Edição 100

Matérias Especiais

Questão de atitude e compreensão

Sandra Batista

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[...] Em um mundo de mudanças rápidas, o importante não é os conhecimentos, as ideias nem os comportamentos corretos e fáceis que se esperam, mas, sim, o aumento da capacidade do aluno, participante e agente da transformação social, para detectar os problemas reais e buscar para eles soluções originais e criativas [...] (HENGEMUHLE, 2004 p. 33).

Descobrir-se interdisciplinar é uma experiência gratificante. Acredito que essa descoberta começa justamente quando há o interesse pela palavra interdisciplinaridade, que é difícil de ser dita, devido à sua extensão. Complexa na cabeça de muita gente; comprometedora, utópica para muitos; e instigadora para alguns. Infelizmente, também, produto de modismo para outros que camuflam o fazer pedagógico.

É importante refletir sobre a postura do professor, pois é ela que norteará os trabalhos de caráter interdisciplinar. Acreditamos que não basta apenas ter vontade de praticar a interdisciplinaridade; tem de haver comprometimento, interesse e vontade política que vai além do discurso e assume uma atitude interdisciplinar.

[...] Uma atitude diante de alternativas para conhecer mais e melhor, atitude de espera antes dos atos consumados, atitude de reciprocidade que impele à troca, que impele ao diálogo, ao diálogo com pares idênticos, com pares anônimos ou consigo mesmo, atitude de humildade diante da limitação do próprio saber, atitude de perplexidade ante a possibilidade de desvendar novos saberes, atitudes e desafios, desafio perante o novo, desafio em redimensionar o velho, atitude de envolvimento e comprometimento com as pessoas neles envolvidas, atitude, pois, de compromisso em construir sempre da melhor forma possível, atitude de responsabilidade, mas, sobretudo, de alegria, de revelação, de encontro, enfim de vida (FAZENDA, 1994, p.82).

Tal atitude ainda exigirá romper com velhos paradigmas, acreditar no novo, conceber a hipótese de que o aprendiz é possuidor de um espectro de competências ávidas por serem desenvolvidas e que, ministrando 100% de um determinado conteúdo, não garantimos os estímulos, as ações, as vivências, a interação social e todos os demais fatores essenciais à construção do conhecimento. É preciso mais, é necessário ousar, com atitudes conscientes, pautadas principalmente na alegria e no compromisso maior do fazer pedagógico, em busca de revelações que dão significado à vida.

Acreditamos numa escola humana e menos mecânica, eis um dos principais propósitos da interdisciplinaridade, que apresenta algumas palavras-chave: integração, interação, atitude, ação, transformação, saber, fazer e aprender

Por outro lado, a postura e a atitude interdisciplinar poderão garantir uma atuação mediadora do professor, que, tal qual um facilitador, buscará o foco de interesse, facilitará o acesso aos materiais de pesquisa, indagará mais do que responderá, promoverá discussões, etc., sempre preocupado mais com o processo do que com o produto, garantindo, dessa forma, o sucesso do processo de aprendizagem, visto que a aprendizagem só acontece na interação do objeto a ser aprendido com o aprendiz. Nesse caso, a mediação do professor servirá de norte para a organização das aprendizagens mútuas.

Esta não pode nem deve ser a postura de um único professor. A grande dificuldade reside em disseminá-la por toda a equipe, evitando, dessa forma, a desuniformidade das ações, que podem surgir de forma disciplinar e compartimentada em alguns professores, comprometendo o desenrolar do processo interdisciplinar. A equipe deve possuir um perfeito canal de comunicação. A regra decisória passa a ser o consenso, já que, dessa forma, pode-se cobrar o comprometimento; hão de se estabelecer divisões de tarefas e equidade nas informações tanto de ordem procedimental como de resultados.

Sendo assim, só é possível pensar em interdisciplinaridade quando se dispõe de uma equipe comprometida, bem diferente dos grupos de sujeitos isolados, que se preocupam, no máximo, com o produto mensurável demonstrado nas avaliações de caráter quantitativo. A verdadeira atitude interdisciplinar tem caráter qualitativo e não fica apenas no discurso, mas nas ações transformadoras, numa visão holística em prol do todo através das partes que compõem o todo. Sem integração e visão ampla coletiva, perdem-se o sentido e a razão de ser interdisciplinar.

