Edição 83

Matérias Especiais

“Qual é o seu sonho?”

Entrevista com Fernando Dolabela,
criador e coordenador dos maiores programas
de ensino de empreendedorismo do Brasil

A equipe pedagógica da revista Construir Notícias foi até Minas Gerais para conversar com Fernando Dolabela, o criador de um fascinante programa de Educação Empreendedora, já implementado em 2 mil escolas (do Brasil, da Argentina, do Chile e do Peru), envolvendo cerca de 10 mil professores e 300 mil alunos. Na entrevista a seguir, ele explica a sua metodologia, usada com professores, alunos e pais, cujo objetivo é gerar riquezas materiais e imateriais para a coletividade.

Construir Notícias: Como funciona a Pedagogia Empreendedora?

Fernando Dolabela: Quando comecei a trabalhar na criação da metodologia que chamo de Pedagogia Empreendedora, verifiquei que os conceitos da literatura mundial ligavam o empreendedorismo à criação de empresas. No entanto, o termo, que nasceu na empresa, transbordou para todas as áreas da ação humana. Existem infindáveis formas de se empreender, e criar empresas é apenas uma delas. Eu entendo que empreendedor é alguém que transforma, inovando e produzindo valor positivo para a coletividade. Assim, podem ser empreendedores os empregados, os políticos, os religiosos, os poetas. Percebi que deveria preencher a lacuna conceitual e criar uma definição que pudesse, ao mesmo tempo, acolher todas as formas de empreendedorismo e ser de fácil entendimento, compreensível por uma criança de 4 anos ou um adulto iletrado de 80. Assim, criei o conceito que diz que “O empreendedor é alguém que sonha [e sonhar aqui significa conceber o futuro] e busca transformar o seu sonho em realidade”. Somente sonhar não é o suficiente. Empreendedor é alguém que concebe o futuro e faz esse futuro acontecer. Esse conceito simples é compreendido por todo mundo, inclusive por uma criança ainda não alfabetizada.

A metodologia, por sua vez, é sintetizada em duas perguntas que disparam o processo de aprendizagem empreendedora. A primeira pergunta, “Qual é o seu sonho?”, feita em sala de aula pela professora, tem o objetivo de dizer ao aluno que ele é o autor de sua própria vida e que o conhecimento tem a finalidade de dar significado à existência. Essa pergunta dirigida às crianças pobres tem o inacreditável poder de devolver a elas a elevada autoestima que lhes foi surrupiada durante 500 anos de autocracia e injustiça social. Essa pergunta faz com que o eixo do processo educacional deixe de ser o conhecimento acadêmico e se concentre no aluno. De fato, assim fazendo, saímos do processo de ensino — inviável no empreendedorismo — para o processo de aprendizagem, em que os conhecimentos essenciais (o que fazer e como fazer) são desenvolvidos pelos alunos, e não transmitidos pelo professor. Empreendedorismo é uma forma de ser, e não somente de conhecer. O alvo do ensino convencional é a transferência do saber, enquanto no empreendedorismo o alvo é a pessoa capaz de gerar conhecimentos. Essa pergunta provoca uma reação positiva dos alunos que assumem o palco no lugar da Física, da Matemática e de outras matérias. Eles percebem dessa forma que o conhecimento escolar serve para transformar pessoas em autoras de si mesmas, da sua própria vida. Ou seja, nesse momento, é oferecida a eles a chance de assumirem a autoria de si mesmas.

Depois de criar essa definição, fiquei surpreso ao descobrir que a pergunta “Qual é o seu sonho?” jamais é feita na escola e na família. A pergunta habitual, “O que você quer ser quando crescer?”, que é maliciosa porque não é dirigida à criança, mas ao adulto que ela potencialmente representa, e, além disso, tem a intenção de controle. Se o pai antevê na resposta do filho algo que ele, pai, não deseja, poderá fazer uma intervenção no futuro do filho.

