Edição 56

Professor Construir

O que faz um equipamento ser didático

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Educador: como você sabe, é indiscutível o papel do material didático como recurso incentivador da aprendizagem, uma vez que as mensagens que o estudante recebe por meio dele não são somente verbais, mas também abarcam sons, cores, formas, sensações.

Só pela sua presença, os materiais didáticos já cumprem a função de estabelecer contato na comunicação entre professor e aluno, alterando a monotonia das aulas exclusivamente verbais. Esses materiais ainda podem substituir, na maioria das vezes, a simples memorização, contribuindo para o desenvolvimento de operações de análise e síntese, generalização e abstração a partir de elementos concretos.

Dessa forma, ampliam o campo de experiência do estudante ao fazê-lo defrontar-se com elementos que, de outro modo, permaneceriam distantes no tempo e no espaço.

Há uma gama de equipamentos didáticos, em grande parte recursos audiovisuais, que foram pensados e construídos para atender às diversas disciplinas em todas as modalidades de ensino. Mas há casos, e não são poucos, em que equipamentos não convencionais ou não pensados, em sua origem, para fins pedagógicos tornam-se didáticos.

Leia o relato a seguir e conheça um bom exemplo de como isso acontece.

A flor

“Quando era pequena, estudava numa sala… parada. Espera, não quero dizer, com isso, que as salas de aula deveriam sair por aí passeando. Mas bem que elas poderiam dar uma sacudidinha de vez em quando e mudar o visual para chamar a nossa atenção, certo? Mas não. Era proibido mexer naquela sala. Parecia que qualquer modificação iria prejudicar o nosso aprendizado. As paredes eram brancas e deviam estar sempre branquinhas, falavam. As carteiras eram fixas, grudadas no chão. Tudo era imóvel. Olha, nem me lembro da sala, ninguém nem olhava para os lados. Afinal, para quê? Era sempre igual…

img-1712-02Um dia, um dos meninos da classe trouxe uma flor de presente para a professora. Uma rosa cor-de-rosa. Não lembro o motivo, se era Dia do Professor, aniversário dela ou se ele só quis agradar. Só recordo que ele apareceu na sala de aula, eufórico, com a flor na mão.

— Professora! Trouxe um presente!

A professora era muito falante, extrovertida e espalhafatosa. Fez a maior encenação, com cara de surpresa. ‘Mas que beleeeza! Coisa liiinda!’. Depois pediu uns minutinhos e saiu da sala com a flor na mão. Quando voltou, estava sem a flor.

— Ué? — o menino levantou a mão, intrigado — Professora, cadê a flor que eu dei pra senhora?

— Ah! — ela disse, sorrindo — Coloquei num vaso, lá na sala dos professores, para não ‘atrapalhar’ a aula — e encerrou o assunto, categórica — Obrigada, viu?

[...]

Uma simples rosa cor-de-rosa… atrapalha a aula? De onde ela tirou isso? Gente, a flor era um presente, um ato de carinho do aluno. E, segundo ela mesma, ‘linda’. Será que, por isso, desorganiza o espaço?

Pergunto: pode uma coisa dessas?”

CARVALHO, Lúcia. Livro do Diretor: Espaços & Pessoas. São Paulo: Cedac/MEC, 2002.

Esse pequeno relato faz parte da memória dos tempos de escola de uma educadora, mas poderia fazer parte da história de muitos de nós, não é mesmo? Quem já não viveu experiência semelhante, quando um elemento alheio aos objetivos de uma aula chamou mais a atenção que a própria aula, e a professora ou o professor o ignorou só para continuar as atividades que havia planejado? Pois bem, esse texto nos auxilia a fazer uma série de reflexões.

Veja que a professora, ao tirar a flor da sala — para não “atrapalhar” a aula —, não observou que a rosa poderia, ao contrário, “ser” a própria aula. Uma aula de biologia, ecologia, meio ambiente, reprodução das plantas, plantio, abelhas, mel, fotossíntese, decoração, arborização e mais um milhão de coisas! Além disso, a permanência da flor na classe poderia ajudar na fixação desses conhecimentos. Talvez, assim, fosse possível reparar um pouco mais na sala de aula, já que era tão monótona… Mas a professora, da mesma forma que não reparou na flor, também não reparava na sala de aula, que continuava parada, igual.

Perceba, então, que uma das principais funções do material didático é, também, dinamizar a aula, aguçando a curiosidade do aluno e despertando sua atenção para o que vai ser tratado naquele momento. Claro que seu uso precisa ser planejado, bem-elaborado, preparado com antecedência.

Porém, como determinam as boas práticas didáticas, o planejamento das aulas pode — e deve — resultar em atividades flexíveis, no sentido de atender às demandas concretas dos alunos, fazendo uma ponte com os componentes curriculares, ainda que não previstos para aquele momento. Se analisarmos bem, veremos que é exatamente esse o caso da rosa.

E, assim como ela, vários são os elementos, os objetos presentes no nosso cotidiano que podem se transformar em ótimos recursos didáticos. Nos cursos de mecânica de automóveis, por exemplo, geralmente, durante as aulas expositivas, as peças de motores de carros vão sendo apresentadas, montadas e desmontadas para que o aluno consiga fazer as relações necessárias entre o que está sendo ensinado e o que precisa ser aprendido, entre teoria e prática, para que esse processo seja eficaz no desenvolvimento das habilidades básicas, essenciais à formação de um mecânico competente.

