Edição 63

Matérias Especiais

Por que falar da morte?

Lucélia Elizabeth Paiva

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Ouve-se muito que a única certeza que temos, se estamos vivos, é de que um dia iremos morrer… de que a morte é inevitável…

Maranhão (1987) nos diz que “A morte revela o caráter absurdo da existência humana, já que interrompe radical e violentamente todo o projeto existencial, toda a liberdade pessoal, todo o significado da vida”. Savater (2001) afirma que “A certeza pessoal da morte nos humaniza, ou seja, nos transforma em verdadeiros humanos, em mortais”. Podemos dizer, então, que é a conscientização de nossa finitude, de nossa condição humana, de nossa singularidade como mortais que nos abre a possibilidade
de pensarmos em humanização. Como refere Torres (1999): “Um homem é humano porque é mortal, e é saber que é mortal que o torna humano”.

Se a morte faz parte da vida e se é tão corriqueira, por que somos tomados por tanto medo?

Falar, escutar, expor dificuldades e medos, trocar opiniões pode ser útil para se pensar e refletir sobre esse tema tão temido. Compartilho da ideia de Kovács (2003) de que, se houver um espaço de acolhimento, no qual as pessoas sintam segurança para expor opiniões, ouvir, refletir, este pode ser potencialmente humanizador.

Por essa razão, acredito que o tema morte deva ser valorizado e repensado não só no âmbito da saúde, mas também no da Educação.

O espaço da morte

A cada dia, podemos dizer que somos sobreviventes da violência e também da morte. Dela fugimos com a certeza de que um dia vamos encontrá-la.

Azevedo (2003) atribui a violência de nossos dias (o individualismo, a injustiça social, o consumismo e o uso da violência como recurso comercial de comunicação de massa) a um processo de alienação e ocultação da morte.

shutterstock_47675047_S_optA morte, além do mistério, traz consigo a individualidade, a solidão e o sentimento de impotência, no sentido de que é uma experiência única, individual, singular, da qual não temos como fugir. É possível vencer a morte? Como?

Benjamin (1987) afirma: “Nos últimos séculos, pode-se observar que a ideia da morte vem perdendo, na consciência coletiva, sua onipresença e sua força de evocação”. Durante o século XIX, a sociedade burguesa, com hospitais e sanatórios, viveu em
espaços depurados de qualquer morte, permitindo aos homens que fossem poupados desse espetáculo, o que antes era um episódio público na vida do indivíduo. “Hoje, a morte é cada vez mais expulsa do universo dos vivos.”

Philippe Ariès (1977), em seus estudos sobre o homem e a morte, menciona que a morte era um tema mais frequente nas conversas na Idade Média do que hoje, além de ter sido mais presente, mais familiar e menos oculta. Não que por isso fosse mais pacífica.

Na época medieval, os homens que morriam nas guerras ou por doenças conheciam a trajetória de sua morte. Ela era esperada no leito, numa espécie de cerimônia pública organizada pelo próprio moribundo. Todos participavam do evento, inclusive as crianças. Os rituais de morte eram cumpridos com manifestações de tristeza e dor. O maior temor,
na época, era morrer repentina e anonimamente, sem as homenagens cabíveis. Havia uma
atitude familiar e próxima com a morte, por isso chamada por Ariès de morte domada.

A partir do século XX, houve uma profunda mudança na forma de lidar com a morte, que foi transferida para os hospitais e passou a ocorrer de forma mais solitária. Passou a ser encarada como fracasso, impotência ou imperícia. Deixou de ser um fenômeno natural (Ariès, 1977; Elias, 2001; Kovács, 1992, 2003).

O século XX traz a morte que se esconde, a morte vergonhosa [...] A morte não pertence mais à pessoa, tira-se sua responsabilidade e depois sua consciência. A sociedade atual expulsou a morte para proteger a vida. Não há mais sinais de que uma morte ocorreu. O grande valor do século atual é o de dar a impressão de que nada mudou, a morte não deve ser percebida. A boa morte atual é a que era mais temida na Antiguidade: a morte repentina, não percebida (Kovács, 1992, p. 38).

Hoje as coisas são diferentes. Nunca antes na história da humanidade foram os moribundos afastados de maneira tão asséptica para os bastidores da vida social; nunca antes os cadáveres humanos foram enviados de maneira tão inodora e com tal perfeição técnica do leito de morte à sepultura (Elias, 2001, pp. 30–31).

No século XX, há supressão do luto, escondendo-se a manifestação ou até mesmo a vivência da dor [...] a sociedade não suporta enfrentar os sinais da morte (Kovács, 1992, p. 39).