Trabalhar é uma das maiores manifestações de afeto do ser humano porque significa oferecer aos outros o que se tem de melhor. As pessoas têm que entender que trabalho é felicidade, não é punição. Assim, a proposta industrialista de se exercer o trabalho exclusivamente em troca de uma contrapartida financeira significa pouco e causa uma ruptura interna das pessoas. No modelo industrialista, a emoção é barrada na portaria.

Há mantras que denunciam dois pilares totalmente equivocados do mundo do empregado. O primeiro é “Você está misturando assuntos pessoais com profissionais”, que mostra que a emoção não é bem-vinda, e o outro: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, que revela as garras da hierarquia, incompatível com o ambiente de inovação.

A escola hierarquizada é uma organização meritocrática preparada para propagar e reproduzir conhecimentos testados, e não para criá-los. Isso não funciona no empreendedorismo. Hierarquias inibem a criatividade. O ambiente da inovação é a rede, que preserva a liberdade e a autonomia de cada integrante.

A segunda e última pergunta dirigida aos alunos “O que você vai fazer para transformar o seu sonho em realidade?” tem por objetivo dizer ao aluno que o professor, o pai ou qualquer outra pessoa não têm condições de oferecer caminhos simplesmente porque não sabem e que educar é desenvolver nas pessoas a capacidade de construir os próprios caminhos.

Em termos absurdamente sintéticos, essa é a metodologia da Pedagogia Empreendedora, detalhada em um livro de mesmo nome. Nele eu descrevo a educação empreendedora como um processo de desenvolvimento de um potencial presente em todos os indivíduos da espécie humana. Ou seja, nascemos empreendedores; aqueles que deixaram de sê-lo o fazem por influência da sociedade, mais especificamente da escola e da família.

Há séculos a educação convencional desenvolve e aprimora, com muita competência, potenciais como calcular, falar, escrever. Mas até hoje não se dedicou a desenvolver criatividade, talento, paixão, autoconhecimento. Mais grave, a educação convencional busca a conformidade no lugar de desenvolver a diversidade individual, o maior patrimônio do empreendedor. Outro pecado é aplacar a rebeldia, o inconformismo, fonte da criatividade, da inovação. A essência da aprendizagem empreendedora é representada pelas duas perguntas anteriormente citadas. Além da essência, a metodologia trata do que chamo de elementos de suporte da atividade empreendedora, que também são desenvolvidos em sala de aula. Esses elementos são o autoconhecimento, a liderança, a rede de relações, o conhecimento do ambiente em que o empreendedor vai atuar — que preparam os “músculos” do empreendedor.

Vamos tomar como analogia a preparação de atletas para a corrida olímpica de 100 metros rasos. O empreendedor seria o corredor; e o empreendimento, correr 100 metros. Além de praticar diariamente a corrida (sonhar e realizar sonhos), ele fortalece mente e corpo através de alimentação, musculação, fisioterapia, orientação médica e psicológica, que correspondem aos elementos de suporte que desenvolvem os “músculos” empreendedores.

O que você vai fazer para transformar o seu sonho em realidade?

O autoconhecimento, que é fundamental, não é tratado na escola, porque não é um requisito para a formação de engenheiros, médicos, advogados ou quaisquer outros profissionais, à exceção, talvez, dos psicoterapeutas. O conhecimento necessário ao exercício dessas profissões existe além e independentemente da pessoa. Tais conhecimentos não se confundem com a forma de ser, como no empreendedorismo. Assim, para exercer a medicina, o jornalismo, a odontologia, o indivíduo não precisa se conhecer, mas aprender conteúdos e processos conhecidos de solução de problemas na área. Por seu turno, o empreendedor necessariamente deve se conhecer, saber o que quer e o que não quer, o que pode e o que não pode e, principalmente, ter consciência do que sabe e do que não sabe. Só assim poderá construir complementaridades, atraindo pessoas que possam compor as forças necessárias para que a sua empresa tenha sucesso e ele realize o seu sonho. Empreendedores não trabalham sozinhos, são essencialmente articuladores de recursos.

