Edição 38

Matérias Especiais

Razões para incluir aulas de História da Química no Ensino Médio

Paulo Marcelo Pontes

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Muitos se perguntam a real utilidade de uma disciplina de História da Química (HQ) no Bacharelado ou na Licenciatura, durante a graduação. Causará ainda mais polêmica a introdução de aulas de HQ no Ensino Médio. Que razões poderiam ser alegadas, justificando a inclusão desse aspecto da ciência em um currículo já tão corrido e extenso? Então, por que motivos introduzir aulas de HQ? É exatamente este o objetivo deste texto: apontar razões que justifiquem (e incentivem) a inclusão de conteúdos referentes à História da Química para valorizar a transposição didática nesse nível de ensino.

Muitos dirão ser desnecessária e despropositada a inclusão dessas aulas e acusarão que esse tempo perdido poderia ser melhor aproveitado para aprofundar conceitos que sejam importantes para o vestibular. E outros defenderão que a inclusão dessas informações tornará o ensino maçante e tedioso, não contribuindo para a construção de conhecimentos relevantes.

Partindo do princípio (pelo menos ideal) da instituição escolar, o objetivo de nossa educação formal é educar o(a) estudante. E o educar consiste em fazê-lo conhecer nossa cultura e os princípios básicos formulados pelos seres humanos para tentar compreender os fenômenos que ocorrem em nosso universo. Consiste em algo mais que apenas ensinar conceitos e reações, consiste em auxiliar a consolidação da formação citadina e a inserção desses cidadãos na sociedade, imbuídos de direitos, responsabilidades e consciência ética e reflexiva sobre as mais variadas situações da vida cotidiana.

FREIRE (1994), exemplificando seu pensamento nas aulas de Biologia, escreve: “[...] E não se diga que, se sou professor de Biologia, não posso me alongar em considerações outras, que devo apenas ensinar Biologia, como se o fenômeno vital pudesse ser compreendido fora da trama histórico-social, cultural e política” (p. 78–79). Pensamento análogo pode ser aplicado à Química: não é possível alijá-la dessa trama sem perder considerável leitura do mundo em que se insere. O conhecimento não se constrói em volumes separados, mas por conexões e interconexões entre saberes, em um processo interdisciplinar sem limites rígidos ou preestabelecidos.

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CHASSOT (1995) denota que o estudo da História da Ciência “[...] implica estabelecer as inter-relações desta com a história da Filosofia, das religiões e da magia. Por extensão, isso leva a vinculá-la à história do desenvolvimento sociopolítico-econômico-cultural da humanidade” (p. 114). Ainda, ele defende “[...] o extraordinário valor pedagógico, o grande significado cultural e o relevante alcance epistemológico da História da Ciência” (p. 114). E ressalta que “[...] há a convicção de que é preciso, sempre, e cada vez mais, fazer uma inserção das ciências naturais na nossa cultura e na nossa sociedade [...] e buscar a descoberta da função da ciência nesta sociedade” (p. 114). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ensino Médio estabelecem como competências a serem desenvolvidas em Química, entre outras: “[...] reconhecer as relações entre o desenvolvimento científico e tecnológico da Química e os aspectos sociopolítico-culturais”, o que não apenas justifica por si só a importância da inclusão sugerida, como a torna desejável como objetivo educacional a ser atingido.

O ser humano é uma espécie rara no ambiente terrestre, pois possui a capacidade de aprender com as experiências passadas para melhor enfrentar experiências semelhantes no futuro, sendo capaz de refletir e analisar novos paradigmas que as situações vivenciadas exigem. E possui uma vantagem em relação às demais espécies: os seres humanos criaram meios de transmitir sua cultura para as gerações vindouras, através da oralidade e de grafismos (desenhos, escritos, gráficos, etc.). Essa transmissão de conhecimentos é uma poderosa ferramenta da humanidade no quesito sobrevivência.

A Química pode ser entendida como uma ciência central, pois atua desde nos fenômenos atmosféricos até no metabolismo dentro dos organismos. Age desde no fluido quente existente sob as altas pressões no interior da Terra até nos cristais de gelo que se formam na Antártica. A Química permeia as diversas áreas do conhecimento humano e possui uma essencialidade expressiva na cultura humana, inclusive atuando de forma fundamental na história da civilização, como, por exemplo, na Revolução Industrial, em que apresentou importância capital na sistematização dos novos processos que aceleraram o desenvolvimento urbano.

