Edição 74

Matérias Especiais

O valor de todo ser humano

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1. Recado ao catequista/professor com justificativa do tema

Crianças e adolescentes precisam conhecer seu próprio valor como obras especiais dentro da criação. É a partir dessa valorização que irão compreender o valor do outro, qualquer que seja a sua condição. Quem não valoriza o ser humano está desvalorizando também o grande artista que criou todos nós com capacidade de amar e de ser amados, de criar, de transformar a vida.

Por trás do tráfico de pessoas (para trabalho escravo, adoções ilegais, exploração sexual, comércio de órgãos) está a colocação do dinheiro e dos bens de mercado como valor supremo, absoluto. O abuso sexual aparece também como um modo de tratar o corpo enquanto objeto. Crianças e adolescentes precisam crescer sabendo identificar o que realmente é importante. A questão do sentido da vida humana deve ser abordada a partir de recursos ao alcance de cada faixa etária. O mesmo vale para os exemplos que serão apresentados de acordo com a sensibilidade de cada grupo de catequizandos. Apesar da gravidade e de certos aspectos pesados do tema, possivelmente as crianças estarão mais dispostas a valorizar o que vai ser refletido, a partir da própria inocência com que contemplam a vida.

2. Desenvolvimento do encontro

Preparação do local: Colocar em destaque o cartaz da Campanha da Fraternidade e a Bíblia. Preparar uma folha com três colunas e com os títulos: coisas baratas, coisas muito caras, o que não tem preço. Trazer figuras de pessoas de variadas etnias, idades e situações sociais e anúncios de produtos que estão à venda. Compor faixas com os textos bíblicos citados.

3. Apresentação do tema:
A Campanha da Fraternidade deste ano

O catequista/professor vai conversar sobre a Campanha da Fraternidade, verificando o que os alunos catequizandos já sabem sobre isso. Outras campanhas podem ser relembradas. Como ela é feita na Quaresma, temos aí uma oportunidade de explicar o significado desse tempo litúrgico que nos convida a uma revisão de vida.

Serão apresentados o cartaz e o tema, com uma explicação do significado geral de tráfico humano (trabalho escravo, exploração de atividade sexual, venda de crianças para adoção ilegal e comércio de órgãos) adaptada à idade e à sensibilidade dos catequizandos. Aí se pode comparar o que o grupo já sabe sobre o processo de escravidão vivido em outros tempos com os tipos de escravidão que podem ocorrer ainda hoje.

4. Podemos vender coisas, e não pessoas. Por quê?

Todos os dias vemos anúncios que mostram como é o nosso sistema de compra e venda (o catequista/professor pode apresentar recortes de anúncios publicados em revistas, folhetos ou jornais, com o preço de cada mercadoria anunciada). Por que algumas coisas são mais caras do que outras?

Devemos comprar tudo que desejarmos? Há pessoas que só se sentem valorizadas se estiverem usando o que a propaganda diz que é indispensável. Mas quem será que tem mais valor: o jovem (ou a criança) que vive exigindo dos pais tudo o que os colegas estiverem usando ou quem sabe ficar sem alguma coisa quando percebe que isso vai ser um sacrifício para os pais? O que é mais valioso para nós: um presente caro ou a alegria de estarmos sendo os melhores amigos dos nossos pais e de todos que cuidam de nós? Vale mais um brinquedo, uma roupa de moda ou a amizade, a ajuda dos amigos e da família, a descoberta de nossas próprias qualidades?

Há coisas que podemos comprar e outras (mais preciosas ainda) que não têm preço.

O catequista/professor apresenta a folha com as três colunas. Os anúncios serão colados nas duas primeiras colunas; e as figuras das pessoas, na última:

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5. Uma história que nos dá um bom exemplo

Vamos pensar um pouco na história do Pinóquio. Gepeto era um fabricante de brinquedos, vivia disso: fazia os brinquedos e vendia. Um brinquedo mais caprichado, com mais recursos, certamente seria mais caro. Gepeto, porém, queria algo muito especial: não queria ser o melhor fabricante de brinquedos do mundo, queria ter um filho para amar. Fez o Pinóquio com muito amor e cuidado, mas só ficou contente de verdade quando o boneco ganhou vida: agora ele poderia ter algo parecido com um filho. E esse Pinóquio, que poderia lhe trazer muita fama, ele não iria nunca querer vender, porque era amado como algo que não tem preço. O que havia no Pinóquio agora que fazia dele algo tão especial?

