Edição 50

Quaresma e Campanha da Fraternidade

Quaresma e Campanha da Fraternidade

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e do Recife

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Tempo de Conversão

A Quaresma propõe recolhimento de quarenta dias, inspirado
no exemplo de Jesus Cristo, que encontrou no deserto o ambiente
favorável para o diálogo com o Pai, no momento em
que percebeu que era chegada a hora de iniciar o anúncio da
Boa-nova da Salvação. A oração e o jejum, praticados naquele
longo retiro, constituíram forças que motivaram o Messias a
superar os desafios presentes nas provocações do tentador.

Em nossa realidade, somos convidados a nos revestir das
mesmas disposições de Filho de Deus, na condição de autênticos
discípulos, e enfrentar com coragem as tribulações
na certeza da vitória. Escutar o silêncio é preciso, para captar
o chamado e ter a disposição de dar o sim, confiante
como fez o pequeno Samuel orientado por Eli: “Fala, Senhor,
que o teu servo escuta!” (1 Sm 3,10).

Os sinais de despojamento que a liturgia propõe para a
Quaresma nos ajudam a penetrar e avançar na essência do
tempo litúrgico. São especialmente importantes as leituras
da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja, propostas
para a liturgia eucarística e a liturgia das horas durante esse
longo retiro espiritual quaresmal. Escutadas, meditadas e
rezadas com atenção, essas liturgias se apresentarão como
roteiro seguro na caminhada rumo à Páscoa.

É atitude de conversão a disponibilidade para o serviço,
faz-se necessário sair do comodismo e assumir o desafio
da edificação do Reino de Deus. É esse passo decisivo que,
nessa Quaresma, Jesus espera de cada um que tem a humildade
de perceber a força do chamado.

Gesto Concreto

As Campanhas da Fraternidade, realizadas mais fortemente
no tempo da Quaresma, têm o objetivo de motivar a
realização de gestos concretos de solidariedade e caridade.
Especialmente quando são apresentados temas sociais de
maior importância e urgência, como o deste ano: Economia
e Vida, com o lema Vocês não podem servir a Deus e ao
dinheiro (Mt 6,24).

É a terceira vez que a CNBB realiza uma Campanha da Fraternidade
ecumênica, sob a coordenação do Conselho Nacional
de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). É bom frisar que
não se trata de uma campanha sobre ecumenismo, mas
com a participação de outras igrejas.

A primeira Campanha foi no ano jubilar do nascimento
de Nosso Senhor Jesus Cristo (2000). O tema foi Dignidade
Humana e Paz, com o lema Novo milênio sem exclusões. Sua
proposta era motivar o compromisso com o resgate da dignidade
humana ferida nos porões da vida, à luz do sol e nos
bastidores da política.

A segunda, em 2005, teve o tema Solidariedade e Paz, e o
lema foi Felizes os que promovem a paz. O crescimento da
violência, o terrorismo e as guerras ameaçavam as esperanças
de um milênio de paz e exigia uma palavra profética da
parte da Igreja.

Objetivos Geral e Específicos

A CF 2010 tem por objetivo geral “Colaborar na promoção
de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal
da cultura de paz, a partir do esforço conjunto das igrejas
cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam
na construção do bem comum em vista de uma sociedade
sem exclusão”. Para sua concretização, o texto-base,
elaborado pelo Conic, apresenta cinco objetivos específicos:
conscientizar a sociedade da importância de valorizar todas
as pessoas que a constituem; buscar a superação do consumismo,
que faz com que o ter seja mais importante do que
as pessoas; criar laços entre as pessoas de convivência mais
próxima, em vista do conhecimento mútuo e da superação
tanto do individualismo como das dificuldades pessoais;
mostrar a relação entre fé e vida, a partir da prática da justiça,
como dimensão constitutiva do anúncio do Evangelho; e
reconhecer as responsabilidades individuais diante dos problemas
decorrentes da vida econômica, em vista da própria
conversão.

O texto-base recomenda que esses objetivos e essas estratégias
devem ser trabalhados em quatro níveis: social, eclesial,
comunitário e pessoal. “Desejamos a preservação da
grande casa comum, o planeta Terra, planeta da vida e morada
da família humana, em vista da sua sustentabilidade.
Buscamos mudanças na economia, na administração dessa
casa comum, em fraterna cooperação entre toda a sociedade:
cristãos e cristãs, seguidores de diferentes religiões e
pessoas de boa vontade.”

Não se Curvar ao Dinheiro

Nos tempos atuais, tudo gira em torno da economia. É o dinheiro
que se coloca diante de muitos como o grande valor
que determina a realização da pessoa, da comunidade e da sociedade
nos âmbitos nacional e internacional. São as grandes
potências que se articulam, sem levar em conta a situação da
imensa maioria excluída. Por outro lado, as nações emergentes
já começam a se organizar para defender seus interesses. Os
mais pobres apenas assistem à luta pelo poder e se colocam
numa total situação de fragilidade e dependência, atitude que
contradiz os princípios da justiça defendidos pela Igreja.

É estarrecedor, por exemplo, constatarmos o crescente comércio
de armas de fogo entre as nações. Consequentemente,
cresce o número de homicídios, e, nesse item, o Brasil está
entre os primeiros. As pessoas, nos tempos atuais, matam com
grande naturalidade, bastando, para isso, receber a combinada
recompensa. Aproveito para manifestar meu apoio ao Estatuto
do Desarmamento, que está tramitando no Congresso Nacional,
apesar da oposição dos que lucram com o negócio.

O individualismo, nas grandes potências, fecha os olhos diante
da imensa população que vive em situação de miséria, chegando
muitos a morrerem de fome. É inconcebível que, em pleno
século XXI, ainda possamos constatar essa dura realidade.

A preocupação primeira dos jovens, no momento em que vão
decidir sua vida profissional, é escolher uma profissão que lhes
garanta segurança econômica, colocando em segundo plano a
questão vocacional. Fazem isso diante da experiência dolorosa
de tantos graduados e até mestres e doutores que conseguiram,
com esforço, concluir um curso superior e não encontram
vagas no mercado de trabalho.

O lema da CF 2010 nos recorda que “Ninguém pode servir a
Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Também o Evangelho nos ensina:
“Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”
(Lc 12, 34). É preciso, então, uma vez comprometido com
o Evangelho, tomar uma decisão firme e consciente, além de
exercitar-se no desprendimento. É claro que as preocupações
citadas no parágrafo anterior são legítimas, sobretudo quando
se tem a responsabilidade de um lar, com crianças para serem
alimentadas e educadas. É a presença do pecado que gera desigualdades
e proporciona injustiças sociais.

A nossa fé nos orienta para a confiança na Providência Divina.
Naturalmente, não vamos cruzar os braços e esperar o maná
caído dos céus. Devemos, sim, acreditar na força da unidade,
colocando os valores nos seus devidos lugares e nos organizando
como comunidade de fé que luta e se estrutura na defesa
dos seus direitos.

“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”
(Jo 10, 10). Essa é a proposta de Jesus, e é esse o ideal a ser
alcançado por todos nós, no momento em que nos esforçamos
por tornar realidade a presença do Reino no meio de nós. Durante
o longo retiro de quarenta dias realizado por Jesus no
deserto, Ele nos ensinou a não aceitar facilidades, mas a encontrar
vida na dureza da cruz.

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