Edição 46

Lendo e aprendendo

Os Mestres do pensamento

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No século V a.C., Atenas vivia o auge de um regime de governo no qual os homens livres decidiam os interesses comuns a todos os cidadãos. Em outras palavras, eles determinavam, em discussões públicas, como a cidade deveria ser administrada. Era considerado cidadão o homem que possuísse alguma propriedade (uma casa, pelo menos), que tivesse escravos e que não fosse estrangeiro. Ou seja, nem todos participavam das decisões públicas; as mulheres, por exemplo, eram excluídas. Esse regime de governo era a democracia ateniense, que, embora não garantisse os mesmos direitos para todas as pessoas, representava uma importante mudança no modo de ver o mundo, pois tinha como fundamento a ideia de que o homem tem soberania sobre seu destino.

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Os sofistas

No mesmo período, deu-se o auge da produção de um gênero de teatro conhecido como tragédia. Esse gênero tematizava acontecimentos terríveis, muitas vezes míticos, e tinha a intenção de mostrar as consequências de atos imorais e passionais dos homens. A tragédia também era uma reflexão sobre o conflito entre a liberdade individual e o destino, tema que incomodava os cidadãos da democracia: afinal de contas, até que ponto eles teriam poder sobre sua vida? Como exemplo, temos a história de Édipo Rei, escrita por Sófocles (497?–406 a.C.); baseada num mito, narra como Édipo veio inadvertidamente a assassinar seu pai e a se casar com sua mãe, Jocasta, e as punições que o destino reservou para ele, sua família e sua cidade por causa desses crimes.

As propostas que os cidadãos atenienses defendiam publicamente eram feitas por meio de discursos proferidos na ágora (nas antigas cidades gregas, eram praças onde os cidadãos se reuniam para discutir a administração da pólis). Para obter a aprovação da maioria, esses pronunciamentos deveriam conter argumentos sólidos e persuasivos: falar bem e de modo convincente era considerado, portanto, um dom muito valioso. Por isso, havia cidadãos que procuravam aperfeiçoar sua habilidade de discursar a fim de melhor convencer os outros. A necessidade de se expressar bem, juntamente com a importância que foi dada ao indivíduo, naquele período concebido como o senhor de seu destino, favoreceu o surgimento de um grupo de filósofos, os chamados sofistas, que dominavam a arte da oratória, isto é, o uso habilidoso da palavra. Esses filósofos eram originários de diferentes cidades e viajavam pelas pólis governadas de forma democrática, especialmente Atenas, onde discursavam em público e ensinavam sua arte em troca de pagamento.

Os sofistas, entretanto, não foram somente professores, mas também estabeleceram uma corrente de pensamento própria. Sua preocupação filosófica se voltava para o homem e a vida em sociedade; as questões que ocuparam os pré-socráticos, dirigidas para a natureza e a essência do universo, foram colocadas em segundo plano.

Alguns pensadores sofistas foram Górgias (483?–376 a.C.), Hípias (século V a.C.) e Protágoras (485?–410? a.C.), a quem se atribui a famosa frase: “O homem é a medida de todas as coisas”.

Para os sofistas, tudo deveria ser avaliado segundo os interesses do homem e de acordo com a forma como ele via a realidade social. Isso significava que, segundo essa corrente de pensamento, as regras morais, as posições políticas e os relacionamentos sociais deveriam ser guiados conforme a conveniência individual. Para esse fim, qualquer pessoa poderia se valer de um discurso convincente, mesmo que falso ou sem conteúdo.

Os sofistas usavam, de fato, complicados jogos de palavras, trocadilhos, raciocínios sem lógica, todos os recursos do discurso para demonstrar a verdade daquilo que se pretendia alcançar. Esse tipo de argumento ganhou o nome de sofisma.

Segundo a sofística, o que importava para o ser humano era obter prazer com a satisfação de seus instintos, de seus desejos individuais. Assim, até mesmo dominar outros cidadãos seria justificado se isso gerasse alguma vantagem pessoal.