Creio ser importante repensar a morte na formação do indivíduo. Refletindo sobre o fato de a morte fazer parte da vida, é necessário preparar o ser humano para a morte desde sua infância. Entretanto, o que mais percebemos em nossa sociedade é que não se fala de morte com as crianças. Para alguns, pode parecer um tanto mórbido ou mesmo
cruel, mas não consigo imaginar um trabalho sobre a morte sem a elaboração da vida que nela se encerra. Para isso, é necessário que se pense na morte e que se fale sobre ela. Dessa forma, acredito ser possível preparar o indivíduo para que viva a vida em sua plenitude e, assim, talvez, não sinta tanta necessidade de fugir da morte.

Isso implica uma mudança de mentalidade. É necessário pensar qual é o lugar que a morte ocupa na existência humana, na sociedade atual.

A morte também faz parte do universo infantil

Atualmente, a criança não participa do processo de morte e dos seus rituais. A meu ver, subestima-se a criança alegando-se protegê-la. Para que a criança não sofra, nós a impedimos de olhar para a realidade da vida e suas perdas. Os ganhos são valorizados, e as perdas, muitas vezes, negadas. E, por causa disso, reforçamos a dificuldade de lidar com as várias perdas vivenciadas ao longo da vida: o brinquedo quebrado, o animal de estimação que morre, o amiguinho que se mudou, a morte de alguém…

É preciso lembrar que não podemos quantificar a dor, pois é individual, singular e subjetiva.

Nunes, Carraro, Jou e Sperb (1998) afirmam que quem lida com crianças deveria ter uma preocupação em como falar de morte com elas. Mas o adulto, em geral, adota uma atitude de negar a explicação sobre a morte e, muitas vezes, tenta afastá-la magicamente, procurando minimizar o significado que a morte pode ter como força ativa no desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança, o que acaba prejudicando seu desenvolvimento.

Sobre isso, Elias (2001) fala:

shutterstock_51181141_Z_optNada é mais característico da atitude atual em relação à morte que a relutância dos adultos diante da familiarização das crianças com os fatos da morte. Isso é particularmente digno de nota como sintoma de seu recalcamento nos planos individual e social. Uma vaga sensação de que as crianças podem ser prejudicadas leva a se ocultar delas os simples fatos da vida que terão que vir a conhecer e compreender. Mas o perigo para as crianças não está em que saibam da finitude de cada vida humana, inclusive de seu pai, sua mãe e da própria vida; de qualquer maneira, as fantasias infantis giram em torno desse problema, e o medo e a angústia que as cercam são muitas vezes reforçados pelo poder intenso de sua imaginação. A consciência de que normalmente terão uma longa vida pela frente pode ser, em contraste com suas perturbadoras fantasias, realmente benéfica. A dificuldade está em como se fala às crianças sobre a morte, e não no que lhes é dito. Os adultos que evitam falar a seus filhos sobre a morte sentem, talvez não sem razão, que podem transmitir a eles suas próprias angústias.
[...]As reações dos filhos dependem da idade e da estrutura da  personalidade, mas o efeito profundamente traumático que tal experiência pode ter neles me faz acreditar que seria salutar para as crianças terem familiaridade com o simples fato da morte, a finitude de sua própria vida e a de todos os demais. Sem dúvida, a aversão dos adultos de hoje em  transmitir às crianças os fatos biológicos da morte é uma peculiaridade do padrão dominante da civilização nesse estágio. Antigamente, as crianças também estavam presentes quando as pessoas morriam. Onde quase tudo acontecia diante dos olhos dos outros, a morte também tinha lugar diante das crianças.

Os adultos costumam dizer que morte não é assunto para crianças porque é triste, como desculpa de que querem protegê-las. Mas, na verdade, nós não sabemos como abordar esse tema com as crianças. Para nos protegermos de nossa própria ignorância
e por recear as possíveis reações das crianças, preferimos evitar o assunto, fazendo de conta que a morte não faz parte do universo infantil.

A morte é a única situação que não temos como evitar em nossa vida, um dia acontecerá, fatalmente. Portanto, não falar sobre o assunto, ou seja, “proteger a criança”, poderá dificultar seu entendimento do ciclo da vida.

Aberastury (1984) explica que as crianças expressam seu temor à morte, na maior parte das vezes, através da linguagem não verbal. A incompreensão dessa linguagem por parte dos adultos e a falta de resposta às perguntas feitas pelas crianças provocam dor e solidão. Muitas vezes, o adulto mente para a criança por acreditar que a está protegendo
do sofrimento ou por pensar que ela seja incapaz de compreender uma explicação verbal sobre o que está ocorrendo.

