Edição 58

Em discussão

O que seu filho faz na Internet?

Mais da metade dos jovens sabe esconder dos pais o que faz na Internet. Aprenda a vigiá-los sem isolá-los da riqueza da rede.

Na família Gonçalves, as regras de acesso à Internet são claras e duras. Com três adolescentes em casa, Alessandra e Antônio Carlos Gonçalves, que vivem em Santos, no litoral paulista, se esforçam para proteger os filhos de tudo o que há de ruim na rede, sem isolá-los do mundo, das possibilidades culturais, educacionais e de entretenimento que ela pode oferecer. Mas não tem sido fácil, tanto para os pais, que não podem ficar no pé dos filhos sempre que eles estão on-line, quanto para os garotos, que, como adolescentes, já querem alguma privacidade e têm o sangue encharcado do desejo de transgredir.

Talles Gonçalves, o caçula, de 14 anos, aprendeu que não pode, em hipótese alguma, apagar o histórico de navegação depois de visitar os sites de jogos e as redes sociais que costuma frequentar. Já Távini, 16 anos, acostumou-se a deixar armazenadas as conversas que tem com amigos e até com o namorado pelo MSN Messenger, serviço de mensagens instantâneas. A rédea curta também vale para Thaís, a mais velha, 18 anos. Ela foi proibida de proteger o notebook que ganhou de aniversário com uma senha particular que impediria o acesso dos pais. “Eles reclamam muito do monitoramento, mas aqui em casa é assim”, sentencia Alessandra. “Leio as conversas e revejo o histórico de tudo o que eles fazem”, diz.

Será que não há nada que escape aos olhos dessa meticulosa mãe? Sim, há. Um estudo conduzido recentemente pela empresa de segurança da informação McAfee com quatrocentos adolescentes brasileiros mostrou que 53% dos meninos e das meninas com idade entre 12 e 17 anos sabem esconder dos pais o que fazem na rede. Talles, por exemplo, gosta de participar de disputas em um jogo de guerra virtual e admite que, através do game, poderia conversar com colegas e trocar experiências sem deixar rastros. “Não tenho por que esconder nada e não escondo, mas o que converso no jogo não fica disponível para a consulta dos meus pais”, explica. Não há motivo para duvidar de Talles, mas, se a possibilidade de se comunicar sem monitoramento dentro de um computador vigiado chegou a alguém tão desinteressado quanto ele, imagine essas e outras ferramentas na mão de quem esmiúça a rede de forma a burlar os controles impostos pelos pais (ler quadro seguinte).

Como eles se escondem de você

Conheça os truques mais usados pelos adolescentes para contornar a patrulha dos pais e o que os adultos podem fazer para evitar esse tipo de comportamento.

1. Criam diversas contas de e-mail. Hoje, criar um e-mail é fácil, rápido e gratuito. Se os pais têm a senha para um endereço, o adolescente cria outros.

Solução: configurar o navegador para armazenar nome de usuários e senhas em todos os sites que requerem login.

2. Usam diferentes programas para acessar as redes de mensagens instantâneas. Muitas vezes, os filtros de conteúdo funcionam associados a programas específicos. Se o adolescente baixa um programa alternativo, que acessa a mesma rede de mensagens instantâneas, ele contorna o filtro.

Solução: criar logins (ou perfis) com diferentes níveis de acesso aos recursos do computador, sendo, os pais, os únicos com direitos plenos sobre a máquina.

3. Recorrem aos serviços de voz — e não de texto — para conversar pela Internet. Boa parte dos programas de mensagens instantâneas oferece serviços que se assemelham aos do telefone, com ligações gratuitas. É difícil filtrar esse conteúdo, já que boa parte dos softwares não guarda o histórico das conversas, apenas para quem foram feitas as ligações.

Solução: bloquear os serviços que usam a tecnologia de voz.

4. Apagam ou desligam o histórico de navegação. Os navegadores armazenam informações dos sites visitados, mas muitos jovens já aprenderam a apagar esses rastros ou configurar os navegadores para não armazená-los.

Solução: bloquear o acesso dos adolescentes às configurações do navegador.

5. Baixam programas alternativos para navegação na Web. Os adolescentes costumam recorrer aos programas gratuitos, que funcionam instalados em pastas pouco usadas pelos pais, e driblam os filtros que funcionam associados ao navegador.

Solução: criar logins (ou perfis) com diferentes níveis de acesso aos recursos do computador, sendo, os pais, os únicos com direitos plenos sobre a máquina.

