Edição 33

Matérias Especiais

O que os pais fazem é importante

Aja de maneira consciente.

oq_pais_fazem1Aposto que vocês, pais, já pensaram muito sobre o que gostariam que seus filhos se tornassem, mas, provavelmente, não dedicaram o mesmo tempo para pensar no que deveriam estar fazendo para que isso, de fato, venha a acontecer.

Você quer, por exemplo, que sua filha de 10 anos se saia bem na escola, mas talvez não tenha noção do que deve fazer para que ela obtenha sucesso nos estudos. Ou talvez você deseje que seu filho caçula conviva bem com as outras crianças, mas não sabe o que fazer para que isso aconteça. Você quer que seus filhos sejam intelectualmente curiosos, mas não tem a menor idéia de como deveria proceder para estimulá-los nessa direção.

O objetivo deste artigo é colaborar com os pais em sua função de criar os filhos, transmitindo-lhes informações e orientações provenientes de milhares de pesquisas que, aplicadas na prática, produziram excelentes resultados.

No entanto, antes de abordar temas específicos, quero estabelecer a diferença entre uma mãe e um pai conscienciosos e aqueles que simplesmente seguem modismos e reagem ao que os filhos fazem. Quando falo em mãe e pai “conscienciosos”, estou me referindo àqueles que agem conscientemente e obtêm os resultados que, de fato, buscavam, e não resultados que aconteceram apenas por acaso.

Digo sempre aos pais: esforcem-se para ser conscienciosos.

oq_pais_fazem3Os atos conscienciosos podem perfeitamente ser espontâneos, sinceros ou naturais. Ter uma atuação conscienciosa não significa angustiar-se a cada decisão tomada ou analisar a fundo cada um dos seus comportamentos com seus filhos a ponto de paralisar-se. O que quero dizer é que a maneira como os pais tratam seus filhos e reagem a eles deveria ser o resultado de um conhecimento maior e de um raciocínio inteligente e sensato sobre o que pretendem conseguir. Exercer a função de mãe ou de pai é algo que deve ser feito com amor e entusiasmo, mas que requer preparo. É incrível constatar que, para exercer qualquer profissão, estudamos e nos preparamos durante anos e, no entanto, exercemos a mais preciosa das profissões — criar filhos — na base do improviso ou do que aprendemos com nossos pais. Acabamos, muitas vezes, reproduzindo comportamentos de que nos queixamos e que nos deixaram marcas dolorosas.

Em geral, os pais se encontram em uma destas três situações:

1 A primeira é aquela em que eles têm bastante tempo para pensar no que querem fazer, antes de agir. É o melhor momento para serem conscienciosos. Talvez você esteja escolhendo entre vários jardins-de-infância para sua filha de quatro anos, talvez esteja pensando se obriga seu filho adolescente a continuar com as aulas de piano, embora ele já tenha dito que quer parar. Você pode estar se perguntado se sua filha já tem idade suficiente para sair com as amigas à noite ou se seu filho adolescente já é suficientemente responsável para pegar um emprego de meio expediente durante o ano letivo. Você pode estar tentando decidir como responder ao pedido de uma mesada semanal, de permissão para colocar um piercing ou para comprar uma roupa de grife que lhe parece totalmente desnecessária.

Em todos esses exemplos, você deveria aproveitar a oportunidade para, de fato, refletir antes de tomar uma decisão. Pergunte-se: como será que a minha atitude afetará meus filhos? Os pais conscienciosos — aqueles que, antes de agir, realmente refletem sobre o que desejam conseguir — poderão analisar mais profundamente o problema e até pedir orientação ou discutir com outros pais para, então, decidir, com mais segurança, o que é melhor para a vida de seus filhos. Assim, a decisão não corre o risco de ser impulsiva.

2 A segunda situação é aquela em que os pais precisam reagir na hora, sem muito tempo para pensar antes de responder ou agir. Sua filha de dois anos recusa-se a comer o que lhe foi servido no jantar. Seu filho de seis anos foi suspenso pela segunda vez da escola. Sua filha de doze anos telefona para o seu trabalho e pergunta se, depois da aula, ela e uma amiga podem ir ao shopping de ônibus. Seu filho adolescente chega em casa de uma festa e conta que os outros jovens estavam bebendo. Nessas ocasiões, é impossível dizer: “Será que posso lhe dar uma resposta amanhã?”. Mas você pode pensar uns segundos antes de responder e, quanto mais informações tiver, mais fácil será a reação.

Nesses tipos de situação, pais conscienciosos conseguirão não reagir impulsivamente (“Coma tudo o que estiver no seu prato, senão você não vai comer sobremesa”; “Se for suspenso mais uma vez, não viajará conosco nas férias”; “Não, você ainda é muito criança para andar sozinha”; “Você está proibido de se encontrar com esse pessoal outra vez”). Pais conscienciosos poderão analisar a situação e reagir de acordo com os princípios que vamos discutir neste texto.