Os outros elementos de suporte à atividade empreendedora, liderança, conhecimento do setor e construção de rede de relações, também não são abordados na educação formal. No empreendedorismo, a liderança é descrita como a capacidade de seduzir pessoas para que elas ajudem o empreendedor a realizar seu sonho. O conhecimento do ambiente em que a pessoa vai empreender também é imprescindível porque revela os problemas a serem resolvidos e as necessidades a serem satisfeitas. Empreendedores existem porque existem problemas. O conhecimento do setor abre as portas para as boas ideias.

Por fim, a capacidade de construir redes de relações ou redes sociais também não é desenvolvida na escola, mas é obrigatória para empreendedores encontrarem oportunidades e desenvolverem a sua capacidade de solucionar problemas.

Empreendedores não trabalham sozinhos, são essencialmente articuladores de recursos

CN: Os professores das redes de ensino público municipal apresentam resistência à aplicação da proposta da Pedagogia Empreendedora.

Dolabela: Uma das características da metodologia é a sua implementação em cidades inteiras, o que significa que todas as escolas das redes municipais de uma cidade são atingidas. Já receberam o programa, 145 cidades. Inovações sempre geram resistências, com as quais lidamos muito bem. A própria tecnologia prevê e desenvolve a habilidade de lidar com as resistências. Em alguns casos, encontramos resistências nas secretarias municipais de Educação (a educação pública, por si só, já é muito reativa a qualquer processo de transformação). A Educação é um setor muito conservador e sobrecarregado de trabalho e de propostas pedagógicas novas. Então, muitas vezes eles acham que empreendedorismo é mais uma das dezenas de propostas didáticas implementadas de cima para baixo. A inserção da nossa metodologia é feita através dos professores, preparados por nós através de dois seminários, o de Transferência de Metodologia e o de Formação de Multiplicadores, para levar o conteúdo ao aluno em sala de aula.

Muitas vezes a resistência maior é oferecida por líderes de classe que têm uma visão distorcida sobre empreendedorismo. É inacreditável, mas essa ainda é a realidade em vários segmentos da sociedade, incluindo alguns partidos políticos. O que mais chama a atenção é que, no Brasil, o setor educacional, em todos os níveis, não é comprometido com o desenvolvimento sustentável. A iniciativa de implementação da Educação Empreendedora parte das secretarias municipais ligadas à indústria, ao comércio e ao desenvolvimento.

Outro obstáculo é oferecido pela estrutura do ensino público brasileiro, em que, na maioria dos casos, os alunos até 10 anos de idade frequentam escolas municipais. Acima dessa idade, o ensino é de responsabilidade dos estados. Isso é um problema porque os estados são obrigados a tratar igualmente todas as cidades. Na prática isso significa que o Estado jamais contratou a Pedagogia Empreendedora. Os prefeitos não têm autonomia na educação de adolescentes na faixa de 10 a 17 anos de idade.

CN: Qual tem sido a recepção dos alunos das escolas das redes públicas municipais para a Pedagogia Empreendedora?

Dolabela: A receptividade é excelente, beira o inacreditável.

Com o tempo, adotei a seguinte regra comercial: quando um prefeito me convida, eu digo a ele: “Alunos e professores adoram a metodologia, mas, por favor, visite uma cidade onde a metodologia foi implementada e converse com professores e alunos antes de me contratar”. O resultado é tão maravilhoso que eu sou até suspeito para falar. As rejeições, de que falamos no início dessa conversa, chegam no máximo a 2% ou 3%, movidas por pessoas que não conhecem, não sabem do que se trata, mas não gostam. Geralmente têm medo de palavras.

Temos que entender que empreendedorismo é um fenômeno que se propaga através de contágio social, através de redes. Como não é um tema cognitivo, mas um valor, exige metodologia específica. A Pedagogia Empreendedora pretende atingir milhões de pessoas. Por isso, na sua concepção, foram priorizados elementos como baixo custo, facilidade de propagação, capacidade de escalar, de atingir grande quantidades de escolas e alunos. A escola é um polo de contágio social, de formação de cultura.

