Edição 96

Matérias Especiais

Quanto custam os livros que você adota?

Pesquisa encomendada pela Construir Notícias revela a complexa relação entre o preço dos livros didáticos, a evasão dos alunos e a inadimplência

Desde que o mundo é mundo, o livro didático é uma ferramenta fundamental (ao menos a intenção é essa) para a constituição do processo de ensino–amprendizagem nas escolas. Ele faz parte do nosso dia a dia, tal como alunos, família, escola. Mas poucos professores sabem ao certo quanto custam os livros que adotam. Não acredita? Faça uma rápida enquete entre os colegas e você verá. O pior é que essa incerteza está na base de dois fantasmas que constantemente assombram as escolas particulares brasileiras: a inadimplência e a perda de alunos. Essa é a conclusão a que chegou uma pesquisa que a Construir Notícias encomendou à Datamétrica Pesquisa e Consultoria. Os números nos mostram que, longe de serem apenas ferramentas pedagógicas, os livros tanto podem ser soluções quanto verdadeiros problemas para as escolas.

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Os números nos mostram que, longe de serem apenas ferramentas pedagógicas, os livros tanto podem ser soluções quanto verdadeiros problemas para as escolas.

Ao longo dos seus 17 anos, a Construir Notícias tem como principal foco o diálogo permanente com os professores e as escolas (incluídos aí coordenadores, gestores, psicólogos, etc.). Por esse motivo, é comum a redação da revista receber relatos de escolas preocupadas com a perda de alunos e a inadimplência. Preocupada em ajudar essas escolas e em entender qual é a relação entre esses dois fantasmas e os livros didáticos, a Construir Notícias encomendou à Datamétrica uma pesquisa cujo objetivo foi analisar a percepção dos pais dos alunos quanto ao custo dos livros didáticos. Para alcançar esse objetivo, a empresa ouviu, ao todo, 601 pais de alunos matriculados em escolas particulares de 17 capitais (Aracaju, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Manaus, Natal, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís, Teresina, São Paulo e Vitória). Segundo Analice Amazonas, diretora executiva da Datamétrica, “esse número é suficiente para traçar com precisão a forma como esses pais enxergam o valor da mensalidade escolar, os livros e o impacto de ambos no estresse financeiro da família”. A margem de erro da pesquisa é de 3,9%, e o intervalo de confiança, de 95%.

Normalmente, os livros didáticos (ou a ausência deles) representam um problema para os professores somente no início do ano letivo, quando se deparam com inúmeros alunos que ainda não os possuem. Eis o paradoxo: você precisa seguir com o planejamento, mas não pode excluir esses alunos do processo. As soluções são várias e problemáticas: juntá-los em duplas, trios, ministrar aula expositiva no quadro, passar algumas aulas revisando o conteúdo do ano anterior, começar mesmo só depois do Carnaval… Mas antes de ser um problema para os professores, livros caros são um problema para as famílias. De acordo com a pesquisa encomendada pela Construir Notícias, adquirir a lista de livros completa é uma prioridade para os pais, mas o principal entrave para a compra são os preços exorbitantes. Para 45% dos entrevistados, o preço é o principal motivo para não comprar a lista na íntegra. A solução, muitas vezes, é o reaproveitamento. Entre os pais, 32% afirmaram que não compraram a lista completa porque já tinham os livros ou os conseguiram com parentes ou amigos.

Uma das principais revelações da pesquisa associadas ao custo excessivo dos livros aponta a explosiva relação entre a compra da lista feita a prazo e a inadimplência. Não é novidade que o início do ano é um dos períodos de mais estresse financeiro para os brasileiros. Dívidas decorrentes do Natal, ano novo, gastos com o Carnaval, IPTU, IPVA… A essa combinação de dívidas novas e velhas somam-se à matrícula dos filhos e à compra do material escolar (incluídos aí os livros). Para muitos pais, a saída é recorrer à estressante pesquisa de preço em papelarias e livrarias. Nesse contexto, as compras a prazo são frequentes: 62% dos entrevistados afirmaram que acabam tendo de recorrer ao cartão de crédito para conseguir comprar os materiais escolares e os livros didáticos. Nestes tempos de crise, com desemprego, endividamento e juros abusivos, o estresse financeiro de muitos pais é uma bola de neve despencando ladeira abaixo.