Vemos aqui a louvável atitude de ir contra o pragmatismo acadêmico, que tende a excluir o conhecimento popular, não dando a ele nenhum valor, e coloca o saber clássico como uma tábua de salvação, sendo este baseado em rigorosos métodos dogmáticos e inquestionáveis. A ideia proposta por Ivani Fazenda sugere a contraposição das duas categorias de conhecimento. Assim teríamos a valorização do conhecimento real, mostrando-se tangível para os alunos. A interdisciplinaridade visa garantir a construção de um conhecimento globalizante, rompendo com as fronteiras das disciplinas. Para isso, integrar conteúdos não seria suficiente. Seria preciso, como sustenta Ivani Fazenda (1979. p. 8): “[...] uma atitude, isto é, postura interdisciplinar”. Atitude de busca, envolvimento, compromisso, reciprocidade diante do conhecimento que constrói e reconstrói o saber para o fazer, integra as partes envolvidas com objetivo único que proporciona encontros de disciplinas, conteúdos, metodologias, mediadores e aprendizes. Da mesma forma, o conhecimento popular deve ser integrado ao saber clássico em busca de equilíbrio que favoreça o processo interdisciplinar global.

Segundo os resultados obtidos por Garcia (2003), os professores acreditam que, para chegar a um conhecimento interdisciplinar, é necessário, antes, aprofundar-se em suas disciplinas, pois, assim, o professor seria capaz de melhor planejar um currículo integrado com as outras disciplinas. Vemos que os professores estão de acordo com os teóricos no que diz respeito à necessidade de revisão das práticas pedagógicas diante do quadro de escassez do currículo atual, que contribui cada vez mais com a prática do planejamento fragmentado, atitude oposta à proposta interdisciplinar.

Garcia (2003) enxerga diferenças no modo como os teóricos e os professores veem as disciplinas e o processo de integração entre elas. Os teóricos estão apegados à visão das disciplinas como universos, enquanto, para os professores, elas assumem a metáfora de avenidas a serem percorridas e ainda podem e devem ser interligadas.

Percebe-se, no discurso dos educadores, a necessidade de maior aprofundamento conceitual para melhor definição do ponto de vista, com análise mais aguçada e sugestiva que possibilite maior credibilidade docente no saber para o fazer educacional.

Por fim, o autor ainda aponta um contraste com mais ênfase em seu texto: os teóricos dariam maior importância para a preparação dos trabalhos interdisciplinares, enquanto os professores apontariam a vivência do trabalho. Ou seja, os teóricos estariam mais preocupados com a relação entre as disciplinas, enquanto os professores preocupam-se com o distanciamento humano. O apontamento do autor destaca que os teóricos priorizam atitudes reativas devido à insatisfação com as práticas atuais; já os professores buscam atitudes de transformação, nas quais se dá importância à abertura da mente, socialização de experiência e busca de novos métodos de interação. Isso sintetiza um grande abismo entre as duas visões. Não podendo desconsiderar a bagagem do saber que o professor acumula, ele sempre se coloca pela atuação deste, relacionando dificuldades e conquistas, o que gera experiência, muitas vezes desvalorizada. Mesmo assim, não podemos desconsiderar a importância de maior investimento na formação continuada dos educadores, buscando ações que coordenem melhor a integração entre a teoria e a prática, valorizando as duas instâncias com igualdade de valores que se complementam.

Portanto, defendemos que a interdisciplinaridade não deveria ser considerada como uma meta obsessivamente perseguida no meio educacional simplesmente por força da lei, como tem acontecido em alguns casos. Pelo contrário, ela pressupõe uma organização, uma articulação voluntária e coordenada das ações disciplinares, orientadas por um interesse comum, um aspecto fundamental presente nos diferentes níveis interdisciplinares. Nesse ponto de vista, a interdisciplinaridade só vale a pena se for uma maneira eficaz de atingir metas educacionais previamente estabelecidas e compartilhadas pelos membros da unidade escolar. Caso contrário, ela seria um empreendimento trabalhoso demais para atingir objetivos que poderiam ser alcançados de forma mais simples.

