Edição 32

Matérias Especiais

Pororoca, a onda lendária

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O vocábulo pororoca vem do tupi pororoka, gerúndio de pororog, que significa estrondar. Por pororoca, entende-se o fenômeno do encontro das ondas do mar com as águas da foz de um rio. Não se pode falar em pororoca sem pensar no Rio Amazonas. Esse fenômeno amazônico, tão cheio de lances empolgantes, por muitos anos já foi desafio à argúcia dos que tentaram explicá-lo.

Na Amazônia, tudo é assim: grandioso e diferente, fascinante e enganador, sempre a estimular a tendência fatal do homem para os grandes mistérios inquietantes…

Esse fenômeno também ocorre, ainda, em outros continentes, onde recebe denominações diferentes, como mascaret (no Rio Sena) e bare (no Rio Ganges). O legendário fenômeno da pororoca tem sido estudado, descrito e explicado por diversos estudiosos.

Mas, em nenhum lugar do mundo, no entanto, o fenômeno é tão intenso como no litoral do Amapá e do Pará, uma área influenciada pelas águas do maior rio do mundo, o Amazonas. A cada meio minuto, o Amazonas despeja cerca de 6 bilhões de litros d’água no Atlântico, ou um litro para cada habitante do planeta. O litoral amazônico, por outro lado, registra as maiores marés do País (na Ilha de Maracá, Amapá, já ocorreu uma elevação de 7 metros do nível do mar) e é constantemente açoitado por fortes ventos alísios (que sopram do leste, no sentido mar–terra). Na conjunção desses fatores, quando o mar sobe, suas águas acabam invadindo o estuário de outros rios que desembocam na zona de influência do Amazonas (caso do Rio Araguari), provocando uma colisão espetacular com a massa de água doce vinda na direção contrária. Esse fenômeno intensifica-se nas noites de lua cheia e de lua nova.

No Estado do Amapá, ele ocorre na Ilha do Bailique, na “boca” do Araguari, no Canal do Inferno, na Ilha de Maracá, em diversas partes insulares e com mais intensidade nos meses de janeiro a maio. A pororoca também já virou atração para os praticantes do surfe.

Os surfistas afirmam que a onda da pororoca forma um tubo perfeito, mas, para se arriscar nessas águas, devem pedir licença para os três pretinhos (ver a seguir), chamando-os pelos seus nomes. Outra lenda afirma que quem beber três goles da água da pororoca acabará enfeitiçado e para lá retornará sempre.

As ondas da pororoca atingem uma altura de 3 a 6 metros. O espetáculo tem duração de 40 minutos, percorrendo, a seguir, 30 km por um período de uma hora e meia.

A pororoca é, com certeza, um dos mais fascinantes atrativos turísticos da natureza. É temida, mas também admirada.

pororoca02Lenda dos três pretinhos

No Amapá, a população conta a lenda dos três negrinhos. Segundo ela, há muitos anos, uma mãe colocou seus três filhos em uma canoa para que eles fossem à escola, não muito longe de sua casa. No meio do caminho, apareceu uma forte onda, virando a canoa e matando os três irmãos: Lin, Nono e Bita. E foi assim que começou o fenômeno da pororoca. Hoje, acredita-se que, todas as vezes que a onda chega, os três negrinhos vêm em cima dela, causando todo o estrago. Portanto, se você for até a pororoca, não pergunte sobre a onda para os nativos, pois eles só aumentarão o seu medo.

pororoca03Outra lenda

Segundo o escritor Raimundo Morais: “Diz a lenda que, antigamente, a água do rio era serena e corria mansinha. As canoas podiam navegar sem perigo. Nessa época, a Mãe-d’Água, mulher do boto Tucuxi, morava com a filha mais velha na Ilha do Marajó. Certa noite, elas ouviram gritos: os cães latiam, as galinhas e os galos cocoricavam. O que é? O que é? Tinham roubado Jacy, a canoa de estimação da família.

Remexeram, procuraram, e, nada encontrando, a Mãe-d’Água resolveu convocar todos os seus filhos: Repiquete, Correnteza, Rebujo, Remanso, Vazante, Enchente, Preamar, Reponta, Maré Morta e Maré Viva. Ela queria que eles achassem a embarcação desaparecida. Mas passaram-se vários anos sem notícia de Jacy. Ninguém jamais a viu entrando em algum igarapé, algum furo ou mesmo amarrada em algum lugar. Certamente, estava escondida, mas onde?

Então, resolveram chamar os parentes mais distantes — Lagos, Lagoas, Igarapés, Rios, Baías, Sangradouros, Enseadas, Angras, Fontes, Golfos, Canais, Estreitos, Córregos e Peraus — para discutir o caso. Na reunião, resolveram criar a pororoca, umas três ou quatro ondas fortes que entrassem em todos os buracos dos arrebaldes, quebrassem, derrubassem, escangalhassem, destruíssem tudo e apanhassem Jacy e o ladrão. Ficou determinado que a caçula da Mãe-d’Água, Maré da Lua, moça danada, namoradeira, dançadeira e briguenta, avisaria sobre qualquer coisa que acontecesse de anormal.