Muitas vezes, diante desse cenário de “desentendimento”, o adulto também não consegue captar as angústias da criança, que podem se manifestar por meio de sintomas ou dificuldades de conduta.

Falar da morte não é criar a dor nem aumentá-la; ao contrário, a verdade alivia a criança e a ajuda a elaborar a perda. Há verdades muito difíceis de aceitar para o adulto; por isso, ao mentir, está transferindo essa dificuldade para a criança. Se os adultos
mentem ou ocultam a verdade à criança, esta deixa de acreditar neles e pode não voltar a perguntar, circunstância que poderia acarretar uma inibição do impulso epistemológico. A criança sente uma terrível confusão e um desolado sentimento de esperança, criado porque já não tem a quem recorrer.

Quando o adulto se nega a esclarecer verbalmente a morte, atravanca-se o primeiro momento de elaboração do luto, que é a consciência de que alguém desapareceu para sempre. Versões como a do céu incrementam o anelo de seguir o destino do objeto
perdido, entravando não só a elaboração do luto, mas todo o processo de aceitação da morte.

Crianças percebem fatos que o adulto lhes oculta. Isso ocorre com as crianças muito pequenas e com as maiores. Muitas vezes, o adulto não percebe porque a criança nem sempre os expressa através de palavras. Em troca, recorre à linguagem mímica ou
não verbal porque não dispõe ainda de outra. Entretanto, as maiores, que em sua atividade cotidiana falam fluentemente, também apelam, às vezes, para jogos, desenhos ou mímicas para expressar fantasias dolorosas (Aberastury, 1984, p. 129).

Abramovich (1999) afirma:

Tantas espécies de vida, tantas possibilidades de morte… É fundamental discutir com a criança, de modo verdadeiro, honesto, aberto, como isso acontece e como poderia não acontecer… Compreender a morte como um fechamento natural de um ciclo, que não exclui dor, sofrimento, saudade, sentimento de perda… E também discutir a morte provocada de modo irresponsável, leviano, segundo a lei do mais forte, profundamente injusta, de civilizações, culturas, crenças, bichos, plantas, pessoas… De tudo e todos que fazem parte do mundo e que deixam de fazer por razões não humanas, não solidárias, nem progressistas (pp. 113–114).

Afinal, a morte faz parte da existência humana, e, a cada dia, nós nos deparamos com essa possibilidade.

shutterstock_45071845_i_optA criança e a experiência com a morte

A criança é criativa, imaginativa e tem uma curiosidade natural, que a faz descobrir o mundo, a vida e os seus mistérios. Para tudo, busca um porquê, não havendo diferença em relação à morte. Dessa forma, conforme cresce, ela adquire novos conhecimentos e aprende através da exploração de seu mundo.

Desde cedo, a criança vivencia situações que lhe permitem criar uma noção da morte. Percebe as coisas à sua volta, mas, muitas vezes, se sente confusa em suas percepções. Portanto, evitar a questão da morte com a criança é negar uma realidade. Isso pode ser muito prejudicial, uma vez que deixa a criança confusa por não ter com quem confirmar
suas percepções (Kovács, 1992).

Kastenbaum e Aisenberg (1983) citam que, de acordo com vários psicólogos do desenvolvimento, a criança de até 2 anos não tem nenhuma compreensão da morte, devido a sua incapacidade de apreensão de qualquer concepção abstrata. Entretanto,
sugerem que há muitos modos pelos quais a mente, nos primeiros anos de vida, entra em contato com a morte. Afirmam que crianças muito pequenas já podem ficar impressionadas ao se verem expostas à morte e as percepções relativas à mesma podem
produzir forte e duradouro impacto sobre elas.

Torres (1999) cita Mauer (1974) ao afirmar que, antes dos 2 anos, a criança intui a morte por intermédio de sua experiência de dormir e acordar, o que permite que tenha a percepção do “ser” e do “não ser” (Mazorra & Tinoco, 2005 a; Torres, 1999).

São três os componentes básicos do conceito de morte: universalidade, não funcionalidade e irreversibilidade (Kovács, 1992; Nunes et al., 1998; Priszkulnik, 1992; Riely, 2003; Schonfeld, 1996; Velásquez-Cordero, 1996).

