Edição 100

Matérias Especiais

Práxis Pedagógica: Metodologias ativas e interdisciplinaridade

Rosangela Nieto de Albuquerque

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O papel do professor na interdisciplinaridade – práxis pedagógica

A interdisciplinaridade surgiu no final do século passado, certamente como uma necessidade de justificar a fragmentação causada por uma epistemologia de cunho positivista. Permeada pela ciência da educação e imbricada numa relação interna da disciplina “matriz” e a disciplina “aplicada”, a interdisciplinaridade emergiu após a divisão das ciências da educação em muitas disciplinas e restabeleceu, pelo menos, um diálogo entre elas. O termo foi aceito na educação por ser visto como uma forma de pensamento.

Os conceitos de interdisciplinaridade no âmbito escolar são muitos, mas percebe-se que a discussão pontual perpassa pela formação do indivíduo, isto é, busca-se formar esse sujeito protagonista da construção do seu conhecimento. Nessa práxis pedagógica, a interdisciplinaridade propõe a capacidade de dialogar com as diversas ciências, fazendo entender o saber global, e não em partes, ou fragmentações. Assim, pode-se dizer que a interdisciplinaridade se trata de uma proposta em que a forma de ensinar leva em consideração a construção do conhecimento pelo aluno. Para Pombo (2004, p. 37), “Visa integrar os saberes disciplinares, e não eliminá-los”. Não se trata de unir as disciplinas, mas é um fazer pedagógico que faz parte da realidade do educando — práxis pedagógica.

Esse fazer pedagógico não se trata de uma prática — que junta disciplinas — que não fragmenta as disciplinas no contexto escolar, mas que “Amplia o trabalho disciplinar na medida em que promove a aproximação e a articulação das atividades docentes numa ação coordenada e orientada para objetivos bem definidos” (CARLOS, 2006, p. 7).

A interdisciplinaridade implica, portanto, um trabalho continuado de cooperação dos professores envolvidos numa reorganização do processo de ensino-aprendizagem. E o aluno percebe que é apenas uma forma facilitada de se estudar a parte de um todo, onde cada conteúdo dessas pequenas parcelas compõe uma totalidade.

Uma das dificuldades de se implementar um trabalho interdisciplinar está na incipiência sobre os conceitos como interdisciplinaridade, transdisciplinaridade ou multidisciplinaridade. Para Morin (2002, p.115), esses termos são “difíceis de definir, porque são polissêmicos e imprecisos”. E, sendo “imprecisos”, muitas vezes os professores transitam entre eles sem relacionar seus objetivos e práticas. E, além disso, são cobrados a elaborar projetos que têm pouco significado para eles e para os alunos.

Para Pombo (1993a, p.13), interdisciplinaridade seria: “[...] qualquer forma de combinação entre duas ou mais disciplinas com vista à compreensão de um objeto a partir da confluência de pontos de vista diferentes e, certamente, tendo como objetivo final a elaboração de uma síntese relativamente ao objeto comum”.

Observa-se, então, não haver um consenso entre os estudiosos no assunto, e, assim, há a necessidade de os professores unirem forças em torno de um objetivo comum — a superação da fragmentação do ensino —, ainda que essa decisão possa provocar sofrimento e desestabilização de todos os envolvidos.

Esse modelo de interdisciplinaridade imposto [...] com frequência é testemunha de um desconhecimento da realidade escolar cotidiana, o que torna insuportável seu discurso, seja ele crítico, prescritivo, idealista, teórico.
Perrenoud

É verdade que, diante de tantas experiências malfadadas na educação, falar em atividades interdisciplinares é invocar memórias de projetos impostos de cima para baixo e que muitas vezes não deram certo. E a consequência disso é que os professores, os maiores interessados, são excluídos da participação e contribuição no processo de construção dos projetos. Para Perrenoud (2002, p. 218), “Esse modelo de interdisciplinaridade imposto [...] com frequência é testemunha de um desconhecimento da realidade escolar cotidiana, o que torna insuportável seu discurso, seja ele crítico, prescritivo, idealista, teórico”. Na verdade, é comum, quando a direção ou equipe pedagógica propõem um projeto interdisciplinar, os professores pensarem “O que será que querem de nós agora?!”.

