Edição 97

Matérias Especiais

Psicologia Positiva e o processo de ensino-aprendizagem

Rosangela Nieto de Albuquerque

A Psicologia Positiva surgiu em meados dos anos 90 do século passado, nos Estados Unidos. Cientistas de alguns dos maiores centros de estudos em Psicologia da atualidade, tais como os das Universidades de Harvard, Yale, Pensylvania e Michigan, reuniram-se com o objetivo de compreender melhor os caminhos que levariam o ser humano à felicidade. Martin Seligman (ex-presidente da Associação Americana de Psicologia), focado em estudar as questões da felicidade e do bem-estar do sujeito, desenvolveu uma pesquisa voltada a identificar os bons sentimentos e as emoções positivas nas relações interpessoais, o bom-humor, o otimismo e a gentileza. Certamente, há muitas décadas os pesquisadores da área de Saúde se preocupam com as questões das emoções e as consequências que elas exercem sobre o organismo.

Assim, a Psicologia Positiva, voltada para o estudo científico das potencialidades humanas, além de agregar ao clássico papel curativo da Psicologia convencional, também se apresenta com um caráter preventivo, essencial quando se pensa em qualidade de vida e no desenvolvimento pleno do potencial humano.

Em 2000, Barbara Fredrickson, pesquisadora da Universidade de Michigan, publicou uma pesquisa acerca da função das emoções positivas. Assim, descobriu-se que as emoções positivas (e, por extensão, a felicidade) possuem funções significativas, maiores do que, simplesmente, a de promover o bem-estar.

As emoções positivas, tais como alegria, otimismo e esperança, fortalecem os recursos intelectuais, físicos e sociais. Em contraponto ao que ocorre com as negativas, o cultivo das emoções positivas promove uma disposição mental expansiva, tolerante e criativa, deixando as pessoas abertas a novas ideias e experiências.

Alguns pesquisadores são enfáticos no que tange ao cultivo das emoções positivas, que são primordiais à própria sobrevivência da espécie humana.

A escola e a Educação positiva

A Educação Positiva está permeada de habilidades específicas que auxiliam os alunos a reforçar as suas relações interpessoais, promover consciência, construir emoções positiva, e incentivar um estilo de vida mais saudável. A Educação Positiva se une à ciência da Psicologia Positiva no sentido de melhorar as práticas educacionais para apoiar, desenvolver e incentivar os indivíduos, a comunidade e o espaço escolar.

A Educação Positiva está permeada de habilidades específicas que auxiliam os alunos a reforçar as suas relações interpessoais, promover consciência, construir emoções positivas e incentivar um estilo de vida mais saudável.

Na verdade, as escolas, há algum tempo, já estão praticando a Psicologia Positiva, pois já optaram por implementar no currículo o Programa de Resiliência Penn ou o Programa Bounce Back. Certamente, esses programas não só permeiam o desenvolvimento de resiliência, mas buscam trabalhar as relações e emoções positivas, os pontos fortes e práticas de incentivo para se chegar à motivação do estudante.

Observa-se, no contexto mundial, que alguns países investem na Psicologia Positiva em suas escolas, pois criaram seus próprios currículos específicos baseados no bem-estar. A Federação de Aske, no Reino Unido, a Luanda International School, em Angola, e a Saint Peter School, na Austrália, estão implementando a aplicação da Psicologia Positiva articulando programas, conforme a realidade social no tocante ao bem-estar do sujeito, e sucesso no processo ensino-aprendizagem.

Naturalmente, a implementação de um programa de educação positiva na escola requer uma preparação de todos envolvidos no processo, e alguns fatores devem ser levados em consideração, como o estudo do tempo de execução, o treinamento, o custo do programa e as questões interdisciplinares, e essa mudança no currículo deve ter uma ampla abordagem holística, com enfoque na cultura e valores da instituição, pautar-se no bem-estar pessoal e do aluno e conscientizar os sujeitos educacionais, de que, para se chegar ao sucesso do uso da Educação Positiva nas escolas, é fundamental trabalhar as emoções positivas.

É preciso, portanto, compreender que o objetivo da escola, além de transmitir conhecimento e aprendizagem acadêmica para alcançar metas, é ajudar a desenvolver as emoções positivas; a aprendizagem social e emocional; e o bem-estar; assim, a escola estará investindo na melhoria do sujeito como um todo.

As emoções constituem a fonte mais poderosa de autenticidade, orientação e energia humana e, se bem direcionadas, podem proporcionar uma sabedoria intuitiva, informação vital e potencialmente proveitosa no existir das pessoas. Nesse contexto, a escola é o espaço para a permissão e o desenvolvimento da competência emocional; entretanto, deve-se considerar que para tal o professor também precisa desenvolver essa competência, considerando as frustrações e dificuldades que lhe são peculiares no exercício da profissão. Observa-se então que é uma necessidade emergente (CURY, 2012).

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A opção de vivenciar a Psicologia Positiva na escola contribuirá para todo o contexto educativo, a comunidade escolar, docentes, discentes, funcionários e também para a comunidade do entorno. É evidente que para o processo ensino-aprendizagem ter sucesso eles devem estar permeados pela afetividade entre professor-aluno, num clima de respeito, bem-estar e emoções positivas.

Analisar as emoções dos aprendentes é fundamental para a práxis educativa, pois, no contexto escolar, especialmente no processo ensino-aprendizagem, é importante conhecer e praticar as emoções positivas, e ela deve iniciar na postura do docente. Neste contexto, é fundamental que o docente trabalhe suas emoções, pois a práxis pedagógica funciona quando há um elo de teoria, prática e vivência efetiva. O termo emoção está pautado em três dimensões importantes: valência, alerta e controle, que tomam como base as experiências do indivíduo, o comportamento e a maneira de expor o que está sentindo, que, dependendo da situação, podem alterar as ações do sujeito, com reflexos no sistema neurofisiológico (GIL, 2010).

