Edição 65

Gestão Escolar

Olha o PALAVRÃO!

Heloisa Fernandes

Decida como lidar com esta realidade: que as crianças soltam um palavrãozinho aqui e outro ali, você já sabe. Mas será que sabe como reagir quando elas dizem alto e bom som um palavrão na sua aula? Aproveite a experiência de algumas escolas e escolha uma estratégia. Seja ela conservadora ou liberal, você nunca mais se xingará por não ter conseguido lidar com a situação.

Um saboroso doce de jambo entregue com um bilhete de desculpas pôs fim a um problema causado por palavrões numa escola carioca. A história começou quando alunos do 4º ano da Oga Mitá soltaram impropérios ao colher o tal fruto no pátio. Um vizinho bateu lá para reclamar. A saída para fazer as pazes foi encontrada pelas crianças e pela professora Ângela Santos num debate, uma das formas dos educadores de lidar com palavrões.

E você, como reage quando um aluno diz um palavrão na sua classe? Finge que não ouve? Dá aquela bronca? Propõe o uso de outra palavra? Encara com naturalidade?

Busca-se a opção certa, e saiba que não há consenso entre educadores. O denominador comum é que o palavrão, problema para uns e tema para outros, faz parte da vida das crianças. Elas o ouvem em casa, na rua, na televisão e na própria escola. E falam. Não dá para ignorar.

“Quando dizem um palavrão na presença do professor, os alunos têm certeza de que ele está ouvindo”, afirma Maria Lilia Simões de Oliveira, professora de Português há 22 anos, que leciona para o 6º ano na Escola Municipal Mascarenhas de Moraes e para o 7º ano no Colégio Pedro II, federal, ambos na cidade do Rio de Janeiro. “Como não sabem lidar com a situação e temem passar por antiquados, muitos fingem que não ouvem; mas isso não é bom”, observa ela. “Deve-se agir com consciência.” Por isso, você e sua escola precisam decidir como atuar.

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Em geral, a prática do educador varia de acordo com a linha pedagógica. O que não muda é a convicção quanto à postura do corpo docente: professor não pode dizer palavrão. Sua missão é enriquecer o vocabulário das crianças e ensinar-lhes a língua culta. Quanto aos estudantes, qualquer decisão exige uma base sólida. Afinal, sua atitude será alvo de um milhão de porquês de alunos, pais, colegas e até de vizinhos da escola.

Você pode sair dessa sinuca

Veja como escolas de diferentes linhas pedagógicas trabalham com o palavrão.

Construção do respeito

“Nada do que é trazido pelas crianças passa batido. Palavrão também não. Se é força de expressão, tudo bem. Mas, se gera curiosidade ou é agressão, discutimos nas rodas se não haveria outro modo de resolver o conflito. Tudo na linha de construção da moral e do respeito. O combinado em grupo é mantido pela professora. Quando é o caso, tratamos de significados.”

Maria Elena Latalisa Sá, diretora pedagógica de Educação Infantil e Pré-Escolar da Balão Vermelho, escola particular de Belo Horizonte.

Adequação da linguagem

“Explico que há uma linguagem para cada situação. Assim como terno não é traje de praia, palavrão não é próprio para qualquer hora. Tem funções específicas, como expressar raiva ou alegria. Quando é dito entre os alunos num contexto em que cabe, é melhor não dar bola, para não hipervalorizar. Mas isso deve ser consciente.”

Maria Lilia Oliveira, professora do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro.

Contra a agressividade

“Importante é o respeito. Às vezes, é pior chamar de burro do que dizer um palavrão. Não temos caso de palavrão em sala, mas corre solto no pátio. Só não pode usar para agredir. Senão, ignoramos. A sociedade aceita cada vez mais e evitamos o moralismo, mas não dá para ‘liberar geral’. Aos menores, explicamos o significado e indagamos se é o que queriam dizer.”

Luci Serricchio, coordenadora da Anjo da Guarda, escola particular de Curitiba.

Solução de conflitos

“O palavrão está na vida dos alunos, mas explicamos que é agressão. Como toda agressão, não é aceito na escola. Valorizamos o respeito e mostramos que conflito se resolve com conversa. Perguntamos: ‘Gostaria que eu falasse com você assim?’. Se às vezes usam como exclamação, não fazemos drama. No pátio, alertamos: ‘Olhe a boca!’.”

