Edição 18

É dia...

Oito de setembro: Dia Internacional da Alfabetização

A alfabetização é um dos pontos básicos para o desenvolvimento de um povo. Os números mostram um quadro extremamente negativo na América Latina, com 40 milhões de pessoas iletradas. Mas o analfabetismo não é só uma questão de quantidade. Os analfabetos são os mais pobres entre os pobres, e o fato mais dramático é que essa falência coincide com o mapa das desigualdades sociais, étnicas e também de gênero, já que muito mais da metade dos iletrados são mulheres. O Dia Internacional da Alfabetização, 8 de setembro, é celebrado todos os anos pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – Unesco, desde 1967, e sempre traz muitos questionamentos sobre o que pode ser feito para inverter a situação da alfabetização.

Levando em consideração a proposta da Unesco, que decretou o período 2003–2013 como o Decênio da Alfabetização, pode-se ver uma possível luz no fim do túnel. A meta da organização é reduzir a população analfabeta à metade para o ano de 2013.

Na verdade, a humanidade conseguiu um certo progresso, já que, atualmente, por volta de quatro bilhões de pessoas no mundo estão alfabetizadas, mas a alfabetização universal, ou seja, a de crianças, jovens e adultos, ainda é uma meta distante. O Fórum para Educação da Venezuela defende que esse atraso é uma combinação de diversos fatores, como o delineamento de metas demasiadamente ambiciosas, falta de coordenação, insuficiência de esforços e o fato de as tarefas serem subestimadas em sua magnitude e complexidade.

As lições aprendidas nas últimas décadas deixam claro que conseguir a alfabetização universal requer uma vontade política renovada para pensar e fazer as coisas de maneira diferente em todos os níveis: local, nacional e internacional.

Métodos de alfabetização na América Latina

No Brasil, o educador Paulo Freire criou o Método Psicossocial, baseado na alfabetização como um processo cultural. Esse mesmo método foi usado no Chile e no Panamá. A Argentina introduziu uma variante ao método Freire e hoje tem 3,1% de analfabetos; a Colômbia usou um método similar e tem 8,2%.

Na República Dominicana, foi usado um sistema espanhol baseado no emprego dos meios de comunicação. Da população dominicana, 17% não lêem nem escrevem. O Equador aplicou uma técnica de jogos e simulações, criada em uma universidade dos Estados Unidos. Atualmente, 10% dos equatorianos ainda não aprenderam a ler. Em todas as variáveis do Método Psicossocial, partia-se do ensino através da memorização de palavras familiares e sua desintegração em sílabas e letras.

O Método de Palavras Normais foi usado na Venezuela com diversos matizes, mas sem resultados otimizados. Desse método, deriva-se o chamado Cartilha Venceremos, aplicado em Cuba, em 1961, que reduziu o analfabetismo de 23,6% para 3% em apenas um ano. O Cartilha Venceremos, depois, foi enriquecido com elementos audiovisuais. Como elemento fundamental, destaca-se a participação maçica do voluntariado, utilizando em sua realização centros de trabalho, fábricas, granjas, cooperativas, sindicatos e escolas noturnas. Os outros métodos, diferentemente, apoiaram-se mais em funcionários públicos ou em pessoas contratadas para tal fim. O método cubano centrou-se na qualificação para o trabalho e na aprendizagem de tecnologias, objetivo principal da Unesco para o decênio 2003–2013.

Vale ressaltar que, dos países mencionados, Cuba é o que tem a renda per capita mais baixa, no entanto, seus indicadores de educação são similares aos dos países desenvolvidos, como demonstram as estatísticas da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe – Cepal, e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – Pnud. A Venezuela agora começou a implantar o Plano Robinson, que é uma continuação do método cubano.

Inclusão Social passa por letramento

O desenvolvimento científico e tecnológico e todas as condições geradas pela sociedade moderna mostram que não é preciso ser alfabetizado para deter o conhecimento. Entretanto, pesquisas também apontam que esse não é necessariamente um fator evolutivo.

Segundo a pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, Leda Verdiani Tfouni, professora do Departamento de Psicologia e Educação da FFCL (USP, Ribeirão Preto), o termo letrado não tem um único sentido. Como causa e conseqüência de transformações sociais, culturais e psicológicas, “o letramento não se restringe somente àquelas pessoas que adquiriram a escrita”.

Baseadas na Análise do Discurso e na Psicanálise, suas pesquisas consideram que, quando uma sociedade se torna letrada de maneira generalizada — sem que esteja diretamente associada à alfabetização e escolarização —, ela se organiza de forma diferente, mas nem sempre positiva. Esse novo conhecimento tem o lado da perda, alienando os cidadãos, que se desligam de sua cultura e de sua própria história. “As práticas sociais decorrentes desse processo influenciam os indivíduos de maneira desigual”, afirma a pesquisadora.

Assim, não apenas em defesa da classe, mas vislumbrando o desenvolvimento do País, a comunidade científica admite que a política para a inclusão social passa não apenas pelo letramento, mas essencialmente por uma política pública para a educação e valorização do saber. As tecnologias existem, e os profissionais de educação não podem evoluir sozinhos, embora se mostrem interessados em atualizar seus conhecimentos, visto a procura de cursos de especialização, simpósios e congressos e a participação neles. Existe a necessidade de uma política governamental articulada para a capacitação, tanto nas escolas públicas quanto nas particulares, inclusive no Ensino Superior.

Segundo a coordenadora do Programa para História da Língua Portuguesa – Prohpor, da Universidade Federal da Bahia, Rosa Virgínia, a qualidade do ensino é fundamental para uma formulação pedagógica renovada. Rosa Virgínia defende a melhoria nas condições de trabalho dos professores sem a superlotação das salas de aula, para que eles se dediquem à sua jornada e sejam um estímulo para seus alunos — futuros profissionais. “O ideal seria que um professor pudesse ficar concentrado em uma única escola, em tempo integral, suficientemente pago para não ficar desesperado e exaurido, correndo de uma escola para outra, às vezes nos três turnos.”

Essa realidade, que ilustra os problemas enfrentados pelos profissionais da educação, é também um grande desafio na trilha de um Brasil alfabetizado. Mas, de acordo com os estudos sociais da evolução lingüística, num país com tal diversidade, rico também em conhecimento e no uso de sua criatividade, reconhecer as línguas e o valor cultural das comunidades de imigrantes, dos remanescentes dos indígenas torna-se fundamentalmente necessário para erradicar a exclusão.

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