Edição 107

Como mãe, como educadora, como cidadã

Pronto! Vou falar de morte

Zeneide Silva

Quando comecei a escrever para esta seção, pensei em trazer temas que tenho anotado em minha caderneta. Todos os temas são casos verídicos que aconteceram comigo, mas, nesta edição, resolvi mudar, dispensando um desses temas já planejados, pois, numa sexta-feira, ocorreu algo inusitado. Fui a três velórios: o da mãe de um amigo, o da esposa de outro amigo e o de uma amiga de minha mãe. Em todos a tristeza era visível, as lágrimas eram presentes para aliviar a pressão do coração. As lágrimas nos ajudam a expressar nossa dor pela perda e aliviam a alma quando as palavras são insuficientes. Para expressar nossos sentimentos, temos que chorar, não podemos sufocá-los, temos que deixar a dor fluir e as lágrimas correrem pelos nosso rosto.

A perda será sempre muito sofrida. É como se uma parte de nós, de nossa história, estivesse sendo enterrada junto com aquele ente querido que partiu, ficando a triste certeza de que não voltará.

No nosso dia a dia, pouco pensamos e muitas vezes não gostamos de falar de morte, como se fosse uma coisa pela qual nunca iremos passar. Conheço famílias que não levam crianças ao cemitério para enterrar um familiar, poupando-as da realidade (não estou falando de crianças pequenas, mas de crianças de oito anos em diante), mas elas têm que entender que, a partir do dia em que nascemos, a única certeza que temos é a da morte. Caminhamos diariamente ao encontro dela. Por que negar essa realidade? Muitas vezes agimos como se fôssemos viver eternamente em nosso corpo. A morte é sempre a do outro; a dor é a do outro; e, ao outro, por mais amigo que seja, só oferecemos nossos pêsames e, muitas vezes, dizemos: “Eu não sei nem o que falar”. Não é preciso dizer nada, apenas abrace-o, com força e carinho.

Há uma história, de tradição budista, sobre uma indiana chamada Kisagotami, que ilustra a universalidade do sofrimento.

Mãe de uma linda menina, Kisagotami tinha perdido o marido em um trágico acidente. Sofrera muito com a morte dele, mas o amor pela criança ajudou-a a enfrentar a perda e a sobreviver. Então, em um dia terrível, acordou e descobriu que sua bebê também tinha morrido. Quase louca de dor, levou o corpo da criancinha a uma encosta onde o Buda pregava aos seguidores. Kisagotami implorou-lhe que trouxesse a bebê de volta à vida. Com grande compaixão, Buda concordou em realizar o milagre se ela lhe trouxesse umas sementes de mostarda de uma casa na aldeia onde nunca ninguém tivesse morrido. Kisagotami correu de casa em casa, implorando pelas sementes de mostarda para ressuscitar a criança. Mas não conseguiu encontrar uma única casa onde ninguém tinha morrido. Por fim, voltou aos pés do Buda e chorou, entendendo que seu sofrimento, embora intenso, ligava-a a todas as outras pessoas da aldeia. Cercada por esse apoio, pôde finalmente livrar-se do luto e curar-se da dor.

Como mostra essa história, ao partilhar nossas perdas com toda a humanidade, podemos tolerá-las com mais facilidade.

Mesmo que lhe pareça que um pedaço de você foi arrancado na perda de seu ente querido, você ainda está vivo! Prepare-se para reiniciar sua vida… Mas saiba que sua vida nunca mais será a mesma. Datas especiais o farão chorar novamente, porém lembre-se de que a vida continua.

Decida levantar-se e enfrentar novamente a vida, pois há muito a aprender e muito a servir. Há pessoas ao seu redor que também estão feridas, precisando da sua ajuda. Deus confortará você para que possa confortar outros com o seu amor.

Termino afirmando que tudo o que escrevi é no que acredito, aceito a morte, gosto de falar de morte, de ir ao velório, de abraçar pessoas enlutadas e sussurrar em seus ouvidos: “A força é Dele, e não sua. Ponha a sua vida nas mãos de Deus, confie Nele e Ele vai ajudar”. Espero que, no tempo de Deus, eu possa ir ao seu encontro.

cubos