Acreditamos numa escola humana e menos mecânica, eis um dos principais propósitos da interdisciplinaridade, que apresenta algumas palavras-chave: integração, interação, atitude, ação, transformação, saber, fazer e aprender. São elas que permitem o desenvolvimento do sujeito como um todo de acordo com suas condições, possibilidades e compreensão para as suas ações, de modo a superar as atitudes que potencializam os fracassos e poucos resultados, transformando-os em energia e incentivo para continuar a busca pela superação das atitudes dicotomizadoras.

Freire (1990) entende o conhecimento como um processo de construção e reconstrução do mundo. Essa visão relata a dialética interdisciplinar numa visão mais holística do conhecimento, o que permite maior diversidade nas ações pedagógicas conscientes dos obstáculos, sem falsas ilusões idealistas ou pejorativas. Nessa perspectiva, o grupo de educadores deve agir no sentido da construção interdisciplinar. Eloisa Luck aborda alguns procedimentos e atitudes que favorecem a construção do conhecimento de forma mais integrada.

Relacionaremos algumas atitudes segundo Luck (1994, p. 82-83):

Usar a oportunidade para falar, expressar ideias.
Expressar crítica construtiva.
Fazer autocrítica como um processo contínuo de compreender-se no mundo.
Estudar mais para aprofundar a prática.
Aceitar ideias novas.
Respeitar os limites de cada um.
Respeitar e valorizar as ideias diferentes.
Levar as pessoas a expressarem suas ideias.
Aceitar as ideias dos outros.
Aceitar a possibilidade de errar.
Dar, aos colegas, tempo de manifestarem suas opiniões.
Superar a insegurança.
Desenvolver mais autoconfiança.
Trabalhar cooperativamente.

Essas ideias de Luck (1995) fundamentam a prática interdisciplinar. Faz-se necessária a articulação dessas atitudes em prol da integração dos saberes. Todo esse arcabouço pode servir de indicadores para os educadores no desempenho de suas atividades e produções, criando, assim, base para a construção do trabalho interdisciplinar.

Acredita-se, com base em todo o contexto explicitado, que cada vez mais serão exigidas e necessárias atitudes interdisciplinares transformadoras que conquistem e embriaguem todo aquele que tem sede do saber para o fazer, conquistando mais simpatizantes e, principalmente, atuantes que acreditem no poder dessa palavra complicada, de compreensão complexa, mas de significado amplo e, ao mesmo tempo, unificador, em que a obrigação é alterada pela satisfação, a arrogância pela humildade e a especialização pela generalidade em que todos se percebem gradativamente tornando-se parceiros. Assim, a interdisciplinaridade pode ser aprendida e ensinada, o que vem a caracterizar a verdadeira atitude interdisciplinar.

[...] a interdisciplinaridade pode ser aprendida e ensinada, o que vem a caracterizar a verdadeira atitude interdisciplinar.

Contribuições da interdisciplinaridade no fazer pedagógico

Na perspectiva escolar, a interdisciplinaridade não tem a pretensão de criar novas disciplinas ou saberes, mas de utilizar os conhecimentos de várias disciplinas pra resolver um problema concreto ou compreender um fenômeno sob diferentes pontos de vista. Em suma, a interdisciplinaridade tem uma função instrumental. Trata-se de recorrer a um saber útil utilizável para responder às questões e aos problemas sociais contemporâneos (BRASIL, 2002, p. 34-36).

No campo da ciência, a interdisciplinaridade corresponde tanto à necessidade de superar a visão fragmentadora de produção do conhecimento como também de articular e produzir coerência entre os múltiplos fragmentos que estão postos no acervo de conhecimentos da humanidade. Trata-se de um esforço no sentido de promover a elaboração de síntese que desenvolva a contínua recomposição da unidade entre as múltiplas representações da realidade.