Em resumo, a sofística destruía os fundamentos de todo conhecimento, já que tudo seria relativo e os valores seriam subjetivos, assim como impedia o estabelecimento de um conjunto de normas de comportamento que garantisse os mesmos direitos para todos os cidadãos da pólis.

Foi nesse contexto que surgiu um pensador cuja doutrina se opunha profundamente à sofística: Sócrates.

Sócrates

Conhece-te a ti mesmo.

Preceito do oráculo de Delfos difundido por Sócrates

Tudo o que sabemos sobre a vida e o pensamento de Sócrates (470?–399? a.C.) é proveniente dos comentários dos filósofos que seguiram suas ideias, pois ele não deixou nenhum escrito. Nossas principais fontes são Platão, que estudaremos mais adiante, e Xenofonte (431–350? a.C.), pensador ateniense que foi um grande admirador de Sócrates. Também conseguimos algumas informações sobre o filósofo a partir de Aristófanes (450?–388? a.C.), escritor de teatro que satirizava os sofistas em suas comédias; Sócrates é personagem de uma de suas peças, As nuvens, mas aparece ali como uma caricatura, como se fosse um desatinado.

Sócrates era filho de Sofronisco, um escultor, e de Fenareta, uma parteira. Nasceu em Atenas, onde passou toda a sua vida. Certo dia, seu amigo Querofonte testemunhou a afirmação, proveniente do oráculo de Delfos, de que Sócrates era “o mais sábio dos homens”. Inicialmente intrigado, Sócrates procurou o sentido de tal afirmação. Sendo um homem sem nenhum conhecimento especializado, deduziu que sua sabedoria só poderia ser resultado da percepção que tinha da própria ignorância e, seguindo a indicação do deus Apolo, passou a questionar todo aquele que se considerasse dotado de sabedoria.O instrumento adotado por Sócrates para o exercício de sua atividade filosófica foi o diálogo, dividido em duas etapas sucessivas. Na primeira delas, a que chamou de ironia, o filósofo, insistindo em que nada conhecia, leva o interlocutor a apresentar suas opiniões para, em seguida, envolvê-lo na estrutura confusa de suas próprias afirmações, terminando por trazer à tona toda a ignorância desse interlocutor a respeito daquilo que, até então, acreditava ser verdade. A ironia, no sentido empregado pelo filósofo, era uma dissimulação: Sócrates fingia desconhecer o assunto tratado no diálogo e fazia perguntas ao interlocutor, supostamente desejando compreender o tema. A cada resposta, o filósofo encontrava uma falha no raciocínio da pessoa e formulava outras questões, até o interlocutor chegar a uma contradição e demonstrar a sua ignorância. Na segunda fase do diálogo socrático, denominada maiêutica — ou “parto das ideias” —, o interlocutor era levado a tentar elaborar as próprias ideias, ir ao encontro da própria alma e adquirir, a partir de então, uma existência autêntica e verdadeiramente original.

Sócrates transmitia seus ensinamentos a qualquer homem, tivesse ele um interesse especial pelo debate filosófico ou não. Ele aplicava o método do “parto das ideias” num sentido amplo, que não se restringia à sua doutrina específica. Por exemplo, por meio do diálogo, Sócrates teria levado um escravo — que normalmente era desprovido de qualquer instrução e considerado inferior em inteligência — à demonstração do Teorema de Pitágoras. Sua popularidade em Atenas era decorrente de sua atitude em relação à Filosofia: Sócrates percorria a cidade com frequência, dialogando com jovens e adultos nos espaços públicos. Essa atividade, aliás, era condizente com a cultura ateniense da época; afinal, a democracia se fundamentava justamente nos debates públicos.