CN: A Pedagogia Empreendedora, como proposta disciplinar e educacional no Ensino Fundamental, poderá ser confundida como uma preparação “a serviço do capitalismo”?

Dolabela: Você já notou que a palavra empresa não é mencionada na Educação Básica? Em todo o mundo é a empresa que gera riqueza material, não importa o modelo econômico ou ideológico. Sempre foi assim também nos países comunistas, com a diferença que neles as empresas funcionavam mal. O fundamento da China moderna foi inspirado em uma frase do Deng Xao Ping: “Enriquecer é glorioso”.

O capitalismo gera infindáveis problemas, entre eles concentração de renda, diferenças inaceitáveis entre classes sociais. Não encontramos ainda a medida exata da liberdade econômica, o que acontece também com a democracia, algo inventado pelo homem e que está em constante reconstrução. Sabemos, no entanto que, em 10 mil anos de civilização, a experiência que gerou maior liberdade e qualidade de vida foi fruto da junção de democracia com o capitalismo. Não existe, na história da humanidade, outra experiência de maior sucesso. É lógico que estamos longe de ter encontrado uma solução. De fato, é inexplicável e insuportável a exclusão econômica e social de dois bilhões de pessoas.

A criatividade nasce em ambientes não estruturados. Quer matar a criatividade? Crie uma hierarquia.

As formas de gestão econômica que experimentamos no correr da história são imperfeitas, inacabadas. Mas temos um começo porque sabemos muito bem o que não funciona, o que leva ao desastre. Isso acontece quando o Estado assume uma tarefa exclusiva da sociedade civil, que é empreender.

A metodologia da Pedagogia Empreendedora se preocupa com a geração de toda forma de riqueza, tanto material como imaterial. No livro Pedagogia Empreendedora, que descreve a metodologia, é possível perceber que a empresa é apenas uma das opções do aluno, do empreendedor. Cabe ao aluno, e somente a ele, escolher o que deseja ser. Ele pode e deve empreender se escolher ser poeta, músico, professor, religioso, funcionário público. Induzir o aluno a abrir empresa é uma inaceitável inadequação didática.

Eu falo às crianças para mudarem, oferecendo coisas boas à coletividade, não importa em que área atuem. A Pedagogia Empreendedora só trata de criação de empresas quando esta for a opção do aluno.

Nada é tão importante quanto a capacidade de se criar o futuro. O empreendedor é alguém que cria o futuro. E essa criação pode ser nas artes, na filosofia, nas ideologias, no governo, na geração da paz e também, é claro, na inovação voltada para a produção de bens materiais.

O que aconteceu é que a economia ficou tão veloz — a era da comunicação — que a inovação, principal condutor desse processo, agora se passa com uma velocidade muito grande.

CN: Que estratégias didáticas podemos usar para os professores da rede privada em sua formação para o ensino do empreendedorismo na Educação Básica?

Dolabela: O que eu costumo dizer para os professores é o seguinte: vocês precisam entender que empreendedorismo não é especialização, mas, sim, uma necessidade de todo ser humano. Temos dois grupos de pessoas: aquelas que inovam e as que simplesmente operam sistemas criados por outros O profissional que inova tem mais valor, sob qualquer ótica, do que aquele que opera. Ele é muito mais independente e mais bem remunerado. Então, há uma necessidade essencial e irrecusável dos educadores insistirem no tema que é a capacidade de transformar conhecimento em riqueza material ou imaterial. Quando falo em riquezas me refiro à oferta de coisas boas para a coletividade.

