Edição 12

Pintando o 7

Olhar, e não apenas enxergar!

Um bom exemplo para ilustrar o título desta matéria é o seguinte: uma repórter de guerra certa vez perguntou a uma mãe como ela estava se sentindo, enquanto acompanhava a filha que testava uma prótese para substituir a perna que perdera durante a guerra: “Muito feliz!”, respondeu a mãe, alegre por sua filha continuar viva. Nada melhor para demonstrar o quão os sentimentos das pessoas podem ser relativos.

Diante dessa perspectiva, é preciso lançar um olhar sobre o próprio mundo, registrar o que há realmente para ser registrado, entender e respeitar as diferenças culturais, mas sem fechar os olhos às necessidades básicas do outro, deixar de ter o olhar seletivo e passar a enxergar aquilo que não queremos enxergar. Esse olhar seletivo já tem um “registrador”, e ele se chama Sebastião Salgado.

Esse fotógrafo brasileiro é um dos maiores do Brasil e de todo o mundo. Natural de Aimorés, Minas Gerais, onde nasceu em 1944, Sebastião Ribeiro Salgado é o sexto e o único filho homem de uma família com oito crianças. Filho de um pecuarista, estudou economia no Brasil entre 1964 e 67. Fez mestrado na mesma área na Universidade de São Paulo e na Vanderbilt University (EUA). Após completar seus estudos para o doutorado em economia pela Universidade de Paris, em 1971, trabalhou para a Organização Internacional do Café até 1973.

Depois de levar emprestada a câmera de sua mulher, Lélia, para uma viagem à África, Salgado decidiu, em 1973, trocar a economia pela fotografia. Transformou o hobby em profissão, tendo sempre, como tema de seus trabalhos, movimentos sociais e outros… Trabalhou para várias agências e foi eleito membro da Magnum Photos, uma cooperativa internacional de fotógrafos. De Paris, onde vivia, Salgado viajou para cobrir acontecimentos como as guerras em Angola e no Saara espanhol, o seqüestro de israelitas em Entebbe e o atentado contra o presidente norte-americano Ronald Reagan. Paralelamente, passou a se dedicar a projetos de documentários mais elaborados e pessoais.

Viajando pela América Latina durante sete anos (1977-1984), Salgado foi a pé a povoados remotos. Neles capturou as imagens para o livro e a exposição Outras Américas (1986), um estudo das diferentes culturas da população rural e da resistência cultural dos índios e de seus descendentes no México e no Brasil. Nos anos 80, trabalhou quinze meses com o grupo francês Médicos Sem Fronteiras durante a seca na região do Sahel, na África. Na viagem, produziu Sahel: O Homem em Pânico (1986), um documento sobre a dignidade e a perseverança de pessoas nas mais extremas condições. Entre 1986 e 1992, fez Trabalhadores (1993), um documentário fotográfico sobre o fim do trabalho manual em grande escala em 26 países. Em seguida, produziu Terra: Luta dos Sem-Terra (1997), sobre a luta pela terra no Brasil, e mais dois livros: Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo (2000), retratando a vida de retirantes, refugiados e migrantes de 41 países.

Fotógrafo reconhecido internacionalmente e adepto da tradição da “fotografia engajada”, Sebastião Salgado recebeu praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo como reconhecimento por seu trabalho. Em 1994, fundou sua própria agência, a Amazonas Images, que representa o fotógrafo e seu trabalho. Salgado mora atualmente em Paris com sua esposa e colaboradora, Lélia Wanick Salgado, autora do projeto gráfico da maioria de seus livros. O casal tem dois filhos.

Seu trabalho é uma janela pela qual podemos deixar entrar em nossas vidas as imagens de um mundo globalizado, mas que não é de todos. São trabalhos elaborados com fotografias, verdadeiras obras-primas de composições em preto e branco, que lançam apenas uma pergunta no ar: por quê?!

Suas fotos fazem a gente refletir sobre um mundo globalizado que deveria propor a internacionalização de tudo que é produzido nas nações, tanto riquezas, avanços tecnológicos, educação, comunicações, trabalho, como fome, miséria, mazelas sociais, pois só assim, ao nos preocuparmos com as dificuldades do outro, mesmo estando do outro lado do mundo, seríamos realmente globalizados.

Salgado consegue impor beleza aos sorrisos de refugiados de guerra de todas as idades, às fisionomias catatônicas de famintos em cidades de lona no meio do nada, pessoas que perderam pernas, braços, olhos, mas que, sobretudo, estão à beira de perder sua identidade, sua cultura.

Como se sentir diante de imagens como essas? É o intuito dos livros citados. Mais importante do que procurar saber como aquelas pessoas estão se sentindo, pois, seja o que for, elas reagem a cada dia que tentam sobreviver, é que as pessoas que as vêem tenham uma reação, isso é o que realmente precisam! E não fiquem também como elas: catatônicas, porém sem fome, sem frio, sem medo, sem uma perna amputada…

A entrevista a seguir foi concedida pelo fotógrafo a Carole Naggar

Carole Naggar – Por que você começou o projeto Êxodos?
Sebastião Salgado – O Êxodos é uma continuação do meu trabalho anterior, o Trabalhadores. É o segundo capítulo da mesma história. Nos seis ou sete anos em que fotografei os trabalhadores, percebi que estamos passando por uma transformação total dos meios de produção. Com o fim da primeira Revolução Industrial, a chegada de novas tecnologias – das máquinas inteligentes – às linhas de montagem e a nova organização dos fatores de produção, vi que o ser humano e sua vida sedentária tradicional também estão passando por transformações.

