Edição 21

Matérias Especiais

O RESGATE DA ORALIDADE: COISAS DO SERTÃO

A linguagem é, por si, uma relação com o mundo, com o inconsciente e a história.

Eduardo Prado Coelho, Reino Flutuante.

Como contadora de histórias, acredito que as crianças são terrenos férteis, e as histórias, sementes que geram frutos capazes de alimentar e despertar o encantamento. Assim, ando a semear sonhos, pelas escolas, espalhando histórias que ouvi e colhi no sertão.

As cidades, por serem de concreto, tornam-se ambientes áridos, difíceis de fazer brotar a verdadeira essência da infância. Na ausência da ludicidade, essas crianças sem quintal, sem ruas e sem praças abrem-se em grande entusiasmo perante a fantasia que a oralidade, enigmaticamente, desperta.

Ao contar histórias, enxergo, nas crianças que estão a me escutar, todo o encantamento que vivi no meu tempo de menina, lá no Sertão do Araripe.

À tardinha, apontava, na estrada, a figura de Seu Francisco. Sua voz mansa e arrastada fascinava as pessoas do lugar, que esperavam por ele, sentadas nos bancos de madeira rachada, espalhados pelo terreiro. Arrumavam-se em torno da fogueira para escutar as histórias de Seu Francisco, enquanto aguardavam, ansiosamente, que o contador as fizesse viajar nas asas da imaginação. Seu Francisco mal respirava e, com uma história atrás da outra, arrancava suspiros numa magia deliciosa…

Seu Francisco foi meu espelho e, quando estou a contar histórias, lembro-me dele: seus trajes brancos, sua bengala preta pendurada no armador da parede, dentro da bodega do meu avô. Encenava cada história contada, fechava os olhos, batia palmas, assobiava e virava bicho.

Trazia mistério e medo, alegria e tristeza guardados na voz e no coração. Soltava tudo no momento certo. Carregava todos os que ali estavam para imensas matas escuras, ventanias, botijas enterradas, cavalos que emperravam no meio do caminho porque viam almas penadas, casas voadoras… Num jogo de palavras que nós, emudecidos de prazer e pavor, escutávamos, presos às imagens criadas por aquele fantástico agricultor que lia a Bíblia e os cordéis que trazia da feira. O gosto de contar foi ele quem me deu.

Mais adiante, deparei-me com esses contos nos livros do escritor Câmara Cascudo, que tem sido o meu guia. Esse mestre folclorista, sabiamente, alimenta e reanima minhas esperanças de resgatar nas crianças contemporâneas, sitiadas em seus apartamentos, suas infâncias perdidas. E não há TV, videogame ou computador que roube delas as imagens das histórias contadas, pois as expressões que estampam os rostos e os olhares que acompanham o desfecho das narrativas provam que a oralidade tem esse poder.

oralidadeNas contações, utilizo-me de narrativas simples, oportunizando às crianças a vivência de conflitos necessários para que possam lidar, sabiamente, com as contradições e adversidades que a vida se encarrega de propiciar.

As cantigas, os dramas, as adivinhações, os provérbios, as quadrinhas e os brinquedos populares são elementos que enriquecem a minha atuação. Essas brincadeiras de palavras, encontradas no folclore pelos poetas anônimos, desvendam os segredos dos povos, transformando-os em versos de alegria e pesar.

Assim, a cada passo da narrativa, as crianças suspiram, gargalham e festejam o momento mágico. O ambiente arrumado, com casinhas, fogão a lenha, panelinhas de barro, bruxinhas de pano, apitos, baladeiras, deixa as crianças fascinadas. É bonito de se ver. As imagens são infinitas e estão lá no fundo da minha alma, querendo saltar, para alegrar meninos e meninas que me escutam.

Ana Rosa Borges é cearense, da cidade do Crato. Graduada em História e pós-graduada em Literatura Infanto-juvenil pela Faculdade de Filosofia do recife – Fafire – PE

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