Felicidade na escola

Os estudos acerca da felicidade envolvem também a ótica da neurociência, sobretudo porque as emoções são resultado das atividades cerebrais e dos processos neuroquímicos, estes relacionados à saúde orgânica e psíquica e também aos estudos na área da Psiconeuroimulogia. Os avanços nos estudos da neurociência já demonstraram que existe a proteína da felicidade, e os benefícios para a saúde são espetaculares.

A felicidade permeia vários conceitos e definições, mas a neuropsicologia enfatiza que ela está ligada ao sistema emocional e à memória e leva o indivíduo ao estado de bem-estar interferindo no sistema somatossensorial, imunológico e endocrinológico (BALLLONE, 2007).

Gil (2010) remete às questões dos marcadores somáticos quando se refere à felicidade, pois as sensações físicas e os sentimentos, apesar de terem origem na experiência emocional, interferem nos processos cognitivos. As informações recebidas pela memória são processadas no córtex cerebral, e os impulsos elétricos transformam-se em sensação de bem-estar (SELIGMAN, 2002). Portanto, nas situações de felicidade, de bem-estar, as chances de sucesso na aprendizagem são significativas.

É importante enfatizar que as emoções positivas impedem a produção de dois hormônios que, em excesso, são prejudiciais à saúde — o estradiol e a adrenalina ­—, pois permitem o surgimento de doenças. Em antítese, estar feliz faz o organismo produzir uma substância chamada endorfina, que circula pelo organismo fazendo-o funcionar melhor (SELIGMAN, 2002).

A felicidade, que é o objetivo da Psicologia Positiva, não se resume a alcançar estados subjetivos momentâneos. Felicidade também inclui a ideia de uma vida autêntica [...] e autenticidade descreve o ato de obter gratificação e emoção positiva através do exercício das próprias forças pessoais, que são caminhos naturais e permanentes para a gratificação (SELIGMAN, 2002, p. 288).

Considerações finais

A Psicologia Positiva constitui um desafio para as novas gerações de psicólogos, pois ela preenche uma importante lacuna do conhecimento, revelando preocupações na aplicação dos métodos científicos à complexidade do comportamento humano. Certamente, ela estabelece influência no equilíbrio dos corpos físico e mental, e uma característica é a questão da resiliência, ou seja, o poder humano de se manter firme diante dos infortúnios, adaptando-se a eles.

A prática busca quebrar os vínculos que prendem o pensamento humano a uma concepção negativista sobre a jornada existencial humana. Inspirada pela psicologia humanista, ela tem como foco a natureza positiva das experiências e vivências do indivíduo. A ênfase permeia a esfera iluminada da mente, visando promover qualidade de vida.

Certamente, as emoções positivas, como esperança, alegria e otimismo, são fundamentais para fortalecer os recursos intelectuais, sociais e físicos; então, o cultivo das emoções positivas promove uma disposição mental expansiva, tolerante e criativa, deixando as pessoas abertas a novas ideias e experiências.

A Psicologia Positiva estuda os processos cognitivos e emocionais subjacentes às experiências subjetivas e aos traços de personalidade dos sujeitos, no sentido de facilitar mudanças comportamentais. Assim, no contexto educacional, a Psicologia Positiva contribui no contexto do processo ensino-aprendizagem, porque promove situações de otimismo, bem-estar, segurança e felicidade; assim, são grandes as chances de sucesso na aprendizagem.

É importante enfatizar que as emoções positivas impedem a produção de dois hormônios que, em excesso, são prejudiciais à saúde — o estradiol e a adrenalina —, pois permitem o surgimento de doenças.

Rosangela Nieto de Albuquerque é PhD em Educação; Pós-doutoranda em Psicologia; Doutora em Psicologia; Mestre em Ciências da Linguagem; Psicopedagoga Clínica e Institucional; Pedagoga; Consultora ad hoc do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP; professora universitária dos cursos de graduação e pós-graduação; coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP-FAFIRE); coordenadora de cursos de pós-graduação; analista em Gestão Educacional do Governo do Estado de Pernambuco; autora e organizadora de 9 livros.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com

Referências

BALLONE, G.J. Psiconeuroimunologia 1 ­- Emoção e Imunidade, in. PsiqWeb, revisto em 2007. Internet, disponível em acesso em: 01 set. 2017.

CALVETTI, P. U., MULLER, M. C., & NUNES, M. L. T. Psicologia da Saúde e Psicologia Positiva: Perspectivas e desafios. Psicologia: Ciência e Profissão. 2007.

CURY, A. Dez leis para ser feliz. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

DELL’AGLIO, D. D., KOLLER, S. H., & YUNES, M. A. Resiliência e Psicologia Positiva: Interfaces do risco à proteção. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2006.

GIL, ROGER. Neuropsicologia. 4. ed São Paulo: Santos, 2010.

SCORSOLINI-COMIN, F., & SANTOS, M. A. Casamento e satisfação conjugal: Um olhar da Psicologia Positiva. São Paulo: Annablume/FAPESP. Brasília: CNPq. 2011.

SELIGMAN, M. E. P., CSIKSZENTMIHALYI, M. Positive Psychology: An introduction. American Psychologist. 2000.

SELIGMAN, M. E. P. Authentic happiness: Using the new Positive Psychology to realize your potential for lasting fulfillment. London: Nicholas Brealey Publishing. 2002.

SHELDON, K., & KING, L. Why positive psychology is necessary.
American Psychologist. 2001.

SNYDER, C. R., & LOPEZ, S. J. Psicologia Positiva: Uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. (R. C. Costa, Trad.). Porto Alegre: Artmed. 2009.

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