Edição 83

Matérias Especiais

PEQUENOS EMPREENDEDORES GRANDES NEGOCINHOS

Rosangela Nieto de Albuquerque

pequenos_img_1Você acha que empreendedorismo é conversa de gente grande? Observa-se que os grandes negócios já emergem nos pequenos empreendedores, quando, ainda pequenina, a criança demonstra interesse em vender cacarecos para os amigos, cuidar de animais dos vizinhos, lavar o carro, fazer brigadeiros, brincar de vender e comprar, enfim, de forma lúdica e até intuitiva já começa a gerar o “espírito empreendedor” e a despertar para o mundo dos negócios. Esses pequenos empreendedores com seus grandes negocinhos já participam significativamente do desenvolvimento da formação de adultos mais empreendedores.

Essas habilidades de criatividade dos pequeninos, quando estimuladas desde cedo, aumentam a capacidade de desenvolver competências para um futuro empreendedor.

As pesquisas demonstram que os empreendedores de sucesso apresentam características de comportamentos típicos para empreender, isto é, com perfil de empreendedor, e não somente com disposição para os negócios. Para tanto, a escola pode contribuir quando assume o papel de desenvolver essas competências.

Certamente, muito se discute acerca das competências empreendedoras, se são inatas ou construídas ao longo do tempo, mas os teóricos já afirmam que não são inatas e que podem ser desenvolvidas ao longo da nossa vida. Atualmente, observa-se o grande número de anúncios de empresas em busca de jovens com perfil empreendedor.

É importante enfatizar que, embora algumas competências empreendedoras possam ser aprendidas, trabalhadas em cursos e vivenciadas, outras são formadas ainda na infância. Essas competências não são exclusivas de quem estabelece um negócio próprio, mas de pessoas que apresentam um perfil empreendedor, que promovem mudanças positivas, aquelas que se arriscam a fazer coisas diferentes, que são hábeis em identificar oportunidades, que sabem construir boas redes de relacionamento, que procuram inovar, que tomam iniciativas por conta própria e que não se sujeitam às regras e à pura burocracia.

A escola tem um papel muito importante na formação do empreendedor: o de ensinar a criança a aprender a empreender; portanto, faz-se necessário conceber uma Educação Básica de qualidade, que contemple a formação do educando para as transformações socioeconômicas, com a presença de procedimentos didático-pedagógicos que incitem a formação da cultura empreendedora entre as crianças e os jovens. Talvez este seja um caminho para crescermos economicamente: investir em jovens para que sejam futuros empreendedores de sucesso, com perfil de liderança socioeconômica eficiente e eficaz.

Embora algumas competências empreendedoras possam ser aprendidas, trabalhadas em cursos e vivenciadas, outras são formadas ainda na infância.

Aprender a Empreender – a Escola na Práxis Educativa do Empreendedorismo

O empreendedorismo é uma atitude a ser formada desde muito cedo, ainda na Educação Infantil, na qual se constituem as condutas éticas e morais que sustentam as relações humanas. Nesse período de formação da criança, os valores, as habilidades e as competências começam a se estruturar e atitudes de participação, cooperação, colaboração, prazer ao enfrentar situações novas, proatividade, persistência, espírito de iniciativa e empatia começam a fazer parte das vivências do dia a dia do educando (DOLABELA, 2003). Desenvolver o empreendedorismo nessa fase oportunizará ampliar a visão da criança acerca do mundo ao seu redor, fortalecendo-a e referenciando suas condutas e seu modo de agir.

A escola tem um grande papel nessa construção quando, em sua teoria pedagógica, busca desenvolver no educando a determinação, quando fortalece o autoconhecimento, desenvolve a habilidade social, fortalece a autoestima, desenvolve liderança ética e a promoção do protagonismo social. Certamente, quando a criança aprende a empreender, o seu comportamento e sua visão referencial de mundo se tornam mais persistentes e comprometidos, e essa criança terá mais iniciativa e atuação proativa, terá mais independência e autoconfiança.