A universalidade tem a ver com a compreensão de que todos os seres vivos (plantas, bichos e pessoas), sem exceção, um dia, morrerão. Ou seja, a morte é um evento inevitável. A não funcionalidade caracteriza-se por compreender que, na morte, todas as
funções vitais cessam: a pessoa não respira, não se mexe, não pensa, não sente absolutamente nada. No corpo, nada mais funciona. Já a irreversibilidade é a capacidade de perceber que quem morre não volta mais. A morte não é temporária. Não se morre
só um pouquinho. Não existe uma mágica que faça a pessoa “desmorrer” (Kovács, 1992; Nunes et al., 1998; Schonfeld, 1996; Torres, 1999; Velásquez-Cordero, 1996). Para a criança, a morte não é apenas um desafio cognitivo para seu pensamento, mas também um desafio afetivo (Torres, 1999).

Essa autora fez um estudo sobre a aquisição do conceito de morte pelas crianças de acordo com os estágios estabelecidos por Jean Piaget (1987, 1996) e aponta as seguintes diferenças para cada estágio:

1. Período sensório-motor: crianças de 0 a 2 anos (antes da aquisição da linguagem)

O conceito de morte não existe.
A morte é percebida como ausência e falta.
A morte corresponde à experiência do dormir e
do acordar: percepção do ser e do não ser.

2. Período pré-operacional: crianças de 3 a 5 anos

As crianças compreendem a morte como um fenômeno temporário e reversível. Não a entendem como uma ausência sem retorno.
Atribuem vida à morte, ou seja, não separam a vida da morte. Não distinguem os seres animados dos inanimados. Entendem a morte ligada à imobilidade.
Apresentam pensamento mágico e egocêntrico. São autorreferentes, e, para elas, tudo é possível.
Compreendem a linguagem de modo literal/concreto.

3. Período operacional: crianças de 6 a 9 anos

Apresentam uma organização em relação a espaço e tempo.
Distinguem melhor os seres animados dos inanimados.
Entendem a oposição entre a vida e a morte, compreendendo a morte como um processo definitivo e permanente. Compreendem a irreversibilidade da morte.
Há uma diminuição do pensamento, predominando o pensamento concreto.
Ainda não são capazes de explicar adequadamente as causas da morte.
Conseguem aprender o conceito de morte em sua totalidade: em relação à não funcionalidade, à irreversibilidade e à inevitabilidade da morte.

4. Período de operações formais: crianças de 10 anos até a adolescência

O conceito de morte, devido ao pensamento formal, torna-se mais abstrato. Já compreendem a morte como inevitável e universal, irreversível e pessoal.
As explicações são de ordem natural, fisiológica e teológica (Torres, 1999).

Vários outros autores também descrevem a compreensão infantil da morte baseando-se no desenvolvimento cognitivo da criança a partir da teoria piagetiana (Bromberg, 1997; Grollman, 1990; Kovács, 1992, 2003; Nunes et al., 1998; Priszkulnik, 1992; Velásquez-Cordero, 1996).

Torres (1999), assim como Bowden (1993), alerta para o fato de que a aquisição do conceito de morte pelas crianças não está somente correlacionada à idade. Depende também dos aspectos social, psicológico, intelectual e da experiência de vida.

Portanto, pode-se afirmar que a criança percebe a morte de forma diferente do adulto, de acordo com a faixa etária e as condições cognitivas.

A criança também fica enlutada

Antes de tratar do luto infantil, é importante falar sobre como se estabelecem as relações iniciais da criança. Para isso, baseio-me em referências à Teoria do Apego, de John Bowlby (1989, 1990, 1995), amplamente apresentada pelos estudiosos do assunto luto. Bowlby foi um psiquiatra britânico—o primeiro pensador do desenrolar do apego e das perdas — que desenvolveu seus estudos a partir de observações realizadas com crianças separadas de suas mães durante um longo tempo.

A Teoria do Apego nos auxilia a entender a tendência dos seres humanos de estabelecer fortes laços afetivos com outros, assim como a compreender a forte reação emocional que ocorre quando esses laços afetivos são ameaçados ou rompidos. Assim, podemos entender o impacto de uma perda sobre a pessoa e o comportamento humano decorrente
dessa perda. Para Bowlby, “Tais laços surgem de uma necessidade de segurança e proteção, iniciam-se cedo na vida, são dirigidos a poucas pessoas específicas e tendem a durar por uma grande parte do ciclo vital” (Worden, 1998, p. 19).

Bowlby (1989, 1990, 1995) conceitua o comportamento de apego como “qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado, considerado mais apto para lidar com o mundo”. Esse autor afirma que o apego é instintivo, uma necessidade básica do ser humano para seu desenvolvimento — uma função biológica. Aponta para o fato de que a primeira relação humana de uma criança é fundamental na formação de sua personalidade.

