Edição 83

Professor Construir

Pedagogia Empreendedora:

Anita S. M. Pinheiro

pedagogia_img_1uma análise interpretativa numa visão psicopedagógica

Iniciamos pela citação da Mirian Costa (2003), que anuncia a proposta do projeto Pedagogia Empreendedora e a Intencionalidade do Autor, na qual ela sintetiza as principais questões contempladas pelo projeto de criação do Fernando Dolabela:

[...] Tratando o empreendedorismo como uma forma de SER, Dolabela liga o INDIVIDUAL ao COLETIVO, amarra o compromisso de CRIAR RIQUEZAS com o de DISTRIBUÍ-LAS, apresenta o círculo virtuoso do DESENVOLVIMENTO HUMANO e SOCIAL INTEGRADO e convoca TODA A SOCIEDADE a participar desse movimento, que é CONTRA A MISÉRIA e a FAVOR DA FELICIDADE [...] (COSTA, 2003, p. orelha do livro).

As questões ressaltadas na citação apresentam as premissas que norteiam toda a proposta empreendedora aplicada à Educação, cuja dimensão que ocupa pode ser traduzida em: mudança de filosofia de vida — através de um novo modelo de construção social. A Pedagogia Empreendedora, no meu entendimento, não se trata de simples metodologia educacional ou de apenas um projeto pedagógico inovador, muito menos de uma nova estratégia didática. Constituída por uma nova forma de pensar o processo de ensino-aprendizagem, a obra não pode ser apenas lida, mas, sim, estudada num contínuo interpretativo e de construção.

Por outro lado, tenho dúvidas quanto a considerá-la uma “teoria”. Embora reúna regras e princípios sistematizados aplicados a uma área específica, a Educação, seus fundamentos pautam-se nas teorias educacionais, clássicas e modernas, já institucionalizadas. Acredito que o tempo de aplicação, seguido de pesquisa e estudos aprofundados, consolidará uma identidade científica para essa proposta.

Sendo assim, em nosso estudo interpretativo para a formulação de uma resenha da obra do Fernando Dolabela Pedagogia Empreendedora, adotamos a perspectiva de projeto inovador de aplicação exequível, na conjuntura atual. Projeto este resultante de vários estudos, pesquisas e experimentações em relação às obras do referido autor, que subsidiaram esses fundamentos de alcance globalizante.

Nesse sentido, iniciaremos por analisar os fundamentos teóricos que embasam essa obra, que o autor teve o zelo de explicitar exaustivamente antes da apresentação da metodologia propriamente dita, não deixando espaço para distorções interpretativas e resistências na adoção e aplicação no campo educacional.

Após essa análise, faremos um estudo da proposta pedagógica e metodológica da referida obra, com ênfase nas estratégias didáticas apresentadas no projeto, e concluiremos com a análise avaliativa comparativa entre a Pedagogia Empreendedora, a Educação Básica e a perspectiva da Formação do Cidadão.

Registramos antecipadamente nosso encantamento pela obra Pedagogia Empreendedora enquanto fundamentos educacionais integrativos, proposta didática metodológica de grande abrangência e viabilidade de aplicação na prática educacional. Essa condição constitutiva da obra reflete a imagem empreendedora do autor, seu compromisso com uma educação de qualidade, sintonizada com as demandas do contexto contemporâneo. Seu pensamento retrata a essência que, durante décadas, estudamos, debatemos, discutimos, refletimos e praticamos sem conseguir dar uma forma única de projeto, proposta ou teoria que fundamentasse nossa prática educativa escolar, alinhada com a diversidade de questões que compõem o complexo processo educacional brasileiro.

Nossa expectativa para essa obra são avanços significativos para a concretização de uma educação de qualidade. Para isso, será necessário o entendimento da proposta, pelos profissionais da Educação e das áreas afins, sintonizado com os parâmetros determinados pelo autor na Pedagogia Empreendedora, expressos em sua essência intencional: culto aos valores que privilegiam o “ser” integral em razão e emoção; visão de mundo ampliada para o desenvolvimento humano e social; prática educacional fundamentada em teorias que promovem a construção do conhecimento para todos; metodologia ancorada em estratégias didáticas que integram o desenvolvimento individual ao coletivo; busca de resultados empreendedores para criação de riquezas com distribuição equável; e perspectiva de formação de um modelo de sociedade com identidade cidadã.