Escolas de Filosofia

Os filósofos apresentados no início deste artigo seguem uma ordem cronológica, do começo da Filosofia ocidental até nossos dias. Nesta seção, eles serão apresentados no contexto de suas ideias. Muitos deles compartilharam-nas porque foram influenciados pelos pensamentos dos que vieram antes deles. Então, é possível agrupar filósofos em diferentes escolas de pensamento. Pode-se dizer que há centenas ou milhares dessas escolas. Esta seção apresenta algumas das escolas mais importantes da Filosofia ocidental. Todos os filósofos apresentados na primeira parte deste artigo pertencem a uma dessas escolas — todos, com uma exceção: Sócrates.

Sócrates — O pai da Filosofia ocidental

Sócrates não foi o primeiro filósofo do Ocidente. Entretanto, sua importância para a Filosofia ocidental pode ser avaliada pelo fato de os pensadores gregos que o precederam serem conhecidos como pré-socráticos, o que significa “antes de Sócrates”.

Sócrates é uma figura misteriosa. Não escreveu livros. A maior parte do que conhecemos sobre ele veio de seu aluno Platão. O fato de ter morrido pelo que acreditava serviu de inspiração para todos os filósofos posteriores que ousaram desafiar o status quo. Sócrates era diferente de seus antecessores porque se preocupava com a moralidade ou com o que era bom; de preferência, o que mantinha junto o universo físico.

Sócrates queria encontrar definições universais para ideias como o bem, a justiça e a sabedoria, e não apenas descrições. Ele pensou que devia haver um denominador comum ou uma essência em cada uma dessas ideias abstratas. Sabia que, ao serem capazes de descrever, por exemplo, um ato de coragem, as pessoas poderiam ser capazes de reconhecer a essência da coragem inerente ao ato. Sua busca era isolar essa essência.

O método de Sócrates para encontrar a verdade sobre as coisas era um sistema de questionar o que as pessoas acreditavam. Assim, Sócrates esperava revelar as inconsistências. Ele pensava que a verdade só poderia ser encontrada com muito trabalho. O grupo mais influente de filósofos do tempo de Sócrates era o dos sofistas, que ganhavam a vida ensinando oratória às pessoas. Sócrates não os via como filósofos de verdade. Com seu sistema de questionamento contínuo, Sócrates classificou os métodos dos sofistas como pouco mais que artifícios superficiais — torcer as palavras para vencer uma discussão em vez de revelar a verdade.

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Os filósofos apresentados

De acordo com o pensamento desse homem admirável, a finalidade da vida é a felicidade, que estaria na capacidade do ser humano em estabelecer para si mesmo, por meio do saber, suas próprias leis e regras de conduta.

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Não seria essa, enfim, a condição fundamental do homem verdadeiramente livre?

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A morte de Sócrates.
Obra do pintor francês Jacques Louis David (1746–1825).

Platão

“É decididamente indispensável aos homens atribuírem-se leis e viverem conforme essas leis.”
Platão

PIatão (428?–348? a.C.) também era ateniense, filho de Aristo e Perictona, que provinham de uma antiga família pertencente à nobreza da cidade. Como já dissemos, esse filósofo foi discípulo de Sócrates. Assistiu inconformado à sentença de morte do grande mestre e, como Sócrates, apostava na razão filosófica como o caminho que conduziria o homem ao exercício da justiça e à prática da virtude.

Esse filósofo herdou de Sócrates muito de suas preocupações morais. Grande parte de sua obra tem como tema a boa convivência dos homens em sociedade. De acordo com o pensamento platônico, o desprezo à razão conduz à valorização apenas das paixões pessoais, à agressividade e à imprudência, o que resulta em ação violenta contra o próximo. Segundo Platão, quando o homem se deixa levar pela paixão, pelos prazeres do corpo, pela busca sem limites das satisfações físicas, ele está exercendo violência contra si mesmo, porque age de maneira irracional. E, ainda, se o homem age, em sociedade, dessa mesma maneira, não levando em consideração as necessidades alheias, tende a se tornar um tirano e, consequentemente, provoca a infelicidade de todos. Essa doutrina está presente em toda a obra de Platão. Vejamos, a seguir, os principais aspectos do pensamento desse filósofo.

