Edição 09

Matérias Especiais

Poesia são palavras que cantam

O que vem a ser poesia? Pensem numa resposta pessoal. Não muito satisfeitos com a resposta, vamos recorrer aos dicionários ou às gramáticas. Ficamos na mesma. Nenhuma definição conseguiu superar, para mim, a resposta de uma criança a quem a professora fizera aquela pergunta:
- Que é poesia?
- Poesia são palavras que cantam.

De alguns anos para cá deixamos de ouvir esse “canto” nas escolas. A “morte” da poesia – expressão mais alta da criação literária – é conseqüência do mau uso que fizeram dela. A escola, com raras exceções, tem sido a grande cerceadora da imaginação poética infantil. Na obrigação de festejar o dia das mães, o dia dos pais, o dia da mestra, o dia do soldado etc., o adulto dava às crianças versos prosaicos, com intenção moralizante, versos de pé quebrado, copiados nos livros de qualidade duvidosa, para que decorassem e os recitassem para uma platéia já de antemão, comprometida com os aplausos.

Poesia nunca foi leitura habitual na vida dos brasileiros. Entretanto, alguns professores e o aparecimento de belos livros estão tentando resgatar a palavra poética.

Assim como envolvemos a escola em campanhas ecológicas, a descoberta do mundo poético só será abrangente se levarmos a escola, como um todo, a vivenciar experiências poéticas.

Fizemos, certa vez, uma aproximação com a poesia, numa das escolas em que trabalhei. Foi uma inspiração bem simples: todas as pessoas que estavam naquela escola deveriam escrever um “aviso poético” para os alunos, comunicando que no dia seguinte não haveria aula. Alunos, professores, diretora, merendeira, pais de alunos colaboraram e, o resultado foi que criamos um clima onírico, pois vieram lembranças do passado, jogo de palavras, e diversos avisos evidenciaram que podemos criar e fazer poesia. Logo compreenderam que poesia não pretende ensinar, mas comunicar beleza. Um dia de folga, por si, já comunica a liberdade de passear, de brincar… Lembro-me de um aviso feito por um menino de oito anos: “Um raio de sol passou aqui e avisou: vai dar praia, amanhã é folga”. Muitos avisos ficaram no quadro e abriu-se uma porta para que os comunicados se tornassem menos secos e autoritários.

Completando o clima poético que criamos com aquela brincadeira, vamos, professores e alunos buscar a poesia nos livros. Interessar as crianças na leitura oral, leitura em grupo, jornais, poesias musicadas. No momento em que o professor e o aluno se harmonizam e descobrem a POESIA, as crianças começam a expressar o seu próprio pensamento criador, numa redação, numa frase ou duas, acabando por tentar fazer pequenos versos, trovas, revelando uma emoção pessoal, sutil, delicada. Ficou na cabecinha delas muito das leituras e é natural que repitam palavras e idéias. Aos poucos vão se soltando porque, na realidade, é no seu íntimo que guardam um belo potencial poético inaproveitado pelos exercícios escolares dirigidos e subordinados a julgamento.

Outra experiência interessante foi a de um professor que estava sempre com seu livro de poesia debaixo do braço. Com dificuldade de levar os alunos a ler poesia, certo dia preparou a turma para um passeio, e, nele passaram a observar: o vôo dos pássaros, o ruído das folhas caindo, o farfalhar do vento nas árvores, o grito de um animal na mata, as águas correndo entre as pedras, a chegada de alguém que habita a floresta. Olhos e ouvidos atentos sentiram que havia ali alguma coisa diferente: o encantamento. Indo mais longe na liberação do imaginário, logo, logo, as crianças começaram a procurar, escondidas nas folhagens, gnomos, fadas, bruxas, sílfides, fantasmas, monstros, seres de outros planetas… Resultado: em sala de aula, redações criadoras, desenhos imaginativos, modelagens, construções e, afinal, a POESIA.

Esta sensibilização leva a criança a sentir que pode usar a palavra como recreadora de realidades. Diz-se que os poetas, os grandes poetas, vivem “em estado de graça” pela beleza de seus poemas. Mas, na criança, este estado é inerente ao seu mundo imaginário.

Substituindo os “concursos” de poesia, muito comuns nas escolas, por “festivais”, estaremos dando oportunidade a que todos se expressem com imaginação, com liberdade de escrever o que sentem, mostrar o melhor de si, na medida da capacidade criativa de cada um. Estimular pequenos livros de poesia, e evitar o julgamento, levarão as crianças a auto-crítica e a observação do progresso da sua linguagem criativa no final do ano.

Memórias Futuras. In: Agenda do Professor, 1994.

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