Com essa avaliação da obra Pedagogia Empreendedora, recomendamos uma maior dedicação ao estudo da temática empreendedorismo aplicado à educação a partir da Educação Básica, estendendo-se ao Ensino Superior, deixando as resistências de lado, para que estejamos abertos a críticas construtivas que agreguem ajustes, melhorias e mudanças efetivas.

A Pedagogia Empreendedora partiu do princípio de que “todo ser humano nasce empreendedor”, fundamentada na existência do potencial natural que todas as pessoas apresentam, precisando apenas de estímulo para o seu desenvolvimento. Nesse sentido, Dolabela empreende a realização do seu próprio sonho e desenvolve a ideia de uma educação pautada no “direito de sonhar e realizar o sonho como projeto de vida”. Nessa proposta aparentemente simples, o autor faz algumas considerações importantes, que terminam por clarificar sua intenção diante do desafio de: “Educar para a autorrealização e, simultaneamente, produzir um país mais justo e mais feliz” (DIMENSTEIN, 2013, p. 14).

pedagogia_img_2Ao propor a ideia da Pedagogia Empreendedora como modelo de educação para crianças a partir de 4 anos, seguindo o seu desenvolvimento formal até o último ano do Ensino Médio, Dolabela aposta numa proposta preventiva, por entender que, diante da cultura cristalizada no Brasil, a maioria das pessoas tem seu potencial empreendedor sufocado ainda criança, a serviço do interesse de uma minoria. Logo, ele ressignifica os conceitos que dão suporte ao seu pensamento empreendedor: “[...] Crescimento econômico não é o mesmo que desenvolvimento” — sim, aprendemos isso ao ver que o bolo cresceu, mas foi dividido entre poucos —, “Pobreza não é apenas ausência de renda, mas também de poder e conhecimento”. Com esse entendimento, ele descreve as bases conceptivas que dão suporte à aplicabilidade da Pedagogia Empreendedora para escolas, professores e alunos em geral, através da citação de Gilberto Dimenstein:

“[...] fazer as escolas se interessarem por formar gente capaz de criar suas próprias oportunidades, em vez de formar empregados para um mercado de trabalho onde há cada vez menos vagas”. Convidar o professor para a missão de animador, inventor de recursos e aprendiz dos vários sonhos que irão surgir em sua classe, pois, afinal, os sonhos são personalíssimos; lançar ao aluno o desafio de seguir o Mapa do Sonho; definir seu sonho (o que quer ser ou fazer); e gerar os conhecimentos necessários para realizá-lo [...] — “Para isso: investimento em capital humano e capital social, capacitar indivíduos e comunidades a sonhar e realizar seu sonho. Essa é a revolução que o autor propõe: educar para a autorrealização e, simultaneamente, produzir um país mais justo e mais feliz” (DIMENSTEIN, 2003, p. 13).

“O direito de sonhar e realizar o sonho” é concretamente a máxima do criador da Pedagogia Empreendedora, que lança, como proposta, a ação, a toda a sociedade brasileira, numa perspectiva em construção. Para isso, determina parâmetros norteadores para o seu desenvolvimento, que devem ser respeitados: aponta a “emoção” como energia necessária para a geração e manutenção da “condição” empreendedora (o que o faz criar o sonho e conduzi-lo à sua realização). O que nos faz entender que, para sonhar, a pessoa tem que se emocionar, pois o sonho de cada ser humano nasce na dimensão emocional e se mantém alimentado por ela, expressando-se em ações empreendedoras, que é um processo essencialmente humano e que compreende toda a carga de desejos, valores, condição de enfrentar com ousadia as incertezas das respostas da vida diante da construção permanente de ambiguidade e indefinições, o enfrentamento de erros em caminhos desconhecidos e crenças na capacidade de mudar diante das iniquidades sociais. É o que nos afirma, com muita convicção, Dolabela, quando nos faz refletir:

[...] Ao não abraçar o aproveitamento do sonho como elemento que dá intencionalidade à vida e subsidia um projeto existencial, nossa cultura comete um imenso desperdício. A separação entre o sonho (vontade, desejo, projeto de vida, objetivo existencial, busca de autorrealização) e a sua realização pode estar na base de uma fragmentação que provoca efeitos danosos tanto à felicidade como à capacidade de fazer dos indivíduos e, portanto, da coletividade — a dissociação de duplas inseparáveis, como trabalho e prazer, esforço pessoal e desejo, aprendizado e significado, autorrealização e felicidade. Mas a ruptura mais importante se deu na tentativa de dissociação entre emoção e trabalho [...] (DOLABELA, 2003, p. 60).

Em seguida, o autor delimita o significado do sonho a que ele se reporta em Pedagogia Empreendedora, diferentemente do conceito internalizado pela cultura brasileira, propondo os fundamentos teóricos do sonho estruturante, descrito por ele da seguinte forma:

O sonho estruturante pode ser transitório, porque influenciado e determinado pelas constantes mutações do próprio ser. Tanto o sonhador quanto o sonho, portanto, são dinâmicos. Enquanto dura (ou até ser substituído ou metamorfosear-se em outro), o sonho estruturante dá significado à vida do indivíduo. Somente o próprio sonhador pode distinguir sonhos estruturantes e periféricos. Ele faz isso ao avaliar a intensidade da emoção que o sonho produz. Ou seja, um sonho estruturante tende a persistir e autoprover-se da carga de emoção necessária à sua realização [...] — implica a definição de uma atividade, o claro detalhamento dos meios que proporcionarão a satisfação dos desejos contidos no sonho. Só assim o indivíduo poderá construir um caminho para chegar ao futuro desejado (DOLABELA, 2003, p. 41).

Por essa lógica, ele explicita a essência da estratégia pedagógica como sendo o movimento em ciclo “sonhar e buscar realizar o sonho” — se dá através do ciclo iniciado pela criação do projeto próprio, pela criança, definida como autora do “sonho” que a beneficia pela força pedagógica da ação, o que a torna autora e protagonista do enredo que ela mesma criou. Com base nesses fundamentos, compreendemos que o sonho ao qual o autor se refere não é pura obra do imaginário, que fica apenas na dimensão dos desejos inconscientes. Trata-se de sonho com suporte edificante numa fundamentação de ação. Logo, o entendimento da ação pedagógica, tão bem colocado pelo autor, se expressa na sua afirmativa: “A busca de realização do sonho dará dinâmica ao processo, tornando-o autocriativo através do aprendizado cíclico decorrente do sonhar e do agir para realizar o sonho e das mútuas alterações daí decorrentes” — o que confere à Pedagogia Empreendedora a proposta do aprimoramento da capacidade de pactar sempre uma percepção ética, que possa significar a construção evolutiva de conceitos como liberdade, democracia, respeito, cooperação, amor (DOLABELA, 2003, p. 63).

Por essa perspectiva, a Pedagogia Empreendedora não só revela novos paradigmas na estrutura educacional, como também indica, com muita propriedade, a função pedagógica que responde, no contemporâneo, por um desempenho esperado de um novo modelo de construção social, organizado por comunicação em rede, cuja essência pauta-se no desenvolvimento do capital humano e social como principais elementos de geração de riqueza. Essa proposição elege a “inteligência” como maior bem de produção, que, disparada pela emoção, retroalimenta a capacidade de sonhar e de construir novos caminhos para sua realização.

Essa nova forma de pensar o fazer pedagógico sinaliza mudanças significativas de paradigmas educacionais, que passam a assumir posicionamentos pessoais e profissionais orientados segundo Dolabela: “Na pedagogia empreendedora, o objetivo não é só o domínio de conteúdos e ferramentas, mas de processos de invenção do saber. Em outras palavras, aprender a gerar novos conhecimentos voltados para a transformação da realidade” (DOLABELA, 2003, p. 84).