Como seria de se esperar, o desenvolvimento dessa ciência está atrelado ao decorrer da história da sociedade humana, desde a Antigüidade. Quando o homem descobriu que a comida condimentada se conservava por mais tempo, estava, sem saber, aprendendo conceitos de Química. E foi o conhecimento químico que permitiu a síntese de corantes artificiais, tão difundidos atualmente. Esses são apenas alguns dos exemplos.

O domínio da ciência significa poder, e as grandes potências mundiais perceberam isso ao longo dos séculos. Detendo o domínio científico, um país tem mais chances de sair-se vitorioso em guerras e acaba tornando os outros países dependentes, já que estes não possuem os serviços especializados que a potência possui. Uma carroça com tração animal não poderia competir com uma locomotiva a vapor.

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Extrair da Química sua história é transformá-la numa ciência sem contextualização nem interação com a evolução da espécie humana. E isso não é condizente com a realidade. E retira dos educandos e das educandas a possibilidade de compreender essa relação histórica, já justificada nos parágrafos precedentes.

Ao se introduzirem conceitos de HQ nas aulas do Ensino Médio, os estudantes começam a perceber que existe uma interferência da História no desenvolvimento da Ciência e vice-versa. E dissolve-se a visão de uma obra pronta, acabada, e atemporal. Também ajuda a desvendar o mito do cientista infalível, um gênio da lâmpada que realiza descobertas mirabolantes em laboratórios ultra-secretos sem cometer erros jamais, tratando-os como seres humanos normais (sem superpoderes) que se dedicam (muitas vezes sem sucesso) a questionar os fenômenos detectados por seus sentidos. Os estudantes são levados a perceber que as verdades aceitas pela Ciência são relativas e vão sendo substituídas por novas teorias mais satisfatórias. E assim, cada vez mais, é possível aproximar a Química de um modelo que leva em consideração a realidade e o fator humanístico que nela está contido.

A HQ pode, ainda, auxiliar os educadores a construírem aulas com participação total dos estudantes, ao valorizar não apenas os conhecimentos técnicos, mas também os humanísticos. Dessa forma, através de visões múltiplas de um mesmo tema, os estudantes poderão ter seus interesses despertados para a ciência, e todos sairão com vantagens ao descobrir a ligação entre essas diferentes formas de visão.

Por fim, a História da Química permite criar um elo entre a evolução do pensamento químico e a apresentação dos conceitos em sala de aula, podendo ser utilizado para romper a monotonia da exposição seguida de conceitos, como um elemento diferenciador, agindo como um “gancho” para atrair novamente a concentração perdida dos estudantes durante a aula ou ainda para estimulá-los a conhecerem os conceitos que levaram a passos importantes na História, sendo útil, inclusive, para manter a atenção de estudantes deficitários de atenção (DDA), por gerar uma “quebra” propositada para restabelecer a atenção daqueles e daquelas que têm dificuldades em manter-se concentrados durante todo o decorrer da aula.

E, sobretudo, a HQ, como fio de Ariadne, adiciona um tempero à aula, ao prender a atenção dos estudantes que querem conhecer o desenrolar dessa “história”.

1 Graduada em Educação Física, é especialista em Atividade Física e Qualidade de Vida e Atividade Motora Adaptada, ambas pela Universidade Estadual de Campinas.

2 Graduada em Educação Física, Doutora em Educação, professora da Faculdade de Educação Física da PUC de Campinas, é autora de diversos livros, entre eles Para além do corpo deficiente: histórias de vida e Ginástica Rítmica Popular: uma proposta educacional, ambos da Fontoura Editora, de São Paulo.

Bibliografia:

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio. Brasília: SEMTEC/MEC, 1999.
CHASSOT, Attico Inácio. Catalisando Transformações na Educação. 3. ed. Ijuí: Unijuí, 1995.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

Paulo Marcelo Pontes (pmarcelopontes@gmail.com) é graduado em Licenciatura em Química pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atua em escolas da rede particular de ensino e em cursos preparatórios para vestibulares. Áreas de interesse: Educação e Ensino de Química, Educação Inclusiva, Inclusão em Química, História da Ciência (em particular, História da Quím ica), Experimentação em Química, Mineralogia, Astronomia.

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