Edição 75

O livro da vez

Professora transforma crianças em escritoras no Alto da Foice

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O trabalho de uma professora está transformando a vida de 31 crianças da comunidade do Alto da Foice, no Recife. Fabiana Barboza aposta na transformação pela literatura e pela arte, levando os alunos à observação atenta do mundo. Através dos livros e das diversas formas de comunicação e expressão humana, as crianças aprendem a ouvir, questionar, escrever e ler o mundo, adquirindo confiança e postura crítica. O resultado: dois livros publicados e um CD com leitura interpretada, no qual as crianças passam de escritoras a contadoras das próprias histórias.

O primeiro livro foi publicado em 2012, com o nome de Bichos, Bichinhos, Bichões. A obra traz pequenas histórias de animais escritas individualmente. No ano de 2013, os alunos lançaram o segundo trabalho: Sem Pé Nem Cabeça, em que se aprofundaram na narrativa, criada coletivamente, contando as aventuras de cinco crianças de uma vila.

O projeto começou a ser colocado em prática há 3 anos, na Escola Octávio de Meira Lins. A ideia de implantar métodos diferenciados veio com a percepção de que os seus alunos chegavam ao terceiro ano do Ensino Fundamental sem estar alfabetizados de fato. “Sabiam juntar as letras, mas não entendiam o que liam ou escreviam e eram dispersos”, lembra a professora.

Inspiração

Fabiana debruçou-se, então, sobre o compromisso de mudar a situação e o comportamento daqueles meninos e meninas, dando-lhes a capacidade de perceber e participar da vida em comunidade, buscando, reconhecendo e abraçando as oportunidades. A inspiração para planejar o trabalho veio das abordagens dos educadores Ana Mae Barbosa e Henri Wallon.

“Ana Mae propõe a ‘abordagem triangular’, na qual o ensino da Arte nas escolas deve incentivar a criatividade, facilitar o processo de aprendizagem e preparar melhor os alunos, para que consigam atingir o máximo do desenvolvimento do conhecimento e possam enfrentar o mundo. Wallon propõe ver a criança de modo mais integral, levando em conta os domínios cognitivo, afetivo e motor. Ele considera que a escola é um lugar onde se educa, mas, principalmente, onde se deve estudar a personalidade da criança, compreendendo a complexidade do indivíduo”, explica.

A partir de então, Fabiana levou a turma ao mundo lúdico, em que cabiam contações de histórias, brincadeiras de roda e o encontro com a Arte, através de visitas mediadas a museus e centros culturais. “Criamos vínculos de confiança e respeito. Eles passaram a gostar cada vez mais de ler, interagir, participar ativamente do processo. Então, percebi que era o momento de investir mais forte na escrita”, lembra a professora.

Lucas Oliveira-6540_optCD com leitura interpretada

Em setembro de 2013, as crianças aprofundaram o que foi visto em sala de aula por meio da gravação do primeiro CD com leitura interpretada contando a história narrada no livro — produzido no estúdio Muzak, em Casa Forte —, com a participação de dezesseis contadores de histórias. Assim, além de leitores e escritores, os meninos e as meninas do 5º ano passaram também a contadores, indo além do sonho da professora.

Contadores

Camila Puntel (Mila Miloca)
Roma Júlia
Jojoba Inácio
Vera Nóbrega
Vinícius Viramundos
Fernanda Mélo
Márcia La Cruz
Luciano Pontes
Érica Verosa
Lenice Gomes
Fábio Calamy
Janira Oliveira
Sílvio Pinto
Anna Carolina Farias
Bete Brito
Ivone Matias

entrevistaDocumentário

A equipe da Mirai&Totalle acompanha a turma desde o início de 2013, quando as aulas, os passeios, as rodas de leitura e as contações ganharam registro e começaram a tomar forma de documentário: Assim se Faz Um Conto. O vídeo mostra o passo a passo do projeto, depoimentos das crianças, dos pais, de educadores e de contadores de histórias que tiveram contato e participação no processo.

Esse material foi lançado simultaneamente com o livro, no dia 17 de dezembro, no teatro Eva Herz, da Livraria Cultura do Shopping RioMar, encerrando o ano letivo e a caminhada de Fabiana junto às crianças, que agora partem para a segunda etapa do Ensino Fundamental.

Confira o trailer do documentário no link a seguir: https://vimeo.com/79837169

Quando li este poeminha de Madalena Monteiro, lembrei de Fabiana Barboza, A professora maluquinha:

Contar história, uma arte.
No céu podem morar pessoas.
Até as que não sabem voar! A lua pode ser rosa e iluminar uma casa feita de chocolate.
Os grãos de areia podem falar
com a espuma do mar.
Você pode ser a princesa,
encontrar um grande amor
e viver feliz para sempre.

O que achei mais importante no trabalho Sem pé nem cabeça foi a questão do imaginário, pois ele é o começo de tudo.

O imaginário auxilia a formação de nossa identidade e atua como uma ponte entre o nosso mundo interior e o mundo exterior, ajudando-nos a elaborar muitas questões. Quando estimulamos a nossa imaginação, transportamos imagens de dentro para fora, muitas e muitas vezes, até que possamos compreender a nós mesmos, as pessoas e o mundo, ajudando-nos a formar adultos mais sensíveis e atentos ao mundo e aos seres que o habitam.

Parabéns, Fabiana, pelo seu belíssimo trabalho, e tenha a certeza de que despertou em seus alunos um mundo melhor.

Um grande abraço.

Zeneide Silva.

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