6. Descobrem a senha do sistema de filtragem de conteúdo. É comum os pais escolherem senhas simples demais para administrar as configurações de filtros de conteúdo. Com algumas tentativas, o jovem consegue quebrar essa senha.

Solução: criar uma senha com, no mínimo, oito caracteres, misturando números e letras aleatórias — não vale recorrer a datas de nascimento, nome de familiares ou qualquer outra informação que o adolescente conheça.

7. Usam o pen drive como memória para arquivos particulares. Muitos jovens já não deixam seus arquivos na memória do computador, visíveis aos pais, mas, sim, nesses pequenos dispositivos, muitas vezes ignorados.

Solução: proibir o uso de pen drive e limitar o acesso às portas USB do computador.

O caso de A. Z., 12 anos, é uma espécie de síntese do estrago que um adolescente pode fazer na rede, mesmo sob supervisão. Autodidata, aos 11 ele conseguiu ludibriar um sistema de segurança que replica, como uma câmera escondida, o que se passa em seu computador para a máquina de um responsável e comprou créditos virtuais para um jogo com o cartão de crédito internacional do pai. “Só soubemos quando recebemos uma ligação da operadora nos avisando de compras estranhas no exterior”, lembra M. S., a mãe. A. também cruzou involuntariamente com pornografia durante uma pesquisa para o colégio e repassou os links para os amigos via MSN Messenger. “O computador do meu filho tem tudo quanto é tipo de bloqueio, mas ele dá um baile nos controles e na gente”, diz M., que chegou a contratar um perito profissional para ajudá-la na fiscalização do menino e até a tirar o computador do filho, proibindo-o de acessar a rede até se convencer de que a atitude era ineficiente e contraproducente. Primeiro, porque, ao proibir a Internet em casa, ela bloqueava uma poderosa ferramenta educacional. Segundo, porque o filho sempre dava um jeito de acessar a rede. E, uma vez nela, ainda mais fora de casa, o céu era o limite.

E olha que, dentro da escala criada por especialistas em segurança na rede, como Gregory Smith, autor do livro Como Proteger seus Filhos na Internet (Novo Conceito, 2009), para avaliar as chances que um adolescente conectado tem de se complicar no mundo virtual, A. Z. não está na zona de maior risco. Smith dividiu a escala em três faixas, que vão dos 8 aos 18 anos do usuário da rede. A primeira, e mais tranquila, vai dos 8 aos 11. Nela, é comum que os pais entendam mais de computação do que os filhos. O controle, portanto, é fácil, e há poucas transgressões. Já dos 12 aos 14 anos, como é o caso de Talles, o uso da Internet, que antes se restringia aos jogos e às pesquisas, ganha um novo componente: a comunicação entre amigos por e-mail, redes sociais e sistemas de mensagens instantâneas. O celular com acesso à Web também entra em cena, e o adolescente dá um salto tecnológico à frente dos pais. Quando chega a terceira e última fase, que vai dos 15 aos 18 anos, o jovem está no auge de seu conhecimento virtual e do aventureirismo natural da idade. Passa a ser uma necessidade recorrer a softwares para controlar o acesso à rede (leia o quadro abaixo).

Funções que um programa de controle de acesso à Internet deve ter:

• Filtragem de palavras-chave.
• Opção de criar perfis com acesso restrito ao computador.
• Monitoramento de redes sociais, bate-papo (MSN Messenger), vídeos e pesquisas.
• Bloqueio de caixa de e-mail, que passa a receber mensagens apenas de remetentes pré-aprovados.
• Histórico de atividades com relatórios enviados para o responsável.
• Alertas de emergência quando uma conduta inadequada na Web é detectada.
• Controle de downloads.

“Tenho filhos adolescentes e me vejo pensando como um criminoso pode estar à frente deles”, reconheceu Smith à revista IstoÉ.

Afinal, em algum momento, o adolescente fatalmente se verá sozinho diante de um dispositivo com acesso à rede, sem nenhum tipo de controle de software ou supervisão dos responsáveis, seja esse dispositivo um desktop, seja um notebook, um tablet ou um celular — plataforma de acesso à Internet que vem crescendo tanto entre essa faixa etária que as operadoras de telefonia já oferecem planos que atendem, diretamente, às demandas dessa turma. “Vendemos pacotes que habilitam celulares pré-pagos a acessar a Internet por um dia inteiro por apenas R$ 0,50”, explica Roger Sole, diretor de marketing consumer da TIM. O preço é inferior ao cobrado por boa parte das lan houses, casas que oferecem computadores ligados à rede por um valor fixo cobrado por hora.