Mantendo a coerência em sua proposta, a Pedagogia Empreendedora sustenta-se na intenção da geração de melhorias na qualidade de vida de uma sociedade. Não acreditando em apenas valores exclusivamente individuais e econômicos. Podemos considerar, na visão do autor, que “Se o sonho é individual na sua concepção, é coletivo na sua finalidade, uma vez que deve necessariamente oferecer (e não subtrair) valor para a comunidade” — um dos princípios da proposta pedagógica empreendedora é contemplar, a partir do desenvolvimento individual, a geração do desenvolvimento e a melhoria da sociedade. Esse princípio fica melhor compreendido no pensamento do autor: “[...] Mesmo sendo individual na concepção, o sonho é fortemente influenciado pelo etos da comunidade a que pertence o sonhador. Além do mais, na sua realização, o sonho é também coletivo, porque fruto da cooperação de vários atores, recursos e elementos” (DOLABELA, 2003, p. 43).

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Para um melhor entendimento, Dolabela apresenta os tipos de sonho de um empreendedor, a concepção de sonho coletivo e as características do empreendedor coletivo, como vemos a seguir:

[...] o empreendedor é alguém capaz de desenvolver sonhos que: tenham congruência com o seu eu, porque assim poderá desenvolver sua individualidade e seus potenciais como alguém integrado à sua comunidade; produzam valores úteis à comunidade (riqueza material e/ou imaterial), cumprindo a essência social do indivíduo; gerem emoções sob a forma de energia em intensidade suficiente para impulsionar à sua realização através da cooperação. – O sonho coletivo é a visão de futuro de uma comunidade. Representa a vontade coletiva construída através da interação que respeita a legitimidade do outro, que acolhe, dá coerência e unicidade às diversas vontades individuais. – Empreendedor coletivo é aquele que tem como sonho promover o bem-estar da coletividade, a melhoria das condições de vida de todos. – [...] é o indivíduo capaz de aumentar a capacidade de conversação de uma comunidade, ampliando ou criando a conectividade entre seus diversos setores, gerando o capital social, que é insumo básico do desenvolvimento e cujo trabalho consiste em criar as condições para que a comunidade desenvolva sua capacidade de sonhar (DOLABELA, 2003, p. 47).

Conhecendo a proposta pedagógica de natureza empreendedora, fica compreendido que o projeto traz, em seu bojo filosófico, concepções, fundamentos e princípios que privilegiam o desenvolvimento do ser por meio de seu potencial natural empreendedor; elege a “emoção” como energia para geração e alimentação de sonhos estruturantes em busca de realizações individuais, com reflexos no desenvolvimento e em melhorias sociais coletivas; e defende o desenvolvimento integrado dos capitais humano, social, empresarial e natural. Por esse viés, a proposta aponta para mudanças significativas no fazer pedagógico, de caráter preventivo, indicando sua aplicação nos segmentos da escolarização formal, a partir da Educação Infantil até o Ensino Médio.

Diferentemente de outras propostas pedagógicas, a Pedagogia Empreendedora é apresentada, pelo seu criador, de forma completa para sua
adoção/aplicação, pois, além do rico embasamento teórico, o projeto foi experienciado na prática escolar e avaliado pelos seus futuros autores-protagonistas: escola, educadores e alunos. Para isso, o autor nos presenteia com a apresentação da metodologia, de estratégias didáticas e desafios, sintetizados nesta resenha, para o nosso maior encantamento e entendimento da Pedagogia Empreendedora.

Em sua proposta metodológica para a adoção e implantação da Pedagogia Empreendedora, Fernando Dolabela orienta sobre algumas questões que não podemos deixar de considerar em nossa análise — apresenta metodologia restrita ao campo do empreendedorismo, devendo ser aplicada concomitantemente às diretrizes curriculares fundamentais para o Ensino Básico, que compreende a Educação Infantil, o Ensino Fundamental (anos iniciais, do 1º ao 5º ano, e anos finais, do 6º ao 9º ano) e o Ensino Médio. O que nos faz entender que a proposta metodológica da Pedagogia Empreendedora assume estrutura temática transversal, com aplicação interdisciplinar, na perspectiva de “estimular e preparar o aluno para sonhar e buscar a realização do sonho” (DOLABELA, 200, p. 55), cumprindo assim seu objetivo, que, segundo o autor, se expressa da seguinte maneira:

