Edição 88

Mensagem inicial

Os homens, os pernilongos e os ratos

2_mensagem_inicialEsta é a história de um homem chamado Ovídio, que morava em um sítio afastado da cidade, onde havia muito pernilongo. Todas as noites, ele sofria e não conseguia dormir por causa das picadas e dos zumbidos. Quando chegava a manhã, ele estava com os olhos inchados e vermelhos por causa das tenebrosas horas de tortura. Ficava irritado e não se cansava de reclamar dos terríveis insetos que atrapalhavam seu sono. Dizia que os pernilongos deveriam ser banidos da face da Terra, que esses sanguessugas eram os responsáveis pelos seus males: falta de rendimento no trabalho, problemas de saúde, etc., etc.

Certa vez, Ovídio conheceu Rufino, que tinha problemas com os ratos que estavam invadindo sua casa. Eles conversavam por horas e horas trocando reclamações. Tanto um quanto o outro apontavam seus inimigos como os únicos responsáveis por sua infelicidade. Imagino que, se não tivessem esses problemas, não teriam o que falar e sua amizade não prosperaria.

Ovídio e Rufino passaram anos brigando com os bichinhos e divulgando contra essas pragas, até que Sávio, entrando no bar onde os dois tomavam café, resolveu se meter no assunto:

— Qual é a função do pernilongo? — perguntou. — Qual é a função do rato? — emendou.

Os dois se assustaram com a pergunta, acharam muito estranho aquele questionamento. Sávio não esperou resposta, mesmo porque sabia que ela não viria por parte dos dois. Ele continuou:

— Vocês vão passar o resto da vida tentando convencer os insetos e os roedores a não invadirem as casas? — esta pergunta também ficou sem resposta, mas Ovídio e Rufino fizeram cara de “O que esse homem está falando?”.

— Não acham que, em vez disso, poderiam evitar a aproximação desses inimigos? — a esta pergunta os dois fizeram a expressão de “Como é possível?”.

— Ovídio, você já ouviu falar de repelente? — perguntou.

— Rufino, você já tentou evitar deixar restos de comida espalhados pela casa?

Então os dois fizeram cara de “Nunca pensei nisso”.

Sávio pagou a conta dos três e foi embora. Os dois continuaram ali, em silêncio. Na mente, um impasse: continuar do jeito que estavam ou fazer o que Sávio sugerira? O outro fizera cair o pano que escondia a verdadeira realidade. O problema não estava nos bichos, mas em suas atitudes, ou na falta delas.

Os homens, os pernilongos e os ratos. In. CHRISTE, Padre Aberio. Aprendendo a voar: histórias fabulosas com mensagens e poemas. São Paulo: Jardim dos Livros, 2014

cubos