Outras grandes operadoras, como a Vivo e a Claro, também oferecem serviços parecidos, de olho nos usuários ávidos por redes sociais e sistemas de mensagens instantâneas. “Eu já acesso a Internet mais pelo celular do que pelo computador”, conta o paulistano Bruno Camacho, 18 anos, que deve completar o Ensino Médio este ano e tem um iPhone, da Apple. Entre os serviços mais acessados por ele, estão o onipresente MSN Messenger, o Orkut e o Skype, um sistema que permite fazer ligações telefônicas gratuitas pela Internet. “Há programas de controle de acesso para telefones celulares, mas o mercado desse tipo de software ainda é pequeno”, explica Wanderson Castilho, perito em crimes digitais e criador de uma opção de programa para monitoramento remoto de celulares. Ou seja: boa parte do acesso por celulares é feita livremente.

 

Nesse ambiente de hiperconectividade, em que as oportunidades para que algo fuja ao controle se multiplicam, até os pais com filhos aparentemente aptos a circularem pela Internet com segurança devem estar prontos para lidar com eventuais deslizes no mundo virtual. “O adolescente está em processo de formação de identidade, quer testar os limites”, explica Cecília Zylberstajn, psicoterapeuta especializada em adolescentes. “Nem a estrutura neurológica que lida com o controle dos impulsos está totalmente desenvolvida”, lembra. Assim, é de se esperar que ele erre na vida virtual como falha na vida real.

E isso pode ser bom, já que o erro ensina. Os números do mesmo estudo da McAfee confirmam essa tese. Segundo a pesquisa, 90% dos adolescentes que foram intimidados no mundo virtual — por terem divulgado uma foto que acabou publicada onde não devia ou dado uma opinião controversa que causou comoção desproporcional — mudaram seus hábitos virtuais para evitar que aquilo se repetisse. “Sempre fui cuidadosa e, depois que vi comentários desagradáveis sobre uma foto minha no Orkut, passei a ter ainda mais cuidado”, diz a paulista Mayara Vendramini, 16 anos. Uma colega de sala copiou uma foto que Mayara tinha colocado no Orkut, republicou-a em outro álbum e passou a fazer ofensas a ela. “Meus amigos todos foram me defender”, conta a garota sobre a guerra virtual que se instalou. Ela não parou de usar a rede social, mas hoje escolhe criteriosamente as fotos que colocará no álbum. Ou seja, administra a própria segurança de maneira quase autônoma.
Se a última fronteira da segurança do jovem conectado é o próprio jovem, nada substitui a conversa periódica entre pais e filhos sobre o que se faz na rede. Para a psicoterapeuta Cecília, explicar a natureza das regras impostas, mostrar interesse diante de novidades tecnológicas e até fazer concessões é papel dos pais na educação para o uso saudável da Internet. “O filho sempre vai saber mais que os pais e driblará os sistemas”, diz. “Entrar em uma guerra tecnológica com eles é entrar em uma guerra que já começou perdida”, resume.

A paulistana Mariana Martinelli, por exemplo, 16 anos, tem perfil no Orkut, no Facebook e no Twitter e está sempre on-line. Ela faz pelo menos cinco atualizações diárias sobre suas andanças pela cidade, seus planos e suas opiniões, mas é muito cuidadosa na hora de escolher quem terá acesso às informações que coloca na Web. “Tem muita gente que diz que só adiciona quem conhece pessoalmente, mas, na prática, adiciona todo mundo”, diz Márcia Varella, mãe da menina. “Mas ela é rigorosa”, afirma. “Se não conheço, não adiciono mesmo”, garante Mariana. Ela tem trezentos amigos no Facebook, que, além de acompanhar seus posts, podem ver e comentar as mais de cinquenta fotos que ela postou na rede social. “O adolescente está na idade de querer aparecer”, afirma Patrícia Peck Pinheiro, advogada especializada em dinheiro digital e criadora da cartilha Criança Mais Segura na Internet. “Eles sempre acham que nunca vai acontecer nada de mal com eles”, diz. Mas acontece. E lembrá-los disso é obrigação dos pais.