3 O terceiro tipo de situação é aquela em que os pais não têm tempo para pensar, e a única opção é seguir os próprios impulsos. Seu bebê está esperneando e gritando na seção de congelados do supermercado. Seu filho de sete anos está prestes a estrangular o irmão de cinco. Seu filho de nove anos está tão ansioso com a ida para a colônia de férias que não consegue se vestir, embora o ônibus vá chegar a qualquer minuto. Você se levanta no meio da noite para pegar um copo de água e sente cheiro de maconha vindo do quarto de seu filho adolescente.

Nessas situações, pais conscienciosos reagiriam impulsivamente, mas, com toda a probabilidade, seus instintos estariam corretos, porque já conhecem os princípios básicos e os vêm empregando muitas vezes. A aplicação freqüente desses princípios cria uma sabedoria que permite que ajam de forma adequada em situações críticas.

Os superatletas apresentam um bom desempenho porque treinaram muito. Da mesma forma, as pessoas que realmente assimilaram as regras básicas para serem bons pais são capazes de agir da melhor maneira, mesmo quando não têm tempo para encontrar uma resposta lógica.

Quanto mais você se esforçar para, deliberadamente, praticar os princípios, mais instintivo será o seu desempenho. Por isso é importante começar a praticar quando seus filhos ainda são pequenos. Isso não significa que não haja benefícios quando os filhos são mais velhos — nunca é tarde para melhorar —, mas, seguramente, você dará uma base emocional sólida a seus filhos se praticar os princípios desde o seu nascimento.

Volto a dizer: não passaria pela sua cabeça dirigir um negócio ou supervisionar uma organização sem um preparo especial. Você não tomaria — nem deveria tomar — decisões sobre as finanças impulsivamente. Sabemos que, antes de efetuarmos compras importantes, como casas, carros e eletrodomésticos, devemos examinar e analisar com atenção todas as nossas opções. No entanto, muitas pessoas — empresários atentos, excelentes planejadores financeiros e consumidores inteligentes — exercem a função fundamental de criar seus filhos sem jamais parar para pensar no que estão fazendo. Acho que algumas pessoas acreditam que o exercício da função de pai ou de mãe seja algo que fazemos naturalmente e que não vale a pena pensar sobre isso. Porém, para falar a verdade, raramente conheci pais “naturais”. Conheci pais que têm consciência do que fazem e pais que improvisam. Os resultados com os filhos são bastante distintos. Quando você age de maneira consciente, seus filhos provavelmente são mais bem ajustados e felizes, trazendo alegria para toda a família.

oq_pais_fazem4

Os genes não tiram a importância dos pais.

oq_pais_fazem5Cada vez mais se fala na influência da genética na formação dos seres humanos. Isso pode nos levar a questionar se o desempenho dos pais fará alguma diferença na formação da personalidade e do caráter dos filhos. Mas há uma grande diferença entre dizer que os genes têm importância (o que é verdade) e dizer que, portanto, os pais não fazem a menor diferença (o que não é verdade).

O fato de os filhos herdarem tendências em algumas direções é inquestionável. Algumas crianças tendem a ser mais agressivas do que outras; algumas, mais tímidas. Algumas crianças são geneticamente mais predispostas à extroversão, à introversão. Porém, há uma grande diferença entre afirmar que a personalidade de uma criança é influenciada por seus genes e afirmar que ela é determinada por eles.

Vou dar um exemplo do que quero dizer. Todos conhecemos pessoas com tendência para engordar e outras que podem comer o quanto quiserem sem ganhar um único quilo. Mas isso não significa que o primeiro tipo esteja destinado a ser obeso e que o segundo, inevitavelmente, seja magro como um palito. Isso quer dizer que, para evitar tornar-se obesa, a primeira pessoa precisará cuidar mais da alimentação e se exercitar mais do que a segunda. Da mesma forma, uma pessoa geneticamente predisposta à timidez pode aprender a ser mais extrovertida, mas isso exigirá um esforço maior do que o de alguém que possua uma carga genética diferente.