O apego infantil é desenvolvido no primeiro ano de vida. Aos 3 meses, o bebê já responde à mãe de modo diferente: sorri, balbucia e segue-a com o olhar — ou seja, apresenta uma discriminação perceptual. Mas esse comportamento ainda não é a prova de apego. O comportamento de apego é observado quando a criança reage à saída da mãe de seu ambiente e se comporta de modo a manter a proximidade com ela. A criança busca não só satisfação, mas também segurança. Isso acontece por
volta dos 6 meses.

A intensidade e consistência com que se manifesta o comportamento de apego é variável: pode ser de origem orgânica — fome, fadiga, doença e infelicidade — ou ambiental — algo que cause “alarme” (Bowlby, 1990).

Em seus estudos, Bowlby enumerou cinco respostas que levam ao comportamento de apego, denominadas comportamento mediador de apego: chorar, sorrir, seguir, agarrar-se, sugar e, uma sexta resposta, que seria chamar pela mãe (mais tarde, até gritando o nome dessa mãe).

Ele afirma que, a partir do terceiro ano de vida, a criança é muito mais capaz de aceitar a ausência temporária da mãe. Esse sentimento de segurança está condicionado a alguns fatores:

As figuras subordinadas devem ser familiarizadas (de preferência a criança deve tê-las conhecido junto com a mãe).
A criança deve ser saudável e não estar assustada.
A criança deve saber onde está a mãe e confiar que pode reatar contato com ela a curto prazo (Bowlby, 1990).

Bowlby (1989) reforça que um traço do comportamento de apego é a intensidade da emoção que o acompanha. Se tudo vai bem, há satisfação e um senso de segurança; se a relação está ameaçada, existe ciúme, ansiedade e raiva; se houver uma ruptura, pode ocorrer dor e depressão.

Quanto aos distúrbios emocionais, o autor enfatiza dois fatores ambientais de maior importância na primeira infância. O primeiro é a morte da mãe ou uma separação prolongada. O segundo é a atitude emocional da mãe para com o filho: como ela lida
com ele ao alimentá-lo, desmamá-lo, treinar o controle dos esfíncteres e outros aspectos do cuidado materno corriqueiro.

Bowlby (1995) distingue três modelos de apego:

Apego Seguro: o indivíduo se sente confiante de que seus pais estarão disponíveis, oferecendo resposta e ajuda caso se depare com alguma situação ameaçadora. Esse fato o encoraja a explorar o mundo.
Apego Ansioso: o indivíduo se mostra incerto quanto à disponibilidade de resposta ou ajuda por parte dos pais, tendendo à ansiedade em caso de separação, ficando “grudado” e ansioso na exploração do mundo.
Apego Evitativo: o indivíduo não tem nenhuma confiança de que receberá resposta e ajuda quando procurar cuidado. Sente a rejeição como certa. Procura viver sem o amor e a ajuda dos outros, tentando tornar-se emocionalmente autossuficiente.

A criação de um padrão de apego seguro depende não somente das características pessoais da mãe, mas também de um contexto maior de sua família. Bowlby (1995) afirma que a privação prolongada dos cuidados maternos pode trazer efeitos graves
e de longo alcance sobre a personalidade de uma criança pequena.

Falta de qualquer oportunidade para estabelecer ligação com uma figura materna nos primeiros 3 anos de vida.
Privação por um período limitado (mínimo de 3 e mais de 6 meses) nos primeiros 3 ou 4 anos.
Mudança de uma figura materna por outra durante o mesmo período.

Sobre a questão do apego na infância, Berthould (1998) afirma que, a partir dos 3 anos, a criança é capaz de explorar melhor seu ambiente, aventurando-se a ficar mais tempo longe de sua figura de apego. Além disso, relaciona-se com um maior número de pessoas, conhecendo-as, e passa a demonstrar maior interesse por outras crianças. Dessa
forma, a ausência da figura materna é tolerada mais facilmente, contanto que esteja com pessoas conhecidas ou de sua confiança. Diz ainda que, por volta dos 6 anos, a criança passa a demonstrar outras formas de manifestação do padrão de apego em função de expectativas sociais, quando é incentivada a agir com mais maturidade. Nessa fase, a
criança expande seus vínculos afetivos (na escola, com professores, amiguinhos) e já não sente tanta necessidade da presença dos pais, exceto quando se encontra em situações que envolvem mais estresse. No entanto, a criança poderá sentir-se segura apenas com a certeza de que seus pais estarão acessíveis no caso de ela necessitar deles. É importante
salientar que essas alterações são gradativas, de acordo com o desenvolvimento da criança. Os adolescentes já se sentem capazes de ficar sozinhos, menos ansiosos na ausência dos pais, sem necessitar da presença deles. Nessa fase, outras espécies de vínculo que não o apego são  estabelecidas: de amizade, companheirismo, atração sexual, paixão, amor; vínculos passageiros e duradouros, que também dão sentido à nossa existência.