O resultado desse endividamento da família, logicamente, repercute para a escola. A pesquisa mostrou que, em função das dívidas, as escolas que praticam mensalidades de valores mais baixos, por exemplo, enfrentam três vezes mais atrasos no pagamento das mensalidades que as escolas mais caras. Assim, o comprometimento da renda é maior entre as pessoas de menor poder aquisitivo e entre famílias com mais de um filho. Dessa forma, na busca de equilibrar as finanças essas famílias procuram escolas onde o valor da lista é menor (em torno de R$ 400,00).

Para 89% dos entrevistados, o valor da lista não deve equivaler a mais de uma mensalidade.

Outro dado interessante é o descompasso entre o valor pago pelos livros e as mensalidades. Para 89% dos entrevistados, o valor da lista não deve equivaler a mais de uma mensalidade. Ou seja, na realidade de hoje, há uma relação inversa entre o valor pago mensalmente à escola e o valor que os pais entendem como justo a ser pago pela lista. Obviedade: o valor dos livros deve ser coerente, necessariamente, com o valor da lista. O resultado desse descompasso, portanto, espanta os pais cujo bolso é mais sensível e leva à inadimplência muitos daqueles que insistem em manter os filhos na escola.

Diante desse panorama, fica evidente a importância de os professores saberem, de fato, quanto custam os livros que adotam. Apesar disso, os dados mostram que, no mínimo, o valor da lista escolar tem sido negligenciado pela maioria dos professores e gestores. Quem paga a conta são os pais dos alunos.

A pesquisa aponta para uma relação direta entre o alto valor da lista escolar e:

• Atraso de mensalidade.
• Aquisição incompleta dos livros.
• Mudança de escola.

Nos últimos 3 anos:

• 29% revelaram ter atrasado as mensalidades por causa do endividamento com a compra dos livros.
• 13% optaram por tirar o filho da escola por causa do valor da lista.
• 17% não adquiriram todos os livros por causa dos altos preços.

Entre outros pontos, a pesquisa revelou que a compra completa dos livros didáticos é uma prioridade para os pais. Entretanto, 45% deles consideram o preço excessivo o principal obstáculo para essa aquisição.

O comprometimento do pagamento de mensalidades por conta do volume total de despesas com itens escolares leva muitos pais a procurarem escolas onde o valor da lista é mais acessível.

A pesquisa feita pela Datamétrica nos ajuda a entender melhor alguns pontos fundamentais para a saúde financeira das escolas.

1. Coerência entre o valor da lista escolar e o valor da mensalidade. É muito comum os livros custarem muito mais que a mensalidade, o que gera o endividamento da família e favorece a inadimplência.

2. Análise cuidadosa das adoções. Cuidado na escolha dos livros é fundamental, considerando a qualidade e o preço. Lembre-se: quanto mais caros forem os livros, maior será o risco de inadimplência.

3. Cuidado com presentes de grego. Muitas editoras oferecem supostas “vantagens” na adoção de livros, mas, na prática, o custo elevado dos livros contribui para a insatisfação da família. Pense nisto: fidelizar o cliente é mais importante que obter vantagens às suas custas.

4. Parceria entre a escola e a família. É primordial convidar a família dos alunos para fazer parte do processo educativo. Pais participativos contribuem de forma decisiva para a educação dos filhos.

5. Atendimento diferenciado. O relacionamento com a família é construído diariamente e pode fazer toda a diferença na fidelização dos clientes. Limpeza, organização, planejamento, harmonia, etc. estimulam a satisfação dos pais.

6. União entre a gestão e os professores. O engajamento entre a escola e os professores contribui para a solidez do projeto político pedagógico. Se todos falarem a mesma língua, será muito mais fácil alcançar a excelência educacional.
A pesquisa aponta para uma relação direta entre o alto valor da lista escolar e:

 

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