Busca-se estabelecer o sentido de unidade na diversidade, mediante uma visão de conjunto que permita ao homem fazer sentido dos conhecimentos e das informações dissociadas e até mesmo antagônicas que vem recebendo, de tal modo que possa reencontrar a identidade do saber na multiplicidade de conhecimentos. E essa busca de unidade constitui uma aspiração do homem que sempre almeja estabelecer sentido sobre essas questões opostas e desordenadas com que se defrontou.

Ela se manifesta também no campo da Pedagogia, em que a interdisciplinaridade representa a possibilidade de promover a superação da dissociação das experiências escolares entre si e também delas com a realidade social. Ela emerge da compreensão de que o ensino não é tão somente um problema pedagógico, e sim um problema epistemológico do conhecimento, que se revela através da reflexão pela qual a inteligência toma consciência de si mesma para então descobrir seu poder.

O objetivo da interdisciplinaridade é, portanto, o de promover a superação da visão restrita de mundo e a compreensão da complexidade da realidade, ao mesmo tempo resgatando a centralidade do homem na realidade e na produção do conhecimento, de modo a permitir-lhe tempo para uma melhor compreensão da realidade e do homem como o ser determinante e determinado.

Fundamentalmente, a interdisciplinaridade apresenta amplas contribuições no processo ensino-aprendizagem. No entanto, a ciência apresenta ao ensino duas ordens de dificuldades: a primeira relacionada ao conhecimento já produzido, e outra relacionada à produção de novos conhecimentos. Com base nas afirmações de Luck (1994, p. 68), “Isso tudo é proposta de moda, porém contribui para superar a dissociação do conhecimento na produção, construção e reconstrução do conhecimento”. Apresenta-se como uma orientação para resolver dificuldades relacionadas ao saber já produzido ou novos conhecimentos, por isso ela é tida como proposta de moda na visão de alguns.

Na verdade, a interdisciplinaridade contribui para superar a dissociação do conhecimento produzido, mas em busca de nova ordem, conquistas, desafios que ultrapassem as circunstâncias possíveis. Tudo isso orientado pela lógica interdisciplinar na busca da unidade da diversidade.

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Nessa lógica, criam-se novos horizontes, nova linguagem e novas estruturas conceituais.

Na medida em que exercitamos as atividades humanas, elas são questionadas, tornando-se cada vez mais complexa a compreensão da realidade. O modo mais simplificador de compreender a realidade é produzir conhecimento, que só será proporcionado mediante confrontos com a diversidade.

É comum os professores se queixarem das dificuldades enfrentadas na prática, o que os faz pensar ser impossível a prática interdisciplinar por causa do individualismo, comodismo e falta de compromisso de alguns educadores que não assumem posições coletivas, percebendo a instituição de ensino como um todo, fazendo-se parte desse todo. É comum as pessoas se referirem a equipes ou grupos de trabalho como se não fizessem parte deles, são eles, e não nós ou os professores, essa é uma atitude de omissão e acomodação contrária à proposta da interdisciplinaridade.

Essa realidade pode ser mudada, pautada na quebra de paradigmas da fragmentação, uma vez que a interdisciplinaridade se concretiza nas atitudes que favorecem a formação do homem de forma integral em busca da transformação do pensar para agir. Assim, verifica-se que o comportamento interdisciplinar é expresso de forma dinâmica, mediante um processo; no caso da interdisciplinaridade, apresenta certa complexidade na compreensão e transposição do saber para fazê-lo, mas, quando compreendida, favorece significativamente todo o processo de ensino-aprendizagem, o que depende unicamente de postura e compromisso, em primeira instância, individual em busca de integração que promova a coletividade para o bem comum.

Fazendo uma representação sintética do processo de resolução humana, numa perspectiva interdisciplinar com base na concepção de Luck (1994 p. 81), “O indivíduo vai buscar força polar interior para solucionar situações conflituosas de forma mais harmoniosa”. Contribuindo com uma nova postura, onde o egoísmo perde espaço para o altruísmo, a omissão é substituída pela participação, o isolamento dá lugar ao engajamento, a acomodação dá vez à ação e assim sucessivamente; dessa forma, o relacionamento interpessoal associa-se dialeticamente, proporcionando relação entre atitude e interdisciplinaridade, contribuindo com o processo educacional comum a todos.

