Edição 35

Projeto Didático

Recife de Todos os Encantos

recife_encantosMaria Amélia de Almeida – Assessora Literária

As crianças da Escola Polichinelo (2ªs séries) — Piedade — estão vivenciando o projeto Recife de Todos os Encantos.

No âmbito desse projeto, pesquisaram os poetas pernambucanos, entre os quais aqueles que estão representados por esculturas situadas em vários pontos da cidade, como Carlos Pena Filho (Praça do Diário), Capiba (Rua do Sol com Av. Guararapes), Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto (Rua da Aurora) e Clarice Lispector (Praça Maciel Pinheiro).

Acompanhadas pela professora Vevé Leite — que conduziu o projeto —, pela diretora pedagógica Maria Guilhermina Arcoverde, pela coordenadora Denise Dantas e pela assessora literária Maria Amélia de Almeida, as crianças fizeram uma “viagem ao passado” e ficaram encantadas com o “contato direto” com os ícones da poesia, dos contos e da prosa poética pernambucanos.

Os alunos foram seduzidos pela palavra: antes da aula de campo, leram, releram, ilustraram e elegeram os poemas, as frases, os contos com os quais se identificavam.

Diante de cada escultura, as crianças se mostraram maravilhadas e declamaram com muito sentimento: Poema de Natal (Carlos Pena Filho) — com direito a toque de sinos e tudo… Na sacada onde está Capiba, elas imitaram o gesto de alegre aceno do poeta e lá cantaram, de maneira viva, o frevo-canção Oh! Bela — chamando a atenção dos que passavam.

Na Rua da Aurora, cumprimentaram João Cabral e, em seguida, declamaram A Criadora de Urubus. E se entristeceram ao ver o braço do poeta quebrado por vândalos. Ainda na mesma rua, de tantos encantos, o encontro tão aguardado com Manuel Bandeira: Milla Schneider declamou Cabedelo com tamanha expressividade que emocionou a todos.

O trio Gabriela Maranhão Fontes, Maria Lourdes Assis Cabral e Mariana Lins Lima recitou Irene no Céu, casando a palavra, o tom e o gestual. Com certeza, lá do céu, foram aplaudidas por Bandeira. E a turma inteira recitou linda e ternamente O Porquinho da Índia e O Bicho.

recife_encantos1Com a máquina e o coração, fotografamos o Ginásio Pernambucano, onde estudou Clarice Lispector. Da Rua da Aurora, partimos para a Praça Maciel Pinheiro, onde fomos visitar a última escultura. No trajeto, as crianças ouviram o conto de Clarice Restos de Carnaval. Aí, na praça, o encanto foi redobrado porque esse conto e alguns outros remetem ao sobrado onde ela passou a infância, e os alunos puderam constatar isso contemplando a fachada e a escultura de corpo inteiro com a máquina de escrever no colo, sob a luz de um abajur.

As crianças “conversavam” com a escritora e a “acariciavam” com ternura, numa atitude de respeito, descoberta e puro encantamento. Houve um piquenique embaixo das árvores enquanto todos repetiam frases de contos e prosa poética. Em coro, fecharam a visita com esta pérola:

Há três coisas para as quais nasci e para as quais dou minha vida: nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos. Amar os outros é a única salvação individual que conheço. Ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca (Clarice Lispector).

O objetivo dessa aula-passeio foi plenamente atingido. As crianças — agora, mais do que nunca — buscarão novos poemas, contos e frases referentes aos poetas “visitados” e aprofundarão tudo o que vivenciaram junto aos colegas de outras turmas, incendiando de poesia toda a escola.

Leitura: uma Janela Aberta para o Mundo

Maria Amélia de Almeida

Ainda sem entender o significado das letras, elas saltavam das páginas e me contavam segredos, tramas, histórias.
Com o livro nas mãos, sonhava. Ele é um amigo amoroso. Silencioso ou falante, nos faz viajar, amar, ser feliz.
Guardava aquele “baú de tesouros” para voltar a abri-lo quando quisesse. E queria sempre. Sempre mais, com renovado encantamento.
Já nessa época de descoberta e espanto, tive a certeza de que o livro era coisa feita por bruxos e mágicos.
Ler, para mim, sempre foi lançar-me mundo afora, abrindo portas, conquistando mundos. Sempre trouxe e traz gosto de aventura, de navegação, de vôos intermináveis.
Ler/ouvir história é precioso ritual. Entra-se no mundo mágico com passaporte carimbado: fantasia. Bagagem necessária: sensibilidade e entrega!
Entrar no texto como se fosse num lago cheio de nuances é susto e alumbramento.
O livro tem vida e permite múltiplas leituras.
Ler é ganhar poder: é desvendar segredos, mergulhar em mares e florestas, escalar montanhas, abrir castelos e cabanas, enfrentar feras, reis, gigantes e fantasmas… e, sobretudo, encontrar a si próprio.
Partilhando a literatura, a criança e o jovem podem viver momentos únicos, do medo ao arrepio, do suspense à gargalhada mais solta.
A literatura apura o senso crítico, alarga nossa visão de mundo, instiga desejos, descristaliza supostas certezas, desconstruindo e reconstruindo.
Descobrir a literatura é quase como quebrar cercas, muros, abrir portas, janelas, cortinas, puro desvelamento, nunca saciado.
Daí por diante, seremos “felizes para sempre”. E isso não tem preço!

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RECIFE, CIDADE LENDÁRIA
Capiba

Eu ando pelo Recife noites sem fim.
Percorro bairros distantes sempre a escutar:
Luanda! Luanda! Onde estás?
É alma de preto a penar.