O melhor de dois mundos

Para compreender a doutrina platônica, o primeiro conceito a considerar é o de mundo das ideias. Segundo Platão, haveria um mundo imaterial, eterno e imutável, totalmente separado do mundo sensível (o universo material, que percebemos através dos cinco sentidos), a que só temos acesso por meio da razão. Nesse plano da realidade, estão as ideias, que não são simples cogitações presentes na mente dos homens; elas são, na verdade, realidades que existem por si mesmas, independentes do pensamento e de todas as coisas materiais.

De maneira semelhante a Heráclito, Platão afirmava que o mundo sensível é um fluxo eterno. Mais exatamente, a doutrina platônica considerava que as coisas materiais são meras aparências, sempre se transformando, e que não permitem, por isso, chegar a nenhum conhecimento verdadeiro. Para alcançar a verdade, o homem deveria dirigir sua inteligência para as ideias, para além do mundo sensível.

Muitas vezes, Platão serviu-se de mitos para ilustrar seu pensamento. Eram narrativas que ele criava especificamente para facilitar a compreensão de sua doutrina. Acompanhe, a seguir, uma dessas histórias, que o ajudará a entender o conceito platônico de mundo das ideias.

Vamos imaginar um grupo de pessoas morando numa caverna. Os moradores estão lá desde sua infância, presos por correntes nas pernas e no pescoço. Assim, eles não conseguem se mover nem virar a cabeça para trás: só podem ver o que se passa à sua frente. A luz que chega ao fundo da caverna vem de uma fogueira que fica sobre um monte atrás dos prisioneiros, lá fora. Entre esse fogo e os moradores da caverna, existe um caminho com um pequeno muro semelhante ao tabique atrás do qual os apresentadores de fantoches se colocam para exibir seus bonecos ao público.

Agora imagine que, por esse caminho, as pessoas transportam sobre a cabeça objetos de todos os tipos, por exemplo, estatuetas de figuras humanas e de animais. Numa situação como essa, a única coisa que os prisioneiros poderiam ver e conhecer seriam as sombras projetadas na parede à sua frente.

Se eles pudessem conversar entre si, diriam que eram objetos reais as sombras que estavam vendo. Além disso, quando alguém falasse lá em cima, os prisioneiros pensariam que os sons eram emitidos pelas sombras.

Pense agora no que aconteceria se libertassem um dos presos e o forçassem a ir para fora da caverna. Ofuscado, ele sofreria, não conseguindo perceber os objetos dos quais só conhecera as sombras. Ele precisaria habituar-se à luz para olhar as coisas no exterior da caverna. A princípio, veria melhor as sombras. Depois refletida nas águas, perceberia a imagem dos homens e dos outros seres. Só mais tarde é que conseguiria distinguir os próprios seres. Depois de passar por essa experiência, durante a noite ele poderia contemplar o céu, as estrelas e a lua com muito mais facilidade do que o sol e a luz do dia.

Imagine então que esse homem voltasse à caverna e se sentasse em seu antigo lugar. Ao retornar para o fundo, ele ficaria temporariamente cego em meio às trevas. Enquanto ainda estivesse com a vista confusa, seus companheiros ririam dele, caso tentasse convencê-los sobre a verdadeira realidade que ali são vistas como sombras. Os prisioneiros diriam que a subida para o mundo exterior lhe prejudicara a vista e que, portanto, não valia a pena chegar até lá.

Adaptado de: A República, livro 7. Platão.

Nessa narrativa, o mundo das ideias corresponderia ao exterior da caverna, e o interior obscuro seria o mundo das aparências, o universo material tal como é conhecido pelos homens através dos cinco sentidos.

Segundo Platão, a realidade de tudo está no mundo ideal. Assim, haveria ideias correspondentes a todos os objetos, aos seres e às coisas da natureza, virtudes, entidades matemáticas (linha, círculo, ponto, etc.), formas, cores, características da matéria (dureza, mobilidade, calor, etc.), atividades, sentimentos… A ideia suprema é o Bem, que se identifica no mito da caverna com o Sol.

