Edição 100

Lendo e aprendendo

Qual a língua padrão

Nelly Carvalho

imagem_14Discussões envolvem questões linguísticas entre estudiosos, jornalistas e curiosos sobre qual o modelo de língua próprio para ser usado em concursos e exames na temporada do Enem. A padronização da língua escrita é uma questão antiga e remonta à forma como se construiu a identidade linguística brasileira. O português transplantado para o Brasil não permaneceu idêntico à forma inicial, sofrendo influência dos indígenas e dos negros na pronúncia e no vocabulário. Apesar da relativa unidade linguística brasileira, falas regionais e dialetos sociais, na linguagem cotidiana, surgem e se afirmam. Considera–se que exista uma unidade gramatical e normativa que deve ser empregada na língua escrita em todas as regiões; mas, contraditoriamente, alguns linguistas, como Sírio Possenti, questionam a obrigatoriedade da padronização.

Se há uma diversidade de formas de linguagem, qual delas deveria ser tomada como padrão? A maioria dos autores atuais sugere a linguagem jornalística como padrão escrito, não como um todo, mas a da primeira página e dos editoriais. A argumentação está calcada na padronização dessa linguagem nos grandes jornais do País, sejam eles do Centro-Sul, do Norte ou do Nordeste. O texto jornalístico se atém a uma normatização gramatical pela necessidade de informação rápida, preferindo construções simples e sintéticas. A penetração do jornal na sociedade determinou um tipo de língua padrão.

Mas pode-se questionar que língua padrão é esta. Quebrando a padronização idealizada, frequentemente o regionalismo se faz presente nos textos, sendo o modelo de prestígio o falar do Centro–Sul, mais precisamente o falar carioca, desde que o Rio se tornou sede da Corte e capital do Império e da República. O poder político sempre se traduz em prestígio linguístico. Muitas vezes o regionalismo se insinua nos textos do jornal, enquanto os telejornais procuram respeitar a língua padrão, harmonizando-a com as características de uma fala informal. Agora temos uma inovação que já começa a revolucionar o conceito de língua padrão: a linguagem da internet. O linguista de maior prestígio atualmente, David Crystal, diz não haver motivos para preocupação, mas a internet vem revolucionando a forma de comunicação escrita, pela instantaneidade, pelas abreviações e pela volumosa e rápida adoção de empréstimos; e as mudanças hão de continuar. Como reagirão os estudiosos que se esforçam para deter o curso da língua?

Nelly Carvalho é jornalista. E-mail: nellycar@terra.com.br

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