Na práxis pedagógica, todos ganham com a interdisciplinaridade: os professores na interação com os colegas, pois oportuniza repensar a sua prática docente; os alunos por desenvolverem o contato com o trabalho em grupo — pois, no desenvolvimento de atividades interdisciplinares, o aluno não constrói sozinho o conhecimento, mas, sim, em conjunto com outros e com a figura do professor como um orientador — e pela aquisição do conhecimento em sua totalidade e complexidade, pautado no ensino voltado para a compreensão do mundo que os cerca; e, finalmente, a escola, que ganha como grande parceira da comunidade, com a dialética de refletir e transformar a todo instante o processo educativo. Conforme Fazenda (2008), existem cinco princípios relacionados a essa prática: humildade, espera, respeito, coerência e desapego.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN):

A interdisciplinaridade supõe um eixo integrador, que pode ser o objeto de conhecimento, um projeto de investigação, um plano de intervenção. Nesse sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas, pelos professores e pelos alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários (BRASIL, 2002, p. 88).

imagem_3Metodologias ativas e interdisciplinaridade

O panorama contemporâneo aponta para as transformações biopsicossociais, que provocam diversas mudanças na maneira de ser do sujeito e de como interagir com o mundo; assim, esse novo paradigma contemporâneo exige do indivíduo novas posturas nos aspectos das relações econômicas, sociais e políticas. E, assim, a educação também apresenta uma necessidade de mudança, principalmente com a utilização de metodologias ativas de aprendizagem.

Ainda hoje, observa-se um modelo passivo dos alunos, no qual o docente é o protagonista da educação, lecionando com aulas expositivas e aplicação de avaliações e trabalhos. No momento atual, com esse novo sujeito, precisa-se de mudanças nas técnicas de ensino e nas formas de aprendizado, é um novo momento na relação ensino-aprendizagem.

Na metodologia ativa, valoriza-se o sujeito como ator principal e o maior responsável pelo processo de aprendizado. Sendo assim, o objetivo é incentivar que a comunidade escolar e acadêmica desenvolva a capacidade de absorção de conteúdos de maneira autônoma e participativa.

Desse modo, os estudos da teoria do psiquiatra americano William Glasser explicam como as pessoas aprendem e a eficiência do método. Para o autor, os alunos aprendem cerca de 10% lendo; 20% escrevendo; 50% observando e escutando; 70% discutindo com outras pessoas; 80% praticando; 95% ensinando. Portanto, é possível enfatizar que os métodos mais eficientes estão inseridos nas metodologias ativas.

Já se sabe que as práticas de ensino-aprendizagem através das metodologias ativas promovem uma aprendizagem significativa, e algumas práticas já são desenvolvidas em muitas instituições de ensino. Por exemplo: pode-se destacar a “sala de aula invertida” — em inglês, flipped classroom —, que tem por objetivo substituir a maioria das aulas expositivas por conteúdos virtuais, um método ativo bastante atual.

A técnica de estudo avançado permeia a possibilidade de o aluno ter acesso aos conteúdos online anteriormente, o que faz com que o tempo em sala seja otimizado. Esse estudante chega com um conhecimento prévio e apenas tira dúvidas com os professores e, posteriormente, interage com os colegas, por exemplo, para resolver problemas, para análise e estudo de casos, fazer projetos; assim, desperta o seu interesse e torna a classe mais participativa. Dessa forma, é possível melhorar a concentração e dedicação dos alunos.

Nas metodologias ativas, o uso de recursos variados também beneficia a aprendizagem — por exemplo, o uso de vídeos, imagens, textos, as múltiplas linguagens (gestuais, silenciadas, verbais); aulas com construção de peças teatrais (performance), paródias, músicas com representações faladas e silenciadas e representações sem texto verbal (somente com gestos) — contribui para uma aula ativa, dinâmica, que atenderá à modalidade de aprendizagem do estudante, pois cada um tem um jeito de aprender.

Os benefícios das metodologias ativas são imensos, pois desenvolvem maior autonomia e confiança, e os alunos ficam aptos a resolver problemas, tornam-se protagonistas do seu aprendizado, passam a enxergar o aprendizado como algo significativo e convertem-se em profissionais mais qualificados e valorizados.

Para a instituição de ensino, os benefícios permitem maior satisfação dos alunos com o ambiente da sala de aula. A aprendizagem se configura com prazer em aprender, melhora a percepção dos alunos em relação ao aprendizado, ao conhecimento e à instituição, o que oportuniza desenvolver um sujeito proativo no mercado de trabalho. Portanto, a utilização de metodologias ativas de aprendizagem é primordial neste momento histórico e social atual e é muito importante para a educação, que necessita de transformações substanciais.

Como dito anteriormente, voltada para a formação do indivíduo, a interdisciplinaridade propõe a capacidade de dialogar com as diversas ciências, fazendo entender o saber como um todo, e não partes, ou fragmentações. Sendo ela ainda pouco implementada nas escolas, muitos professores optam por permanecer isolados em suas salas de aula, por ainda encontrarem dificuldades por parte dos colegas docentes e da gestão. Certamente, com o passar do tempo, a interdisciplinaridade deixará de ser um modismo na educação e será vivenciada como uma proposta pedagógica que pode auxiliar a superar as dificuldades encontradas por alunos e professores.

