Edição 102

Professor Construir

Pressa:a vida no limite do tempo

Maria Rita Bicalho Kehl

Desde quando você não dá um tempo e aproveita o que há de melhor na vida?

A depressão tem aumentado, justamente numa época que deveria ser muito antidepressiva. Hoje temos muitas opções de construir a própria vida com estilos individuais e uma liberdade maior do que tinham os nossos pais; é uma época de muitos convites para festas, para o desfrute da vida. Então é uma situação paradoxal.

Uma hipótese é de que a aceleração da nossa experiência do tempo produz o esvaziamento da vida psíquica. Ou seja, quanto mais aceleradamente se vive, menos consistência psíquica tem o indivíduo. As pessoas que não estão depressivas no sentido clínico, podem estar se queixando dessa mesma sensação de vazio e falta de vontade de viver. Esse sentimento corresponde à vivência que é quase reduzida a uma experiência permanente de você responder a estímulos, isto é, sem tempo de viver outras atividades. Nesse sentido, se houvesse cura, provavelmente uma experiência possível de desaceleração poderia promover, a médio prazo, que algo da vida psíquica pudesse se recompor.40

Porém a aceleração não depende da pessoa querer ou não querer: está no ritmo contemporâneo do capitalismo. Todo mundo tem esse: “Ah, um dia vou morar num lugar melhor, um dia vou trabalhar menos, um dia…”. Esse dia não sei se virá para a maioria de nós, porque vivemos numa sociedade que nos pede aceleração.

Sociedade padronizada

Claro que a alta competitividade no campo profissional estimula as pessoas à aceleração. Nós vivemos respondendo aos desafios, às demandas, aos estímulos e ao que esperam de nós. Então você pode falar desse esvaziamento na medida em que se começa a responder aos padrões. Embora seja paradoxal, porque vivemos em uma sociedade muito livre. Não há uma imposição de forças sobre as pessoas, uma imposição rigidamente moral. Não há uma sociedade muito religiosa, muito militarizada, mas há uma imposição de imagem. E a tentativa de responder permanentemente a essa imposição de imagem é vivida como um impositivo.

E talvez o depressivo, em relação a isso, sofra o pior tipo de culpa, que é a culpa por não conseguir obedecer ao preceito moral que aparentemente lhe é favorável. É diferente da culpa que o sujeito sente quando contraria todos os seus impulsos: uma moral rigidamente repressiva, por exemplo, que não permite o prazer. O sujeito se sentiria culpado por não responder, mas de certa forma ele perceberia que é uma moral que vai contra seus impulsos. Hoje a moral vai a favor. Você tem que se satisfazer, ter tudo de bom: sexo, objetos, lazer e, ao mesmo tempo, subliminarmente, todo esse tempo é atravessado pelo tipo de ritmo do tempo de trabalho.

Vamos pegar o exemplo da publicidade, que é muito boa como analisadora da cultura. Como é que os bancos fazem a publicidade? Não mostram o sujeito numa fila de banco nem num escritório, num lap top, preocupado. Mostram o sujeito numa rede, numa ilha paradisíaca, ligando para o banco para pedir como aplicar melhor o dinheiro. Ou seja, passa uma ideia de ele poder estar o tempo todo conectado com algo que tenha a ver com o ritmo do capital. Se você perder esse bonde, você ficou para trás. Então, estar na rede ou num barco pescando são propagandas que mostram que você pode estar vivendo aquilo, mas não pode se desconectar. O fato é que a sua vida continua sem espaço para nada que não seja essa exigência do capital. Isso está imposto a nós.

Futuro diferente?

Se todas as pessoas se recusassem a viver de acordo com essa ordem social, o que individualmente talvez seja uma opção de cada um, essa ordem social cairia. A ordem social atual se sustenta sobre a nossa pressa, que é a pressa da acumulação do capital. O mundo pós-industrial não é mais gerido pelo ritmo do século 19, dos filmes de Chaplin, que já era um ritmo bastante massacrante. Mas hoje nós vivemos num ritmo que não é massacrante no sentido muscular, mas virtual.

Há uma possibilidade de o sujeito se tornar menos submisso, de pensar uma vida de maneira singular: “Será que eu quero isso?”. Então, se fosse possível o indivíduo se libertar, penso que já teria feito isso. Mas quando se encontra alguém na rua e se pergunta como vai, a resposta é: “Estou massacrado” ou “Estou exausto”. Todos estão consumidos pela pressa.

De alguma forma, a sociedade vai ter que mudar. Mas acho que vai mudar porque vai chegar num limite. Vai continuar, sim, se multiplicando, não em riquezas, porque riqueza não tem a ver com capital, mas, sim, com a qualidade de vida humana. E é engraçado que, quanto mais capital se acumula, mais a vida humana cai de qualidade. Então não é a riqueza que está em jogo. Porém não vamos aqui fazer previsões de futuro, embora pense que o futuro pode ser diferente.

Maria Rita Bicalho Kehl é psicanalista e escritora, autora de diversos livros, entre eles O Tempo e o Cão, da editora Boitempo, São Paulo, SP. Endereço eletrônico: mritak@uol.com.br.

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