Edição 88

Lá Vem a História

Para Refletir

“Se tu queres fazer a humanidade avançar, despedaça todas as ideias preconcebidas. O pensamento, desta maneira, derrotado, acorda e se torna criativo. De outro modo ele permanece em uma repetição mecânica e a torna erroneamente como sua atividade certa.”

Sri Aurobindo

Antônia Nolay de Lima Moreira

Observando os valores da sociedade, perguntamos o que fizeram a Educação e a tecnologia em favor do Homo sapiens.

Quando elas irão entender que não se educa oferecendo o caminho, mas, sim, ensinando a abrir janelas light para o aluno definir seus ideais e fazer sua própria caminhada, como sugere Antônio Machado: “Viajante, não existe caminho, o caminho nasce da tua caminhada”?

Em 1979, quando foi lançada a nova Lei de Diretrizes e Bases, número 5.692, estava eu no exercício do magistério e me assustei quando entendi o objetivo real que atendia plenamente a um regime ditatorial que exigia uma sociedade com antolhos. Eu disse e continuei dizendo: nós só iremos perceber as consequências dessa proposta educacional quando esta geração e as que estão por vir se tornarem adultas e comandarem o destino deste País.

Nós só iremos perceber as consequências dessa proposta educacional quando esta geração e as que estão por vir se tornarem adultas e comandarem o destino deste País

Não foi premonição, uma vez que não sou médium, mas qualquer um que visse o que foi retirado do currículo e o que nele foi acrescentado perceberia que estávamos preparando robôs para dizerem sempre “Sim, senhor”, ou “O que vou lucrar com isso?”, ou repetirem o que a mídia propõe, ou sempre seguirem a maioria. E se lhes perguntar por que estão concordando ou não, decerto não saberão argumentar.

Na referida proposta, foram mantidos os elementos da visão olhar e ver, ao passo que foi retirado o enxergar, que implica em observar, raciocinar, intuir, criar, deduzir, comparar, concluir, ter opinião própria. Foi instituído assim o homem técnico, ignorando o homem consciente. E só intelectuais e alguns estudantes perceberam a perversidade behaviorista e se manifestaram a respeito. Hoje, vejo que estava certa. Não sei quem mais polui a Terra: se o desequilíbrio ecológico ou se a mente linearizada do Homo sapiens. E o mais lamentável é que sempre vêm surgindo novas leis com propostas que atendem à formação do homem integral, porém poucas escolas tomam conhecimento delas.

Estamos no limiar do recomeço de um mundo melhor, segundo os esotéricos. Momento este que exige uma reflexão reforçada para planejar o início de um novo século que acreditamos ser um portador de mudanças. Usemos esse otimismo para fazer um exame de consciência e ver até que ponto estamos contribuindo para que prevaleçam dentro de nós os princípios éticos e os valores humanos.

O que a Educação pretende fazer para que nossos professores não sejam, como afirmam, formadores de opinião, mas, sim, agentes que disponibilizam conhecimentos necessários para que nossos jovens formem suas próprias opiniões?

Edgar Morin, um dos grandes educadores da contemporaneidade, oferece uma proposta intitulada Escola Planetária, própria para atender às necessidades do século XXI, que já está sendo implantada numa universidade do México com sua assessoria. Nós, numa escola cooperativa que funciona no interior da Bahia, ousadamente já incluímos, na nossa jornada pedagógica, o estudo e a discussão dessa proposta para que os professores comecem a se familiarizar com a nova metodologia. Esta atende à formação de uma sociedade composta por cidadãos protagonistas, envolvidos, de forma consciente e crítica, na construção de uma civilização planetária, em que a complexidade e a visão hologramática fazem com que o indivíduo se encontre no planeta e o planeta esteja presente na sociedade, e, dominando essa realidade, comece a criar seus métodos e a construir, aos poucos, nossas propostas pedagógicas que atendam às necessidades dos alunos no momento oportuno.

Está na hora de a tecnologia se desligar de seus dogmas, voltar-se para o verdadeiro sentido da palavra e restabelecer a ligação perdida entre o homem e Deus. Afinal, se um homem buscasse Deus dentro de si mesmo, através de sua consciência, e não apenas intelectualmente, ele seria um homem de bem em luta constante para ser melhor. O que falta na nossa sociedade é um significado para a vida, na qual a cada um cabe definir o seu futuro, pois, como diz Sri Aurobindo, “O amor nunca dá a direção, pois sabe que conduzir um homem para fora do seu caminho é oferecer-lhe o nosso, que nunca será verdadeiramente dele e certamente o enfraquecerá”. Eis o que temos hoje: uma sociedade enfraquecida, dirigida por vários partidos religiosos, quando, na verdade, todos falam de um só Deus, porém com interpretações diferentes.

Quando é que a Educação brasileira, que é a que conheço e vivencio, perceberá que parou no século XX e reconhecerá o grande atraso em que se encontra? Quando irá montar sua proposta pedagógica voltada para a premissa de que educar é preparar o aluno a partir do infantil para ser um trabalhador com inteligência desenvolvida e espiritualmente forte, ético, que vive coletivamente organizado?

Quando vamos parar de discutir sobre questões como: A quem compete educar o aluno? Por que o professor ainda é mal remunerado e desvalorizado? A sociedade deve ser educada pela escola, pelos pais ou pelo código penal? Quando vamos começar a discutir como deve ser a Educação do Terceiro Milênio, que deve usar a tecnologia não por modismo, mas como recurso de aprendizagem? Quando colocaremos como matéria curricular os três níveis de relacionamento inter e intrapessoal? Quando vamos perceber a importância de trazermos os pais para participarem do processo pedagógico extraclasse? Quando vamos perceber que não é somente filho de pobre que é indisciplinado? Quando perceberemos que não é castigo, suspensão e punição que educam? Quando entenderemos que a Educação deve promover a inter-relação entre diferentes classes sociais, incluindo a igualdade de direitos humanos como matéria essencial?

No dia em que a Educação olhar o aluno como um ser humano que merece respeito tanto quanto ele deve respeitar, quando cada cidadão se comportar como se exige que o aluno se comporte, com certeza teremos uma sociedade onde as autoridades constituídas serão respeitadas. O povo será respeitado, os hospitais serão suficientes, uma vez que os acidentes e vítimas de drogas diminuirão. Os sindicatos serão mais acreditados. Tudo isso porque, acima do status e do poder, estará o amor por si mesmo e pelo próximo. A economia do Brasil irá crescer, uma vez que não terá o Tesouro Nacional desfalcado com desvios ilícitos e roubos inescrupulosos. Acusam os pobres de vandalismo, de banditismo, de roubos, de serem desonestos, mas não se vê o que foi deixado de ser feito para que eles tivessem uma educação ética, cultivassem os valores humanos, tivessem condições de viver dignamente.

É preciso que não tenhamos vergonha de dizer a verdade, pois o objetivo da Educação é evitar que o cidadão sinta vergonha de olhar para dentro de si mesmo, assim como sua família, seus amigos e seu país.

Estou com 80 anos e, neste ponto da minha vida, talvez 80% da sociedade brasileira seja meu filho, neto, bisneto… Logo, tenho direito de falar sem medo, porque breve estarei partindo daqui — porém, preciso buscar o conhecimento e desenvolver o amor, razão maior que nos trouxe para a Escola Planeta Terra —, mas eles ficarão e têm obrigação de contribuir para que as gerações futuras encontrem um mundo e uma sociedade melhores que a herança que a minha geração deixou.

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