No geral, a qualidade de ensino corresponde à melhoria da qualidade de vida. Convenientemente implantada, possibilita ao indivíduo uma visão global de mundo e de si mesmo, podendo, assim, enfrentar a realidade em que está inserido em prol de superação do sentido de fragmentação, que gera insegurança e sentimentos negativos como medo de errar, ousar, desafiar, confiar, permitir-se, agir, fazer, falar e mudar. A educação contemporânea tem o propósito de romper com esse quadro, com o compromisso de desenvolver nos alunos habilidades que atendam às suas necessidades sem medo de solucionar os problemas do seu tempo — aprender a conhecer, isto é, adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer para poder agir sobre a realidade; aprender a viver juntos, finalidade maior da interdisciplinaridade: cooperação, participação e colaboração com os outros em todas as atividades humanas, para finalmente aprender a ser, qualidade essencial para a humanidade.

Todo esse processo formativo é responsabilidade apenas da escola? Com certeza não, é responsabilidade de todos os que fazem parte da sociedade, cada um tem sua parcela de responsabilidade a cumprir para a construção do todo que compõe o mundo.

Portanto, desenvolver a interdisciplinaridade implica admitir a ótica pluralista das concepções de ensino e estabelecer o diálogo entre elas e a realidade escolar para superar suas limitações. Corresponde, pois, a reconhecer que a ordem da ação não presidia um só critério, não é perfeita, é produzida pelo confronto de pontos de vista num diálogo permanente, que pressupõe a presença de valores por vezes incompatíveis.

Superar as limitações humanas faz parte do projeto de vida individual e coletivo, em que todos devem buscar subsídios para atender às necessidades individuais relacionadas com o ser social, contribuindo com a formação da humanidade de forma global. Considerando que todos os projetos pessoais, profissionais e sociais fazem parte do projeto de vida de cada um que é membro da sociedade, transpondo a visão interdisciplinar, cada um representa a fragmentação de um todo que precisa agrupar-se, integrar-se para formar a totalidade que representa a interdisciplinaridade.

Na perspectiva educacional, a interdisciplinaridade tem a pretensão de contribuir com os saberes de forma geral. Contextualizando os conhecimentos nas resoluções das situações-problemas do cotidiano escolar, trata-se de recorrer às alternativas em busca de soluções eficazes. Podemos ousar, citando algumas das contribuições da interdisciplinaridade no fazer pedagógico:

Proporciona facilidade na compreensão e reconstrução dos saberes.
Dá autonomia aos alunos nas produções. O saber fazer.
É fundamental para o processo de ensino-aprendizagem e articulação com a vida.
Evoca sensibilidade, compreensão e articulação com vários conhecimentos.
Permite um pensamento organizado, prazeroso.
Promove a integração do aluno e o desejo de aprender mais.
Facilita o diálogo nas ações, desenvolvendo habilidades e competências.
Prevê o erguimento da prática construtiva.
Aponta novo perfil de pessoa, aberta, flexiva, solidária, ética e democrática.
Estabelece a ampliação dos conhecimentos.
Favorece a aprendizagem significativa. Saber ser.
Promove a formação polivalente para enfrentar os problemas sociais.

Essas são características que permitem a superação restrita do mundo em busca de compreensão da realidade, como apresenta Fazenda em todo discurso interdisciplinar, o que pede um despertar que desafia o educador a acordar para as novas propostas educacionais, que favorecem o crescimento intelectual, afetivo e emocional dos estudantes.

As atitudes dos educadores envolvem os alunos como um todo, contribuindo com a construção do ser pensante, atuante, que se sente parte da sociedade desde cedo. É realmente um trabalho em conjunto, como propõe a interdisciplinaridade, de relação e parceria, compromisso coletivo: educador, família, escola e sociedade.