Sonia Furtado, diretora do Ciep Margaret Mee, da rede pública carioca.

Espaço de aprendizagem

“Não permitimos que as crianças falem palavrão na escola, um espaço formal de aprendizagem. Incentivamos a ampliação do vocabulário. Também trabalhamos o respeito pelo outro. Se argumentam que em casa o pai fala, dizemos que lá tudo bem, aqui não.”

Stella Mercadante, diretora do Primeiro Grau da Vera Cruz, escola particular paulistana.

“Pedimos que mudem o modo de se expressar. Xingamentos como idiota também são reprimidos. O problema é a agressão. Queremos que saibam se relacionar, respeitando as diferenças.”

Nádia Dimitrov, orientadora educacional do 8º ano da Vera Cruz.

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Formas de expressão

“É fundamental a criança se expressar, pôr a raiva para fora, e, às vezes, sai um palavrão. Só interferimos quando é agressão. Agimos como se fosse agressão física. Paramos para discutir. Estamos preocupados com os conteúdos éticos. Mostramos que não temos o direito de incomodar o outro.”

Angela Santos, coordenadora pedagógica da Oga Mitá, escola particular carioca.

Vocabulário mais rico

“Estimulamos o enriquecimento da linguagem, mas os palavrões não são reprimidos. No entanto, eles são desvalorizados como forma de expressão. Trabalhos com palavrão são feitos quando eles aparecem com frequência numa classe ou individualmente. O assunto é discutido, e as crianças refletem sobre ele. Se a criança pergunta o significado, ele é explicado.”

Eda Canepa, coordenadora de Educação Infantil da Lourenço Castanho, escola particular paulistana.

Quem fala, quando fala e por que fala

Em cada faixa etária, o palavrão aparece de uma maneira.

Meninos e meninas, cada vez mais, falam mais palavrões. Mas existe uma época em que os “descobrem”. Segundo Eda Canepa, isso acontece por volta dos 4 ou 5 anos. De início, dizem pelo prazer de empregar palavras novas, não para xingar. “Mas, embora desconheçam o significado, mesmo pequenas, sabem que estão dizendo algo que não deveriam”, observa.

Na pré-escola, por volta dos 6 anos, já falam menos. “Começam a entender que o palavrão é uma forma de expressão que faz sentido em certos momentos”, explica Eda. “O comum é que passem a falar só entre si.”

Nessa fase, a curiosidade pelo que aquelas palavras “proibidas” querem dizer ainda é pequena, mas às vezes aparece. Por isso, esteja preparado.

Atividades para várias idades

Enfrente o inimigo unindo-se a ele. Trabalhe com palavrões em textos e discussões.

Traduções em texto

Quando os palavrões são muito usados, é possível criar atividades com textos que os contenham e propor traduzi-los. Porém, Maria Lilia Oliveira ressalta que o professor deve estar à vontade, e os alunos precisam ter maturidade para a tarefa. Senão, há risco de ser constrangedor ou de as crianças acharem que o vocabulário está liberado. Nos últimos anos do primeiro grau, ela já experimentou explorar trechos do livro Mas será o Benedito?, de Mario Prata (Editora Globo, 175 páginas). Luci Serricchio alerta que textos com palavrão só devem ser trabalhados em sala a partir do 7º ano.

Uma saída é formular definições. Maria Elena Sá dá uma sugestão para explicar puta: “Mulher que namora por dinheiro”.

Em qualquer situação, quando a criança pergunta, Sonia Furtado defende que a resposta seja dada naturalmente. “Isso tira a graça de xingar, mas, se o professor se constrange, a criança fala para provocar.”

O interesse pelo significado em geral só aparece com força na pré-adolescência, com o despertar da sexualidade, por volta dos 10 anos. “Esperamos que a criança tenha curiosidade e, quando pergunta, explicamos ou mostramos no dicionário. Com frequência sentem que a definição não tem nada a ver com o que queriam dizer, que a palavra não faz sentido naquele contexto.”

No entanto, se a criança cresce num ambiente em que o palavrão é muito presente, as fases podem ser menos nítidas. “Fazia um trabalho com leitura no Centro Comunitário de São Cristóvão com alunos do 2º ano que não sabiam falar sem palavrão. Tive de aceitar. Pelo menos estavam se expressando”, conta Maria Lilia Oliveira.