Recife, cidade lendária
de pretas de engenho cheirando a bangüê.
Recife dos velhos sobrados
compridos, escuros, faz gosto se ver.
Recife, teus lindos jardins
recebem a brisa que vem do alto-mar.
Recife, teu céu tão bonito
tem noites de lua pra gente cantar.

Recife de cantadores
vivendo da glória em pleno terreiro.
Recife dos maracatus
dos tempos distantes de Pedro Primeiro,
responde ao que vou perguntar.
Que é feito dos teus lampiões
onde outrora os boêmios cantavam
suas lindas canções?

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POEMAS DE NATAL
Carlos Pena Filho, musicado por Capiba

— Sino, claro sino,
tocas para quem?
— Para o Deus menino,
que, de longe, vem.

— Pois, se o encontrares,
traze-O ao meu amor.
— E que lhe ofereces,
velho pecador?

— Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.

SERENATA SUBURBANA
Capiba

Levo a vida em serenatas,
somente a cantar.
Quem não me conhece
tem a impressão
de que sou tão feliz,
mas não é isso, não.
Se eu canto em serenatas,
é para não chorar.

Ninguém sabe a dor que eu sinto
dentro de mim.
Ninguém sabe porque vivo
tão triste assim.
Se eu fosse realmente
muito feliz,
não chorava quando eu canto
nem cantava
para abafar meu pranto.

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CRIADORA DE URUBUS
João Cabral de Melo Neto

A mulher de Seu Costa
(com medo, se sabia)
criava urubus no galinheiro
junto com a criação comezinha.

Decepção ao saber
a correta razão:
não era pelo gosto doentio
de criar tais bichos do Cão.

Nem pelo exercício
do estranho e seus desvãos:
mas, sim, porque o urubu protege,
é padre, abençoa a criação.

O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA
João Cabral de Melo Neto

A bola não é inimiga
como o touro numa corrida
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

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MADRIGAL MELANCÓLICO
Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti
não é tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti
não é tua inteligência.
Não é teu espírito sutil,
tão ágil, tão luminoso
— ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
não é a tua graça musical,
sucessiva e renovada a cada momento,
graça aérea como o teu próprio pensamento,
graça que perturba e que satisfaz.

O que adoro em ti
não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza
não é o profundo instinto maternal
em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti é a vida.

O NÚMERO QUATRO
João Cabral de Melo Neto

O número quatro feito coisa
ou a coisa pelo quatro quadrada,
seja espaço, quadrúpede, mesa,
está racional em suas patas;
está plantada, à margem e acima
de tudo o que tentar abalá-la,
imóvel ao vento, terremotos,
no mar maré ou no mar ressaca.
Só o tempo que ama o ímpar instável
pode contra essa coisa ao passá-la:
mas a roda, criatura do tempo,
é uma coisa em quatro, desgastada.

O BICHO
Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

SÃO JOSÉ
Carlos Pena Filho

É por ela que se chega
ao bairro de São José,
de ruas de casas juntas,
cariadas, mas de pé.
De classe média arruinada,
mas de gravata, e até
missa ao domingo, pois sempre
é bom ter alguma fé.
Bairro português que outrora
foi de viver e poupar,
nascer, crescer e casar
naquela igreja chamada
São José de Ribamar.

LINDA FLOR DA MADRUGADA
Capiba

Mandei fazer um buquê pra minha amada,
mas sendo ele de bonina disfarçada
com o brilho da estrela matutina.
Adeus, menina, linda flor da madrugada.
Tem cravos, tem rosas bonitas
de bonina disfarçada.
Mas, se minha amada
não quiser o buquê,
eu faço o presente a você.

PARDALZINHO
Manuel Bandeira

O pardalzinho nasceu
livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
a casa era uma prisão,
o pardalzinho morreu.
O corpo, Sacha enterrou
no jardim; a alma, essa voou
para o céu dos passarinhos!

DISCURSO DO CAPIBARIBE
João Cabral de Melo Neto

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

A PRAIA
Carlos Pena Filho

Mas não é só junto ao rio
que o Recife está plantado,
hoje a cidade se estende
por sítios nunca pensados,
dos subúrbios coloridos
aos horizontes molhados.
Horizontes onde habitam
homens de pouco falar,
noturnos como convém
à fúria grave do mar.
Que comem fel de crustáceos
e que vivem do precário
desequilíbrio dos peixes.
Nesse lugar, as mulheres
cultivam brancos silêncios
e, nas ausências mais longas,
pousam os olhos no chão,
saem do fundo da noite,
tiram a angústia do bolso
e a contemplam na mão.
Só os velhos adormecem,
lembrando o tempo que foi,
vazios como o vazio.

A MESMA ROSA AMARELA
Carlos Pena Filho

Você tem quase tudo dela,
o mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela,
só não tem o meu amor.

Mas, nestes dias de carnaval,
para mim, você vai ser ela.
O mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela.
Mas não sei o que será
quando chegar a lembrança dela
e, de você, apenas restar
a mesma rosa amarela,
a mesma rosa amarela.

PORQUINHO-DA-ÍNDIA
Manuel Bandeira

Quando eu tinha seis anos,
ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala,
pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
ele não gostava:
queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

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Clarice Lispector

…E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que pensava ou sentia é que se fazia, enfim, uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo do delírio e erro.

Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que entendo.

Se a “verdade” fosse aquilo que posso entender, terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu trabalho.

Clarice Lispector

Há três coisas para as quais nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos.

Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca.

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