Dicas

Para os filhos:

Não dê nome, telefone, endereço, nome de escola ou empresa onde seus pais trabalham. Evite a divulgação de qualquer informação que facilite a sua identificação.
Não compartilhe senhas com ninguém. Não as dê como prova de confiança.
Desabilite a função que divulga a sua localização.
Não divulgue seus itinerários ou locais que você frequenta.
Evite encontros com amigos virtuais. Se for inevitável, avise a seus pais, confirme as informações do amigo, marque o encontro em local movimentado e vá acompanhado.
Se tiver de publicar fotos, busque a autorização dos fotógrafos e escolha arquivos com baixa qualidade, assim você diminui as chances de manipulação da foto.
Só abra a webcam para amigos e, de preferência, acompanhado de um responsável.
Não crie inimigos e não ridicularize as pessoas. O que se faz na Internet fica on-line para sempre.
Mantenha o bluetooth do seu celular desabilitado para evitar o recebimento de fotos e o acesso às informações de terceiros.
Se você se meter em uma enroscada virtual, informe seus pais imediatamente. Eles são os mais interessados em resolver o problema.
Para os pais:

Estabeleça regras claras de uso da Internet, bem como punições para transgressões.
Questione seus filhos sobre o que eles têm feito na Internet, mostre interesse por quem eles conhecem on-line e pelas ferramentas que usam.
Deixe o computador em local de grande circulação da casa, onde um adulto possa acompanhar as atividades do adolescente, e estabeleça um horário de uso.
Desconfie quando seus filhos apagam o histórico de conversas e de navegação depois de usar o computador da família.
Preste atenção especial ao uso que seus filhos dão à webcam. Acompanhe-os quando o aparelho estiver ligado.
Visite, com frequência, o perfil dos seus filhos nas redes sociais e faça buscas periódicas pelo nome deles em sites de busca.
Instale algum software de monitoramento, filtragem e bloqueio de acesso.
Crie perfis para cada adolescente que usa o computador para saber quem está fazendo o quê e dosar a liberdade de cada um.
Explique que muito do que se coloca na Internet fica lá para sempre e que o que é engraçado hoje pode ser vergonhoso amanhã.
Mostre que os velhos conselhos de vida se aplicam ao mundo digital: não copiar o conteúdo do próximo, não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem com você e lembrar que são os caminhos por onde você circula na Web que fazem a sua identidade virtual.
Como os jovens usam a rede

A Internet é parte importante da rotina dos adolescentes contemporâneos.

89% acessam a rede de um computador em casa.
83% usam sites de redes sociais, como o Orkut e o Facebook.
79% afirmam saber como se manter seguros on-line.
67% compartilham arquivos on-line.
24% deixaram de fazer outras coisas para ficar na Internet.
23% passam noites em claro por causa da Internet.
82% usam serviços de mensagens instantâneas, como o MSN Messenger.
77% usam a Internet pelo menos seis dias por semana.
71% fazem atualizações de status algumas vezes ou sempre.
21% avaliam que seu uso está acima do normal ou se consideram dependentes da Internet.
Problemas virtuais

Muitos adolescentes já passaram por saias-justas on-line.

72% conhecem alguém próximo que sofreu ou sofre bullying.
50% já tiveram o computador infectado por vírus ou ameaças virtuais.
25% já foram vítimas de insultos.
20% já tiveram senhas roubadas.
Driblando os pais

Testar os limites do controle dos pais é hobby na vida real e na vida virtual dos adolescentes.

39% não contam aos pais o que fazem na Internet.
53% sabem ocultar o que fazem on-line dos pais ou responsáveis.
39% fecham ou minimizam as páginas que estão visitando quando um adulto se aproxima.
32% limpam o histórico dos sites pelos quais passaram.
27% ocultam ou apagam e-mails.
22% criam endereços secretos de e-mail.
29% apagam mensagens de texto no celular.
Comportamentos de risco

Conheça os hábitos mais frequentes e arriscados dos adolescentes na Web.

83% usam redes sociais e trocam informações pessoais publicamente.
33% compartilham fotos pessoais com estranhos.
54% dão o primeiro nome a estranhos.
48% divulgam o e-mail.
47% revelam a idade.
42% incluem localização nas atualizações de status.
31% conversam com pessoas que não conhecem pessoalmente em serviços de chat.
37% mudariam o comportamento on-line se soubessem que estão sendo vigiados por adultos.
O impacto do primeiro susto

Ser intimidado no mundo virtual tem efeito imediato nos hábitos do adolescente conectado.

90% mudaram de comportamento on-line depois de um episódio de intimidação.
61% limitaram o acesso aos dados pessoais que publicaram em redes sociais.
55% conversaram com os pais sobre episódios de intimidação.
47% alteraram senhas.
52% passaram a compartilhar informações pessoais apenas com quem conhecem pessoalmente.
51% excluíram determinadas informações de seus perfis.
43% excluíram determinadas fotos e postagens.
Revista IstoÉ. Ano 34, n. 215. Dez., 2010.
João Loes é jornalista da Revista Istoé

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