Edição 47

Matérias Especiais

Profeta Gentileza

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José Datrino, chamado Profeta Gentileza, tornou-se conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições peculiares sob um viaduto no Rio de Janeiro, onde andava com uma túnica branca e longa barba.

Sua infância

Nascido em Cafelândia – SP, no dia 11 de abril de 1917, José Datrino, com mais nove irmãos, teve uma infância de muito trabalho, quando lidava diretamente com a terra e com os animais. Para ajudar a família, puxava carroça vendendo lenha nas proximidades. O campo ensinou José Datrino a amansar burros para o transporte de carga. Tempos depois, como Profeta Gentileza, dizia-se “amansador dos burros homens da cidade, dos que não tinham esclarecimento”. Desde sua infância, José Datrino era possuidor de um comportamento atípico. Por volta dos 12 anos de idade, passou a ter premonições sobre sua missão na Terra: acreditava que, um dia, depois de constituir família, filhos e bens, deixaria tudo em prol de sua missão. Esse comportamento causou preocupação em seus pais, que chegaram a suspeitar que o filho sofria de algum tipo de loucura e a buscar a ajuda de curandeiros espirituais.

Surge o Profeta Gentileza

No dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niterói, houve um grande incêndio no circo Gran Circus Norte-Americano, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo. Nesse incêndio, morreram mais de 500 pessoas, a maioria crianças. Na antevéspera do Natal, seis dias após o acontecimento, José acordou alegando ter ouvido “vozes astrais”, segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói, local que um dia foi palco de tantas alegrias, mas também de muita tristeza. Aquela foi sua morada por quatro anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras agradecido e gentileza. Foi um consolador voluntário, confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar José Agradecido, ou simplesmente Profeta Gentileza.

Após deixar o local, que foi denominado Paraíso Gentileza, o Profeta Gentileza começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970, percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e de Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”.

Os murais

A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju, que vai do Cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio, numa extensão de aproximadamente 1,5 km. Ele encheu as pilastras do viaduto com inscrições em verde-amarelo, propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização. Durante a Eco-92, o Profeta Gentileza colocava- se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a gentileza e a aplicarem gentileza em toda a Terra.

Após sua morte

Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu em Mirandópolis (SP) — cidade de seus familiares —, onde se encontra enterrado no Cemitério Saudades.

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Com o decorrer dos anos, os murais foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo e, mais tarde, foram cobertos com tinta de cor cinza. A eliminação das inscrições foi criticada, e, posteriormente, com a ajuda da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, foi organizado o projeto Rio com Gentileza, com o objetivo de restaurar os murais das pilastras. As inscrições começaram a ser recuperadas em janeiro de 1999. Em maio de 2000, a restauração foi concluída, e o patrimônio urbano carioca foi preservado.

No final do ano de 2000, foi publicado pela Editora da Universidade Federal Fluminense (Eduff) o livro Brasil: Tempo de Gentileza, de autoria do professor Leonardo Guelman. A obra introduz o leitor no “universo” do Profeta Gentileza através de sua trajetória, da estilização de seus objetos, de sua caligrafia singular e de todos os mais de cinquenta painéis criados por ele, além de trazer fatos relacionados ao projeto Rio com Gentileza e descrever as etapas do processo de restauração dos escritos. O livro é ricamente ilustrado com inúmeras fotografias, principalmente do Profeta e de seus penduricalhos e painéis. Além de fotos do próprio Profeta Gentileza trabalhando junto a algumas pilastras, existem imagens dos escritos antes, durante e após o processo de restauração.

Em 2001, o Profeta Gentileza foi homenageado pela escola de samba Acadêmicos do Grande Rio.

Em Conselheiro Lafaiete, cidade do interior de Minas Gerais, há um amplo trabalho feito pela ONG Amar que dá continuidade ao trabalho do Profeta Gentileza. Foram desenvolvidas oficinas com jovens da cidade, nas quais foi possível repassar as técnicas de mosaico. Além disso, um grande muro no bairro São João recebeu uma linda aplicação de mosaico; e a praça São Pedro, no bairro Albinópolis, foi toda decorada seguindo o estilo do Profeta Gentileza.