É importante que, como práxis educativa, a escola incorpore a disciplina Empreendedorismo como componente curricular no Ensino Fundamental (do 1º ao 9º ano) para enriquecer e desenvolver o comportamento empreendedor da criança e do jovem.

Pedagogia Empreendedora

O empreendedorismo é uma revolução silenciosa que “[...] terá maior importância no século XXI do que a Revolução Industrial no século XX, por ser um fenômeno cultural, ou seja, empreendedores nascem por influência do meio em que vivem” (DOLABELA, 1999, p. 28).

A Pedagogia Empreendedora valoriza a escola como representante da educação para o futuro. Certamente, a escola configura-se como sendo o local para se adquirir a capacidade de construir e lidar com o futuro, criar oportunidades, desenvolver a inclusão social, com abordagem coletivista na definição do futuro.

Para Dolabela (2003), a introdução da Pedagogia Empreendedora nos estágios iniciais proporciona uma educação que prepara para a vida mais do que para uma ocupação ou um trabalho específico.

Nessa práxis educativa, o ambiente de aprendizagem deve estimular e desenvolver a confiança e a autoestima do aluno, oportunizar e envolver o estudante num sistema que articule a relação coerente entre o sujeito e o mundo.

A Pedagogia Empreendedora permeia a aprendizagem significativa que deve levar em conta o background cognitivo, emocional e social do aluno. Certamente, essa práxis pedagógica promove a evolução dos educandos na formação de novas identidades, que se processa gradual e coerentemente com o seu passado, sem rejeitá-lo. É fundamental que, ao formar novas identidades, haja compatibilidade entre o aluno e o mundo ao seu redor (HAEMING, 2001).

O conhecimento que as crianças adquirem na escola que trabalha com a práxis educativa da Pedagogia Empreendedora vai ajudá-las a projetar e implementar buscas individuais, estimulando-as a desenvolver a criatividade à medida que aumenta o seu nível de autoconfiança. A escola que desenvolve os pequenos empreendedores oportuniza a formação de grandes negocinhos e futuros empreendedores de sucesso com grandes negócios.

Pequenos Empreendedores Grandes Negocinhos

Para formar empreendedores, é necessário projetar uma agenda de desenvolvimento que envolva diversos atores sociais. O Brasil enfrenta uma grande necessidade de mudança na Educação como um todo, e uma delas é que se invista na educação empreendedora, com reformulação curricular no Ensino Fundamental, inserindo o componente curricular Empreendedorismo como disciplina, ou como tema transversal, para que a práxis pedagógica das escolas seja capaz de construir o capital humano, desenvolvendo o potencial empreendedor dos educandos. Nesse contexto, para formar grandes empreendedores, é necessário começar cedo, ainda na escola, e então desenvolver na criança (HASHIMOTO, 2014):

pequenos_img_2O interesse pela novidade
As aulas de robótica, os projetos na escola,
as visitas experienciais em campo e a ida ao
supermercado com as crianças são propostas
de novas ideias e novas construções, pois, ao
ler rótulos e embalagens de produtos, estão
desenvolvendo o interesse pelo novo. Levá-los
a conhecer algo que nunca viram e,
principalmente, a saber como funciona é fundamental
para desenvolver o interesse pela novidade.

O senso de oportunidade
A observação ao redor da escola é a melhor forma de aprender a identificar oportunidades; portanto, é prestando atenção às coisas ao seu redor que aparecem as ideias e as boas oportunidades. Levar as crianças para locais públicos, em filas de espera, e propor a percepção do ambiente é um ótimo exercício. Deve-se propor às crianças que formulem ideias para solucionar os problemas do entorno.

O aumento de confiança
A venda de cacarecos e de doce de chocolate e a confecção de bijuterias para vendê-las a colegas e vizinhos mostram que a criança aposta em suas ideias empreendedoras e está propensa a se tornar um adulto com senso de oportunidade empreendedora mais desenvolvido.