O tema empreendedorismo tem duas características: é universal, isto é, todos os alunos devem desenvolver o seu potencial empreendedor, e é central, e não acessório, por sua importância. O que os alunos irão fazer com o conhecimento que eles adquiriram na escola se não forem capazes de transformá-lo em valor positivo para a sociedade? Na organização produtiva hoje adotada, a habilidade de inovar e de transformar o conhecimento em riqueza é concentrada no proprietário da empresa. É preciso que tal capacidade seja desconcentrada e distribuída a todos os integrantes da empresa. A inovação é uma questão de sobrevivência para empresas e países. Por isso não pode ficar na mão de poucos.

Assim, educar significa descobrir e desenvolver talentos, estimular a criatividade, mãe da inovação, e, principalmente, ajudar alunos a descobrirem a sua paixão. Empreender, como viver, é um processo essencialmente emocional.

Como eu disse, por ser um valor, e não somente um tema cognitivo, a Educação Empreendedora, como a vejo, apoia-se em pilares da seguinte natureza: 1) não se pode ensinar, mas é possível aprender; 2) é um fenômeno de contágio social; 3) é um fenômeno de comunidades, origem da formação cultural, fonte de propagação de valores e de recursos para se empreender; e 4) o resultado do trabalho do empreendedor deve ser o enriquecimento da sociedade, e não a geração de riqueza pessoal. Nada de pensar unicamente em encher os próprios bolsos. Essa é a ética empreendedora.

Nesse século estão surgindo os empreendedores sociais que utilizam intensamente a tecnologia para resolver problemas de comunidades pobres. Muitos pensam que a grande revolução social do nosso tempo não será feita pelos governos ou pelas ONGs, mas por essa espécie de empreendedor. Geralmente os empreendedores sociais eliminam o lucro do seu modelo de atuação, o que, em médio e longo prazos, inviabiliza o processo. Essa nova espécie de empreendedor tecnológico é mais realista. Para que a sua empresa seja sustentável, ele não abre mão do lucro, mas o reduz a uma dimensão que torna o produto ou serviço acessível às camadas pobres. Exemplos de produtos são baterias elétricas de baixo custo para populações rurais, sistemas sanitários de baixo custo, processos cirúrgicos e equipamentos voltados para a saúde. O empreendedor tecnológico social pratica a inovação frugal, que gera processos e produtos de baixo custo.

É importante que os alunos percebam que o processo empreendedor é um requisito básico para a sustentabilidade de uma nação em todas as acepções que essa palavra possa ter.

CN: Quais são os benefícios para as escolas da rede privada de ensino com a adoção da Pedagogia Empreendedora como diferencial de “qualidade educacional”?

Dolabela: Ao preparar empreendedores, a escola cumpre a sua missão, que é de preparar protagonistas capazes de construir sua própria história, de criar um futuro que melhore a vida de todos. A escola particular no Brasil não pode se contentar em preparar para o vestibular e ter a maior e talvez única aspiração que é preservar um posto reverenciado pelo establishment.

Outra mensagem para a escola é: diga não à conformidade, deixe a diversidade, que é a maior riqueza do ser humano, fluir. Estimule, crie um pouco de caos. A criatividade nasce em ambientes não estruturados. Quer matar a criatividade? Crie uma hierarquia.

CN: Como argumentar, junto aos pais dos alunos, a importância do ensino da Pedagogia Empreendedora com segurança?

Dolabela: A questão a ser lançada para os pais é a seguinte: “Vocês querem que o seu filho seja um protagonista, uma pessoa com alto grau de autonomia e liberdade? Então, estimule que ele seja inovador, transformador, pois essas pessoas tendem a ser mais felizes”.

A inovação é uma questão de sobrevivência para empresas e países. Por isso não pode ficar de mão de poucos.

CN: O ensino da Pedagogia Empreendedora garante a prática da interdisciplinaridade?

Dolabela: Eu considero a interdisciplinaridade na Educação Empreendedora como um ponto de chegada, e não de partida, por ser o empreendedorismo um tema pouco conhecido. A inserção interdisciplinar é o ideal, mesmo porque a realidade é interdisciplinar, nós a fragmentamos com o objetivo de entendê-la com maior facilidade. Não há setores estanques: geografia, história, economia, matemática ou saúde, transporte, energia, justiça.

