo relativismo epistemológico e pelo relativismo cultural.

O relativismo epistemológico na escola diz respeito à questão dos conteúdos de ensino considerados como conteúdos do saber. Não são somente saberes no sentido estrito, são também elementos simbólicos, atitudes morais e sociais, valores estéticos, referenciais de civilização. Assim, a questão de determinar o que vale a pena ser ensinado ultrapassa a questão do valor da verdade dos conhecimentos incorporados nos programas. Portanto, a questão diz respeito ao processo cognitivo ancorado também ao valor dos elementos culturais, sobre os quais recai hoje a contraposição relativista de modo mais direto.

Para haver aprendizagem significativa são necessárias duas condições. Primeiramente, o aluno precisa ter disposição para aprender, e a escola deve buscar uma práxis pedagógica que incite essa preparação. Se o indivíduo quiser memorizar o conteúdo arbitrária e literalmente, então a aprendizagem será mecânica. Posteriormente, o conteúdo escolar a ser aprendido deve ser potencialmente significativo, ou seja, tem que ser lógica e psicologicamente significativo. O significado lógico depende somente da natureza do conteúdo, e o significado psicológico é a experiência que cada indivíduo tem.

Na escola, quando o aluno processa a nova informação, esta interage com a estrutura de conhecimento específico, isto é, o que Ausubel chama de conceito subsunçor, buscando ligá-la a algo já conhecido ou simbolicamente percebido. Entretanto, se o conteúdo escolar a ser aprendido não consegue ligar-se a algo já conhecido, ocorre o que Ausubel chama de aprendizagem mecânica, isto é, quando as novas informações são aprendidas sem interagir com conceitos relevantes existentes na estrutura cognitiva. Nesse momento, o aluno questiona: “Isso me serve pra quê?”.

Quando a aprendizagem significativa acontece, ocorre um processo de modificação do conhecimento e uma importante modificação nos processos mentais, em vez de mudança de comportamento em um sentido externo e observável. Os estudos de Ausubel baseiam-se na reflexão específica sobre a aprendizagem escolar e o ensino, em contraposição à aprendizagem escolar pautada nos moldes de conceitos ou princípios explicativos e engessados.

No contexto do relativismo educacional e do significado da aprendizagem para o educando, Ausubel enfatiza que cada aprendiz seleciona (filtra) os conteúdos que têm significado ou não para si próprio, e, nesse duplo marco de referência, ocorre a organização cognitiva interna pautada em conhecimentos de caráter conceitual. Esse processo complexo depende muito mais das relações (articulações) que esses conceitos estabelecem em si que do número de conceitos estabelecidos. Na verdade, essas relações têm um caráter hierárquico, de maneira que a estrutura cognitiva é compreendida, fundamentalmente, como uma rede de conexões.

Para Wittgenstein, sempre vão existir duas posições impossíveis de se ocupar: o lugar da própria coisa que pretendemos conhecer e o lugar sensível do “conhecedor”.

Vemos por intermédio do olho, mas o olho é aquilo que não vemos. Wittgenstein

Considerações finais

Reconhecendo a escola como um lugar de circulação de saberes e culturas, é relevante abrir espaço para os conhecimentos, valores e possibilidades para um posicionamento crítico.

Nesse sentido, de um modo especial os educadores devem reinventar a prática educativa, cuja incorporação da diversidade, das diferenças e a pluralidade dos grupos culturais permeiam a construção de uma educação multi/intercultural crítica. Para que a escola não proporcione ao aluno a insegurança do “O que eu aprendo na escola me serve pra quê?”, é necessário criar oportunidades para fazer circular um diálogo com diferentes conhecimentos produzidos pelos diversos grupos, isto é, valorizar as várias culturas de referência, sem verdades absolutas. Assim, o professor tem a função de proporcionar o “aprender a aprender” e desenvolver competências para atender as demandas da prática. É importante enfatizar que, nesse relativismo educacional, o professor reflexivo é um facilitador, um incentivador do processo pedagógico e desempenha a função de facilitar a construção de conhecimentos do aluno, numa aprendizagem significativa. O professor nessa postura perde seu estatuto de sujeito que age intencionalmente, de dirigente no processo de ensino, e interventor com prévia ideação de ação; perde também seu estatuto de mediador entre a criança e o conhecimento; e desenvolve o seu próprio “aprender a aprender”. Essa concepção relativista da Educação colabora para a desintelectualização do professor e supervaloriza a prática, considerada em si mesma; constrói-se, assim, uma sólida formação no diálogo entre teoria e prática.

Rosangela Nieto de Albuquerque é professora universitária, pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional, gestora em Educação, Mestre em Educação, Mestre em Ciências da Linguagem, Doutora em Educação e pós-doutoranda em Educação.

Referências bibliográficas

MOREIRA, Marco Antonio; MASINI, Elcie F. Salzano. Aprendizagem Significativa: a Teoria de David Ausubel. São Paulo: Moraes, 1982.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 1995.

CANDAU, V. M. O Currículo entre o Relativismo e o Universalismo: Dialogando com Jean-Claude Forquin. Educação & Sociedade. Cedes, Campinas, n. 73, p. 79–83, dez. 2000.

MINGUET, P. A. (Org.) A Construção do Conhecimento na Educação. Porto Alegre: Artmed, 1998.

MORAN, José Manuel. Mudanças na Comunicação Pessoal: Gerenciamento Integrado da Comunicação Pessoal, Social e Tecnológica. São Paulo: Paulinas, 1998.

MOREIRA, Marco Antonio. Aprendizagem Significativa. Brasília: Ed. da UnB, 1998.

NOVAK, J. D.; GOWIN, D. B. Teoria y Práctica de la Educación. 1988.

PIAGET, Jean. O Diálogo com a Criança e o Desenvolvimento do Raciocínio. São Paulo: Scipione, 1997.

PIERCE, Charles Sanders. Semiótica. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.

SALVADOR, Cesar Colle et al. Psicologia do Ensino. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

NIETZSCHE, F. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

WITTGENSTEIN, L. Cadernos: 1914–1916. Lisboa: Edições 70, 2004.

cubos