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O Profeta Gentileza nas artes

Gentileza foi homenageado na música pelo compositor Gonzaguinha, nos anos 1980, e também pela cantora Marisa Monte, nos anos 1990. As duas canções levam o nome Gentileza.

A canção de Gonzaguinha mostrava uma homenagem ao Profeta, como se vê no trecho: “Feito louco / Pelas ruas / Com sua fé / Gentileza / O profeta / E as palavras / Calmamente / Semeando / O amor / À vida / Aos humanos”. A canção de Marisa Monte, por sua vez, além de incentivar os valores pregados pelo Profeta (“Nós que passamos apressados / Pelas ruas da cidade / Merecemos ler as letras / E as palavras de Gentileza”), retrata os danos ocorridos contra os murais, como diz o trecho: “Apagaram tudo / Pintaram tudo de cinza / Só ficou no muro / Tristeza e tinta fresca”.

No ano de 2000, na cidade de Mirandópolis (SP), onde o profeta está enterrado, foi criada a primeira ONG da cidade, Gentileza Gera Gentileza, fundada por parentes e amigos que admiravam a filosofia de vida do Profeta. A ONG, além de lembrar a pessoa de José Datrino (Profeta Gentileza), em sua criação tem a missão de difundir educação e cultura em toda a região. Vários eventos foram feitos, como saraus mensais itinerantes, encontros de corais, tardes culturais para crianças no bosque da cidade, participações em eventos escolares e um evento anual denominado Gentileza Gera Gentileza, com música, teatro, poesia e dança, entre outros.

Em 2009, o Profeta Gentileza foi interpretado pelo ator Paulo José em Caminho das Índias, novela das 20h da Rede Globo, de autoria de Glória Perez, que aborda, entre outros temas, a loucura em seus vários aspectos — inclusive o social. Gentileza, um Profeta que denuncia e anuncia

Como todo profeta, Gentileza denuncia e anuncia. Denuncia este mundo, regido “pelo ‘capeta capital’, que vende tudo e destrói tudo”. Vê no circo destruído uma metáfora do circo-mundo que também será destruído. Mas anuncia a “gentileza que é o remédio para todos os males”. Deus é “gentileza porque é beleza, perfeição, bondade, riqueza, natureza, nosso Pai Criador”. Um refrão sempre volta, especialmente nas mais de cinquenta pilastras com inscrições na entrada da Rodoviária Novo Rio, no Caju: “Gentileza gera gentileza, amor”. Convida a todos a serem gentis e agradecidos. Na verdade, anuncia um antídoto à brutalidade de nosso sistema de relações. É precursor, sob a linguagem popular e religiosa, de um novo paradigma civilizatório urgente para toda a humanidade.

Houve um homem enviado ao Rio por Deus. Seu nome era José Datrino, chamado de Profeta Gentileza (1917–1996). Por mais de vinte anos, circulava pela cidade com sua bata branca cheia de apliques e com seu estandarte, pregava nas praças e colocava-se nas barcas entre o Rio e Niterói anunciando sem cansar: “Gentileza gera gentileza”. “Só com gentileza”, dizia, “superamos a violência que se deriva do ‘capeta capital’”. Inscreveu seus ensinamentos ligados à gentileza em mais de cinquenta pilastras do Viaduto do Caju, à entrada da cidade, recuperados sob a orientação do Prof. Leonardo Guelman, que lhe dedicou um rigoroso trabalho acadêmico, acompanhado de vídeo e um belíssimo CD-ROM com o título Universo Gentileza: a Gênese de um Mito Contemporâneo.

A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres do pensamento acadêmico como Freud, com seu O Mal-estar na Civilização; ou a Escola de Frankfurt, com Horkheimer e o seu O Eclipse da Razão; ou Habermas, com o Conhecimento e Interesse; ou mesmo toda a produção filosófica do Heidegger tardio. O Profeta Gentileza, representante do pensamento popular e cordial, chegou à mesma conclusão que esses mestres. Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a gentileza como irradiação do cuidado e da ternura essencial.

 

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Profeta_Gentileza

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