O universo como nós o conhecemos teria sido criado por um deus inferior, o Demiurgo, que teria modelado o mundo a partir das ideias, usando uma matéria preexistente e disforme. No entanto, essa cópia seria imperfeita e inferior ao mundo das ideias.

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O homem: corpo e alma

O ser humano, de acordo com Platão, é composto de corpo e alma, sendo a alma a parte mais importante e mais real do indivíduo. Ela seria imortal e eterna, existindo, desde sempre, no mesmo plano do mundo das ideias. Desse lugar, ela viria para se encarnar num corpo, constituindo então um homem.

A alma, antes de se encarnar, conheceria as ideias, pois estaria junto delas. Ao encarnar-se, entretanto, esse conhecimento se perderia numa espécie de “esquecimento”. Uma vez presente no homem, no mundo sensível, ela poderia “recordar-se” pelo processo da reminiscência (anámnesis, em grego): por exemplo, quando um homem visse um gato e aprendesse o que esse animal é, sua alma estaria reconhecendo a ideia de gato. Assim, todo aprendizado seria, na verdade, uma “lembrança”.

Platão ainda afirmava que a alma se divide em três partes: a racional, localizada na cabeça; a emocional, alojada no peito; e a sensual, localizada no abdômen e nas partes adjacentes. A racional, o guia da alma, conheceria a verdade e reuniria a inteligência, a moral e a lógica. A parte emocional conteria as emoções superiores, como a honra e o ódio à injustiça, e obedeceria fielmente à parte racional da alma. A última, pelo contrário, seria rebelde, corresponderia aos desejos inferiores, carnais e, por isso, desordenada e inquieta. O filósofo exemplificava essa teoria com o mito do cocheiro: uma carruagem é conduzida por um cocheiro e puxada por dois cavalos, um bom e dócil e outro furioso e indisciplinado. O condutor é a parte racional da alma; o cavalo obediente, a parte emocional; ambos viveriam sérios apuros para controlar o cavalo selvagem, que corresponde à parte sensual, a fim de que os três agissem em conjunto.

O amor platônico

Há, na doutrina platônica sobre a alma, um outro elemento importante: Eros, o amor. Platão ensinava que Eros é uma força que instiga a alma para atingir o bem; ele não cessa de mover a alma enquanto esta não for satisfeita. O bem almejado é determinado pela parte da alma que prevalecer sobre as outras. Se fosse a sensual, por exemplo, a alma não buscaria um bem verdadeiro, pois procuraria a satisfação dos desejos, que Platão julgava os mais baixos, como o apetite e a ganância. Segundo o filósofo, o melhor é que a alma seja conduzida por sua parte racional e que utilize a energia inesgotável do amor para se dirigir ao bem verdadeiro — que compreende a justiça, a honra, a fidelidade; em suma, as virtudes supremas.

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A república dos filósofos

Outro aspecto importante do pensamento platônico é sua doutrina política. Platão estendeu suas preocupações com o comportamento individual à esfera da vida em sociedade; ele procurou, de fato, delinear um projeto político no qual o governo da pólis garantisse a felicidade de todos os seus habitantes.

No plano individual, a felicidade é alcançada quando as três partes da alma agem em conjunto na busca do bem supremo, impulsionadas pelo amor. Para essa finalidade, a parte racional precisa reinar, ajudada pela parte emocional, obediente às determinações da primeira. A parte sensual, também necessária para a vida do homem, deve, no entanto, ser controlada — mas não suprimida, pois a satisfação da fome e da sede (atributos dessa parte da alma) é condição de sobrevivência do ser humano. O bem, ideia principal entre todas, leva à verdade, à beleza e à justiça. Em outras palavras, a alma tem de se dirigir à contemplação das ideias.

A política, conforme Platão a concebia, deve ser organizada de maneira análoga ao que ele considerava justo e correto para a vida do indivíduo. Vejamos, a seguir, um esboço de seu projeto para uma sociedade perfeita.