A convivência com o fracasso
Pequenos negócios iniciados por crianças são uma grande brincadeira. Construir uma lojinha com embalagens vazias de produtos e observar que a venda não foi a esperada, que não foi uma experiência lucrativa, ensina a criança que as coisas nem sempre saem conforme o desejado. Empreender na infância é uma boa forma de lidar com o fracasso sem grandes traumas ou prejuízos.

A iniciativa
É importante apoiar e incentivar a iniciativa das crianças. Elas já têm iniciativas espontâneas, já lhes é natural. A escola pode propor um mutirão de ação social, uma banda, uma peça teatral, um fórum mirim para resolver os problemas da comunidade escolar. Enfim, é importante sempre apoiar, elogiar a iniciativa dos pequeninos, e não reprimir nem criticar, apenas orientar, deixar acontecer. Se der errado, enfatizar que até essas experiências são válidas e úteis para o aprendizado.
A autonomia
Assumir a responsabilidade de alguma coisa é importantíssimo para a formação das crianças. Muitas vezes os pais acham que os filhos não estão maduros o suficiente, mas eles são mais espertos do que imaginamos. Na escola, a professora poderá delegar tarefas, sugerir atividades sob a responsabilidade de um aluno e, claro, cobrar os resultados, o que sempre é muito positivo. O exercício da liberdade é fundamental para desenvolvê-la com responsabilidade.

A criatividade
Existem várias brincadeiras para estimular a criatividade, e, como sabemos, a criatividade é o alimento da inovação. A brincadeira de iniciar contando uma história e, de repente, outra pessoa interrompe e continua essa história dando um novo rumo, dando novas características aos personagens, mudando e imaginando novos finais, é um ótimo exercício para desenvolver a criatividade.

A avaliação de riscos
Seria interessante propor desafios com jogos de estratégia e avaliar se algo deu errado; posteriormente, analisar com a criança ou o jovem se o aprendizado ocasionado pelo erro vai compensar o prejuízo. Analisar com a criança a ida para a escola sozinha (certamente com controle e observação de um adulto) é também uma forma de se pensar nos riscos.

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Considerações Finais

Do ponto de vista social, o comércio é um processo de desenvolvimento de negociação com os membros da sociedade, buscando o mérito produtivo. O exercício da capacidade de negociação, a diplomacia e a determinação para se alcançar resultados satisfatórios requerem líderes com perfil empreendedor.

Faz-se necessário desenvolver na sociedade a oportunidade de gerar renda e experimentar a autorrealização. Assim, os empreendedores de sucesso ajustam-se ao feedback do mundo real, isto é, são capazes de admitir erros e incorporar novos fatos, em vez de ignorá-los. Para eles, a produtividade é um processo de desenvolvimento que culmina no funcionamento do produto.

Pesquisas indicam que os pais das crianças exercem grande influência na formação de algumas características empreendedoras, mas a escola tem função formadora. É interessante e útil investir nessa educação através de uma Pedagogia Empreendedora, desenvolvida nas escolas com o papel de ensinar às crianças e aos jovens a aprender a empreender, com vivências e experiências para formar o futuro empreendedor.

É indispensável que a escola se conscientize de que deve oferecer aos jovens condições de entrar no mercado de trabalho mais competentes, mais fortalecidos, mais criativos e mais seguros, predispostos a tomar iniciativas, enfrentar situações novas, conhecer hierarquias e reconhecer autoridade, permeadas pela relação de poder que estarão presentes nas instituições do mundo do trabalho.

Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação (Pós-doutora em Educação), pós-doutoranda em Psicologia, doutoranda em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, coordenadora de cursos de pós-graduação em Educação, psicopedagoga clínica e institucional, analista em Gestão Educacional, pedagoga. Autora de projetos em Educação, autora da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia como projeto social. Autora de três livros: Neuropedagogia e Psicopatologias, Psicoeducação e Neuropsicologia.

Referências

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