Em primeiro momento, o aluno desenvolve um sonho, um futuro onde deseja chegar, estar ou ser. Em um segundo momento, ele busca realizar o sonho e, para isso, se vê motivado a aprender o necessário a esse objetivo. – A busca constante de realização do sonho é a fonte de geração e manutenção do nível emocional que dá ao indivíduo a capacidade de persistir e continuar, apesar dos obstáculos, erros e resultados indesejáveis que encontrar. – [...] as atividades de buscar, aprender com os erros e, portanto, evoluir dizem respeito ao saber empreendedor. Assim, a atividade pedagógica vai se dedicar principalmente à conexão entre o sonho e sua realização (DOLABELA, 200, p. 55).

Segundo o autor e em sintonia com a proposta metodológica, a estratégia didática expressa-se em duas proposições de ação para o aluno: “a formulação do sonho” e “a busca de sua realização” — consideradas como unidade indissociável, as duas ações compõem o eixo do autoaprendizado e acompanham o aluno em todo o ciclo da Educação Básica, iniciado na idade escolar de 4 anos.

Esse encaminhamento pedagógico contemplará todo o ciclo escolar, com o movimento entre as ações de “sonhar e buscar realizar o sonho”. Para isso se concretizar, o autor descreve: “O programa curricular será iniciado com a pergunta: ‘Qual é o seu sonho e como buscará realizá-lo?’” (DOLABELA, 2003, p. 56). Ao final do ano letivo, o período de trabalho será encerrado com a apresentação individual dos alunos: “Aqui está a descrição do que fiz para formular meu sonho e do esforço que desenvolvi buscando realizá-lo” (DOLABELA, 2003, p. 56). Por essa lógica, o autor lança mão dos “elementos de suporte”, citando Filion (1991 a e b), em que apresenta um sistema de atividades, adaptadas à Pedagogia Empreendedora, para o desenvolvimento dessas estratégias, organizadas segundo a natureza interna ou externa do conhecimento visado:

– Desenvolvimento de condições para o entendimento e o desenvolvimento do próprio ser (autoestima, autoconhecimento, autonomia, protagonismo, sistema de valores, diferenciação, criatividade, energia, capacidade de análise, capacidade de lidar com o risco, conhecimento da natureza do sonho).

– Desenvolvimento de habilidades e competências para entender fenômenos exógenos, ambientais, e lidar com eles: conhecimento do ambiente em que o sonho se insere; capacidade de tecer uma rede de relações para dar suporte à realização do sonho; identificação de oportunidades.

– [...] Ao formular o sonho, o aluno deve trabalhar para: conhecer a si mesmo; conhecer a realidade em que está inserido; conhecer a natureza de seu sonho.

– A busca de realização do sonho envolve, além do conceito de si, conhecimento do ambiente, energia, liderança, rede de relações (DOLABELA, 2003, p. 57).

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Dolabela sintetiza os fundamentos das estratégias na Pedagogia Empreendedora: estímulo ao sonho; não interferências no que diz respeito à construção e à realização do sonho; oferecimento de orientação e meios (elementos de suporte) para o desenvolvimento das competências e habilidades para formular e buscar realizar o sonho; auxílio no delineamento dos contornos éticos em que toda essa atividade irá se desenvolver. Compreende-se que essa estratégia, na prática, não é tão simples assim como formulada, mas, para sua aplicabilidade, essas ações estratégicas podem ser consideradas como eixos norteadores, em que estarão contidas inúmeras ferramentas didáticas. Na promoção dos objetivos metodológicos, é necessário criar o sonho e desenvolver caminhos em busca de sua realização — permanentemente, defende o autor.

Frente a essa proposta inovadora e, por isso, desafiante, o estudo e a análise da Pedagogia Empreendedora exigem alguns cuidados, em sua adoção e implementação, da escola, dos professores e alunos, para que não haja distorções com relação à proposta fundamentada ou à sua prática distanciada da metodologia e das estratégias didáticas, necessárias ao seu desenvolvimento adequado no ambiente escolar.