Gepeto pode nos fazer pensar no nosso Deus. Ele criou muitas coisas, mas, ao fazer os seres humanos, pensou neles como filhos a serem amados. Com certeza, toda a criação merece ser bem cuidada, mas as pessoas que Deus tanto ama — e que são também capazes de amar — precisam ter um tratamento especial.

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6. E a história de cada pessoa vai mais longe

É fácil perceber que quem estraga a vida de uma pessoa está dando ao mundo um prejuízo imenso. Mas a coisa vai mais longe do que, às vezes, percebemos. Pensemos nesses filmes de ficção científica que apresentam alguém fazendo uma viagem no tempo, indo para o passado (como acontece, por exemplo, no filme De Volta para o Futuro). Quem viajasse para o passado teria que ter muito cuidado para não alterar certas coisas porque, quando se muda a vida de uma pessoa, estamos mudando também a história de todos os seus descendentes e as consequências de tudo que essa pessoa realizou. Por exemplo: se alguém fosse ao passado e não deixasse nosso pai conhecer a nossa mãe, nós não nasceríamos. Se alguém tivesse estragado a carreira de alguns cientistas conhecidos, muitas descobertas não teriam sido feitas… Assim, hoje, quando o tráfico de pessoas leva gente para longe de tudo que poderia ser oportunidade para boas realizações, não é somente a vida daquela pessoa que está sendo estragada; todo um futuro bom para muitos outros está deixando de existir quando se impede uma pessoa de desenvolver livremente seus dons, de criar coisas boas com liberdade, de cuidar bem daqueles que ama.

7. Alguém poderia dizer que não tem nada a ver com isso?

Quando alguém da nossa família é maltratado, achamos que não temos nada a ver com isso? Somos todos parte de uma família maior de filhos e filhas de Deus. De alguma forma, tudo o que é feito a outro ser humano nos atinge. Se alguém acha que a dignidade de uma pessoa pode ser ignorada, está de fato pondo em perigo a dignidade de todas as pessoas (inclusive a sua), porque cada exceção vai tornando mais fácil desrespeitar a regra geral. Foi por isso que, há muitos séculos, o filósofo Sêneca já dizia: “Tua casa está em perigo quando a casa do vizinho está em chamas”. Podemos pensar em alguns exemplos que mostrem como a insegurança dos outros nos atinge?

Quando respeitamos o outro, estamos indicando que queremos ser respeitados e estamos ajudando a perceber como esse respeito é importante para todos.

8. O que diz a Bíblia: Com pessoas, a “matemática” é diferente

Quem não trocaria uma televisão (uma casa, um automóvel, um videogame…) por 99? Em se tratando de coisas, a quantidade aumenta o valor. Mas com as pessoas é diferente. Como gente é insubstituível, não dá para medir o valor do mesmo jeito.

Jesus um dia contou uma parábola que alguns acham estranha. Está em Lc 15,1-7. Ele pergunta: quem, tendo cem ovelhas e perdendo uma, não deixa as 99 no deserto e vai atrás daquela que se perdeu? Se ele estivesse mesmo falando de ovelhas, seria fácil achar que, tendo 99, dá para se conformar com a perda de uma. Mas as ovelhas aí representavam as pessoas, e ele estava querendo dizer que nenhuma pessoa deve ficar perdida, porque o valor de cada uma é imenso. Pessoas não têm preço, cada uma é um tesouro sem fim.

Quem segue Jesus não pode se conformar com a injustiça feita a qualquer pessoa, nenhuma vida pode ser desrespeitada. Quem faz tráfico de pessoas (enganando e escravizando trabalhadores e crianças, transformando relacionamentos sexuais em fonte de lucro) está tratando um ser humano como se fosse uma mercadoria. Jesus nunca iria concordar com isso!

9. Deus, Pai e Mãe de cada pessoa

Podemos valorizar muito o ser humano, mas é claro que amamos de modo especial aqueles que estão mais perto de nós. Fica fácil entender o amor especial de mães e filhos, de irmãos e irmãs, de avós e netos, de amigos próximos, de pessoas que admiram outras.