Luto infantil

A criança, da mesma forma que o adulto, vai passar por processos de luto. O processo de luto infantil tem uma duração subjetiva mais extensa, uma vez que sua noção de tempo está se organizando (Priszkulnik, 1992).

Torres (1999), citando Bowlby, afirma que a criança é capaz de enlutar-se tanto quanto o adulto, identificando três etapas principais no processo natural do luto infantil:

Protesto: a criança não acredita que a pessoa esteja morta e luta para recuperá-la; chora, agita-se e busca qualquer imagem ou som que personifique o ausente.

Desespero e desorganização da personalidade: a criança começa a aceitar o fato de que a pessoa amada realmente morreu; o anseio por sua volta não diminui, mas a esperança de sua satisfação esmorece. Não grita mais, torna-se apática e retraída,
porém isso não significa que tenha esquecido a pessoa morta.
Esperança: a criança começa a buscar novas relações e a organizar a vida sem a presença da pessoa morta.

Priszkulnik (1992) afirma que a criança passa por uma fase mais ou menos longa de idealização do ente querido, chamada de sobreinvestimento. Isso precede o desinvestimento, que permite:

A introjeção do objeto perdido sob a forma de lembranças, palavras, atos, modos de ser comuns ao morto e a si mesmo.
O investimento afetivo em um novo objeto (desenvolvimento de um novo amor). Essa não é uma tarefa fácil, pois exige que a criança aceite que a ausência do ser querido será para sempre, definitiva.

Raimbault (1979) afirma que o processo de luta necessita de um período de tempo relativamente longo para passar da fase de sobreinvestimento (idealização do morto) para a fase de desinvestimento (a introjeção do objeto perdido sob a forma de lembranças, palavras, atos…), até atingir a fase de investimento afetivo em um novo objeto (a possibilidade de aceitar uma nova figura de afeto).

As reações da criança à perda e separação vão depender de vários fatores: a relação que a mesma tinha com a pessoa que morreu; a causa e as circunstâncias da situação de perda (repentina ou não, violenta); o que é contado para a criança e as oportunidades
que são oferecidas para ela falar e perguntar; relações familiares após a perda (mudança de padrão de relacionamento e permanência com pai/mãe sobrevivente); padrões de relacionamento da família anteriores à perda (Bromberg, 1997, 1998a, 1998b).

Sensação de insegurança, de abandono, medo de perder outro ente querido, raiva, culpa, ideia de que foi responsável pela perda são alguns dos sentimentos, fantasias e reações que podem estar presentes nessa vivência, que exige a elaboração de um processo de luto para sua significação e integração à vida (Mazorra & Tinoco, 2005b, p. 13).

Chavis e Weisberger (2003), citados por Berns (2003–2004), definem perda como a ausência de algo ou alguém importante dentro do universo pessoal. Quando crianças enfrentam situações de perda, evidentemente experimentam medo, ansiedade e muitas
outras reações de pesar, dor e desgosto. Crianças que sofreram perdas importantes sentem medo de ser devoradas pela intensidade de seus sentimentos. Os pais e outros adultos significativos desempenham papel importante nesse momento da vida da
criança, e a forma como eles acolhem o sofrimento dela influencia diretamente o modo como a criança enfrenta a experiência de perda.

Worden (1998) aponta para o fato de que as crianças entre 5 e 7 anos são muito vulneráveis, pois atingiram um desenvolvimento cognitivo suficiente para compreender a morte, mas possuem muito pouca capacidade de lidar com ela. Afirma que o luto de uma perda na infância pode ser revivido em muitos momentos da vida adulta, quando este
for reativado por outros fatos importantes da vida. Essa é uma forma de elaboração da perda ocorrida na infância.

Bernstein e Rudman (1989), citados por Berns (2003–2004), referiam-se a outros adultos significativos como adult guides, um termo aplicado a alguém que oferece conselho e direção saudáveis. Com certeza, a presença de uma pessoa cuidadora na forma de um adult guide nem sempre compensará as perdas específicas. Entretanto, isso pode diminuir o isolamento e o sentimento de solidão decorrentes das perdas.

O adult guide tem a difícil tarefa de enxergar o momento favorável para tornar-se companheiro da criança e exercer a função de cuidador, propiciando-lhe acolhimento para enfrentar seus sentimentos, curar sua dor e renovar sua esperança no futuro.