Essa lógica se aplica à educação das crianças. A maneira pela qual uma criança é criada influencia a forma pela qual sua natureza genética irá se manifestar. Com certeza, seria difícil (mas não impossível) transformar uma criança com uma herança genética de timidez numa criança agressiva ou vice-versa. Mas a possibilidade de uma criança que já nasce com uma predisposição à agressividade se tornar o terror do playground ou uma pessoa agradável será determinada pela maneira como ela é educada, e não por seus genes. O ambiente determinará se a tendência genética à timidez a fará ser doentiamente retraída ou apenas mais introvertida do que as outras crianças. As crianças que nascem geneticamente predispostas à agressividade precisam apenas de um pouco de ajuda de seus pais para aprenderem a se controlar, e aquelas que demonstram tendência à timidez precisam apenas de um pouco de estímulo para superar a sua introversão. Em outras palavras, a manifestação da herança genética de seu temperamento depende da maneira pela qual a criança é educada, e não apenas do seu DNA.

O que estou enfatizando é que seu desempenho como pai ou como mãe é de extrema importância, porque é a sua influência que irá afetar a manifestação desses genes. Por exemplo, sabemos que os genes influenciam a inteligência das crianças, mas sabemos também que os filhos se beneficiam intelectualmente do fato de os pais lerem para eles regularmente.

Você tem a capacidade de influenciar a personalidade, os interesses, o caráter, a inteligência, as atitudes e os valores de seus filhos. Você pode influenciar suas preferências e aversões. Você pode influenciar seu comportamento em casa, na escola e entre seus amigos. Sua orientação pode fazer com que seus filhos se tornem bons e atenciosos ou mesquinhos e egoístas.

Não há influência mais importante no desenvolvimento de seus filhos do que a sua. Nem mesmo os genes são tão decisivos.

oq_pais_fazem6

O que os pais fazem é importante.
Repita isso todos os dias.

As crianças aprendem observando.

Você já se ouviu dizendo para seus filhos algo que seus pais lhe disseram na infância? Já percebeu que toma as mesmas atitudes e, muitas vezes, tem as mesmas opiniões e os mesmos hábitos de seus pais quando você era criança, embora tenha jurado que se tornaria diferente deles?

Agora que você é pai ou mãe, as coisas se inverteram. Seus filhos estão aprendendo com as suas expressões, suas opiniões e seus hábitos, da mesma forma que você aprendeu com seus pais. E, na maioria das vezes, nem você nem seus filhos percebem que estão fazendo isso. Pode ter certeza: você está no palco o tempo todo, e seus filhos estão ali na platéia, bem na primeira fila.

As crianças chegam ao mundo prontas para copiar o comportamento de seus pais. Não há nada que os pais possam fazer para impedir isso. A capacidade que elas possuem de imitar os pais é tão incrível que os cientistas agora acham que isso faz parte do nosso desenvolvimento histórico como seres humanos. Se você, leitor, pegar um bebê de apenas poucos dias, segurá-lo de forma que ele possa focalizar o seu rosto e, a seguir, puser a sua língua para fora, ele moverá a própria língua. Talvez ele ainda não tenha o controle muscular para mover a língua da mesma maneira, mas, se prestar bastante atenção, você verá que ele está tentando imitar o seu movimento. Imitar adultos, em especial os pais, é parte integrante do que somos. Na verdade, muito antes de demonstrarem capacidade para aprender o que os outros estão tentando lhes ensinar, as crianças já são capazes de aprender apenas observando.

No entanto, observar os pais não significa apenas imitá-los. Uma das maneiras pelas quais as crianças aprendem sobre o mundo é percebendo o comportamento dos adultos que as cercam. Mesmo antes de poderem falar, os bebês monitoram seus pais, em busca de sinais que indiquem se eles estão seguros ou em perigo. Quando um estranho chega perto do bebê — por exemplo, a mãe e ele estão na rua e alguém se aproxima para dizer que ele é uma gracinha —, em geral, o bebê olha para a mãe antes de “decidir” se vai se preocupar ou se aquietar. Se a mãe parecer ansiosa ou nervosa, ele provavelmente chorará, o que não irá acontecer se a mãe parecer feliz e satisfeita. Da mesma forma, quando está engatinhando pela casa, um bebê de oito meses, freqüentemente, pára e olha para trás, aguardando um sinal da mãe para continuar seu passeio. Ele não está apenas se assegurando da presença da mãe; está tentando “ler” sua fisionomia para saber se pode prosseguir com segurança.

oq_pais_fazem7

Que tipo de sinais você envia quando seus filhos estão explorando o próprio mundo?

Nem sempre os pais percebem as mensagens sutis que transmitem a seus filhos através de seus atos e de suas emoções. Se um menino de cinco anos está subindo numa árvore, uma expressão de medo no rosto do pai não lhe diz apenas que o pai está com medo, mas que ele deveria estar com medo. Se o pai ficasse debaixo da árvore, com um sorriso no rosto, seu filho deduziria algo completamente diferente. O pai o estaria protegendo e incentivando. Essa é uma das razões pelas quais pais ansiosos muitas vezes geram crianças ansiosas. A ansiedade não é herdada apenas (só em parte), mas também é contagiosa. As crianças são muito suscetíveis às emoções que seus pais transmitem.