Platão imaginou a pólis como modelo de vida em grupo. Na cidade, os filósofos, tendo conhecido a verdade através da contemplação do mundo das ideias, teriam o dever de tomar as rédeas da administração da cidade. Essa “obrigação” seria consequência do fato de que, por conhecer o bem, somente poderiam desejar que esse bem se estendesse à vida de todos os homens. Para isso, Platão considerava que os filósofos precisavam ocupar a posição de quem decide o que tem de ser feito na pólis, criando as leis e controlando as atividades dos membros da sociedade. Os filósofos, dessa forma, seriam como a parte racional da alma.

Nessa pólis, haveria também grupos de guerreiros ou soldados que se caracterizariam por sua força, integridade e seu grande amor aos sentimentos que Platão considerava os mais nobres, como a fidelidade, a bravura e a aversão à torpeza. Esses homens corresponderiam à parte emocional da alma e colaborariam obedientemente com os filósofos governantes. Defenderiam a cidade de eventuais inimigos e seriam responsáveis pela aplicação da justiça entre os habitantes, conforme os “reis pensadores” determinassem.

Finalmente, contariam com homens que, por meio de seus diferentes trabalhos, garantiriam o sustento da sociedade: os agricultores, pastores, artesãos, construtores e tecelões. Esse grupo estaria relacionado à parte sensual da alma por ser movido pela ambição do lucro, e não pelo desejo do bem. Embora necessário para a sobrevivência material de todas as pessoas, precisaria ser controlado pelos guardiões da cidade, segundo as ordens dos dirigentes filósofos, que ditariam as normas de comportamento, a distribuição dos alimentos e a realização de melhorias urbanas.

É interessante lembrar que Platão, embora tenha detalhado sua doutrina política em obras como A República e O Político, nunca tentou chegar ao poder em Atenas.

• Platão acreditava em um mundo invisível onde existiam modelos perfeitos de todas as coisas da Terra. Nosso mundo seria um mundo de sombras, meros reflexos do mundo das ideias. As pessoas seriam como prisioneiros que só veem as sombras e as tomam pelo que seria real.
• Platão escreveu suas ideias em forma de diálogos.
• Platão fundou a primeira universidade.
• A sociedade ideal de Platão deveria ser governada por filósofos.
• Soldados corajosos deveriam ajudar a manter a ordem.
• O povo deveria ter um governo justo e estável.
• Platão defendia a educação da mulher, por acreditar que homem e mulher têm o mesmo potencial intelectual e devem ter a mesma educação.
• Ele acreditava em uma alma eterna, vinda do mundo ideal.

Platão era da aristocracia de Atenas e conseguiu chegar facilmente a uma posição de poder. Mas o que viu da barbárie e da selvageria dos políticos muito o desagradou. Platão sabia que um bom governo não deveria jamais assassinar um homem bom como Sócrates. A morte trágica de seu amigo e professor estimulou Platão a fazer algo que mudasse as coisas. Ele acreditava que bons líderes não nasciam prontos e tinham de receber a educação adequada. Então ele abriu sua própria escola. A partir daí, seus ensinamentos se encontraram em uma grande questão: “Existirá um mundo perfeito?”.

Sócrates nunca escreveu seus pensamentos. Platão queria garantir que o grande pensador nunca fosse esquecido, então registrou as ideias de Sócrates. Fez isso em forma de diálogos entre duas pessoas, geralmente fazendo de Sócrates a voz principal. Platão era um escritor talentoso, e esses diálogos fizeram sucesso junto a seu público. Então ele continuou a escrevê-los, mesmo depois de começar a desenvolver suas próprias ideias. Isso tornou difícil identificar onde terminam as ideias de Sócrates e iniciam as de Platão.