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No entanto, em algumas ocasiões, adultos — especialmente adultos enlutados — não estão/são bem preparados para ajudar a criança porque, muitas vezes, não conseguem elaborar suas próprias perdas. Para ajudar a criança a enfrentar adequadamente suas questões de perda, o adult guide necessita de informação. Isso inclui clareza nas percepções das crianças, compreensão e entendimento de separação e perda (Berns, 2003–2004).

Outro ponto importante também relacionado à situação de luto são as reações da criança diante de situações de crise ao longo da vida.

Para ajudar a criança no processo de luto, é necessário:

Promover comunicação aberta e segura dentro da família, informando a criança sobre o que aconteceu.
Garantir que terá o tempo necessário para elaborar o luto.
Disponibilizar um ouvinte compreensivo toda vez que ela sentir saudade, tristeza, culpa e raiva.
Assegurar que continuará tendo proteção (Torres, 1999).

Velásquez-Cordero (1996) enumera dez maneiras de ajudar a criança no enfrentamento da perda e do luto:

Encorajar a criança a expressar seus sentimentos.
Responder às perguntas com sinceridade e expressar suas emoções honestamente.
Discutir a morte de forma que a criança possa entender.
Falar com a criança de acordo com seu nível de desenvolvimento.
Ser paciente. Permitir que a criança repita a mesma pergunta, expondo sua confusão e seu medo.

Não criar expectativas.
Sugerir caminhos para que a criança possa lembrar-se da pessoa (por meio de desenho, cartas…).
Aceitar os sentimentos, as percepções e reações da criança, bem como diferença de opiniões, dúvidas e questões.
Indicar serviços especializados se for necessário.
Preparar a criança para continuar sua vida. Reforçar que ela se sentirá melhor depois de um tempo (lembrando que esse tempo é diferente para cada um).

Worden (1998) cita quatro pontos fundamentais do luto:

Aceitar a realidade da perda — as crianças devem crer que a pessoa está morta e não voltará. Para tanto, devem ser adequadamente informadas sobre a morte numa linguagem apropriada à sua idade.
As crianças devem reconhecer e trabalhar com a variedade de emoções associadas à morte. Os sentimentos da criança incluem tristeza, raiva, culpa, ansiedade e depressão. Se esses sentimentos não forem encarados, serão manifestados de outras formas, como sintomas psicossomáticos ou desajuste de comportamento.
Ajustar o ambiente agora sem a presença da pessoa que morreu.
Recolocar a pessoa morta dentro da vida pessoal e encontrar caminhos para se lembrar dela.

Worden (1998) afirma que as crianças pedem não somente um entendimento sobre a morte, mas também um sentido para a pessoa morta em sua vida.

Corr (2002), citado por Riely (2003), salienta a necessidade de se permitir o enlutamento, estimulando a criança a falar sobre sua experiência de morte e evitando poupá-la da dor. Para isso, reforça a necessidade de se oferecer educação e suporte para crianças em situação de enlutamento.

Corr, Doka e Kastenbaum (1999) valorizam a escuta ativa e a atenção especial como meio de facilitar o enfrentamento da morte.

Em relação às indignações da criança a respeito da morte, é importante deixá-la fazer perguntas ou manifestar-se por meio de gestos ou brincadeiras. A criança pode expressar sua curiosidade e seu sofrimento não só pela linguagem verbal (palavras), mas também por uma linguagem não verbal (jogos, gestos, desenhos…). Para o adulto, o silêncio pode
ser conveniente; entretanto, para a criança, pode ser muito prejudicial, na medida em que seu sofrimento pode passar despercebido (Priszkulnik, 1992).

Às vezes, o adulto pode adotar uma atitude de silenciar a criança, tentando protegê-la do desconforto que a ansiedade relacionada à morte provoca.

Segundo a autora Paiva, é importante ressaltar que a mentira não consegue negar a dor ou anulá-la. A verdade, ao contrário, alivia e ajuda a aceitar o desaparecimento da pessoa que morreu, percebendo-se tal fato como definitivo.

Domingos e Maluf (2003) alertam para o fato de o luto ser uma experiência complexa, que atinge não só o indivíduo, como também a família e o sistema social. Citando Bowlby, lembram que a perda do vínculo traz uma sensação de desamparo, podendo desencadear uma forte ansiedade de separação, gerando pânico.

A maior crise na vida de uma criança é aquela provocada pela morte de um dos pais, pois dificilmente o mundo será o mesmo lugar seguro de antes.

No luto por causa da perda de um dos pais, a criança pode:

Permanecer na fantasia ligada ao genitor morto.
Investir a libido em atividades.
Temer amar outras pessoas.
Aceitar a perda e encontrar outra pessoa para amar (Bowlby, 1998a; Bromberg, 1997; Torres, 1999).