Nesse sentido, Dolabela foi muito cuidadoso e chama a atenção para questões delicadas, que, na área de Educação, se não bem administradas, têm seu impacto ampliado, como as relacionadas à decisão da instituição escolar, à postura do corpo docente e ao objetivo final do desenvolvimento e aprendizado do aluno, principalmente em se tratando do segmento educacional da Educação Básica.

Em nossa análise interpretativa, compreendemos: “A Pedagogia Empreendedora é uma estratégia destinada a dotar o indivíduo de graus crescentes de liberdade para fazer sua escolha” — o que nos faz entender que o papel da escola será o de “preparar o aluno para sua escolha e para assumir a consequência dela decorrente”. Fácil? Não! Considerando nossa cultura, predominantemente orientada pela valorização do “ter”, adotar um encaminhamento pedagógico em que a proposta de ensino fundamenta-se na construção do sonho e na busca para realizá-lo e em que o aluno tem que assumir toda e qualquer responsabilidade em sua formação para a vida significa no mínimo uma mudança cultural. Para nosso alívio, o autor pontua:

[...] A Pedagogia Empreendedora jamais poderá ser imposta. Sua adoção é uma decisão política de cada escola, congruente com sua visão de mundo. – Por exigir grande energia do corpo para conduzir as mudanças que suscita, é imprescindível total compromisso da escola. – A implementação invasiva é inadequada não só porque a metodologia pressupõe cooperação para a construção coletiva — e esta depende de liberdade —, mas também pela necessidade de recriação da metodologia pelo professor, o que exige empenho e convicção. – A única forma de implementar a Pedagogia Empreendedora será pela construção de instrumentos didáticos adequados às peculiaridades e aos modos próprios de ser dos atores envolvidos, ou seja, a escola, o professor, os alunos, a comunidade (DOLABELA, 2003, p. 110).

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Logo, podemos compreender a proposta da Pedagogia Empreendedora, criada por Fernando Dolabela, estruturada por fundamentos teóricos bem embasados, consolidados por uma prática constituída de bagagem experienciada no Brasil e um leque de reflexões para novos caminhos educacionais, viáveis para o nosso tempo, considerando a conjuntura política e de formação para a cidadania, com indicação precisa para aplicação no ciclo da Educação Básica e com definição do seu desenvolvimento no espaço “escola”, fonte formadora do desenvolvimento humano, consubstanciando uma proposta pedagógica coerente com os fundamentos educacionais, já institucionalizados, na história da Educação. Contempla ainda: fundamentos teóricos socioconstrutivistas; uma metodologia a partir da “emoção”, pautada na Pedagogia do Afeto; a prática da Pedagogia de Projetos Temáticos, um desenvolvimento de conhecimento dinâmico por estratégias didáticas de caráter interdisciplinar; a promoção do ensino contextualizado com aprendizagem significativa, para uma intencionalidade alinhada com uma educação de qualidade na formação de uma futura sociedade cidadã.

Registramos considerações quanto ao estudo e à discussão da referida obra, que, embora date de 2003, teve recente adoção e aplicação nas escolas da rede do ensino privado, merecendo uma atenção maior, com aprofundamentos de conhecimento da proposta, para evitar resistências ideológicas e distorções intencionais que prejudiquem seu desenvolvimento. Para isso, recomendamos, para toda a comunidade escolar (gestores, coordenadores, professores e professoras, pais e comunidades), conhecer as obras anteriores do autor Fernando Dolabela, junto com seu trabalho experimental da Pedagogia Empreendedora, apropriando-se do teor técnico pedagógico com posterior posicionamento de adoção ou não da proposta, com responsabilidade.

Anita S. M. Pinheiro é psicóloga especialista em Desenvolvimento e Aprendizagem, Gestão Educacional, Administração com Ênfase em Marketing Educacional, Formação de Professores, Psicologia Clínica Infantil e Psicopedagogia Clínica e Institucional. Também é consultora interna pedagógica da Editora Construir. Endereço eletrônico:
anitasilvapinheiro@gmail.com.

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