Edição 107

A fala do mestre...

Órfãos do séculos 21

Lécio Cordeiro

Sempre que penso nas contradições do mundo contemporâneo, lembro-me de um trecho da canção Relicário. Ao representar o conflito sentimental que ocorre quando nos apaixonamos, Nando Reis se questiona espantado: “O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou!”. Longe da sentimentalidade da paixão, esses versos representam bem os paradoxos que experimentamos diariamente em nossas salas de aula. O título deste artigo não se refere às estatísticas alarmantes dos órfãos refugiados das guerras. A referência é feita aos nossos alunos, àqueles que são órfãos de pais vivos.28

Há uma guerra silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos. As estatísticas revelam números assombrosos sobre a saúde psíquica das crianças e dos adolescentes. Nos últimos 15 anos, multiplicaram-se os casos de doença mental nessas fases da vida. Com razão, os pesquisadores da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, e do Instituto de Psiquiatria da USP falam de “epidemia”. Os números mostram que a tristeza profunda vem se espalhando entre os jovens — um aumento de 37% de depressão. Entre as crianças, uma em cada cinco tem problemas de saúde mental. Nesse espaço temporal, a taxa de TDAH cresceu 43%, e a de suicídio disparou 200% entre crianças de 10 a 14 anos. O mais espantoso nesse contexto é a desesperança, quando os pais confessam que não sabem mais o que fazer com os próprios filhos. Há um consenso entre pedagogos, psicólogos, psicanalistas: quer saber onde está o erro? Pergunte se estabelecem limites claros para o que os filhos podem ou não fazer.

Dizer “não” foi o tema de uma palestra importante proferida pelo psicanalista inglês Donald Winnicott nos anos 1960. Na sua exposição, Winnicott defendeu a necessidade de os pais imporem limites aos filhos, sobretudo na fase de 0 a 4 anos, quando os pais passam da proteção incondicional ao bebê à imposição de limites expressos pelo “não”. Esse “não” é peça fundamental para a construção da confiança. Ao perceber que os pais suportam seu extremismo e persistem na negação, a criança se sente mais segura. Mas precisa explicar para a criança o porquê do não? Para Winnicott, não havia necessidade de explicação. Basta que fique claro, para a criança, o desejo de quem cuida. “Eu não quero que você morda o colega”, “Eu não quero…”. Se dissermos algo mais para explicar nosso desejo, a criança perde a noção do limite: “Juninho, não pode furar o olho do coleguinha com o lápis, senão faz dodói…”.

Evidentemente, estabelecer limites não é autoritarismo. O desejo dos pais não pode ser autoritário. A criança precisa tomar banho porque deve, não porque vai apanhar se não quiser tomar. Isso tudo foi dito no século passado, mas não foi assimilado. Quando o adulto diz “não”, automaticamente aperta o botão que ativa o sistema límbico da criança. O que isso significa? Significa que ela sentirá raiva, ódio, e muitos adultos hoje sofrem com isso, sentem-se culpados, se desesperam. Acham que vão traumatizar para sempre seus filhos. Não sabem que estão desenvolvendo as estruturas cerebrais capazes de gerenciar as emoções. O sistema límbico desses pais está exatamente como o de seus filhos: incompetente. Por isso não sabem o que fazer com eles. Um adolescente de 40 anos não pode educar um adolescente de 15…

Resultado: hoje, início do século 21, temos em nossa sala de aula crianças extremamente inteligentes, mas com um emocional atrofiado. Temos alunos capazes de realizar feitos impressionantes, com habilidades múltiplas, mas incapazes de se frustrar, de suportar o desprazer. Frustrar-se não é sofrer. Hoje nós sabemos que a frustração é um bem que gera autoestima. Ou seja, suportar a frustração leva ao crescimento. E, na vida, os verdadeiros pais são as únicas criaturas que frustram os filhos por amor.

Ao ser exposta, já nos primeiros anos de vida, à autoridade dos pais, limitada pelo “não”, a criança assimila internamente seus padrões morais e passa a controlar (ou não) seus impulsos. O problema é que, como elas estão indo para a escola cada vez mais cedo e passando cada vez mais tempo lá, longe da família, a autoridade se fragmenta e, muitas vezes, até se contradiz. A criança, então, cresce em meio à perigosa confusão entre o certo e o errado. Existe a autoridade da babá, do professor, da tia, da madrasta, da vovó, do pastor. Como resultado desse conflito, vivemos em nosso cotidiano situações em que, como educadores, temos de trabalhar em sala de aula valores que comumente não fizeram parte da educação que deve ser feita em casa, pela família. São aqueles alunos que cresceram acreditando que têm o mundo a seus pés e, portanto, podem fazer o que quiserem na sala de aula, na rua, no estádio de futebol. E, em casa, nos poucos minutos que passam juntos, os pais confirmam isso, seja falando expressamente, seja de forma velada, com seu comportamento desenfreado.

29Com o sistema límbico de uma criança de 4 anos, os jovens de hoje comumente só querem viver experiências impregnadas pelo prazer e pelo consumo desenfreados. Passaram por toda a infância sem qualquer frustração. Então, tudo o que fazem ou fazem com eles deve ser prazeroso, e eles devem comprar tudo o que querem consumir, para ter prazer, para sentir autoestima, etc. Trazendo essa reflexão para a nossa área, podemos entender inúmeros equívocos com os quais nos deparamos cotidianamente, como a crença de que toda aula deve ser um espetáculo lúdico e motivador.

Diante desse quadro, o que devemos fazer como educadores? Bem, a resposta não é única nem simples. Mas claro está que, se quisermos que nossos alunos sejam indivíduos felizes e saudáveis, teremos que acordar e voltar para o básico. Não podemos assumir sozinhos uma responsabilidade que, necessariamente, deve ser compartilhada. É fundamental trazer a família para dentro do processo. Se você sabe pelo menos identificar seus alunos pelo nome, já tem uma enorme vantagem. Comece agora a buscar simpatia. Experimente ouvi-los e se surpreenda. Algum adulto precisa ouvi-los. Faça o possível para que não sejam órfãos também da escola.

 

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental. E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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