Sócrates queria encontrar verdades imutáveis sobre coisas abstratas, como deuses e justiça. Platão foi mais adiante: pensou que existiam verdades imutáveis por trás de todas as coisas. Por exemplo, existem muitas raças de cavalos, mas há uma forma ideal, que é inerente a todas. Platão imaginou outro mundo em que há um modelo perfeito e eterno de tudo (“ideia cavalo”, “ideia gato”, coragem, justiça — absolutamente tudo). Ele achava que a Terra era é um mundo de sombras passageiras. Platão considerava que o trabalho do filósofo era abrir os olhos das pessoas e ajudá-las a procurar a perfeição.

Aristóteles

“Toda arte e toda indagação, assim como toda ação e todo propósito, visam a algum bem.” Aristóteles

Aristóteles (384–322 a.C.) nasceu na cidade grega de Estagira, daí também ser chamado de “o estagirita”. Seu pai era médico e pertencia a uma família em que os homens, ao longo das gerações, tradicionalmente professavam a medicina. Aos 17 anos, mudou-se para Atenas, onde, durante vinte anos, frequentou a Academia de Platão, de lá só saindo quando o mestre morreu.

Aristóteles estudou com Platão por vinte anos, e muitas das ideias de Platão estão em seu trabalho. Entretanto, Aristóteles julgou que o mundo invisível de formas perfeitas de Platão era um perfeito despropósito. Ele era muito mais ligado à terra do que Platão. O mundo natural fascinava Aristóteles, e ele era frequentemente visto observando plantas ou a atividade dos insetos. Ele declarou: “Há algo maravilhoso em todas as coisas naturais”.

Após a morte de Platão, Aristóteles abriu sua própria escola, o Liceu, onde a filosofia de seu mestre era estudada e também criticada. Aristóteles acreditava que as formas perfeitas de Platão faziam parte da vida, não constituíam um mundo à parte. Estudar a natureza o convenceu de que todas as coisas buscavam sua forma única de perfeição. Ele sabia que todas as sementes de carvalho eram árvores em potencial, mesmo aquelas enterradas em solo estéril. Ele também sabia que um ovo de pata nunca daria origem a uma águia. Grande organizador, Aristóteles queria categorizar todas as áreas do conhecimento humano em pilhas. Classificava tudo, dividindo até a linguagem em dez categorias básicas. Mas cometeu erros, e rotular a mulher como “homem inacabado” foi um dos grandes. Não há nada como a microbiologia para provar o contrário, e ele achou que apenas os homens carregavam a “semente” humana. Isso inferiorizou as mulheres e as prejudicou por séculos.

O conhecimento do mundo

Embora tenha sido aluno de Platão por muito tempo, Aristóteles construiu uma teoria do conhecimento bastante diferente daquela que seu mestre havia idealizado.

Para Aristóteles, seria possível conhecer o mundo por meio da experiência sensorial, aplicando a razão nos dados fornecidos pelos cinco sentidos, descobrindo, assim, a essência das coisas, ou seja, a verdade sobre os diferentes seres. Isso ficará mais claro a seguir. É importante destacar, por enquanto, que, segundo esse filósofo, o conhecimento é a abstração da natureza dos objetos e dos seres; isso resultaria num conceito, num pensamento, mas de maneira diferente da apresentada na doutrina platônica. Para o estagirita, não há um mundo onde as ideias existam por si mesmas; as ideias são o resultado de um processo conduzido pelo intelecto.

• Aristóteles foi preceptor do jovem Alexandre, o Grande.
• Ele percebeu que a semente contém a árvore em potencial.
• Aristóteles estigmatizou as mulheres como cidadãos de seguda classe, incapazes para qualquer direito legal ou político.
• Ele abriu sua própria escola em Atenas, chamada Liceu.
• Aristóteles foi para Atenas estudar na Academia de Platão.
• Ele achava que poderia classificar todas as coisas da Terra em animal, vegetal ou mineral.
• Bom em biologia marinha, ele identificou quinhentas espécies.
• Aristóteles gostava de caminhar e conversar enquanto ensinava.

Referências Bibliográficas

CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia: os Mestres do Pensamento. São Paulo: Atual, 2002.
WEATE, Jeremy. Filosofia para Jovens. São Paulo: Callis, 1999.

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