Nessa mesma linha de raciocínio, vários utensílios podem, dependendo dos objetivos da aula, tornar-se materiais didáticos. Uma aula sobre alimentação saudável, por exemplo, pode ser realizada, se não diretamente na cozinha, utilizando-se equipamentos próprios, incluindo, além de vasilhas e talheres, medidores de líquido e balança. O preparo de receitas saudáveis e alternativas, além de mudar os hábitos alimentares dos alunos, pode colocá-los em contato com os conhecimentos sobre medidas de capacidade (litro, mililitro) e de massa (quilo, grama), entre outros. Nesse caso, os utensílios de cozinha e os instrumentos de medição revestem-se de um caráter iminentemente didático, uma vez que atuam como mediadores das construções necessárias à aquisição daqueles conhecimentos.

Em seu ambiente de trabalho, há muitos instrumentos e ferramentas de uso voltados à manutenção e à conservação da infraestrutura escolar (equipamentos de limpeza, marcenaria, capina, etc.). Verifique quais deles poderiam ser utilizados pelos estudantes em uma atividade de educação ambiental, visando à economia de recursos naturais ou à preservação das áreas verdes da escola, por exemplo. Selecione o tema e os materiais a eles relacionados. Descreva de que forma poderiam ser empregados a fim de exercerem funções didáticas.

Principais recursos didáticos utilizados na Educação brasileira

Historicamente, no Brasil, as sucessivas reformas educacionais incluem materiais didáticos inovadores como exigência de novas filosofias e/ou metodologias de ensino que agreguem aos conceitos didáticos e pedagógicos a reformulação da prática docente. Em geral, tal reformulação prevê a adoção de novas técnicas, às quais se relacionam novos materiais e equipamentos.

Mas o que se tem, na verdade, são tentativas, de cima para baixo, e muitas vezes frustradas, de modernizar os processos sem levar em conta todos os elementos envolvidos. Talvez esse tenha sido um dos principais fatores que colaboraram para a subutilização dos recursos disponíveis nas escolas, na comunidade, na natureza. A produção de materiais e equipamentos didáticos deriva antes dos interesses dos fabricantes e dos fornecedores do que da necessidade dos educadores e dos educandos.

É, de certa forma, compreensível que tal coisa aconteça, pois já vivemos a experiência cotidiana em que a imposição impera em lugar das práticas democráticas e dialógicas. Dessa maneira, os resultados tendem a atingir padrões aquém das expectativas.

Em relação à Educação, a contextualização não apenas do currículo, mas, sobretudo, das estratégias a serem adotadas é cada vez mais necessária, tendo em vista o respeito às diferenças socioculturais e às demandas específicas de cada grupo que ocupa o espaço educacional.

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Outro aspecto importante confirmado pelas práticas escolares é a introdução de um recurso didático — por mais desenvolvido tecnologicamente que seja, em qualquer época — não apresentar resultados instantâneos e automáticos nem no ensino nem na aprendizagem. Nesse sentido, apenas uma aplicação sistemática, ordenada, com ações bem planejadas, objetivos bem-definidos e respeito ao contexto educacional local podem promover, a médio prazo, as mudanças que os materiais e equipamentos didáticos têm em potencial.

Há de se levar em conta a participação dos diversos segmentos da comunidade escolar na construção das propostas pedagógicas, bem como na seleção das ferramentas adequadas às intervenções. Nesse caso, vale lembrar o papel fundamental que você, funcionário da escola, deve exercer a partir não somente da vivência como educador, mas também dos conhecimentos específicos adquiridos, que lhe conferem habilidades de técnico e gestor nesses processos.

Esses conhecimentos novos devem garantir sua efetiva participação, sobretudo no planejamento, no uso, na manutenção e na conservação dos equipamentos didáticos adequados para cada fim, a partir do planejamento das atividades pedagógicas elaboradas pelos professores, se possível em conjunto com você e com os outros técnicos da escola.

Para tanto, um conhecimento um pouco mais aprofundado sobre os materiais e equipamentos didáticos atualmente em uso nas nossas escolas é essencial. Veja, no quadro a seguir, a lista de recursos didáticos mais conhecidos no Brasil:

Álbum Seriado
Cartazes
Computador
Desenhos
Diorama
Discos
DVDs
Episcópio
Filmes
Data-show
Flanelógrafo
Fôlderes
Gráficos
Gravador
Gravuras
Televisão
Textos
Transparências
Varal Didático

História em Quadrinhos
Ilustrações
Jornais
Letreiros
Livros
Mapas
Maquetes
Mimeógrafo
Modelos
Mural
Museus
Quadro Magnético
Quadro de Giz
Reália
Retroprojetor
Slides
Revistas
Videocassete
Aparelho de DVD

Esses materiais e equipamentos são mais conhecidos por serem mais universais, ou seja, podem ser utilizados em todos os componentes curriculares e em todas as modalidades do ensino, além de terem um custo relativamente baixo. Alguns deles serão estudados mais detalhadamente.

Há, ainda, materiais específicos para etapas e modalidades de ensino específico, como é o caso dos equipamentos para creches e pré-escolas, para as diferentes idades e matérias dos ensinos Fundamental e Médio, para a educação profissional e para os portadores de necessidades educacionais especiais.

Aqui, você conheceu uma lista de materiais e equipamentos. Com base nas informações nela contidas, realize, na escola em que você trabalha, uma pesquisa sobre os materiais e equipamentos existentes. Relacione-os e verifique se estão identificados na lista daqueles mais populares e aponte a qual grupo de classificação cada um pertence.

Aponte, ainda, quais equipamentos relacionados no quadro — e não existentes na sua escola — você considera de extrema importância para a mediação do ensino-aprendizagem. Justifique sua escolha. Registre em seu memorial.

FREITAS, Olga. Equipamentos e Materiais Didáticos. Brasília: Universidade de Brasília, 2007.

Fonte: Maria Rosângela Mello – CRTE Telêmaco Borea.

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