E foi assim que, pela primeira vez, surgiu, em alguns lugares, o fenômeno, empurrado pela jovem moça, naufragando barcos, repartindo ilhas, ameaçando palhoças, derrubando árvores, abrindo furos, amedrontando pescadores… Até hoje, sempre que a Maré da Lua vai ver a família, é um deus-nos-acuda! Ninguém sabe de Jacy, e a pororoca segue em frente, destruindo quem ousa ficar na frente, cumprindo ordens do boto Tucuxi, que, resmungando, danado, diz: ‘Pois, então, continue arrasando tudo’”.
(Texto: Rosane Volpatto)

pororoca05Lenda do Tarumã

Dizem que, há muitos anos, às margens do Rio Calçoene, havia uma pequena aldeia indígena. Era ali que vivia Ubiraci, curumim conhecedor da fauna e da flora. Desde que nasceu, Ubiraci foi abençoado por Tupã com o dom de falar com todos os animais, fossem eles da água, da terra ou do ar, e com todas as árvores, desde as menores até as que cortavam as nuvens e iam fazer sombra no reino de Tupã.

Ubiraci conversava com os bichos e com as árvores, contava-lhes histórias e sabia de tudo o que acontecia no mundo. E foi assim que cresceu em plena harmonia com os elementos, filho da água, da terra e do ar que era.

Um dia, Ubiraci caminhava pela floresta quando descobriu a mais linda indiazinha que seus olhos já tinham visto. Seus cabelos pareciam com as quedas-d’água que despontavam das pedras, onde, por tantas vezes, sentou-se por horas a escutar os pássaros. Seus olhos assemelhavam-se ao anil do céu. Seu rosto jovem lembrava brotos nascendo da terra, ainda indomados. Suas mãos, mágicas, se tocavam o solo, desabrochavam sementes. Se voltadas para o ar, controlavam as chuvas, os ventos e as tempestades. Se apontadas para os rios, domavam as marés, as pororocas e as maresias. Ubiraci, sem saber, havia se apaixonado pela Natureza.

Apaixonado, o índio passou a procurar sua amada por toda parte. Com ajuda dos pássaros, subiu na nuvem mais alta na esperança de vê-la entre os abençoados de Tupã. Vasculhou cada recanto da floresta e acompanhou os peixes na imensidão dos rios, mas nunca voltou a rever sua alma gêmea. Acompanhou a pororoca por entre troncos e barrancos, mas não voltou a vê-la. No entanto, podia senti-la no canto dos pássaros, nas brisas da manhã, na calidez da noite e no sussurro sereno das maresias.
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Era tanta a paixão que sentia que Ubiraci se esqueceu de conversar com as árvores, com os animais e com os filhos das águas. O dom que recebeu de Tupã foi perdido para sempre. Ubiraci só se importava em procurar pela amada, que julgava estar perdida em algum lugar do mundo. Ele não entendia que a Natureza estava em todo lugar.

Uma noite, quando o mundo dormia, quando os cantos dos pássaros haviam cessado e não se ouvia murmúrio algum no seio da floresta, Ubiraci avistou a Lua, refletida na água. Imaginou que era naquele mundo que sua amada vivia. Foi tanta a sua felicidade que esqueceu-se de ter perdido seu dom. Mergulhou no rio, mas quanto mais lutava contra a correnteza, mais parecia que a Lua se afastava dele. Foi tanto o esforço que fez que as forças o abandonaram, e Ubiraci sucumbiu à morte. Tupã, compadecido com tanto amor, pediu à Natureza que transformasse Ubiraci em uma árvore, no meio do rio, para que fosse lembrado para sempre. À noite, no entanto, quando a maré subia, a árvore estranhamente desprendia suas raízes do solo e navegava contra a correnteza. Imaginando tratar-se de magia, seus irmãos índios cortaram a árvore, deixando apenas o tronco, mas, mesmo assim, o mistério continuou, e eles, amedrontados, deixaram o local, com medo do tarumã, que, na etimologia indígena, significa o tronco que se move.

Os anos se passaram, Calçoene transformou-se em cidade, mas muitas pessoas juram que, ainda nos dias de hoje, o tronco se move, contra a correnteza, subindo o rio.

Dizem que, quando algum morador depara-se com um amor impossível, faz promessa ao tarumã, deixando sobre ele algum presente ou alguma oferenda. Se o tronco navegar rio acima e retornar vazio, o pedido será realizado. (Texto: Ney Santos)

Revista Amazon View – Edição 58 – p. 36 e 37.

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