Um trabalho multidisciplinar e interdisciplinar seria o ideal pedagógico — ação possível — e se fundamenta na práxis pedagógica.

Nesse contexto, a interdisciplinaridade seria uma forma de se chegar à transdisciplinaridade, etapa que não ficaria na interação e reciprocidade entre as ciências, mas alcançaria um estágio onde não haveria mais fronteiras entre as disciplinas. Percebe-se, então, que um trabalho multidisciplinar e interdisciplinar seria o ideal pedagógico — ação possível — e se fundamenta na práxis pedagógica, que, independentemente dos temas/assuntos tratados em cada disciplina isoladamente, volta-se para o desenvolvimento de competências e habilidades, na associação ensino-pesquisa e no trabalho com diferentes linguagens, que comportem diferentes interpretações sobre os temas/assuntos trabalhados em sala de aula. Portanto, esses são os fatores que dão unidade ao trabalho das diferentes disciplinas, e não a sua associação em torno de temas supostamente comuns a todas elas (BRASIL, 2002, p. 21).

imagem_4Então, se o trabalho interdisciplinar garante maior interação entre os alunos e destes com os professores, nas experiências e no convívio grupal, certamente, é uma forma de promover a união escolar em torno do objetivo comum que permeia a formação de indivíduos sociais; assim, as metodologias ativas são fundamentais para formar esse novo cidadão.

As metodologias ativas e a interdisciplinaridade promovem:

• Relação sujeito-aquisição do saber – na crença de que é o indivíduo que aprende; então, ele aprende a apreender, o docente ensina a aprender, a estudar etc., estabelecendo uma relação direta e pessoal com a aquisição do saber.

• Noção de tempo – não é cobrado do aluno o tempo certo para aprender, não existe data marcada para aprender, ele aprende a toda hora, e não apenas na sala de aula.

• Sujeito interdisciplinar – embora o saber seja adquirido individualmente, ele aprende que as partes do conhecimento formam uma totalidade.

• Interdisciplinaridade e metodologias ativas – o aprendizado envolve emoções e razão no processo de criação do conhecimento; assim, a criança, o jovem e o adulto aprendem quando possuem um projeto de vida, e o conteúdo do ensino é significativo para esse projeto.

Considerações Finais

Portanto, acredita-se que é urgente a necessidade de se ter uma educação na qual a visão de totalidade seja evidenciada e para se chegar a essa visão globalizada do conhecimento é importante que a escola e a universidade invistam na interdisciplinaridade e nas metodologias ativas, que, certamente, oportunizarão as possibilidades de aprendizagem significativa, e os estudantes passarão a enxergar o aprendizado como algo prazeroso, contextualizado à vida, ao mercado, à realidade. É necessário aprender a apreender, desenvolver habilidades e competências, promover maior autonomia ao sujeito; assim ele se tornará apto a resolver problemas e será protagonista do seu aprendizado; portanto, profissional mais qualificado e valorizado, cidadão contemporâneo com múltiplas possibilidades.

Rosângela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação, pós-doutoranda em Psicologia, Doutora em Psicologia, Mestre em Ciências da Linguagem, psicopedagoga clínica e institucional, pedagoga, consultora ad hoc do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep, professora Universitária dos cursos de Graduação e Pós-Graduação, coordenadora do comitê de Ética em Pesquisa (CEP-Fafire), coordenadora de cursos de pós-graduação, analista em Gestão Educacional do Governo do Estado de Pernambuco, autora e organizadora de dez livros.

E-mail: rosangela.nieto@gmail.com

 

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Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica.Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, 2002.

CARLOS, Jairo Gonçalves. Interdisciplinaridade no Ensino Médio: Desafios e Potencialidades. Programas de Pós-graduação da Capes. 2006.

Disponível em .

Acessado no dia: 30 de junho de 2009.

FAZENDA, I. C. A. Interdisciplinaridade: História, Teoria e Pesquisa. 13. ed. Campinas: Papirus, 1994.

MORIN, E. Sobre a Reforma Universitária. In: ALMEIDA, Maria da Conceição de; MOTTA, Elias de Oliveira. Direito Educacional e Educação no Século XXI. Brasília: Unesco, 1997.

PERRENOUD, Ph. Aprender a Negociar a Mudança em Educação. Novas Estratégias de Inovação. Porto: ASA, 2002.

POMBO, Olga. Interdisciplinaridade: Conceitos, Problemas e Perspectivas. Revista Brasileira de Educação Médica. 2004.t

POMBO, Olga. Interdisciplinaridade. Reflexão e Experiência. Lisboa: Texto, 1993.

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