Milhões de pessoas estão perdendo seu trabalho por causa da produção em massa. Acabam sendo expulsos da zona rural, mudando-se de uma região para outra. Alguns vão às cidades procurar trabalho. Estas ondas migratórias movem 120 milhões de pessoas por ano. É o equivalente a dez populações de Nova York. No setor industrial e de serviços ocorre a mesma coisa.

Até pouco tempo, a maioria da população mundial vivia na zona rural. Agora ocorre exatamente o contrário: o mundo atual é urbano. Cidades como Paris, Nova York e Londres pertencem ao passado. As cidades do futuro são Bombaim, Manila, Jacarta, São Paulo e a Cidade do México, que há pouco tinham quatro ou cinco milhões de habitantes e hoje têm 15 milhões. Na Índia, mais de 150 cidades têm populações acima da marca de um milhão. No Brasil, por exemplo, centenas de fazendas abrigavam centenas de milhares de famílias. Hoje, elas foram substituídas por fazendas enormes que fazem uso do sistema agrícola monocultural, que emprega os antigos donos das fazendas como empregados temporários com contratos limitados. O Brasil se tornou o primeiro produtor de laranjas para o mercado americano e substitui, em parte, a produção da Flórida, que é variável graças a flutuações climáticas.

O êxodo é uma história que conheço pessoalmente. Eu nasci numa fazenda no Brasil. Aos cinco anos, fui morar na cidade. Aos 15, fomos de uma cidade pequena para uma cidade de médio porte, de 120.000 habitantes onde eu conheci minha esposa, Lélia Deluiz Wanick, e há 33 anos, mudamos para São Paulo. Depois, por motivos políticos, tivemos que trocar o Brasil pela França. Hoje, 31 anos depois, continuo sendo um estrangeiro numa terra estrangeira.

CN – O que você espera alcançar com este projeto?

SS – Não sou juiz para julgar o que é bom ou ruim. Minhas fotografias são um simples retrato deste ciclo de deslocação e migração e seus efeitos. Em sete anos, estive em 47 países. Fotografo globalmente e quero expor globalmente. Todo o meu trabalho é sobre globalização e liberação econômica, uma amostra da atual condição humana neste planeta.

Minha maior esperança é provocar um debate sobre a condição humana do ponto de vista dos povos em êxodo de todo o mundo. Minhas fotografias são um vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece. Espero que a pessoa que entrar numa exposição minha não saia a mesma.

Eu acredito que o estilo de vida dos países mais ricos é o estilo de vida certo para todos. Todo mundo tem direito à saúde, educação, previdência social, além do direito e necessidade à cidadania. Acredito que todos os seres humanos neste planeta têm direito às mesmas coisas. E o mais interessante é que existem recursos suficientes para criar um mundo melhor para todos.

CN – Qual a relação entre o seu trabalho atual e os seus projetos anteriores?

SS – Todo meu trabalho é relacionado, como diferentes capítulos da mesma história. As fotografias dos trabalhadores rurais na América Latina e sua luta pela sobrevivência, minhas fotografias do Sahel,dos migrantes, dos povos refugiados e dos trabalhadores são todas sobre a luta do homem pela dignidade e por uma vida melhor. Tento ser coerente em relação a este breve momento deste planeta onde moro, e meu trabalho retrata estes momentos.

Hoje em dia não sou mais ou menos pessimista, e sim mais realista. Antes achava que evolução significava uma evolução positiva, que estávamos evoluindo rumo a uma vida melhor e relacionamentos melhores. Agora entendo um pouco mais o comportamento humano e acho que a evolução também pode ser para o pior. Acredito que a verdadeira inteligência humana é a nossa capacidade de adaptação a qualquer meio e isso me deixa um pouco em dúvida em relação à nossa evolução: conhecemos a nossa própria natureza?

CN – O que uma pessoa comum pode fazer para ajudar?

SS – Pessoas comuns podem ajudar muito, não doando bens materiais, e sim participando, envolvendo-se no debate e pensando no que acontece no mundo. É o mais importante a fazer para evitar que as mesmas coisas se repitam.

A pobreza e a destruição do meio ambiente estão relacionadas. Uma das causas de tanta pobreza é a ligação direta entre o meio ambiente e o crescimento populacional. Não protegemos nossos próprios recursos naturais e já destruímos a maior parte das florestas tropicais. No Brasil, por exemplo, o desmatamento, a exploração e exportação madeireira, a pecuária e a mineração estão acabando com a floresta, o meio de vida dos índios. Como resultado disso, eles estão morrendo. Eu, minha mulher, Lélia, e um grupo de amigos no Brasil tentamos proteger a floresta tropical na região onde nasci, obtendo a verba necessária para construir uma escola para formação de professores para o ensino básico, técnicos em agronomia, fazendeiros e políticos. É um laboratório para a restauração do planeta nas áreas destruídas. Claro que precisamos de ajuda. Discussões e qualquer tipo de ação que lance uma semente e mude a mentalidade das pessoas são contribuições para a preservação do meio ambiente.

Fonte: http://www.terra.com.br/sebastiaosalgado

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