A compreensão é a base para entender o processo interdisciplinar. No depoimento dos docentes, as palavras-chave são integração, colaboração, aprendizagem, mediação, reflexão, contextualização, construção, processo, interação, ampliação, visão de mundo e aprendiz. Buscando o significado de cada palavra e relacionando-as entre si, teremos uma definição bem mais ampla do que foi descrito nas definições, todas elas estão contempladas no contexto teórico apresentado e representadas nos depoimentos dos educadores. No entanto, nos níveis de interação apresentados por Fazenda, proposta original de Eric Jantsch com adaptação de Japiassu em 1976, as definições apresentam maior complexidade na compreensão entre as diferenças que emergem do processo de integração. No depoimento dos educadores, encontramos variações sutis e relevantes distorções de interpretações.

A categoria que representa as atitudes interdisciplinares relaciona-se com a categoria das contribuições da prática interdisciplinar, porque uma ação está ligada à outra em seu contexto. Essas ideias, na concepção de Luck (1994, p. 82-83), “dão sustentação à prática, se faz necessário articulação dessas atitudes em prol da integração dos saberes”.

Percebe-se que a ideia interdisciplinar ganha força, isso graças ao compromisso dos educadores que acreditam na educação e lutam por mudanças, a começar pela transformação da sua prática em busca de parceria com os alunos, educadores e instituições, embora saibamos que ainda falta muito caminho a percorrer para se alcançar a educação de qualidade que almejamos.

Enfim, são muitas as dificuldades, possibilidades, desafios e conquistas. Quando se trata de interdisciplinaridade, não há receita a seguir, porém faz-se necessário um aprofundamento teórico que embase a prática e a busca de caminhos que conduzam a equipe docente à unidade escolar. O destino deve ser trilhado em parceria com toda a comunidade educativa.

É necessário pensar e refletir sobre a educação em termos de processo de formação total do Homem, mas sempre a partir de um referencial seguro na tentativa de renovação; caso contrário, pode esvaziar em práticas fúteis sem relação coesa com a formação do ser dentro dos parâmetros definidos pela Unesco: aprender a aprender, aprender a ser, a fazer e a conviver, contemplados na proposta interdisciplinar. Nesse sentido, aludimos a Fazenda (2002, p. 98) quando aborda: “Podemos dizer que a interdisciplinaridade, quando compreendida, pode ser, entre outras, condição de efetivação de uma educação permanente”. Além da compreensão, a parceria que propõe a interdisciplinaridade apresenta-se como atitude de mudança para a ação docente comprometida com o social.

A prática educacional faz surgir muitos questionamentos, especificamente quando se trata do fracasso escolar enfrentado pelas escolas que atravessam sérios problemas de desestímulo docente e discente no processo de ensino-aprendizagem, principalmente por não ter atingido ainda o nível de integração e compreensão de que necessitam para a aquisição da prática interdisciplinar. Não pretendo dizer que a interdisciplinaridade seria a solução, a salvação dos problemas educativos, porém percebe-se que atitudes interdisciplinares ajudam a entender e a viver o drama da incerteza e da insegurança.

Contemplando de forma sucinta os educadores que embasam o marco teórico: Gusdorf (1967), Japiassu (19760) e Fazenda (2002; 2006), quando se coloca a questão da interdisciplinaridade, pensa-se em um processo integrador, articulado, orgânico, de tal modo que supere a fragmentação do ensino mediante uma visão global de mundo, de uma articulação entre totalidade e unidade, objetivando a formação integral do ser capaz de enfrentar os problemas complexos, amplos e globais da sociedade moderna.

Atender às novas demandas da sociedade e romper com paradigmas ultrapassados que impedem o crescer, lançar-se para novas conquistas, este é desafio da consciência de que não temos certeza de nada, somos seres complexos e inacabados, que aprende e se renova a cada dia, mas, para isso, é preciso investir na formação continuada, não apenas do professor, mas da humanidade. Essa reflexão é fundamental para todo aquele que tem compromisso com a educação e o bem comum.

Referências

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