Edição 69

Ambiente-se

O respeito às relações étnico-raciais no ambiente escolar

Augusto França
Elmo Freitas

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Atualmente são discutidas muitas formas de conscientização sobre o tema O respeito às relações étnico-raciais no ambiente escolar. Tem sido muito abordado em instituições de ensino que lutam para minimizar esse problema de convívio social. O respeito às diferenças sempre foi um tabu para os seres humanos e a solução para esse problema ainda vem sendo um desafio para a sociedade.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), racismo fica definido em qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origens éticas ou nacionais que tenham o propósito ou efeito de anular ou impedir o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições iguais, de direitos humanos e liberdades fundamentais nas áreas política, econômica, social, cultural ou qualquer outra da vida pública.

Tendo em vista essas discussões, estudos foram feitos em uma instituição de ensino, cujo corpo discente é formado por jovens entre 13 e 18 anos, como também por estudantes do Programa de Educação para Jovens e Adultos (Proeja).

Dessa forma, detectou-se a necessidade de ser trabalhada uma abordagem socioeducativa referente às relações étnico-raciais, pois constatou-se que, embora a maioria do alunado afirme não ser preconceituosa, faltam-lhe informações mais precisas sobre o tema. Deve-se entender que o fato de afirmarem veementemente “Não tenho preconceito! Pra mim, todos são iguais!” não significa que ele não exista.

Através de observações cotidianas, notou-se que os educandos desenvolvem formas de preconceito “latentes”, ou seja, ele surge inconscientemente e é aparentemente inofensivo, porém o que parece apenas ser uma pequena “brincadeira” pode desencadear uma série de transtornos.

Foi possível compreendermos que as diversidades existentes entre os grupos étnicos se tornaram pontos de conflito, pois, se existe um eu que pensa igual, acredita nos mesmos deuses, vive de modo “estável”, e, também existe um outro que não compartilha das mesmas crenças. Esse contato com o que se mostra de modo distinto do padrão ocorre, em geral, de modo turbulento: perturba e ameaça desintegrar a identidade “estável” da sociedade do eu. A imposição da presença do outro é vivida como a negação dessa aparente ordem. A palavra ordem está vinculada ao desejo de manter a estabilidade.

Segundo Waléria Menezes, a coexistência do eu e do outro instaura a dimensão do desconhecido, desestabilizando as estruturas vigentes e formando outras novas com direções imprevisíveis. Essa incerteza leva a uma sensação de desordem que, se acolhida de modo satisfatório, poderá ser um momento de grandes transformações e cooperação para a construção de uma nova ordem social. Para que isso ocorra, é necessário reconhecer a relação dialógica entre esses termos, pois eles fazem parte do mesmo processo de construção histórica. Viver apenas uma ou outra seria viver de modo pobre, mutilado. Se houvesse apenas a ordem, não haveria espaço para o novo, o ousado, o criativo. Se houvesse apenas desordem, não haveria capacidade de manter a evolução e o desenvolvimento.

No campo pesquisado, essa postura por parte dos alunos é ainda reafirmada pela linguagem não verbal. Estudos demonstram que parece haver uma ausência de contato físico, mesmo que inconscientemente. Dessa forma, pudemos analisar que a população negra acaba por negligenciar a sua tradição cultural em prol de uma postura de “embranquecimento”, que lhe foi imposta como ideal de realização. Esse posicionamento foi decorrente da internalização de que “embranquecer” seria o único meio de ter acesso ao respeito e à dignidade. Esse ideal de “embranquecimento” faz com que o indivíduo deseje mudar tudo em seu corpo.

Nos estudos, foi possível observar que há uma aparente falta de intervenção por parte dos educadores em tal problemática. Alguns fatores que estariam implicados em tais questões seriam:

I - Os educadores poderiam estar imbuídos de forte impregnação da ideologia dominante, que oprime e nega tudo aquilo que se distancia do padrão estabelecido, impossibilitando-os de pensar numa perspectiva multicultural.

II - Mitificação da instituição escola, acreditando que ela seria a detentora de um suposto saber e, por conseguinte, “dona da verdade”, pressionando alguns educadores a não macular tal imagem, não questionar determinada postura ou a adoção de determinado material didático, permanecendo a sensação de mal-estar que não é significada, ou seja, não é falada, dando continuidade ao silêncio e à cumplicidade com determinadas atitudes.

III - Falta de preparo dos professores para lidar com a questão racial em sala de aula, desencadeando a difusão da discriminação racial. Essa falta de preparo impossibilita a decodificação e a intervenção do educador em situações que denotem sinais de preconceito.

Nesse sentido, o cotidiano na escola poderá revelar uma inclinação para corresponder ao padrão branco, negligenciando os valores referentes às matrizes africanas e podendo levar à acentuação do estigma de ser inferior. Essas ações preconceituosas conduzem a um processo de despersonalização dos caracteres afrodescendentes, o que dificulta e, em alguns casos, inviabiliza a inserção do educando no sentimento de pertença ao espaço escolar, comprometendo a sua autoestima, impossibilitando-o de ter um autoconhecimento individual ou cultural, pois esses dois níveis estão diretamente ligados a condições desvalorizadoras atribuídas pelo grupo dominante. Dessa forma, faz-se necessário mobilizar a comunidade escolar a respeito da conscientização e polêmica do tema, fazendo com que a convivência com a diversificação racial, cultural e religiosa seja pacífica, sem exclusões, conflitos e/ou outros tipos de discriminação.

Para que a proposta seja viabilizada, faz-se necessário estabelecer uma melhor convivência entre as diferentes raças e culturas existentes no campo pesquisado, rompendo com o paradigma histórico, ainda impregnado, de que a raça branca é superior.

Para a efetivação do estudo, propomos o desenvolvimento de ações que despertem no indivíduo o interesse pela investigação das diferentes raças, culturas e costumes existentes nas instituições de ensino. Um dos eventos propostos, que obteve maior repercussão e mobilização da instituição, foi a Semana da Consciência Negra, promovida no mês de novembro. Utilizamos estandes mostrando a herança cultural deixada pelo povo africano em nosso país, sobre a qual os próprios alunos se incumbiram de realizar as pesquisas e apresentar o material coletado. Também foi promovido um culto ecumênico um pouco diferente do habitual: neste, os representantes de cada religião falaram um pouco sobre sua crença, esclarecendo alguns conceitos erroneamente preestabelecidos no que diz respeito às religiões. Dessa forma, os alunos puderam conhecer um pouco sobre cada religião representada na cerimônia.

Para que estudos desse tipo possam surtir efeito, faz-se necessária uma articulação com todos os setores da escola, além da indispensável reciprocidade entre todos. Assim, as relações étnico-raciais, bem como a interação da comunidade escolar, são estreitadas, o que beneficia a todos.

A promoção de atividades, como palestras e eventos que foquem o referido tema, e a utilização de temas transversais referentes às relações étnico-raciais são extremamente necessárias, uma vez que tal inclusão é de fundamental importância para a transformação de nossa sociedade. Em nosso estudo, obtivemos uma resposta positiva quanto ao que esperávamos, pois, em visitas posteriores, os comentários sobre os eventos promovidos foram bastante satisfatórios.

Elmo Freitas (in memoriam) e Augusto França são pedagogos pela Faculdade Osman Lins (Facol) – Vitória de Santo Antão – PE. Endereço eletrônico: augusto_de_franca@hotmail.com.

Referências bibliográficas
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diante de Confl itos Raciais: Estudos de Realidades
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KREUTZ, L. Identidade Étnica e Processo Escolar.
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