Um diálogo em duplas:
Cada um conversa com o colega ao lado sobre as pessoas que são mais amadas e mais importantes na sua vida. Que pessoas consideram você muito importante? Em quem você confia para receber ajuda nas horas difíceis?

Para Deus, todos somos amados, especiais e importantes. A Bíblia nos mostra que Ele nos acompanha e nunca desiste de nós. Veja só o que Deus nos diz no livro do profeta Isaías:

“Acaso uma mulher esquece o seu neném ou o amor ao filho de suas entranhas? Mesmo que alguma esqueça, eu de ti jamais me esquecerei!” (Is 49,15).

“Mesmo que as serras mudem de lugar ou que as montanhas balancem, meu amor para contigo nunca vai mudar [...]” (Is 54,10).

“Qual mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos o meu carinho [...]” (Is 66,13).

Dá para imaginar como esse Deus, com esses sentimentos de mãe, tem um desgosto enorme quando vê gente tratando os outros como mercadoria, escravizando o irmão?

10. E, se maltratar o irmão, de nada adianta ir a Deus com orações e homenagens

O mesmo livro do profeta Isaías mostra que, para Deus, o mais importante é ver seus filhos bem tratados. E, se alguém não souber fazer isso, orações e ofertas feitas a Deus não vão agradar nem um pouquinho. Conversar com Deus? Só depois de consertar o mal que se faz aos outros:

“[...] Parai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Depois, vinde, e podemos discutir [...]” (Is 1,16-18).

tpl_imagem_verticalO órfão e a viúva representavam naquele povo os mais pobres, os que não tinham meios de se sustentar. Ainda hoje são os pobres e os sem recursos que estão mais indefesos diante das tentativas e das falsas promessas do tráfico de pessoas.

Jesus também protestou muito contra quem diz que é religioso, mas explora o seu próximo. Ele ficou bem zangado com quem desrespeitou o direito do outro para ganhar dinheiro. Ele disse: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” (cf. Mt 6,24). Ou seja: é claro que todos precisam de algum dinheiro, mas não se pode, para ganhá-lo, fazer uma coisa que maltrata o irmão. Quem fizer isso mostra que não tem também amor a Deus.

11. Atividade para casa

Conversar com a família sobre o valor do ser humano e fazer algum gesto que mostre que sabemos que as pessoas são preciosas (por exemplo: agradecer o amor que recebemos, fazer uma gentileza para alguém que nos presta serviço).

Oração: (pode ser também a própria oração da campanha — ver mensagem inicial desta edição)

Vamos louvar a Deus, que nos conhece e
nos ama desde que fomos criados.
É assim também que Ele ama e valoriza todas as pessoas.

“Foste Tu que criaste minhas entranhas
e me teceste no seio de minha mãe.
Eu Te louvo porque me fizeste maravilhoso;
são admiráveis as Tuas obras;
Tu me conheces por inteiro.”
(Salmo 139,13-14)

Querido Deus, Pai e Mãe, que dás tanto valor a todos nós, ajuda-nos a ver cada pessoa como uma obra maravilhosa, sinal da Tua sabedoria e do Teu amor. Perdoa-nos se, algumas vezes, consideramos insignificante algum ser humano. Inspira-nos para sabermos sempre ajudar quem ainda não descobriu a importância do amor ao próximo e livra-nos do erro de considerar que ter coisas é mais importante do que conviver bem com os Teus outros filhos e filhas.

Canto final: (pode também ser o Hino da Campanha)

Teu Nome, Senhor, É Tão Bonito
(de Jocy Rodrigues)

Teu nome, Senhor, é tão bonito.
Tu moras no céu, lá nas alturas.
Até criancinhas que ainda mamam
já sabem que vences o inimigo.
Olhando o céu que Tu fizeste,
eu vejo as estrelas, vejo a Lua,
entendo que o homem vale muito,
pois tudo pra ele Tu fizeste.
Menor um pouquinho do que os anjos,
mas cheio de glória e de valor,
de Ti recebeu poder e força
pra tudo vencer e dominar.

Encontros Catequéticos para Crianças e Adolescentes. Campanha
da Fraternidade 2014, Fraternidade e Tráfico Humano.
Brasília – DF: Ed. CNBB.

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