Ao ficarem mais velhos, em várias situações, os filhos observam seus pais, em busca de orientação, e não apenas para distinguir entre o que é seguro e o que não é. Se, por exemplo, os filhos muitas vezes vêem seus pais resolvendo desavenças com gritos e urros, ou mesmo com brigas corporais, eles passarão a achar que a agressão física é a melhor maneira para resolver disputas com outra pessoa. No entanto, se os pais raramente levantam a voz um para o outro, os filhos, provavelmente, não recorrerão a esse tipo de comportamento na convivência com outras pessoas. Os pais que dizem para seus filhos não baterem uns nos outros, mas que são fisicamente agressivos, podem ficar surpresos ao descobrir que seus filhos imitam essa característica em seus relacionamentos com amigos, conhecidos e membros da família. Esse é um dos motivos que fazem com que crianças que tenham sofrido abusos físicos mais facilmente se tornem violentas em seus casamentos e agridam seus próprios filhos.

oq_pais_fazem8

Como possuem um desejo forte, quase inato, de se tornarem iguais aos pais, os filhos tendem a copiar o comportamento deles. Você pode constatar a força dessa tendência ao espreitar crianças imitando os pais enquanto brincam. Muitas vezes, elas repetem, literalmente, o que ouvem deles. Quando essas palavras são espirituosas ou sábias, você sorri e sente orgulho, mas quando são agressivas e entremeadas de palavrões, sua reação será diferente. Observe e reconheça seus comportamentos nos comportamentos dos seus filhos.

A maioria dos pais subestima o quanto seus filhos observam o que eles fazem e dizem. Muito comumente, esquecemos o quanto eles estão nos ouvindo, mesmo quando preferiríamos que não estivessem. Mas as crianças possuem um talento extraordinário para parecerem absortas em seus próprios pensamentos quando, na realidade, estão ligadas a tudo o que se passa ao redor. Você pode achar que seu filho está absorvido de tal forma em seu livro que não ouve vocês discutirem a precária situação financeira da família. Não tenha dúvida: ele está prestando atenção ao que vocês dizem e ao tom de voz, mesmo que não consiga entender o significado de tudo. Se houver um sinal de ansiedade ou de tensão na conversa, ele o captará.

E não pense que os filhos só observam os pais quando estão em casa. Fora de casa, eles os espreitam e aprendem também com seu comportamento. Seus filhos observam você na fila do supermercado, quando você fala com o porteiro do prédio, quando faz alguma reclamação e quando conversa com os pais dos amiguinhos deles no playground. Se você trata os outros com delicadeza, gentileza e cordialidade, eles provavelmente farão o mesmo. Se você é rude, desagradável e arrogante, eles aprenderão que essa é a maneira correta de tratar os outros. É observando os pais que eles aprendem a se relacionar com as outras pessoas.

Esse aprendizado por observação continua durante toda a infância e a adolescência. Ao ficarem mais velhos, os filhos tendem a imitar seus pais de maneira menos explícita e o fazem de formas mais sutis. Mesmo que ele pareça não estar pensando em você, seu pré-adolescente ou adolescente sabe perfeitamente como você gasta o seu tempo livre, como se diverte e como lida com o estresse. Os adolescentes adoram verificar a diferença entre o que os pais dizem e o que, na verdade, fazem. Se os filhos vêem o pai beber demais para enfrentar problemas, os sermões sobre os perigos da bebida causarão pouco ou nenhum impacto no comportamento deles.

Isso não quer dizer que os filhos sempre se tornam cópias fiéis de seus pais. Embora, para eles, os pais sejam os mais importantes modelos de comportamento, não são os únicos. As crianças aprendem com outros membros da família, com seus coleguinhas e com o que vêem na televisão. Mas pode ter certeza: elas prestam muito mais atenção nos pais do que em qualquer outra pessoa, sobretudo antes da adolescência.

Você pode achar que não tem problema resolver as questões aos gritos, salpicar palavrões em sua fala, fazer comentários preconceituosos, gabar-se de fraudar seus impostos e, de vez em quando, beber além da conta. Mas, por favor, não faça essas coisas na frente de seus filhos.

Você pode viver seus medos e suas ansiedades irracionais, mas não existe motivo para transmiti-los a seus filhos.

Repito: as crianças aprendem muito mais observando os pais do que ouvindo seus sermões. Por isso, tenha muito cuidado com o que diz e o que faz quando seus filhos estiverem por perto porque, queira ou não, é observando os pais que eles aprendem.

Fonte: 10 princípios básicos para educar seus filhos. Artigo cedido gentilmente pela Editora Sextante.

cubos