Bromberg (1997, 1998a, 1998b) aponta o fato de que o luto não começa a partir da morte, pois as relações prévias existentes podem influenciar na qualidade do processo de luto.

Uma intervenção planejada para promover o enlutamento em crianças pode favorecer a comunicação nas famílias e ajudar na prevenção de sofrimento a curto prazo subsequente à perda (Bromberg, 1997).

A perda na infância pode tornar a pessoa mais vulnerável e mais propensa a distúrbios afetivos. O luto infantil pode vir a provocar ou influenciar possíveis distúrbios psicológicos na vida adulta, entre eles a excessiva utilização de serviços médicos (por causa da saúde debilitada) ou o aumento no risco de distúrbios psiquiátricos (Bowlby, 1998b).

Estudos realizados identificaram uma associação entre traumas na infância e depressão na vida adulta. Entre esses traumas, encontra-se a perda de um ou ambos os pais por morte, separação ou abandono. No entanto, a elaboração do luto pode atenuar os efeitos deletérios decorrentes das perdas. Zavaschi, Satler, Poester, Vargas, Piazenski et al.
(2002) citam estudos nos quais foram encontrados resultados que sugerem que a ausência da criança nos rituais de morte (do pai ou da mãe) acarretou maiores índices de depressão e sentimento de culpa. Tais achados enfatizam a importância do apoio e da permissão para que as crianças possam falar abertamente sobre sua dor com os familiares sobreviventes.

Segundo Bowlby (1998b), aqueles que sofreram perda na infância e, quando adultos, apresentam distúrbios psiquiátricos têm maior propensão a:

Manifestar ideias reais de suicídio.
Mostrar alto grau de apego angustiado (ou superdependência).
Desenvolver condições depressivas graves, classificáveis como psicóticas.

Bowlby (1998a) descreveu algumas reações das crianças relacionadas à morte de um dos pais, que podem manifestar-se como:

Angústia persistente — medo de sofrer outras perdas e medo de morrer também.
Desejo de morrer com a esperança de se encontrar com o morto.
Acusação e culpa persistentes.
Hiperatividade expressa através de explosões agressivas e destrutivas.
Compulsão por cuidar e autoconfiança compulsiva.
Euforia e despersonalização.
Sintomas identificadores.
Predisposição a acidentes por parte de crianças infelizes e enlutadas (Bowlby, 1998a; Bromberg, 1997).

Levando-se em consideração os pontos abordados, é possível afirmar que as condições do funcionamento familiar contribuem para a qualidade da elaboração do luto. Além disso, fica evidente a importância de se pensar em alternativas para que a criança possa ser amparada no enfrentamento de suas perdas pelas pessoas que dela cuidam, tanto em seu ambiente familiar, no contexto escolar, como também no ambiente da saúde.

Aberastury (1984) afirma que a ocultação e a mentira do adulto dificultam o trabalho de luto da criança.

Quando morre um ser querido, sua ausência será definitiva. O trabalho de luto exige uma sucessão de esforços. O primeiro e fundamental é aceitar que o ser querido já não está conosco. Mas, se um grupo ou um familiar começa a ocultar esse fato e recorre à mentira, vai enredando-se em um emaranhado cada vez maior de ocultações, que terminam perturbando seriamente a capacidade cognitiva de todos os seus integrantes. Quando um adulto não diz a verdade a uma criança sobre a morte, está dificultando
a primeira etapa de seu trabalho de luto. A criança não conhece muito bem o processo da morte, mas experimenta a ausência, que ela vivencia como abandono (p. 135).

Raimbault (1979) e Grollman (1990) também defendem a ideia de se falar da morte com as crianças de maneira clara e sincera, respondendo às perguntas, compreendendo as emoções e dando suporte para o enfrentamento do luto.

Para auxiliar nessa difícil tarefa, Grollman (1990) elaborou um livro que serve de guia para que os pais possam se instrumentalizar para isso: Talking About Death: A Dialogue Between Parent and Child. Na versão em português, o título do livro é Você Nunca Mais Vai Voltar?, de autoria de C. Reitmeier e W. Stubenhofer (2004), que serve para o adulto refletir sobre a morte e o processo de luto, os sentimentos envolvidos e as possíveis reações. Serve como guia orientador para conversar e auxiliar a criança no enfrentamento da morte e do luto.

PAIVA, Lucélia Elizabeth. A Arte de Falar da Morte para Crianças:
A Literatura Infantil como Recurso para Abordar a Morte com
Crianças e Educadores. São Paulo: Ideias & Letras, 2011.

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