Edição 63

Ambiente-se

Por que os vivos têm de cuidar dos mortos?

Betty Milorn

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A ritualização da morte é necessária porque ninguém a aceita automaticamente. Queremos vê-la positivamente, como uma transformação. A ritualização está a serviço dessa mudança. Sem ela, o luto é mais penoso.

Tratar o corpo dos mortos, para conservá-lo até a incineração ou o sepultamento, é uma prática antiga e comum a todas as civilizações. Na era contemporânea, essa prática, a tanatopraxia, está mais disseminada nos países anglo-saxões do que nos de cultura latina. No Brasil, ela é pouco conhecida, certamente por causa do tabu da morte.

O tanatopraxista tanto pode se encarregar do preparo simples do corpo quanto da sua conservação. Ele também pode restaurar um rosto deformado por uma enfermidade ou fazer o molde de uma face. Precisa ter conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia. Sua profissão é considerada artística.

Cuidar da pessoa amada depois de morta é indício de grande respeito a ela. E recorrer ao tanatopraxista faz bem para a família, que estabelece uma continuidade entre o momento da morte e o da incineração ou inumação. Evita que a separação seja abrupta e ameniza a dor. A presença do tanatopraxista na casa do morto é, em geral, recebida pelos familiares como uma ajuda. O filme de Yojiro Takita A Partida, ganhador do Oscar de produção estrangeira de 2009, é um belíssimo exemplo disso.

Nós sofremos sem os nossos mortos, mas não podemos viver com eles. O ritual serve para encontrar uma boa distância. Como diz Braudry, grande estudioso do assunto, temos de evitar a disjunção (a completa negação da morte) e a confusão (a relação ininterrupta com o morto).

A morte de um ser querido nos faz sofrer. Mas também nos reenvia à nossa condição de mortais e nos humaniza. Lembra que tudo passa e ensina a valorizar o presente.

Betty Milan é psicanalista e escritora e assina a coluna Consultório Sentimental no site veja.com. Uma vez por mês, ela publica na Veja um artigo especialmente escrito para a revista impressa.

Revista Veja. Ano 44, nº 40. São Paulo: Abril, outubro de 2011.

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