Empreendedorismo é uma área ainda iniciante, pré-paradigmática, pouco compreendida e, talvez por isso mesmo, com exagerado grau de rejeição. Sendo praticamente desconhecido, é temerário inseri-lo no programa escolar, inicialmente, como tema interdisciplinar. Com o passar do tempo, na maioridade do tema, aí, sim, ele poderá ser abordado de forma interdisciplinar. De qualquer forma, essa é apenas uma recomendação, a decisão cabe a cada escola. Algumas se sentiram em condições de começar já de maneira interdisciplinar.

Na prática, eu recomendo que tenha um horário, como Geografia e História, por exemplo, e que a interdisciplinaridade seja um projeto de chegada, de maturidade, e não de largada, de início. Eu vejo muita dificuldade em alguém falar de empreendedorismo sem ter vivido, sem acreditar nele. Os professores desta geração cresceram em outro mundo e em outro modelo mental.

CN: No ensino da Pedagogia Empreendedora, necessariamente são gerados projetos experimentais em todos os segmentos educacionais?

Dolabela: Se você se refere à pedagogia de projetos, eu diria que esta se aplica a todo tipo de conhecimento, é excelente. Mas não é adequada à preparação para a ação empreendedora, que pressupõe que todas as escolhas sejam feitas pelo aluno. O professor, os colegas, a família não interferem nas decisões, desde a concepção do produto, da formulação do sonho, até a sua transformação em realidade. Todo o processo é definido pelo aluno. A tutela e qualquer tipo de resposta são deletérios. Empreendedorismo é uma decisão única do aluno, mas isso não quer dizer que ele vá trabalhar isoladamente. Pelo contrário, ele aprende que o empreendedor é essencialmente um articulador de recursos de toda ordem: humanos, financeiros, tecnológicos, etc.

O empreendedor busca dentro de si o que gosta, o que ama, desenvolve seus talentos, e só então vai trabalhar. Quando a professora fala: “O nosso projeto é propor medidas contra a poluição do planeta”, ela está propondo um tema essencial relevante e educativo, mas não está disparando um processo empreendedor. Quando a ideia de um projeto, de uma ação é proposta por terceiros, já não há empreendedorismo. Agora, por outro lado, é preciso ter projetos na escola, sim, no sentido de estimular que cada aluno tenha sua proposta de sonho. Recomendamos que as escolas criem eventos, feiras, em que os alunos possam apresentar seus sonhos e projetos de empresas.

Devem ser convidados os pais, a comunidade docente, empreendedores reais e até mesmo a imprensa. A Educação Empreendedora dessa forma ultrapassa os muros da escola e a transforma em uma referência de empreendedorismo.

A escola tem o papel de ser um ambiente de propagação de cultura. Os eventos são justamente para apoiar, divulgar, valorizar, promover, estimular as ideias dos alunos.

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Augusto França e Isabela Nóbrega em entrevista ao professor Fernando Dolabela (centro), em Belo Horizonte, MG.

CN: Qual é o perfil do professor para o ensino da Pedagogia Empreendedora?

Dolabela: Na metodologia da Pedagogia Empreendedora, o papel do professor é criar um ambiente em que o conhecimento possa ser gerado pelo aluno. Como eu disse, a relação mestre-aprendiz funciona muito bem no ensino convencional, mas não se adéqua à Educação Empreendedora. Empreendedores reais que atuam na comunidade da escola são convidados a comparecerem à sala de aula para contarem a sua vida e comprovarem, com a sua própria experiência, que também os alunos podem conseguir o que eles alcançaram. É essencial convidar empreendedores locais (de preferência que tenham estudado na mesma escola, e não de outras regiões) com os quais os alunos possam estabelecer identidade e perceber que eles, alunos, também podem alcançar sucesso no empreendedorismo.

Ao preparar empreendedores, a escola cumpre a sua missão, que é de preparar protagonistas capazes de construir sua própria história.

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