Às vezes, quem se incomoda com palavrões se queixa à professora quando ouve um. Na Oga Mitá, Angela Santos diz que isso motiva uma discussão que envolve a ideia de respeito pelo outro. Na Anjo da Guarda, essas queixas não são bem-vindas. “Mais grave do que falar é dedar o colega”, defende Luci Serricchio.

Regras de convivência

O estabelecimento pelos alunos de regras para o convívio em sala e nas áreas comuns da escola é uma prática da Escola Oga Mitá, que tem turmas do maternal ao 5º ano. O que fica decidido é exposto em cartazes. “Ao longo dos anos, a proibição de falar palavrões aparece cada vez menos nas regras”, diz Angela Santos. Além disso, à medida que crescem, as crianças vão se tornando mais flexíveis. O “É proibido” dá lugar a um realista “Vamos evitar”.

Substituições em redação

Outra alternativa com textos é propor substituições quando palavrões aparecem nas redações. Mas é preciso ter claro que nem sempre isso é possível. “Assim como incentivo a ampliação do vocabulário, proponho que não escrevam palavrão. Certa vez uma aluna do 6º ano do Colégio Pedro II definiu uma atitude do namorado como sacanagem e, conversando, chegamos à conclusão de que aquela era mesmo a palavra adequada”, recorda Maria Lilia Oliveira.

Consultas ao dicionário

Procurar o palavrão no dicionário pode ajudar a diminuir sua importância para as crianças e a desfazer o mistério que cerca essas “palavras proibidas”. Elas ficam surpresas ao ver palavrões escritos num baluarte da língua culta. “Crianças do 3º ano costumam gostar de procurar palavrão no dicionário”, conta Angela Santos.

O que faz uma palavra ser “feia”?

“Ah, tia, isso não é mais palavrão!”, repetem as crianças quando repreendidas, por exemplo, ao definir algo como sacanagem. Segundo o Dicionário Aurélio, palavrão é um termo obsceno ou grosseiro. Mas nem tudo o que é grosseiro ou obsceno tem esse peso. E a classificação muda mesmo com o tempo. Quem tem mais de 40 anos lembra que chato não entrava no vocabulário de mocinhas de família. Tornou-se gíria. Como? Pelo uso. A redução da formalidade social e a nova forma de encarar o sexo deram mais liberdade à linguagem.

Em geral, o significado literal está ligado ao sexo, às partes íntimas do corpo e aos excrementos. Porém, quem escolhe um palavrão para qualificar algo ou agredir uma pessoa muitas vezes não pensa na definição do dicionário. Xingar de filho da puta é criticar o caráter, não a mãe. Além disso, alguns palavrões servem também para indicar surpresa ou enfatizar um elogio.

E o que faz uma palavra ser palavrão e seu sinônimo não? O uso e, por vezes, a etimologia. Bunda deve o estigma à sua origem africana. Dita pelos escravos, não cabia na casa-grande.

Dez mandamentos

Procedimentos básicos mais comuns nas escolas:

1. Quando um aluno disser um palavrão, não finja que não ouviu só para não enfrentar o assunto. Aja planejadamente.

2. Procure colegas ou orientadores se não se sentir à vontade para agir. Naturalidade e firmeza são fundamentais.

3. Avalie se o palavrão é uma experimentação da criança, um xingamento consciente ou vontade de chamar a atenção. Cada caso requer uma atuação.

4. Se o palavrão está num contexto de agressão, avalie o caso como tal, não como uma inadequação vocabular.

5. Analise o meio ambiente do aluno. Se sua linha for oposta à da família, aja com cautela ou ele ficará confuso.

6. Mesmo que a opção seja reprimir, use o bom-senso. Não vale a pena fazer tempestade por um palavrãozinho no recreio.

7. Se o aluno perguntar o significado, diga ou mostre no dicionário. Nunca o deixe sem resposta.

8. Explique que o palavrão tem uma carga simbólica que condiciona seu uso.

9. Enfatize que relacionamentos exigem respeito.

10. Se o palavrão for muito presente numa turma, monte uma estratégia específica.

 

Revista Nova Escola. Ano XII, n. 101. São Paulo: Abril, 1997.

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